A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 31 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 30

30

 

UM ALUNO TALENTOSO

 

As salas em que se reuniam os júris de instrução na ilha-fortaleza não se pareciam com os tribunais normais. Eram como pequenos anfiteatros. Os membros do júri olhavam do alto a mesa e a cadeira onde as testemunhas se sentavam. Apartada de lado ficava a mesa do escrivão. Não havia juiz nos trâmites de um júri de instrução O promotor mandava suas testemunhas se sentarem numa cadeira e as interrogava, e o júri de instrução decidia se o caso era suficientemente sólido para levar o acusado a julgamento ou se não havia fundamento para tal. O conceito, que se originara na Inglaterra em 1681, era que o júri de instrução protegeria os cidadãos dos promotores inescrupulosos. Esse era o conceito, e o conceito se tornara uma piada. Se um acusado queria testemunhar perante um júri de instrução, podia se fazer acompanhar do advogado à sala. Se fosse (a) desnorteado ou (b) paralisado ou (c) seriamente ofendido pelas perguntas do promotor, tinha o direito de se retirar da sala e conferenciar no corredor com seu advogado — e com isso dar a impressão de alguém (b) paralisado, um acusado que tinha alguma coisa a esconder. Não eram muitos os acusados que corriam esse risco. As audiências do júri de instrução tinham se tornado um espetáculo apresentado pelo promotor. Com raras exceções, esse júri fazia o que quer que um promotor indiciasse que queria que fizesse. Noventa e nove por cento das vezes queria que indiciassem o acusado, e os jurados faziam a sua vontade sem pestanejar. De um modo geral eram pessoas que prezavam a lei e a ordem. Eram escolhidas entre os moradores antigos da comunidade. Vez por outra, quando considerações políticas exigiam, o promotor queria que a acusação fosse arquivada. Não havia problema; só precisava enunciar sua apresentação de uma determinada maneira, dar algumas piscadelas verbais, por assim dizer, e o júri imediatamente entendia. Mas usava-se esse júri predominantemente para indiciar pessoas, e na famosa frase de Sol Wachtler, juiz-presidente do Tribunal Estadual de Apelação, um júri de instrução “indiciaria até um sanduíche de presunto” se o promotor quisesse.

Ele presidia os trâmites, apresentava a evidência, interrogava as testemunhas, fazia perorações. Ficava de pé enquanto as testemunhas permaneciam sentadas. Fazia discursos, gesticulava, andava para lá e para cá, girava nos calcanhares, sacudia a cabeça, descrente, ou sorria com paternal aprovação, enquanto as testemunhas se conservavam corretamente sentadas e o olhavam à espera de orientação. Ele era ao mesmo tempo o diretor e o astro nessa produção do pequeno anfiteatro. A cena era toda sua.

E Larry Kramer ensaiara seus atores muito bem.

O Roland Auburn que entrou na sala do júri de instrução naquela manhã nem parecia nem caminhava como o caso incorrigível que aparecera no gabinete de Kramer duas semanas antes. Usava uma camisa social, embora sem gravata; já fora bastante difícil metê-lo na camisa abotoada e sem graça da Brooks Brothers. Usava um paletó esporte de tweed cinza-azulado, de que se tinha mais ou menos a mesma impressão, e calça preta, que já era sua e não tinha uma aparência tão má assim. O traje inteiro quase se desintegrara com o problema dos sapatos. Roland tinha obsessão por tênis Reebok, que tinham de ser imaculadamente brancos como se tivessem acabado de ser comprados. Em Rikers Island ele conseguia arranjar dois pares novos por semana. Isso mostrava ao mundo que ele era um caso incorrigível, que merecia respeito no interior da prisão, e um traficante esperto com ligações no exterior. Pedir que saísse de Rikers sem os seus Reeboks brancos era como pedir a um cantor para cortar os cabelos. Assim sendo, Kramer finalmente deixou-o sair de Rikers calçando os Reeboks, com o compromisso de que os trocaria por um par de sapatos de couro no carro, antes de chegarem ao tribunal. Os sapatos eram mocassins, que Roland considerava desprezíveis. Pediu garantias de que ninguém que conhecia ou pudesse conhecer tivesse permissão para vê-lo nessa condição de inferioridade. O problema final foi a ginga de cafetão. Roland era como um corredor que vinha competindo em maratonas há muito tempo; era muito difícil mudar o passo. Finalmente Kramer teve uma ideia genial. Fez Roland caminhar com as mãos cruzadas às costas, da maneira que vira os príncipes Philip e Charles caminharem na televisão quando visitavam um museu de artefatos na Nova Guiné. Funcionou! As mãos cruzadas prendiam os ombros, e os ombros presos faziam os quadris perderem o ritmo. Por isso, quando Roland entrou na sala do júri de instrução, dirigindo-se à mesa no centro da arena, com suas roupas de escola preparatória, poderia ter passado por um estudante de Lawrenceville refletindo sobre os poetas do Lago.

Roland sentou-se na cadeira das testemunhas do jeito que Kramer lhe ensinara; ou seja, sem se recostar e escancarar as pernas como se fosse dono do lugar e sem estalar as juntas.

Kramer olhou para Roland e então se virou, encarou o júri, deu uns passinhos para cá e uns passinhos para lá, lançou-lhe um sorriso pensativo, de forma a anunciar sem dizer uma única palavra: “Este que está sentado diante de vocês é um indivíduo simpático e digno de crédito.”

Kramer pediu a Roland que declarasse sua ocupação, e Roland disse baixinho e modestamente:

— Sou artista.

