A Fogueira das Vaidades
Capítulo 17
17
O BANCO DE FAVORES
Pelo interfone ouviu-se a voz da secretária:
— Irv Stone do Canal 1 está na linha.
Sem dizer qualquer palavra a Bernie Fitzgibbon, Milt Lubell ou Kramer, Abe Weiss parou no meio da frase e ergueu o fone. Sem um alô ou qualquer comentário preliminar, ele disse:
— O que eu vou fazer com vocês? — Era a voz de um pai cansado e desapontado. — Supostamente vocês são uma empresa de notícias da cidade mais importante do país. Certo? E qual é o problema mais sério da cidade mais importante do país? Tóxicos. E qual é o pior tóxico? Crack. Estou certo? E conseguimos indiciar no tribunal do júri três dos maiores traficantes de crack no Bronx, e o que é que vocês fazem? Nada... Deixe-me terminar. Trazemos os três para a central de polícia às 10 da manhã, e onde é que vocês estão? Em parte alguma... Espere um minuto, uma porra! — Deixara de ser o pai triste. Agora era o vizinho colérico do andar de baixo. — Você não tem desculpa, Irv! Vocês são preguiçosos. Têm medo de perder uma refeição no Côte Basque. Um dia desses vocês vão acordar... O quê?... Não me venha com essa, Irv! A única coisa errada com esses traficantes de crack é que são negros e são do Bronx! Que é que você queria, Vanderbilt, Astor e... e... e... e... Wriston? — Ele não parecia ter muita certeza sobre Wriston. — Um dia desses vocês vão acordar e descobrir que estão fora da jogada. Os Estados Unidos são isso aqui no Bronx, Irv, os Estados Unidos de hoje! E há gente negra nos Estados Unidos de hoje, quer você saiba ou não! Manhattan é uma butique ao largo da costa! Isso é que são os Estados Unidos! Isso é que é o laboratório de relações humanas! Isso é que é uma experiência de vida urbana!... Que quer dizer com “e o caso Lamb”? Que tem isso a ver com o que estou falando? Grande coisa, você fez a cobertura de um caso no Bronx. Que é que você tem, uma cota?
Desligou. Nem um até logo. Voltou-se para Fitzgibbon, que estava sentado a um lado da enorme escrivaninha do promotor público. Kramer e Lubell estavam sentados, ladeando Fitzgibbon.
Weiss ergueu as mãos para o alto como se estivesse segurando uma medicine ball acima da cabeça.
— Eles fazem um alvoroço sobre o crack todas as noites, e conseguimos indiciar os três maiores traficantes, e ele me diz que isso não dá uma reportagem, que é coisa de rotina.
Kramer viu-se sacudindo a cabeça para indicar sua tristeza com a obstinação dos repórteres de televisão. O secretário de imprensa de Weiss, Milt Lubell, um homenzinho magrelo com uma barba crespa e grisalha e olhos grandes, girava a cabeça num estado de descrença avançada. Somente Bernie Fitzgibbon recebeu essas notícias sem a menor reação física.
— Estão vendo? — disse Weiss. Ele virou o polegar na direção do telefone sem ao menos olhá-lo. — Tento falar com esse sujeito sobre o indiciamento dos traficantes, e ele atira o caso Lamb na minha cara.
O promotor público estava extremamente zangado. Mas, por outro lado, todas as vezes que Kramer pusera os olhos nele, parecia zangado. Weiss tinha uns 48 anos, uma soberba cabeleira castanho-clara, rosto estreito e um queixo ossudo e forte com uma cicatriz de um lado. Não havia nada de anormal naquilo. Abe Weiss pertencia a uma longa linhagem de promotores públicos em Nova York cujas carreiras se baseavam em aparições na televisão e no anúncio da última estocada paralisante que o crime recebera no plexo solar, nessa metrópole fervilhante. Weiss, o bom capitão Ahab, podia ser alvo de piadas. Mas estava ligado ao Poder, e o Poder fluía dele e seu gabinete, com paredes revestidas de madeira, a mobília velha e desproporcional, a bandeira dos Estados Unidos num suporte, era o posto de comando do Poder, e Kramer vibrava de excitação por ter sido convocado para uma reunião de cúpula como essa.
— De algum modo — disse Weiss — temos que tomar a dianteira nesse caso. Por ora, estou amarrado numa posição em que só posso reagir. Você devia ter previsto que isso iria acontecer, Bernie, e não me preveniu. Kramer falou com Bacon há uma semana, mais ou menos.
— Essa é justamente a questão, Abe — disse Fitzgibbon. — É...
Weiss apertou um botão na escrivaninha, e Fitzgibbon parou de falar, porque obviamente os pensamentos do promotor público tinham se desviado para algo além. Estava olhando para a tela de televisão do outro lado do gabinete. Destacando-se dos imponentes painéis das paredes, como um bócio high tech, havia um conjunto de quatro aparelhos de televisão, pilhas de caixas de aço com puxadores de aço e discos de vidro negro e luzes verde-diodo num ninho de fios elétricos. Fileiras de videocassetes se estendiam pelas prateleiras atrás das televisões, onde antes houvera livros. Se Weiss ou qualquer coisa que dissesse respeito a Abe Weiss, ou qualquer coisa que dissesse respeito ao crime e castigo no Bronx aparecesse na televisão, Weiss queria tê-la gravada. Um dos aparelhos se iluminou. Só a imagem; sem o som. Uma bandeira de pano tomou a tela... JOHANNE BRONX: A JUSTIÇA DE WEISS É A JUSTIÇA DO APARTHEID... Surgiu então um punhado de rostos enfurecidos, brancos e negros, filmados de baixo para cima de modo que pareciam uma multidão avassaladora.
— Essa não, que diabo é isso? — perguntou Weiss.
— É o Canal 7 — respondeu Milt Lubell.
Kramer olhou para Lubell.
— Mas eles não estavam lá, o Canal 7. Só havia o Canal 1. — Disse isso em voz baixa, para indicar que só estava se atrevendo a falar com o secretário de imprensa do promotor público. Não estava pretendendo entrar na conversa principal.
— Você não viu isso? — perguntou Lubell. — Isso foi ontem à noite. Depois que o Canal 1 filmou ao vivo, os outros se interessaram pela notícia. Então armaram mais uma manifestação ontem à noite.