Kramer perguntou-lhe se estava empregado. Não, não estava, respondeu Roland. Kramer acenou a cabeça por alguns segundos, então começou um interrogatório que ressaltava exatamente por que esse rapaz talentoso, esse jovem ansioso por encontrar uma válvula para a sua criatividade, não encontrava aquela adequada e estava, de fato, enfrentando presentemente uma acusação sem gravidade por tráfico de drogas. (O rei do crack da Evergreen Avenue abdicara para dar lugar a um mero servidor da comunidade.) A exemplo de seu amigo Henry Lamb, mas sem as vantagens dele em termos de um lar equilibrado, Roland desafiara os obstáculos que se levantam contra os rapazes dos conjuntos habitacionais e emergira com os seus sonhos intatos. Havia apenas a questão de manter o corpo e a alma unidos e Roland descambara para um comércio pernicioso que não era incomum no gueto. Nem ele, o promotor, nem Roland, a testemunha, estavam tentando esconder ou minimizar os seus pequenos delitos; mas dado o ambiente em que se criara, eles não deviam prejudicar a sua credibilidade entre pessoas compreensivas numa questão tão grave quanto o destino de Henry Lamb.

Charles Dickens, que explicou a carreira de Oliver Twist, não poderia ter feito melhor, pelo menos não de pé, diante de um júri no Bronx.

Então Kramer conduziu Roland pela narrativa do atropelamento com fuga do responsável. Demorou-se amorosamente num determinado momento. Foi o momento em que a morena atraente gritou para o homem alto que estivera dirigindo o carro.

— E que foi que ela disse, sr. Auburn?

— Disse: “Cuidado, Chââmân.”

— Ela disse Chââmân?

— Foi isso que me pareceu.

— Poderia repetir de novo esse nome, sr. Auburn, exatamente como o ouviu naquela noite?

— “Chââmân. “

— Cuidado, Chââmân?

— Isso mesmo. “Cuidado, Chââmân.”

— Muito obrigado. — Kramer voltou-se para os jurados, e deixou Chââmân pairando ali no ar.

O indivíduo sentado naquela cadeira de testemunhas era um rapaz daquelas ruas medíocres, cujos melhores e mais corajosos esforços não foram suficientes para salvar Henry Lamb da negligência criminosa e da irresponsabilidade de um banqueiro de investimentos da Park Avenue. Carl Brill, o operador do táxi pirata, entrou na sala e contou que Roland Auburn realmente alugara um de seus carros para salvar Henry Lamb. Edgar (Curly Kale) Tubb contou que levara o sr. Auburn e o sr. Lamb de carro para o hospital. Não conseguia lembrar nada do que o sr. Lamb dissera, exceto que sentia dor.

Os detetives William Martin e David Goldberg falaram do obstinado trabalho de investigação para chegar, a partir do número incompleto de uma licença de carro, a um banqueiro de investimentos da Park Avenue, que se mostrou confuso e evasivo. Contaram de que maneira Roland Auburn identificara Sherman McCoy sem hesitação numa série de fotos. Um atendente de estacionamento chamado Daniel Podernli contou que Sherman McCoy tirara seu Mercedes-Benz esporte na noite em questão, durante as horas em questão, e voltara amarrotado e agitado.

Todos entravam, sentavam-se à mesa e olhavam para o jovem promotor distrital assistente, convincente, mas paciente, cujos gestos, pausas e passadas diziam: “Só precisamos deixá-los contar a história à sua maneira, e a verdade emergirá.”

E então chamou-a. Maria Ruskin entrou no anfiteatro vinda de uma antecâmara, cuja porta era controlada por um guarda judiciário. Estava magnífica. Dera o tom correto à sua toalete, um vestido negro com um casaco igual orlado de veludo negro. Não se vestira com elegância demais, nem com elegância de menos. Era a viúva perfeita, de luto, que tinha de tratar de certos assuntos. Contudo a sua juventude, sua voluptuosidade, sua presença erótica, sua sensualidade pareciam querer irromper daquelas roupas, daquele rosto lindo, mas composto, daqueles cabelos escuros impecáveis, mas prontos a se desalinharem em louco abandono a qualquer momento! — a qualquer pretexto! — com uma cócega! — à menor piscadela! Kramer ouviu a agitação e o murmúrio dos jurados. Tinham lido os jornais. Tinham assistido à televisão. A Morena Tesuda, a Mulher Misteriosa, a Viúva do Financista — era ela.

Involuntariamente Kramer encolheu a barriga, achatou o abdômen, e atirou os ombros e a cabeça para trás. Queria que ela visse seu peito e ombro musculosos, e não a sua infeliz careca. Pena que não pudesse contar ao júri a história toda. Teriam gostado. Veriam o promotor com renovada consideração. Só o fato de ela ter passado por aquela porta e estar sentada àquela mesa, conforme combinara, era um triunfo, seu triunfo, não apenas de suas palavras, mas de sua presença específica. Mas naturalmente não poderia contar-lhes a visita que fizera ao apartamento da Morena Tesuda, ao seu palácio num contêiner.

Se ela tivesse decidido apoiar McCoy na versão que inventara sobre o assalto numa rampa, teria criado o maior problema. O caso todo teria repousado na credibilidade de Roland Auburn, o antigo rei do crack, que agora tentava se livrar de uma condenação à prisão. O testemunho de Roland fornecia a fundamentação para o caso, mas não era muito sólido, e Roland era capaz de explodi-la a qualquer momento, não pelo que dissesse — Kramer não tinha dúvida de que contava a verdade —, mas por seu comportamento. Porém agora contava com uma moça, também. Fora ao apartamento dela, encarara-a no olho, a ela e seus acompanhantes WASPS, e a metera numa camisa de força, uma camisa de lógica irrefutável e temor do Poder. Metera-a nessa camisa tão depressa e com tanta firmeza que ela nem se deu conta do que estava acontecendo. Ela engolira — engolira em seco — uma engolida multimilionária e tudo terminara. Ao anoitecer, os srs. Tucker Trigg e Clifford Priddy — Trigg e Priddy, Priddy e Trigg — vocês, WASPS! — estavam ao telefone para fazer um trato.

Agora estava sentada diante dele, olhava-a de cima e fixava seus olhos nos dela, sério a princípio e a seguir (assim imaginava) com uma piscadela.

— Queira por favor declarar seu nome completo e seu endereço.

— Maria Teresa Ruskin, Fifth Avenue, 962.

— Muito bem, Maria Teresa! — Fora ele próprio, Kramer, que descobrira que o segundo nome dela era Teresa. Calculava que haveria algumas italianas e porto-riquenhas mais velhas no júri de instrução, e não dera outra. “Maria Teresa” a traria mais próximo delas. Uma questão melindrosa, sua beleza e seu dinheiro. Os jurados eram uma barreira de olhos arregalados. Não se fartavam de olhá-la. Era o ser humano mais glamouroso que já tinham visto em carne e osso. Quanto tempo fazia que alguém sentara numa cadeira de testemunha nessa sala e dera um endereço na Fifth Avenue, nas vizinhanças da 70th Street? Ela era tudo o que eles não eram (Kramer tinha certeza) e gostariam de ser: jovem, linda, chique e infiel. Todavia, isso podia ser um ponto positivo, conquanto ela se comportasse de determinada maneira, conquanto se mantivesse humilde e modesta e parecesse ligeiramente embaraçada com a escala de suas próprias vantagens, conquanto fosse a pequena Maria Teresa de uma cidadezinha da Carolina do Sul. Conquanto se esforçasse para ser um deles de coração, eles se sentiriam lisonjeados por se associarem a ela nessa excursão pela justiça penal, pelo seu sucesso e fama, pela própria aura que o dinheiro lhe emprestava.

Ele pediu que informasse a sua ocupação. Ela hesitou, olhou-o, com os lábios ligeiramente entreabertos, e em seguida disse:

— Humm... Sou... Hu-hu... hum, acho que sou dona de casa.

Uma cascata de risos desabou pelos jurados, e Maria baixou os olhos, sorriu modestamente e sacudiu ligeiramente a cabeça como se dissesse: “Sei que isso parece ridículo, mas não sei que outra resposta dar.”

Kramer percebeu pela maneira com que os jurados retribuíram aquele sorriso que até ali estavam do seu lado. Já tinham sido cativados por esse pássaro belo e raro que agora esvoaçava diante deles no Bronx.

Ele aproveitou o momento para dizer:

— Acho que os jurados deveriam ser informados de que o marido da sra. Ruskin, sr. Arthur Ruskin, faleceu há apenas cinco dias. Nessas circunstâncias, somos muito gratos pela sua boa vontade em se apresentar e colaborar com este júri em suas deliberações.

Os jurados tornaram a olhar para Maria. “Moça corajosa, muito corajosa!”

Maria baixou mais uma vez os olhos, muito decorosamente.

Boa menina, Maria! “Maria Teresa... dona de casa”... Se ao menos pudesse apresentar a esses dignos jurados uma pequena exegese de como a conduzira por esses detalhes pequenos, mas reveladores... Tudo verdadeiro e honesto! — mas mesmo a verdade e a honestidade podem passar despercebidas sem uma luz. Até o momento ela se mantivera um tanto fria com relação a ele, mas seguia sua orientação e com isso indicava seu respeito. Bom, haveria muitas outras sessões, quando realizassem o julgamento — e mesmo nesse momento, nessa sala, nessas rígidas circunstâncias, nesse simples tribunal, havia alguma coisa nela prestes a irromper! Um sinal do dedinho... uma única piscadela...

Calmamente, devagar, para mostrar que sabia quanto era difícil para ela, começou a conduzi-la pelos acontecimentos daquela noite fatídica. O sr. McCoy fora apanhá-la no Aeroporto Kennedy. (Não havia necessidade de apresentar a razão para as finalidades do processo.) Perderam-se no Bronx. Estavam um tanto nervosos. O sr. McCoy está dirigindo na faixa esquerda de uma larga avenida. Vê uma placa à direita indicando o caminho de volta para a rodovia. Repentinamente vira para a direita em alta velocidade. Está rumando direto para dois rapazes na beira de uma calçada. Ele os vê tarde demais. Passa de raspão por um e quase atropela o outro. Ela lhe diz para parar. Ele para.

— Agora, sra. Ruskin, por favor, diga-nos... Nesse ponto em que o sr. McCoy parou, o carro se encontrava na rampa para a rodovia ou na própria avenida?

— Estava na avenida.

— Na avenida?

— Sim.

— E havia alguma obstrução ou barricada ou qualquer tipo de obstáculo que obrigasse o sr. McCoy a parar o carro onde parou?

— Não.

— Muito bem, diga-nos o que aconteceu a seguir.

O sr. McCoy saiu para ver o que acontecera, e ela abriu a porta e olhou para trás. Via os dois rapazes rumando para o carro.

— E poderia nos dizer qual foi a sua reação quando observou que estavam vindo em sua direção?

— Fiquei amedrontada. Pensei que iam nos atacar... devido ao que acontecera.

— Porque o sr. McCoy atropelara um deles?

— Sim. — Os olhos baixos, talvez de vergonha.

— Eles os ameaçaram verbalmente ou por meio de algum gesto?

— Não. — Mais vergonha.

— Mas pensou que eles pudessem atacá-los?

— Sim. — Em tom humilde.

Bondosamente:

— Pode nos explicar por quê?

— Porque estávamos no Bronx e era noite.

Uma voz gentil e paternal:

— É possível que fosse também porque os dois rapazes eram negros?

Uma pausa.

— Sim.

— Acha que o sr. McCoy sentia o mesmo?

— Sim.

— Em algum momento ele indicou verbalmente que sentia isso?

— Sim, indicou.

— O que ele disse?

— Não me lembro exatamente, mas conversamos mais tarde sobre o ocorrido e ele mencionou que era como estar lutando numa selva.

— Lutando numa selva? Esses dois rapazes caminhando em sua direção, depois de um deles ter sido atropelado pelo carro do sr. McCoy... isso era como estar lutando numa selva?