— Está brincando! — exclamou Kramer.
— Apareceu em cinco ou seis canais. Uma jogada inteligente.
Weiss apertou outro botão na escrivaninha e uma segunda tela se iluminou. Na primeira tela as cabeças continuavam a aparecer e a desaparecer, aparecer e desaparecer. Na segunda, três músicos de rosto ossudo e enorme pomo de adão e uma mulher... num beco escuro e fumacento... MTV... Um chiado... Os músicos se separaram em faixas vibrantes. O videocassete entrou. Um rapaz com cara de lua e um microfone sob o queixo... na frente do conjunto Poe... o bando costumeiro de adolescentes se diverte ao fundo.
— Mort Selden, Canal 5 — disse Weiss.
— Certo — confirmou Milt Lubell.
Weiss apertou mais um botão. Uma terceira tela se iluminou. Os músicos estavam de volta na rua enfumaçada. A mulher tinha lábios escuros... como os de Shelly Thomas... um desejo muito intenso invadiu Kramer... Os músicos se dissolveram de novo em faixas coriscantes. Um homem de feições latinas...
— Roberto Olvidado — disse Lubell.
O homem segurava um microfone junto ao rosto de uma negra encolerizada. Num instante, surgiram três grupos de cabeças aparecendo e desaparecendo, aparecendo e desaparecendo, lançando os seus lampejos tóxicos na madeira entalhada.
Weiss comentou com Fitzgibbon:
— Você percebe que só deu isso no noticiário de ontem à noite: o caso Lamb? E só o que Milt fez a manhã inteira foi atender telefonemas de repórteres e desses malditos querendo saber o que estamos fazendo.
— Mas isso é ridículo, Abe — disse Fitzgibbon. — Que esperam que façamos? Somos promotores, e os tiras não conseguiram fazer uma única prisão ainda.
— Bacon é uma gracinha — disse Lubell. — É uma gracinha. Ah, mas é engraçadinho demais. Ele diz que os tiras interrogaram a mãe do garoto e que nós conversamos com ela, e por alguma razão idiota estamos todos conspirando para não nos mexermos. Não ligamos para os negros que moram em conjuntos habitacionais.
Inesperadamente, Weiss pousou um olhar maléfico em Kramer, e este se preparou.
— Kramer, quero que me diga uma coisa. Você disse realmente à mãe do garoto que a informação dela era inútil?
— Não, senhor, claro que não disse! — Kramer percebeu que sua resposta soava um pouco nervosa demais. — A única coisa que disse foi que a declaração do filho era um testemunho indireto, em termos de acusação, e o que realmente precisávamos era de uma testemunha, e que ela deveria nos informar imediatamente se soubesse de alguém que tivesse presenciado o fato. Foi só o que eu disse. Não disse que as informações dela eram inúteis, de modo algum. Pelo contrário. Agradeci-lhe pelas informações. Não sei como alguém poderia distorcer tudo assim.
O tempo todo ele pensava: “Por que é que tive que agir com tanta frieza com a mulher? Para impressionar Martin e Goldberg, para que não pensassem que eu estava sendo frouxo! Para que me considerassem um verdadeiro irlandês! Por que não poderia ter agido como um bom e simpático judeu? Agora veja a enrascada em que estou metido...” Pôs-se a imaginar se Weiss o tiraria do caso.
Mas Weiss apenas assentiu pesaroso e disse:
— É, eu sei... Mas é bom lembrar, nem sempre se pode usar de lógica com... — Decidiu não terminar a frase. Voltou a olhar para Fitzgibbon. — Bacon pode dizer todas as besteiras que quiser, e eu tenho que ficar sentado aqui e dizer: “Estou com as mãos atadas.”
— Espero que você compreenda, Abe, que essas manifestações são pura farsa. Uma dúzia de rapazes de Bacon e mais uma dúzia dos birutas de sempre, o Partido Monolítico dos Trabalhadores Socialistas ou que nome tenha. Certo, Larry?
— A noite que estive lá, sim — disse Kramer. Mas alguma coisa lhe disse para não minimizar a importância das manifestações. Então apontou para as telas de televisão e disse: — Mas vou lhe dizer, parece que havia muito mais gente, ontem à noite.
— Ora, claro — respondeu Lubell. — É a velha profecia se cumprindo. Uma vez que uma coisa aparece na televisão e em todos os jornais, as pessoas presumem que é importante. Presumem que têm que se mexer. É a velha profecia se cumprindo.
— Em todo caso — perguntou Weiss —, qual é a situação? E esse tal de McCoy? Que temos contra ele? Esses dois tiras, como é mesmo o nome deles?
— Martin e Goldberg — informou Fitzgibbon.
— Eles dizem que é esse o cara, certo?
— É.
— Eles são bons?
— Martin tem bastante experiência — disse Fitzgibbon. — Mas não é infalível. Só porque o sujeito ficou todo nervoso, isso não significa necessariamente que tenha feito alguma coisa.
— Park Avenue — disse Weiss. — Seu velho dirigia a Dunning Sponget & Leach. Milt encontrou o nome dele numas colunas sociais, e a mulher é decoradora de interiores. — Weiss se recostou na cadeira e sorriu, do jeito que se ri dos sonhos impossíveis. Sem dúvida isso poria um fim nessa merda sobre a justiça branca.
— Abe — disse Fitzgibbon, o irlandês balde de água fria —, temos que ficar calados sobre o cara, por enquanto.
— Há alguma maneira de trazê-lo para um interrogatório? Sabemos que estava dirigindo o carro na noite em que a coisa aconteceu.
— Ele tem um advogado agora, Abe. Tommy Killian.
— Tommy? Não imagino como foi que ele descobriu o Tommy. Como sabe disso?
— Tommy me ligou. Disse que representava o cara. Queria saber por que os tiras estavam fazendo perguntas ao seu cliente.
— O que foi que você respondeu?
— Disse que o carro do cara se enquadra na descrição do carro que estão procurando. Por isso estão querendo verificar.
— E o que foi que ele respondeu a isso?
— Disse que tinham uma descrição de araque baseada em testemunho indireto.
— E você?
— Respondi que também tínhamos um garoto no hospital que provavelmente ia morrer, e que os tiras estavam investigando com a informação de que dispunham.