— Sim. Foi isso que ele disse.

Kramer parou para deixar que o júri absorvesse a revelação. — Muito bem. Os dois rapazes estão se aproximando do carro do sr. McCoy. O que a senhora fez então?

— O que foi que eu fiz?

— O que foi que fez... ou disse?

— Disse: “Cuidado, Sherman.” — Chââmân. Um dos jurados riu.

Kramer disse:

— Poderia repetir, por favor, sra. Ruskin? Repetir o que disse a McCoy?

— Disse: “Cuidado, Chââmân.”

— Agora, sra. Ruskin... se me permite... A senhora tem um sotaque característico. A senhora dá ao nome do sr. McCoy uma pronúncia suave. Chââmân. Não é assim?

Um sorrisinho magoado, mas gracioso, passou pelo seu rosto.

— Imagino que sim. O senhor pode julgar melhor que eu.

— Bom, poderia pronunciá-lo a seu modo para nós, só mais uma vez? O nome de batismo do sr. McCoy?

— Chââmân.

Kramer voltou-se para os jurados e apenas olhou. Chââmân.

— Muito bem, sra. Ruskin, o que aconteceu depois?

Ela contou que deslizara para trás do volante e o sr. McCoy se acomodara no assento do lado, e ela partira em alta velocidade, quase atropelando o rapaz que escapara de ser atingido quando o sr. McCoy estava dirigindo. Uma vez a salvo na rodovia, ela quis comunicar o acidente à polícia. Mas o sr. McCoy não quisera ouvir falar nisso.

— Por que estava relutante em comunicar o que acontecera?

— Disse que era ele quem estava dirigindo quando aconteceu, portanto a decisão era dele, não ia comunicar nada.

— Sim, mas deve ter apresentado uma razão.

— Disse que era apenas um incidente na selva, e não adiantaria nada, e não queria que chegasse aos ouvidos de seu patrão e de sua mulher. Creio que estava mais preocupado com a mulher.

— Que soubessem que atropelara alguém com o carro?

— Que soubessem que me apanhara no aeroporto. — Olhos baixos.

— E essa razão era suficiente para não comunicar que um rapaz fora atropelado e, como se viu, se ferira gravemente?

— Bom... não sei. Não sei tudo o que se passava em sua cabeça. — Baixinho, tristemente.

“Muito bem, Maria Teresa! Uma aluna talentosa! Muito apropriado confessar os limites do seu conhecimento!”

E assim a linda Viúva Ruskin fez o sr. Sherman McCoy afundar como uma pedra.

Kramer deixou a sala do júri de instrução num estado de beatitude conhecido principalmente pelos atletas que acabaram de conseguir uma grande vitória. Esforçava-se ao máximo para refrear um sorriso.

— Ei, Larry!

Bernie Fitzgibbon vinha apressado em sua direção. Ótimo! Agora tinha um caso e meio de guerra para o irlandês de quatro costados.

Mas antes que conseguisse dizer a primeira palavra sobre o seu triunfo, Bernie disse:

— Larry, você viu isso?

E empurrou o exemplar de The City Light para ele.

Quigley, que acabara de entrar, apanhou The City Light da escrivaninha de Killian e leu-o sozinho. Sherman encontrava-se sentado junto à escrivaninha na desconfortável cadeira de fibra de vidro e desviou o olhar, mas ainda assim via a primeira página.

Uma tarja no alto dizia: “EXCLUSIVO! NOVO ESCÂNDALO NO CASO MCCOY!”

No canto superior esquerdo da página havia uma foto de Maria num vestido decotadíssimo com a curva dos seios aparecendo e os lábios entreabertos. A foto estava encaixada numa manchete em letras garrafais que dizia:

“VENHA

AO MEU NINHO DE AMOR

DE ALUGUEL TABELADO!”

Embaixo, uma tarja em tipo menor:

“A MILIONÁRIA MARIA RECEBIA

MCCOY NUMA GARÇONNIÈRE DE

331 DÓLARES MENSAIS ”

Peter Fallow

Killian estava à escrivaninha, recostado na cadeira giratória, estudando o rosto taciturno de Sherman.

— Olhe — disse Killian —, não se preocupe. É uma reportagem nojenta, mas não prejudica o seu caso em nada. Talvez ajude. É mais provável que solape a credibilidade dela. Vai parecer uma prostituta.

— É verdade — disse Quigley num tom que pretendia ser animador. — Já sabemos onde ela estava quando o marido morreu. Estava na Itália vivendo com um carinha chamado Filippo. E agora há esse sujeito, um tal de Winter, dizendo que ela levava homens para lá o tempo todo. Esse Winter é um príncipe, não é, Tommy?

— Um senhorio realmente adorável — respondeu Killian. E, dirigindo-se a Sherman: — Se Maria o trair, então isso só pode ajudar. Não muito, mas alguma coisa.

— Não estou pensando no caso — disse Sherman. Suspirou e deixou seu enorme queixo pender sobre a clavícula. — Estou pensando na minha mulher. Isso vai ser a gota d’água. Acho que já estava a caminho de me perdoar, ou pelo menos ia ficar do meu lado, ia manter a nossa família unida. Mas isso vai ser a gota d’água.

— Você se deixou envolver por uma prostituta de alta classe — disse Killian. — Isso acontece o tempo todo. Não é uma coisa tão séria.

“Prostituta?” Para sua surpresa, Sherman sentiu um impulso de defender Maria. Mas o que disse foi:

— Infelizmente jurei à minha mulher que nunca fizera... nunca fizera nada além de flertar com ela uma ou duas vezes.

— E acha que ela realmente acreditou nisso?

— Não importa — disse Sherman. — Eu jurei que isso era verdade e depois pedi que me perdoasse. Coloquei muita ênfase nisso. E agora ela descobre com o resto de Nova York, com o resto do mundo, na primeira página de um tabloide, que eu estava... Não sei... — Balançou a cabeça.

— Bom, não foi bem uma coisa séria — disse Quigley. — Aquela mulher é uma prostituta de alta classe, como diz Tommy.

— Não a chame assim — disse Sherman em voz baixa e melancólica, sem olhar para Quigley. — Ela é a única pessoa decente nessa confusão toda.

Killian retrucou:

— Ela é tão decente que vai traí-lo, se é que já não o fez.

— Ela estava disposta a fazer tudo corretamente — disse Sherman. — Estou convencido disso, e atirei-lhe seus bons instintos na cara.

— Sem essa! Não acredito que esteja ouvindo isso.

— Ela não me telefonou pedindo que a encontrasse naquele apartamento com a intenção de me entregar. Fui para lá cheio de fios... para entregá-la. O que ela tinha a ganhar me vendo? Nada. Seus advogados provavelmente a aconselharam a não ter contato comigo.

Killian assentiu com a cabeça.

— É verdade.

— Mas não é assim que a cabeça de Maria trabalha. Ela não é cautelosa. Não vai passar a agir legalmente só porque está em apuros. Uma vez eu falei que a vida dela eram os homens, e é verdade, da mesma forma que a vida de... um... um golfinho é o mar.

— Não prefere um tubarão?

— Não.

— Tudo bem, que seja como quer. Ela é uma sereia.

— Pode chamá-la do que quiser. Mas estou convencido de que seja lá o que fosse fazer neste caso com relação a mim, um homem com quem esteve envolvida, não ia fazê-lo resguardada por um biombo de advogados — não ia aparecer cheia de fios... para conseguir evidências. Não importando o que acontecesse, ela queria me ver, estar perto de mim, ter uma boa conversa, uma conversa honesta, e não um jogo de palavras... e ir para a cama comigo. Talvez pensem que estou maluco, mas era exatamente isso o que ela queria fazer.

Killian só fez erguer uma sobrancelha.

— Também acredito que não foi para a Itália para se esconder deste caso. Acho que foi exatamente pela razão que alegou. Para fugir do marido... e de mim... e não a culpo... e para se divertir com um garoto bem-apanhado. Podem chamar isso de prostituição se quiserem, mas ela é a única pessoa neste caso todo que tem agido corretamente.

— É incrível esse seu jeito de tripudiar sobre si mesmo — disse Killian. — Qual é o número daquela linha de emergência de C. S. Lewis que funciona a noite inteira? Temos aqui um conceito inteiramente novo de moralidade.

Sherman deu um soco na palma da mão.

— Não posso acreditar no que fiz. Se ao menos tivesse sido correto com ela! Eu — com as minhas pretensões de respeitabilidade e propriedade! E agora veja só.

Apanhou The City Light, mais do que disposto a se afogar em sua vergonha pública. “Ninho de amor”... “garçonniere”... uma foto da cama em que “a milionária Maria recebia McCoy”... Isso é o que minha mulher vai ver, ela e alguns milhões de pessoas... e minha filha... Minha garotinha tem quase sete anos. Suas amiguinhas serão perfeitamente capazes de completar para ela essa história... depressa e de boa vontade... Pode ter certeza... Imagine. Aquele filho da mãe, o Winter, é tão pegajoso que leva a imprensa para tirar uma fotografia da cama!

Quigley atalhou:

— São homens doidos, sr. McCoy, esses senhorios dos edifícios de aluguel tabelado. São maníacos. Só têm uma coisa na cabeça de manhã à noite, que é despejar os inquilinos. Nem siciliano odeia tanto uma pessoa quanto um senhorio de aluguel tabelado a seus inquilinos. Acham que os inquilinos estão roubando o sangue deles. São malucos. Esse sujeito vê o retrato de Maria Ruskin no jornal, e ela tem um apartamento de vinte cômodos na Fifth Avenue, e ele endoida e sai correndo para o jornal.

Sherman abriu o jornal na página 3, onde começava a reportagem completa. Havia uma foto da fachada calcária do prédio. Outra foto de Maria, com a aparência jovem e sexy. Uma foto de Judy, velha e descarnada. Outra foto dele mesmo... e seu aristocrático queixo... e um largo sorriso...

— Isso vai ser a gota d’água — disse de si para si, mas suficientemente alto para Killian e Quigley ouvirem. Afundando, afundando, mergulhando na própria vergonha... lendo alto:

— “Winter declarou que tinha informações de que a sra. Ruskin estava pagando 750 dólares por mês por baixo da mesa à inquilina atual, Germaine Boll, que paga um aluguel tabelado em 331 dólares.” É verdade — disse Sherman —, mas fico imaginando como foi que soube. Maria não lhe disse, e tenho certeza de que Germaine também não. Maria mencionou para mim só uma vez, mas nunca mencionei o fato a ninguém.

— Onde? — perguntou Quigley.

— Onde o quê?

— Onde estava quando ela lhe contou isso?

— Estava... Foi da última vez que estive no apartamento. Foi no dia em que The City Light publicou a primeira reportagem. Foi no dia em que aquele doidão, aquele monstro hasid, invadiu o apartamento.

— Eiiii! — exclamou Quigley. Um sorriso espalhou-se pelo seu rosto. — Pegou essa, Tommy?

— Não — respondeu Killian.

— Pois eu peguei — disse Quigley. — Posso estar enganado, mas acho que estou entendendo.

— Entendendo o quê?

— Aquele bisbilhoteiro filho da puta.

— De que está falando?

— Depois eu conto — disse Quigley, ainda sorrindo. — Agora vou dar uma chegada lá.

Retirou-se da sala e saiu pelo corredor em rápidas passadas.

— O que ele vai fazer? — perguntou Sherman.

— Não tenho bem certeza — disse Killian.

— Onde é que está indo?

— Não sei. Deixo-o fazer o que quer. Quigley é uma força da natureza.

O telefone de Killian tocou, e ouviu-se a voz da recepcionista pelo interfone:

— É o sr. Fitzgibbon na 3-0.