— Qual é a situação do garoto? Alguma mudança em seu estado?
— Não... Continua em coma, na unidade de tratamento intensivo. Está vivo graças aos tubos.
— Alguma chance de recuperar a consciência?
— Pelo que me informaram, isso pode acontecer, mas não significa nada. O paciente pode começar a voltar a si, mas tornar a perder a consciência. Além disso, ele não pode falar. Está respirando por um tubo que desce pela garganta.
— Mas talvez possa apontar — sugeriu Weiss.
— Apontar?
— É. Tive uma ideia. Um vislumbre; uma visão distante e imaginária. Levamos uma fotografia de McCoy até o hospital. Milt a encontrou em uma dessas revistas.
Weiss entregou a Bernie Fitzgibbon uma página destacada de um semanário da alta sociedade chamado W. A página quase que só continha fotografias de gente sorrindo. Os homens usavam smoking. As mulheres eram só dentes e rostos descarnados. Kramer se curvou para espiar. Uma das fotos fora marcada com um círculo vermelho. Um homem e uma mulher, ambos sorridentes, em trajes de noite. Olhe para eles. Os brancos, anglo-saxões, protestantes. O homem tinha um nariz fino e pontudo. A cabeça estava bem para trás, o que ressaltava seu enorme queixo aristocrático. Um sorriso tão confiante... arrogante?... A mulher parecia branca, anglo-saxã, protestante também, mas de uma maneira diferente. Tinha aquele ar contraído, asseado, correto, composto, que faz a pessoa imediatamente se perguntar o que há de errado com o que está usando ou com o que acabou de dizer. A legenda informava: Sherman e ]udy McCoy. Encontravam-se em alguma festa de caridade. Aqui no andar 6M da ilha-fortaleza, quando se ouvia um nome como Sherman McCoy, naturalmente se presumia que a pessoa fosse negra. Mas esses eram os originais, os brancos, anglo-saxões e protestantes. Kramer raramente os via, exceto dessa forma, em fotografias, e as fotografias lhe mostravam alienígenas insípidos e empertigados, de nariz pontudo a quem Deus, em sua perversidade, favorecera tanto. Isso já não era mais um pensamento consciente, expresso em palavras, porém; a essa altura era apenas um reflexo.
Weiss estava dizendo:
— Levamos essa foto de McCoy e de mais três ou quatro pessoas, outros três ou quatro caras brancos, e as colocamos junto à cama dele. Ele recobra os sentidos e aponta para a foto de McCoy... Aponta com insistência...
Bernie Fitzgibbon olhava para Weiss como se estivesse esperando por uma deixa, uma sugestão de que isso era apenas uma piada.
— Talvez valha a pena experimentar — concluiu Weiss.
— E quem vai testemunhar tudo isso? — perguntou Fitzgibbon.
— Uma enfermeira, um médico, quem quer que esteja presente. Então vamos até lá e extraímos uma declaração legal no leito de morte.
Fitzgibbon exclamou:
— Legal?! Como? Não acredito no que estou ouvindo, Abe. Um pobre retardado com um tubo metido pela garganta apontando para uma foto? Isso nunca se sustentaria.
— Sei disso, Bernie. Só quero trazer o sujeito aqui. Então podemos nos tranquilizar e fazer a coisa direito.
— Abe!... Tenha dó! Vamos deixar o aspecto legal de lado um minuto. Você vai pôr a foto de um banqueiro de investimentos da Wall Street e um bando de outros brancos junto à cama do garoto enquanto o cara está morrendo, porra! Suponha que ele recobre os sentidos... e olhe para a porra da mesa... e encontre meia dúzia de homens brancos de meia-idade de terno e gravata olhando para ele! O desgraçado do garoto com certeza vai ter um troço! Vai dizer “Puta que pariu”, e vai entregar a porra da alma a Deus! Quero dizer, tenha dó, Abe!
Weiss soltou um grande suspiro e pareceu se encolher diante dos olhos de Kramer.
— É. Tem razão. É muita loucura.
Fitzgibbon deu uma espiadela em Kramer.
Kramer nem piscava o olho. Não queria lançar um borrifo de dúvida sobre a sensatez do promotor público do município do Bronx. O capitão Ahab estava obcecado com o caso Lamb, e ele, Kramer, ainda estava encarregado do caso. Ainda tinha uma chance de conseguir aquela muito cobiçada, sempre fugaz, e, no Bronx, quase mítica criatura, o Grande Réu Branco.
Às sextas-feiras, a Taliaferro dispensava suas alunas ao meio-dia e meia. Isso porque muitas meninas pertenciam a famílias que tinham casas de campo e queriam sair da cidade por volta das 14 horas, antes da hora do rush nas tardes de sexta-feira. Assim, como de costume, Judy ia partir de carro para Long Island com Campbell, Bonita e a srta. Lyons, a babá, na caminhonete Mercury. Como de costume, Sherman iria no Mercedes esporte à noite ou na manhã seguinte, dependendo da hora que conseguisse sair da Pierce & Pierce. Essa combinação se provara muito conveniente nos últimos meses. Uma visita tranquila a Maria em seu esconderijozinho tornara-se prática regular nas noites de sexta-feira.
A manhã inteira, de sua escrivaninha na Pierce & Pierce, tentara se comunicar com Maria por telefone, em seu apartamento da Fifth Avenue e no esconderijo. Lá ninguém atendia. No apartamento, uma empregada jurava não saber de seu paradeiro, nem mesmo o estado ou nação em que se encontrava. Finalmente ele se desesperou o suficiente para deixar o nome e o número do telefone. Ela não ligou de volta.
Estava evitando-o! Na casa dos Bavardages dissera-lhe para ligar na noite anterior. Ele telefonara repetidamente; ninguém atendera. Estava interrompendo o contato! Mas, exatamente, por quê? Medo? Não era do tipo medroso... O fato crucial que o salvaria: era ela que estava dirigindo... Mas e se desaparecesse! Isso era loucura. Não poderia desaparecer. Itália! Podia desaparecer na Itália! Ahhh... isso era um despropósito. Ele prendeu a respiração e abriu a boca. Conseguia realmente ouvir o coração batendo... tum, tum, tum, tum... sob o esterno. Desviou os olhos dos terminais de computação. Não poderia ficar sentado ali; tinha que fazer alguma coisa. O diabo era que só havia uma pessoa com quem poderia se aconselhar, e era alguém que ele mal conhecia, Killian.