— Vou atender — respondeu Killian, e ergueu o fone. — Sim, Bernie?

Killian escutou, mantendo os olhos baixos, mas de vez em quando os erguia e procurava os de Sherman. Fez algumas anotações. Sherman sentia o coração começar a palpitar.

— Baseado em que teoria? — perguntou Killian. Escutou mais um pouco. — Isso é tolice, e você sabe disso... É, bom, vou... vou... O quê?... Vai dar entrada na câmara de quem?... Humhum... — Passado algum tempo disse: — Claro, ele vai estar lá. — Ergueu os olhos para Sherman quando disse isso. — Tudo bem. Obrigado, Bernie.

Desligou e disse a Sherman:

— Bom... o júri de instrução decidiu pelo seu indiciamento. Ela o entregou.

— Ele lhe disse isso?

— Não. Não pode comentar o que acontece no júri de instrução. Mas deu a entender nas entrelinhas.

— O que significa isso? O que vai acontecer agora?

— A primeira coisa que vai acontecer é que amanhã de manhã o promotor público vai pedir ao tribunal para fixar uma fiança maior.

— Fiança maior? Como podem fazer isso?

— A teoria é que, agora que você foi indiciado, terá uma motivação maior para fugir da jurisdição do tribunal.

— Mas isso é absurdo!

— Claro que é, mas é isso que vão fazer, e você terá que estar presente.

Uma terrível compreensão começava a se apossar de Sherman.

— Quanto vão pedir?

— Bernie não sabe, mas será uma quantia elevada. Meio milhão. Um quarto de milhão, talvez. Alguma quantia absurda. É o Weiss querendo manchetes, querendo o voto negro.

— Mas... eles podem realmente fixá-la com esse vulto?

— Tudo depende do juiz. A audiência será presidida por Kovitsky, que também é o juiz supervisor do júri de instrução. Ele tem colhões. Com ele, pelo menos você tem uma chance de lutar.

— Mas se fizerem isso... quanto tempo terei para levantar o dinheiro?

— Quanto tempo? Assim que pagar a fiança, está liquidado.

— Estou liquidado? — Terrível percepção... — O que quer dizer com liquidado?

— O problema da custódia está liquidado.

— Mas por que haveria um problema de custódia?

— Bom, assim que uma nova fiança for fixada, ficará sob custódia até pagá-la, a não ser que a pague na hora.

— Espere um instante, Tommy. Você não está querendo dizer que se elevarem o valor da minha fiança amanhã de manhã, vão me pôr sob custódia imediatamente, ali mesmo, assim que a fiança for fixada?

— Bem, estou. Mas não tire conclusões precipitadas.

— Quer dizer que vão me prender ali mesmo no tribunal?

— Vão, se... mas não...

— Vão me prender e levar para onde?

— Bom, para a Casa de Detenção do Bronx, provavelmente. Mas a questão é que...

Sherman começou a sacudir a cabeça. Tinha a sensação de que a membrana interior do crânio estava inflamada.

— Não posso aguentar isso, Tommy.

— Não conclua logo o pior! Há coisas que podemos aguentar.

Ainda sacudindo a cabeça:

— Não há possibilidade de conseguir meio milhão de dólares hoje à tarde e colocá-los numa sacola.

— Não estou falando — abrindo as vogais — de nada disso, droga. É uma audiência para fixar a fiança. O juiz tem que ouvir os argumentos. Temos um bom argumento.

— Ah, claro — disse Sherman. — Você mesmo disse que este caso é um futebol político. — Deixou pender a cabeça e sacudiu-a mais um pouco. — Nossa, Tommy, não posso aguentar isso.

Ray Andriutti devorava como uma baleia o seu sanduíche de pimentão e a lavagem de café, e Jimmy Caughey segurava o sanduíche de rosbife no ar como um bastão enquanto falava com alguém ao telefone sobre uma merdinha que lhe coubera. Kramer não sentia fome. Não conseguia terminar de ler a reportagem de The City Light. Estava fascinado. Um ninho de amor com o aluguel tabelado em 331 dólares mensais. A revelação não afetava realmente o caso de um jeito ou de outro. Maria Ruskin não ia continuar sendo a belezinha simpática que conseguira um sucesso estrondoso na sala do júri de instrução, mas assim mesmo daria uma boa testemunha. E quando apresentasse o seu dueto “Chââmân” com Roland Auburn, ele teria Sherman McCoy inerme e travado para disparar. Ninho de amor com o aluguel tabelado em 331 dólares mensais. Será que teria coragem de ligar para o sr. Hiellig Winter? Por que não? Teria que entrevistá-lo de qualquer maneira... ver se podia dar mais detalhes sobre o relacionamento entre Maria Ruskin e Sherman McCoy no que se referia ao... ao.... ao ninho de amor de aluguel tabelado em 331 dólares mensais.

Sherman andou da sala até o saguão de entrada e escutou o som de seus passos no solene mármore verde. Então se virou e escutou-se atravessando o piso de mármore até a biblioteca. Ali havia uma lâmpada, junto a uma poltrona, que ele ainda não acendera. Então acendeu-a. O apartamento inteiro, os dois andares, refulgia de luzes e pulsava de silêncio. Seu coração palpitava num ritmo acelerado. Sob custódia... amanhã o mandariam de volta para lá! Sentia vontade de gritar, mas não havia ninguém nesse vasto apartamento para quem gritar; nem ninguém fora dele.

Pensou numa faca. Em teoria, uma longa faca de cozinha tinha uma eficiência tão inflexível! Mas então tentou representar a cena mentalmente. Onde a enfiaria? Conseguiria suportar? E se sujasse tudo de sangue? Atirar-se pela janela. Quanto tempo até atingir a rua dessa altura? Segundos... segundos intermináveis... durante os quais pensaria em quê? No que isso faria a Campbell, ou na saída covarde que estava escolhendo? Será que estava pensando seriamente nisso? Ou será que se pensasse no pior que seria capaz de suportar... apenas uma especulação supersticiosa, em que presumia a realidade... Voltar para lá? Não, não conseguiria suportar.