Por volta do meio-dia ele telefonou para Killian. A recepcionista informou que ele se encontrava no tribunal. Vinte minutos mais tarde, Killian ligou de um barulhento telefone público e disse que o encontraria às 13 horas no saguão principal do Edifício dos Tribunais Criminais na Centre Street, 100.
Na saída, Sherman disse a Muriel apenas uma meia mentira. Disse que ia ver um advogado chamado Thomas Killian e deu-lhe o número do telefone de Killian. A meia mentira residia na maneira displicente com que dissera isso, o que implicava que Thomas Killian, Esq., estava ligado aos negócios da Pierce & Pierce.
Nesse aromático dia de junho, a Centre Street, 100, ficava a uma gostosa caminhada da Wall Street. Em todos os anos em que vivera em Nova York e trabalhara no centro, Sherman nunca reparara no Edifício dos Tribunais Criminais, embora fosse um dos maiores e mais imponentes edifícios da área da prefeitura. Um arquiteto chamado Harvey Wiley Corbett projetara-o em estilo moderno, que hoje se chama art déco. Corbett, famoso à época, fora esquecido, exceto por um punhadinho de historiadores da arquitetura; o mesmo se dera com o alvoroço em torno do Edifício dos Tribunais Criminais quando o concluíram, em 1933. As formas em pedra, latão e vidro na entrada ainda impressionavam, mas quando Sherman chegou ao grande saguão, alguma coisa disparou o seu alerta vermelho. Ele não saberia dizer o quê. Talvez as caras escuras, os tênis e os agasalhos e as gingas de cafetão. Para ele, lembrava o terminal rodoviário do porto. Era um território alienígena. Por toda a vastidão do saguão, que tinha os tetos altíssimos de uma velha estação ferroviária, havia grupos de gente escura, e suas vozes criavam um ribombar nervoso, e em volta dos negros andavam homens brancos de ternos baratos ou paletós esportivos, que os vigiavam como lobos rondando carneiros. Mais gente escura, jovens, atravessavam o saguão em pares ou em trios com um desconcertante jeito de andar. A um lado, na penumbra, meia dúzia de vultos, brancos e negros, debruçavam-se numa fileira de telefones públicos. Do outro lado, elevadores engoliam e vomitavam mais negros, e os grupos de negros se dissolviam, e outros se formavam, e o ronco nervoso aumentava e diminuía, aumentava e diminuía, e os tênis rangiam no piso de mármore.
Não foi difícil descobrir Killian. Esperava-o junto aos elevadores em outro de seus ternos de vigarista, um conjunto cinzento com riscas de giz largas e uma camisa de colarinho achatado de listrinhas marrons. Estava conversando com um homenzinho branco de meia-idade com um agasalho. Ao se aproximar, Sherman ouviu Killian dizer:
— Um desconto pelo pagamento à vista. Cai fora, Dennis. Qual é, qual é? — O homenzinho disse alguma coisa.
— Não é muita coisa, Dennis. Só recebo em dinheiro. Metade dos meus clientes não controlam suas contas correntes. Além disso, eu pago impostos, porra. É uma coisa a menos para se preocupar. — Viu Sherman se aproximando, acenou com a cabeça e disse para o homenzinho: — Que posso lhe dizer? É como já disse. Mande me entregar até segunda-feira. De outra forma, não posso começar nada. — O homenzinho acompanhou o olhar de Killian para Sherman, falou alguma coisa em voz baixa, e em seguida se afastou, sacudindo a cabeça.
Killian cumprimentou Sherman:
— Como vai?
— Ótimo.
— Já esteve aqui antes?
— Não.
— O maior escritório de advocacia de Nova York. Está vendo aqueles dois sujeitos lá? — Indicou dois homens brancos de terno e gravata vagando entre os grupos de negros. — São advogados. Estão procurando clientes.
— Não compreendo.
— É simples. Eles se aproximam e perguntam: “Ei, você precisa de um advogado?”
— Isso não é o mesmo que correr atrás de uma ambulância?
— É. Está vendo aquele sujeito lá adiante? — Apontou para um homem baixo, metido num espalhafatoso paletó esporte xadrez, diante de uma carreira de elevadores. — O nome dele é Miguel Escalero. Chamam-no de Mickey Elevador. É advogado. Fica ali parado metade da manhã, e toda vez que alguém que pareça hispânico e infeliz se aproxima, ele pergunta: “Necesita usted un abogado?” Se o cara responde: “Não tenho dinheiro para pagar um advogado”, ele diz: “Quanto tem no bolso?” Se o cara tiver cinquenta dólares, já arranjou um advogado.
Sherman perguntou:
— O que é que se consegue por cinquenta dólares?
— Ele acompanhará o cara para entrar com uma petição ou uma leitura de libelo. Se isso envolver trabalhar realmente para o cliente, ele não se interessa. Um especialista. Então, como é que está indo?
Sherman contou-lhe sobre as inúteis tentativas de se comunicar com Maria.
— Está me parecendo que ela arranjou um advogado — comentou Killian. Enquanto falava, girou a cabeça com os olhos semicerrados, como um boxeador descontraindo-se para entrar numa luta. Sherman achou isso pouco educado, mas não disse nada.
— E o advogado a está aconselhando a não falar comigo.
— É o que eu aconselharia se ela fosse minha cliente. Não repare. Fiz uma série complicada ontem. Acho que dei um mau jeito no pescoço.
Sherman olhou-o de frente.
— Eu gostava de correr — disse Killian —, mas todos aqueles pulinhos para cima e para baixo me arrebentaram a coluna. Então agora vou ao New York Athletic Club e levanto pesos. Vejo todos aqueles garotos fazendo halterofilismo. Acho que estou muito velho para isso. Vou tentar encontrá-la pessoalmente. — Ele parou de girar a cabeça.
— Como?
— Pensarei em um jeito. Metade do meu trabalho consiste em falar com gente que não está ansiosa para falar.
— Para dizer a verdade — disse Sherman —, isso realmente me surpreende. Maria... Maria não é do tipo cauteloso. Ela é uma aventureira. E uma jogadora. Uma mocinha sulista que vem do nada e chega à Fifth Avenue, 962... Não sei... E isso pode lhe parecer ingênuo, mas acho que... sente sinceramente alguma coisa por mim. Acho que me ama.