Ergueu o fone e ligou de novo para um número em Southampton. Não respondia; não obtivera resposta a noite inteira, apesar de que, segundo sua mãe, Judy e Campbell, Bonita, a srta. Lyons e o dachshund tinham saído da casa na East 73rd Street para Southampton antes do meio-dia. Será que a mãe vira o artigo no jornal? Vira. Será que Judy vira? Vira. Sua mãe nem conseguira fazer um esforço para comentá-lo. Era sórdido demais para ser discutido. Tanto mais chocante teria sido para Judy! Ela não fora para Southampton coisa nenhuma! Decidira desaparecer, levando Campbell em sua companhia... para o meio-oeste... de volta a Wisconsin... Uma lembrança momentânea... As planícies desoladas pontuadas apenas por torres de água de alumínio, em forma de cogumelos modernistas, e grupos de árvores retorcidas... Um suspiro... Campbell estaria melhor lá do que em Nova York, vivendo com a lembrança aviltada de um pai que na realidade já não existia... um pai deserdado de tudo o que definia um ser humano, exceto o nome, que era agora um cartum infamante de que os jornais, a televisão, os caluniadores de todo tipo estavam livres para zombar como quisessem... Afundando, afundando, afundando, entregou-se ao opróbrio e à autocomiseração... até que por volta do décimo segundo toque alguém atendeu o telefone.

— Alô?

— Judy?

Uma pausa.

— Achei que devia ser você — disse Judy.

— Suponho que tenha visto o artigo — disse Sherman.

— Vi.

— Bom, olhe...

— A não ser que queira que eu desligue agora mesmo, nem fale disso. Nem comece.

Ele hesitou.

— Como vai Campbell?

— Está indo bem.

— O que ela está sabendo?

— Ela compreende que temos problemas. Sabe que há alguma coisa no ar. Não creio que saiba o quê. Felizmente a escola terminou, embora não vá ser nada fácil aqui.

— Deixe-me explicar...

— Não. Não quero ouvir as suas explicações. Sinto muito, Sherman, mas não estou disposta a ouvi-lo insultar a minha inteligência. Não mais do que já o fez.

— Tudo bem, mas preciso ao menos dizer-lhe o que vai acontecer. Vou voltar a ficar sob custódia amanhã. Voltar para a cadeia.

Baixinho:

— Por quê?

“Por quê?” Não faz diferença por quê! Grito por você — para me segurar! Mas já não tenho esse direito! Então apenas explicou o problema da majoração da fiança.

— Entendo — disse ela.

Ele esperou um momento, mas era só.

— Judy, não sei se vou poder aguentar isso.

— O que quer dizer?

— Foi terrível da primeira vez, e só fiquei preso algumas horas numa carceragem temporária. Desta vez será na Casa de Detenção do Bronx.

— Mas só até você pagar a fiança.

— Mas não sei se poderei aguentar nem um dia, Judy. Depois de toda essa publicidade, estará cheio de gente... que quer se desforrar de mim... quero dizer, já é bastante ruim, mesmo quando não sabem quem a gente é. Você não pode imaginar o que seja... — Parou. “Quero gritar por você!” Mas perdera esse direito.

Ela percebeu a aflição em sua voz.

— Não sei o que lhe dizer, Sherman. Se pudesse estar com você de alguma forma, eu estaria. Mas você não para de puxar o tapete debaixo dos meus pés... Já tivemos essa mesma conversa antes. Que me sobrou para lhe dar? Tenho... tenho muita pena de você, Sherman. Não sei mais o que lhe dizer.

— Judy?

— Sim?

— Diga a Campbell que eu a amo muito. Diga-lhe... diga-lhe para pensar no pai como a pessoa que existia antes de tudo isso acontecer. Diga-lhe que tudo isso mexe com a pessoa e que ela nunca mais pode voltar a ser a mesma.

Desesperadamente desejava que Judy lhe perguntasse o que queria dizer com isso. Ao mais tímido convite estaria pronto a despejar tudo o que sentia. Mas só o que ela disse foi:

— Tenho certeza de que ela sempre o amará, não importa o que aconteça.

— Judy?

— Sim?

— Lembra-se de quando vivíamos no Village, da maneira como eu saía para trabalhar?

— A maneira como saía para trabalhar?

— Quando comecei a trabalhar para a Pierce & Pierce? A maneira como erguia o punho para você ao sair do apartamento, na saudação do Poder Negro?

— Lembro, sim.

— Lembra-se por quê?

— Acho que sim.

— Queria dizer que sim, que ia trabalhar para a Wall Street, mas meu coração e minha alma nunca pertenceriam a eles. Eu os usaria, me rebelaria e romperia com eles. Lembra-se de tudo isso?

Judy guardou silêncio.

— Sei que a coisa não foi bem assim — continuou —, mas lembro-me da sensação gostosa que aquilo me dava. Você não?

Ainda o silêncio.

— Bom, agora rompi com a Wall Street. Ou a Wall Street rompeu comigo. Sei que não é a mesma coisa, mas de uma forma estranha sinto-me liberado. — Parou, na esperança de provocar um comentário.

Finalmente, Judy disse:

— Sherman?

— Sim?

— Isso é uma lembrança, Sherman, mas está morta. — A voz lhe faltou. — Todas as lembranças daquele tempo foram horrivelmente malbaratadas. Sei que quer que lhe diga outra coisa, mas fui traída e humilhada. Gostaria de ser uma coisa que fui há muito tempo para ajudá-lo, mas não consigo. — Sufocando as lágrimas.

— Ajudaria se você pudesse me perdoar... se quisesse me dar uma última oportunidade.

— Já me pediu isso uma vez antes, Sherman. Muito bem, eu o perdoo. E vou tornar a lhe perguntar: O que é que isso muda? — Chorava baixinho.