— Aposto que ama a Fifth Avenue, 962, também — retorquiu Killian. — Talvez tenha calculado que já está na hora de parar de arriscar.
— Talvez — respondeu Sherman —, mas simplesmente não consigo acreditar que fugiria de mim. É claro que só se passaram dois dias.
— Se o caso for esse — disse Killian —, temos um investigador que trabalha no nosso escritório. Era detetive na Delegacia de Delitos Graves no Departamento de Polícia. Mas não tem sentido fazer gastos a não ser que sejam realmente necessários. E acho que não vamos precisar. No momento, eles não têm nada contra o senhor. Conversei com Bernie Fitzgibbon. Lembra-se do sujeito da Delegacia de Homicídios da Promotoria Distrital do Bronx de que lhe falei?
— Já conversou com ele?
— Já. A imprensa fez pressão, por isso estão verificando o carro. É só o que está acontecendo. Não têm mais nada.
— Como pode ter certeza?
— Que quer dizer?
— Como pode ter certeza de que ele vai lhe dizer a verdade?
— Bom, talvez ele não me diga tudo que sabe, mas não vai mentir para mim. Não vai me desorientar.
— Por que não?
Killian estendeu o olhar sobre o saguão da Centre Street, 100. Então tornou a olhar para Sherman.
— Já ouviu falar do Banco de Favores?
— Banco de Favores? Não.
— Bom, tudo nesse edifício, tudo no sistema da justiça penal em Nova York funciona na base dos favores. Todo mundo faz favores para todo mundo. Toda vez que têm oportunidade fazem depósitos no Banco de Favores. Uma vez, quando eu estava começando a carreira de promotor assistente, apresentei um caso no tribunal e tive que enfrentar esse advogado, um sujeito mais velho, que estava simplesmente me amarrando os pés e as mãos. O sujeito era judeu. Eu não sabia como lidar com ele. Então conversei com o meu supervisor, que era irlandês como eu. Quando dei por mim, ele estava me levando para ver o juiz no seu gabinete. O juiz também era irlandês, um homem velho, de cabeça branca. Nunca vou me esquecer. Entramos; ele estava parado junto à escrivaninha se distraindo com um desses jogos de golfe que se usa dentro de casa. Dá-se a tacada na bola de golfe que corre pelo tapete e, em lugar de um buraco, há um copo com a borda caída. Ele nem levantou os olhos. Está alinhando a tacada. O chefe da minha delegacia se retira da sala, eu fico parado ali, e o juiz diz: “Tommy...” E continua olhando para a bola de golfe. Tommy, ele me chama, e nunca o vi antes a não ser no tribunal. “Tommy”, diz, “você parece um bom rapaz. Ouvi dizer que há um certo filho da mãe judeu que o está fazendo suar.” Fico assombrado. isso é muito irregular, sabe, desonesto. Não consigo nem pensar em uma resposta. Então ele diz: “Eu não me preocuparia mais com isso, Tommy.” Continuava de olhos baixos. Então eu disse apenas: “Muito obrigado, juiz”, e saí da sala. Depois disso, foi o juiz quem começou a amarrar os pés e as mãos desse advogado. Quando eu dizia “Protesto”, nem conseguia chegar à segunda sílaba e ele já dizia “Concedido”. De uma hora para outra eu parecia um gênio. Ora, isso foi um depósito típico do Banco de Favores. Não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer por aquele juiz, não à época. Um depósito no Banco de Favores não é quid pro quo. É uma poupança para um dia de necessidade. Na lei penal, há muitas áreas indefinidas, e é nelas que se tem que trabalhar, mas, quando se erra, a pessoa pode se meter em sérios apuros, e vai precisar de muita ajuda com urgência. Quero dizer, olhe para esses sujeitos. — Ele fez um gesto indicando os advogados que rondavam entre as pessoas no saguão e em seguida Mickey Elevador. — Eles poderiam ser presos. Se não existisse o Banco de Favores, estariam fritos. Mas se você fez depósitos regulares no Banco de Favores, então está em posição de fazer contratos. Isso é o que chamam de grandes favores, contratos. Você tem que cumprir os contratos.
— Tem? Por quê?
— Porque todo mundo no tribunal acredita num ditado: “O mundo é redondo.” Isso significa que se a pessoa não cuida de mim hoje, eu não cuidarei dela amanhã. Quando não se tem confiança nas próprias habilidades, a ideia é assustadora.
— Então pediu a seu amigo Fitzgibbon para fazer um contrato? É essa a expressão?
— Não, o que recebi dele foi apenas um favor rotineiro, só o protocolo padrão. Não é preciso desperdiçar um contrato, ainda. A minha estratégia é a seguinte: as coisas não devem chegar a esse ponto. No entanto, parece-me que o perigo é a sua amiga, sra. Ruskin.
— Ainda acho que ela vai se comunicar comigo.
— Se isso acontecer, vou lhe dizer o que fazer. Marque um encontro com ela e em seguida me telefone. Nunca estou longe do telefone por mais de uma hora, nem mesmo nos fins de semana. Acho que deve ir equipado.
— Equipado? — Sherman percebeu o que ele queria dizer e ficou estarrecido.
— É. Deve usar um gravador.
— Um gravador? — Por cima do ombro de Killian, Sherman se tornou mais uma vez consciente da penumbra vasta e biliosa do saguão, dos vultos escuros e desajeitados debruçados nos orelhões, vagando de um lado para o outro com aqueles enormes tênis e uma ginga curiosa, agrupando-se em seus infelizes tête-à-têtes, de Mickey Elevador deslizando pela periferia desse rebanho esfarrapado e miserável.
— Não é problema — disse Killian, aparentemente pensando que a preocupação de Sherman fosse tecnológica. — Prendemos o gravador nos seus rins. O microfone fica por baixo da camisa. Não é maior do que a junta do seu dedo mínimo.
— Olhe, sr. Killian...
— Chame-me de Tommy. Todos me chamam assim.
Sherman parou e olhou para o magro rosto irlandês que emergia do colarinho largo britânico. Subitamente sentiu que se encontrava em outro planeta. Não o chamaria nem de sr. Killian nem de Tommy.
— Estou preocupado com tudo isso — disse —, mas não estou tão preocupado a ponto de fazer uma gravação clandestina de uma conversa com alguém com quem tenho intimidade. Portanto, vamos esquecer isso.
— Isso é perfeitamente legal no estado de Nova York — informou Killian — e faz-se o tempo todo. A pessoa tem todo o direito de gravar as próprias conversas. Pode-se fazer isso por telefone, ou pessoalmente.
— Não é isso que está em questão — disse Sherman. Involuntariamente levou o queixo Yale para o alto.
Killian deu de ombros.
— Tudo bem. Eu só estou dizendo que não é desonesto e às vezes é a única maneira de fazer as pessoas se aterem à verdade.
— Eu... — Sherman começou a enunciar um grande princípio, mas receou que Killian pudesse receber isso como uma ofensa. Então se contentou em dizer: — Eu não conseguiria fazer isso.
— Tudo bem — disse Killian. — Vamos ver como ficam as coisas. De qualquer forma, tente se comunicar com ela e me telefone se conseguir. E de minha parte vou tentar também.
Ao deixar o edifício, Sherman notou grupos de gente mal-encarada nas escadarias. Tantos rapazes com os ombros curvados! Tantos rostos escuros! Por um instante reviu o rapaz magricela e alto e o bruto musculoso. Ficou imaginando se seria realmente seguro andar pelas vizinhanças de um edifício que diariamente, a todas as horas, reunia tantos acusados de crimes.
Onde Albert Vogel descobria esses lugares, Fallow não conseguia imaginar. O Huan Li era tão pomposo e metido a besta quanto o Regent’s Park. Apesar de estarem na área da East 50th Street próximo à Madison Avenue, no pico da hora do almoço, o restaurante encontrava-se quase silencioso. Podia ou não estar dois terços vazio. Era difícil dizê-lo devido à penumbra e aos biombos. O restaurante era todo dividido em reservados e biombos de madeira escura entalhada com anzóis. A penumbra era tal que até Vogel, a menos de 60 centímetros no reservado, parecia um Rembrandt. Um rosto iluminado, um feixe de luz transformando sua cabeça de vovó num branco ofuscante, um lampejo de camisa seccionado ao meio por uma gravata, e todo o resto de seus contornos a se dissolverem na escuridão que o cercava. De tempos em tempos, garçons e ajudantes chineses se materializavam silenciosamente de paletó branco e gravata-borboleta preta. Contudo, almoçar com Vogel no Huan Li tinha um grande mérito. O americano pagaria a conta.
Vogel disse:
— Tem certeza de que não vai mudar de ideia, Pete? Eles têm um ótimo vinho chinês, aqui. Já experimentou vinho chinês?
— Vinho chinês tem gosto de rato morto — comentou Fallow.
— Tem gosto de quê?
“Rato morto...” Fallow nem sabia por que dissera aquilo. Não usava mais essa expressão. Nem estava pensando nela. Agora marchava ombro a ombro com Gerald Steiner pelo mundo do jornalismo em tabloide, graças em parte a Albert Vogel, embora isso se devesse principalmente à sua própria genialidade. Já começava a entrar num clima de esquecer a contribuição de Al Vogel para o furo do caso Lamb. Não gostava do homem, com o seu Pete isso e Pete aquilo, e tinha vontade de caçoar dele. Por outro lado, Vogel era o seu canal de comunicação com Bacon e aquela turma. Não gostaria de ter de lidar com eles inteiramente sozinho.
— Às vezes prefiro cerveja com comida chinesa, Al — disse Fallow.
— É... estou vendo — respondeu Vogel. — Ei, garçom. Garçom! Droga, onde estão os garçons? Não consigo ver nada, aqui.
Uma cerveja seria realmente ótimo. A cerveja era praticamente uma bebida natural, como o chá de camomila. Sua ressaca hoje não estava nada forte, nada além de um denso nevoeiro. Nenhuma dor; só o nevoeiro. Ontem, graças à sua destacada posição em The City Light, surgira o momento ideal para convidar uma das garotas mais sexies, uma loura de olhos grandes chamada Darcy Lastrega, para jantar. Foram ao Leicester’s, onde fizera as pazes com Britt-Withers e até com Caroline Heftshank. Tinham ido parar na Mesa com Nick Stopping, Tony St. John, Billy Cortez e outros mais. A Mesa encontrara em pouco tempo um pato perfeito, um texano chamado Ned Perch, que ganhara uma espantosa quantidade de dinheiro com alguma coisa e comprara muita prata inglesa antiga, como não parava de lembrar. Fallow entreteve a Mesa durante um tempo enorme com relatos do conjunto habitacional do Bronx, como uma forma de informar a todos do seu recente sucesso. Sua convidada, a srta. Darcy Lastrega, porém, não se deixou cativar. Gente como Nick Stopping e St. John imediatamente a identificaram pelo que era, uma americana bobinha e sem senso de humor e ninguém se deu o trabalho de puxar conversa, e ela começou a afundar na cadeira cada vez mais acabrunhada. Para corrigir o embaraço, a cada vinte ou trinta minutos Fallow se virava, segurava-a pelo braço, encostava a cabeça na dela, e, pretendendo fazer parecer uma meia brincadeira, dizia: “Não sei o que está acontecendo comigo. Devo estar apaixonado. Você não é casada, é?” Da primeira vez, ela retribuiu com um sorriso. Da segunda e da terceira, não. Da quarta vez, ela não se encontrava mais lá. Retirara-se do restaurante, e ele nem ao menos notara. Billy Cortez e St. John começaram a rir, e ele não gostou. Uma gatinha infantil americana — mas era uma humilhação. Depois de mais uns três ou quatro copos de vinho, foi ele quem se retirou do Leicester’s sem se despedir de ninguém, foi para casa e, sem muita demora, pegou no sono.
Vogel conseguira encontrar um garçom e pedir a cerveja. Pediu também pauzinhos. O Huan Li era tão visivelmente comercial e despreocupado com a autenticidade, que arrumava as mesas com talheres normais. Era bem americano presumir que esses chineses sérios ficariam satisfeitos se alguém demonstrasse preferência por suas ferramentas nativas... Era bem americano sentir uma certa culpa se não se ficasse brigando com fios de macarrão e pedaços de carne com coisas que pareciam agulhas largas de tricotar. Enquanto caçava um pedacinho de comida escorregadio pelas beiradas de uma tigela, Vogel disse a Fallow:
— Bom, Pete, diga a verdade. Eu não lhe disse? Não lhe disse que essa era uma grande reportagem?
Não era isso que Fallow queria ouvir. Não queria saber se a reportagem, o caso Lamb em si, era fantástico. Por isso só fez assentir.
Vogel deve ter captado sua onda cerebral, porque em seguida disse:
— Você realmente deslanchou alguma coisa. Conseguiu fazer a cidade inteira se alvoroçar. O artigo que escreveu foi pura dinamite, Pete, dinamite.
Devidamente elogiado, Fallow teve um espasmo de gratidão.
— Devo admitir que da primeira vez que conversamos fiquei cético. Mas você estava certo. — E ergueu o copo de cerveja como se fizesse um brinde.
Vogel praticamente abaixou o queixo até a tigela para engolir o bocado antes que ele escorregasse por entre as extremidades dos pauzinhos.
— E a vantagem, Pete, é que não é apenas uma dessas sensações passageiras. É uma coisa que atinge em profundidade a própria estrutura da cidade, a estrutura de classes, a estrutura racial, a maneira como o sistema se estrutura. É por isso que significa tanto para o reverendo Bacon. Ele se sente realmente grato pelo que você fez.
Fallow não gostou dessas alusões aos interesses de Bacon na reportagem. Como a maioria dos jornalistas que recebem uma reportagem de bandeja, Fallow estava ansioso por se persuadir de que fora ele e mais ninguém que descobrira e soprara vida no pedaço de barro.
— Ele estava me contando — continuou Vogel — que está surpreso — você vem da Inglaterra, Pete, e chega aqui e põe o dedo numa questão fundamental, que é o valor da vida humana. A vida de um negro vale menos que a vida de um branco? É isso que torna a questão importante.
Fallow se deixou embalar por instantes, mas logo começou a se perguntar aonde aquele discurso iria chegar.
— Mas há um aspecto da questão que me parece que você poderia malhar um pouco mais, e estive conversando com o reverendo Bacon sobre isso.
— Ah?! — exclamou Fallow. — E qual é?
— O hospital, Pete. Até agora o hospital ficou relativamente de fora. Dizem que estão “investigando” como foi que esse garoto pôde dar entrada com uma concussão subdural e só receber tratamento pelo pulso fraturado, e você sabe o que eles vão fazer. Vão tentar escapar com evasivas.
— Pode ser que sim — disse Fallow —, mas eles continuam a afirmar que Lamb nunca lhes disse que foi atropelado por um carro.
— O garoto provavelmente já estava meio abobado, Pete! Isso é precisamente o que eles deviam ter constatado: as condições gerais! Mas é a isso que me refiro quando comparo a vida de um negro e a vida de um branco. Não, acho que está na hora de cair em cima do hospital. E agora é um bom momento. A história caiu um pouco no esquecimento porque os tiras não encontraram o carro e o motorista.
Fallow não disse nada. Não gostava de ser manobrado desse jeito. Então respondeu:
— Vou pensar. Parece-me que eles fizeram uma declaração bastante abrangente, mas vou pensar.
Vogel disse:
— Bem, agora, Pete, quero ser bem franco com você. Bacon já entrou em contato com o Canal 1 para tratar desse ângulo, mas você tem sido o nosso... o nosso ponta de lança, como se diz, e gostaríamos de vê-lo permanecer à frente desse caso.
O seu ponta de lança! Que presunção odiosa! Mas ele hesitou em deixar Vogel perceber como isso era ofensivo. Retorquiu:
— Que namoro é esse entre Bacon e o Canal 1?
— Que quer dizer com isso?
— Deu-lhes exclusividade na primeira manifestação.
— Bom... é verdade, Pete. Vou ser inteiramente franco com você. Como foi que soube disso?
— O sei lá como chamam, o comentarista, me contou. Corso.
— Ah, bom, a coisa é a seguinte: é preciso trabalhar assim. O noticiário da TV é todo feito por gente de relações públicas. Todos os dias a equipe do noticiário aguarda o setor de relações públicas apresentar a lista do que pode filmar e escolhe alguma coisa. O truque é saber como agradá-los. Não são muito criativos. Sentem-se muito melhor quando já viram alguma coisa impressa antes.
— Em The City Light, só para citar um exemplo possível — disse Fallow.
— Bem... é verdade. Vou me abrir completamente com você, Pete. Você é um jornalista de verdade. Quando esses canais de TV veem um jornalista de verdade dar atenção a alguma coisa, eles vão atrás.
Fallow se recostou e tomou um lento gole de cerveja na calmaria crepuscular do Huan Li. E, seu próximo furo seria uma reportagem mostrando o noticiário de televisão como realmente era. Mas por enquanto esqueceria isso. A maneira como o pessoal do noticiário da televisão acompanhava seus passos correndo no caso Lamb — nada o fizera parecer tão bem até agora.
Em poucos minutos já tinha resolvido mentalmente que uma reportagem sobre a negligência do hospital não era senão o próximo passo natural. Teria pensado nisso sozinho, inevitavelmente, com ou sem esse ridículo ianque e seu rosto gorducho, uma bundinha rosada.
Os sanduíches daquele dia foram mandados para Jimmy Caughey, Ray Andriutti e Larry Kramer pelo estado de Nova York, cortesia do caso Willie Francisco. Custara ao juiz Meldnick apenas quatro dias para fazer perguntas e descobrir qual era a sua opinião sobre o recurso impetrado por Willie para anular o julgamento, e naquela manhã ele a dera a conhecer. Declarou o julgamento nulo, baseado no acesso de dúvidas do velho e gordo jurado irlandês McGuigan. Mas, uma vez que o dia começara com o julgamento tecnicamente ainda em andamento, a secretária de Bernie Fitzgibbon, Gloria, fora devidamente autorizada a encomendar os sanduíches.
Ray mais uma vez se debruçava sobre a escrivaninha enquanto comia um supersubmarino e bebia seu caneco de café amarelo. Kramer comia um rosbife sem gosto. Jimmy mal tocava no sanduíche. Ainda se lamentava pelo desmoronamento de um caso tão simples. Tinha um recorde excepcional. A Delegacia de Homicídios mantinha uma tabela, como a de classificação de times, mostrando quantas admissões de culpa e quantos veredictos de culpa cada promotor distrital assistente obtinha, e Jimmy Caughey não perdera um só caso em dois anos. Sua raiva agora degenerara em um intenso ódio contra Willie Francisco e a infâmia do seu gesto, o que para Andriutti e Kramer parecia ser mais uma merdinha. Era estranho ver Jimmy nesse estado. Em geral possuía aquela tranquilidade de irlandês de quatro costados do próprio Fitzgibbon.
— Já vi isso acontecer antes — disse ele. — Levam-se esses vermes a julgamento, e eles pensam que são astros. Dá para vocês verem o Willie lá dentro pulando para cima e para baixo gritando “Julgamento nulo”?
Kramer assentiu com a cabeça.
— Agora ele é um especialista em leis. Na verdade, é um dos putos mais burros que já foram julgados no município do Bronx. Eu disse a Bietelberg há dois dias que se Meldnick decidisse pela anulação, quero dizer, ele tinha que decidir pela anulação, estávamos dispostos a fazer um acordo. Reduziríamos a acusação de homicídio sem premeditação para homicídio com atenuantes, só para evitar um novo julgamento. Mas não. Ele é esperto demais para isso, o Willie é. Considera isso uma admissão de derrota. Acha que tem poder sobre o júri ou qualquer coisa assim. Em um novo julgamento, ele vai afundar como uma pedra, porra. Ele vai conseguir de doze e meio a 25 anos em vez de três a seis ou quatro a oito.
Ray Andriutti parou de devorar o seu supersubmarino o tempo suficiente para dizer:
— Talvez ele seja esperto, Jimmy. Se ele aceitar o acordo, irá para a cadeia com certeza. Com a porra de um júri no Bronx, é um jogo de dados todas as vezes. Soube do que aconteceu ontem?
— O quê?
— Esse médico lá em Montauk?
— Não.
— Esse médico, quero dizer, ele é um médico local lá em Montauk, provavelmente nunca pôs os olhos no Bronx antes. Ele tem um paciente com uma dessas doenças tropicais esquisitas. O sujeito está muito doente, e o hospital de lá acha que não pode cuidar do caso, mas tem esse outro hospital em Westchester com uma espécie de unidade especial para a doença. Então o médico providencia uma ambulância para o sujeito e entra na ambulância com ele e roda todos esses quilômetros até Westchester com o sujeito, e o sujeito morre no setor de urgência de Westchester. Então a família processa o médico por imperícia médica. Mas onde é que entram com o processo? Em Montauk? Westchester? Nada disso. No Bronx.
— Como é que podem dar entrada num processo, aqui? — perguntou Kramer.
— A porra da ambulância teve que passar pela Major Deegan para chegar a Westchester. Então o advogado deles apresenta essa teoria de que a imperícia ocorreu no Bronx, onde o caso foi julgado. Receberam 8 milhões de dólares de indenização. O júri deu o veredicto ontem. Agora aí está um advogado que conhece bem geografia.
— Diabos — exclamou Jimmy Caughey —, aposto que todo advogado que trata de imperícia na América já ouviu falar no Bronx. Num caso cível um júri do Bronx é um instrumento para redistribuição de renda.
Um júri do Bronx... E de repente Kramer já não estava pensando no mesmo punhado de rostos escuros em que Ray e Jimmy estavam pensando... Estava pensando naqueles dentes perfeitos e sorridentes e naqueles lábios doces e carnudos brilhando com o batom cor de terra, e aqueles olhos tremeluzentes diante dele à mesa no próprio coração da... Vida... que só existia em Manhattan... Nossa... Ele ficara liso depois de pagar a conta no Muldowny’s... mas quando fizera parar um táxi na calçada do restaurante, estendera a mão para lhe agradecer e dissera adeus, a mão dela permanecera na dele, e ele aumentara a pressão, e ela retribuíra o aperto, e tinham ficado assim, os olhos nos olhos um do outro e — Deus! — aquele momento fora mais doce, mais sexy, mais cheio de — diabos! — amor, amor verdadeiro, aquele amor que chega e... explode o coração... do que qualquer daquelas trepadas de primeiro encontro de que ele costumava se orgulhar quando andava caçando como um gato... Não, ele perdoaria muita coisa nos júris do Bronx. Um júri do Bronx trouxera à sua vida a mulher que estava fadado a encontrar desde que nascera... Amor, Destino, Como Meu Coração Transborda... Deixe que os outros evitem o significado desses termos... Ray devorando o seu supersubmarino, Jimmy resmungando rabugento contra Willie Francisco e Lester McGuigan... Larry Kramer pairava num plano mais espiritual.
O telefone de Ray tocou. Ele apanhou o fone e disse:
— Homicídios... Hummm-hummm... Bernie não está... O caso Lamb? Kramer... Larry. — Ray olhou para Kramer e fez uma careta. — Ele está bem aqui. Quer falar som ele?... Certo, só um instante. — Cobriu o bocal e disse: — É um cara da Assistência Jurídica chamado Cecil Hayden.
Kramer se levantou da escrivaninha, foi até a de Andriutti e apanhou o fone.
— Kramer.
— Larry, aqui é Cecil Hayden, da Assistência Jurídica. — Uma vozinha sussurrante, tinha o tal Cecil Hayden. — Você está cuidando do caso Lamb, certo?
— Certo.
— Larry, acho que chegou a hora de brincarmos de Vamos Fazer um Acordo — muito sussurrante.
— Que tipo de acordo?
— Eu represento um indivíduo chamado Roland Auburn, que foi indiciado há dois dias por um júri numa acusação de posse e venda de drogas. Weiss fez uma declaração à imprensa descrevendo-o como o rei do crack na Evergreen Avenue. Meu cliente se sentiu imensamente desvanecido. Se você algum dia visse a Evergreen Avenue, perguntaria por quê. O rei não tem como pagar uma fiança de 10 mil dólares e, no momento, se encontra em Rikers Island.
— Sei, bem, e qual é a ligação dele com o caso Lamb?
— Ele disse que estava em companhia de Henry Lamb quando ele foi atropelado pelo carro. Levou-o para o hospital. Pode lhe dar uma descrição do motorista. Quer fazer um acordo.