Ele não tinha resposta, e foi só.

Mais tarde, sentou-se no silêncio fulgurante da biblioteca. Recostou-se na cadeira giratória à escrivaninha. Estava consciente da pressão da borda da cadeira na parte inferior das coxas. Couro marroquino cor de sangue; 1.100 dólares só para forrar o espaldar e o assento dessa única cadeira. A porta da biblioteca estava aberta. Espiou o vestíbulo por ela. Ali no piso de mármore via as pernas extravagantemente curvas dos cadeirões Thomas Hope. Não era uma reprodução em mogno, mas um original em pau-rosa. Pau-rosa! A alegria infantil com que Judy descobrira aqueles originais em pau-rosa!

O telefone tocou. Ela estava ligando de volta! Apanhou o fone na mesma hora.

— Alô?

— Eiiiii, Sherman. — Tornou a desanimar. Era Killian. — Quero que volte aqui. Tenho uma coisa para lhe mostrar.

— Você ainda está no escritório?

— Quigley está aqui também. Temos uma coisa para lhe mostrar.

— O que é?

— Preferia não falar — as vogais abertas — pelo telefone. Quero que venha até aqui.

— Está bem... estou saindo agora mesmo.

Não tinha certeza de que poderia continuar no apartamento mais um minuto, de qualquer forma.

No velho prédio da Reade Street, o vigia da noite, que parecia cipriota ou armênio, estava escutando uma estação de música country num enorme rádio portátil. Sherman teve que parar e registrar seu nome e a hora de chegada num livro. Num sotaque carregado o vigia não parava de cantarolar o refrão da música, acompanhando o rádio:

“Meu queixo está erguido.

Meu sorriso espalhado no rosto

Meu coração está mui-

to

deprimido...”

Mas o refrão saía todo truncado.

Sherman subiu de elevador, atravessou a calmaria do corredor encardido e chegou à porta com o letreiro de plástico em que se lia DERSHKIN, BELLAVITA, FISHBEIN & SCHLOSSEL. Por um instante pensou no pai. A porta estava trancada. Bateu e, passados cinco ou dez segundos, Ed Quigley abriu.

— Eiiiii! Vamos entrar! — convidou Quigley. Seu rosto duro estava iluminado de alegria. “Radiante” seria a palavra. Repentinamente tornara-se o amigo mais caloroso de Sherman. Uma meia risada saiu-lhe da garganta enquanto conduzia Sherman à sala de Killian.

Killian estava em pé com o sorriso do gato que comeu o canário. Sobre a mesa havia um gravador grande que pertencia às esferas mais elevadas e sofisticadas do Reino Audiovisual.

— Eiiiiiiiiii! — exclamou Killian. — Sente-se. E prepare-se. Espere até ouvir isso.

Sherman sentou-se junto à escrivaninha.

— O que é isso?

— Você é quem vai me dizer — replicou Killian. Quigley ficou parado ao lado de Killian, olhando para a máquina e remexendo-se como um garotinho que sobe no palco para receber um prêmio. — Não quero alimentar exageradamente as suas esperanças com isso — disse Killian — porque há problemas sérios com a gravação, mas você a achará interessante.

Apertou um botão na máquina, e ouviu-se um fluxo de estática baixa. Em seguida a voz de um homem:

“Eu sabia. Eu sabia desde que aconteceu. Devíamos ter comunicado à polícia imediatamente.” — Nos primeiros segundos ele não reconheceu. Então compreendeu. “A minha própria voz!” Continuava: “Não acredito que esteja... não acredito que estejamos nessa situação.”

Uma voz de mulher:

“Bom, agora é tarde demais, Sherman.” Chââmân. “O leite já derramou.”

Toda a cena: o medo, a tensão, a própria atmosfera... invadiram o sistema nervoso de Sherman... No esconderijo dela na noite em que a primeira reportagem sobre Henry Lamb apareceu em The City Light... “MÃE DE ALUNO BRILHANTE: TIRAS NÃO INVESTIGAM ATROPELAMENTO”... Via a própria manchete em cima da mesa de carvalho...

A voz dele:

“Diga... diga exatamente o que aconteceu.”

A voz dela:

“Vai ser uma beleza. Os dois rapazes nos fizeram parar e tentaram nos assaltar, mas você atirou um pneu em um deles, e eu saí de lá como... um... corredor de carro envenenado, mas não sabia que tinha atropelado alguém.”

“Bom, foi exatamente isso que aconteceu, Maria.”

“E quem vai acreditar nisso?”

Sherman olhou para Killian. Ele tinha um sorrisinho contraído no rosto. Ergueu a mão direita como se quisesse alertar Sherman para continuar escutando e não falar ainda. Quigley conservava os olhos fixos na máquina mágica. Tinha os lábios apertados para segurar o largo sorriso que achava merecido.

O Gigante não tardou a chegar.

“Mora aqui?”

A voz de Sherman:

“Eu disse que não temos tempo para isso agora.” — Parecia barbaramente arrogante e empolado. Tornou a sentir toda a humilhação daquele momento, a horrível sensação de que estava em vias de ser forçado a entrar num duelo masculino, muito provavelmente de caráter físico, que não tinha possibilidade de vencer.

“O senhor não mora aqui, e ela não mora aqui. O que estão fazendo aqui?”

O sujeito arrogante:

“Não é da sua conta! Agora seja bonzinho e saia!”

“O senhor não é daqui, certo? Temos um problema sério.”

Então ouviu-se a voz de Maria... uma altercação... um estalido forte, quando a cadeira quebrou e o Gigante bateu no chão.... a sua retirada vergonhosa... As gargalhadas de Maria...

Finalmente a voz dela dizendo:

“Germaine paga só 331 dólares por mês, e eu pago a ela 750. O aluguel é tabelado. Adorariam despejá-la.”

Logo as vozes silenciaram... e Sherman lembrou, sentiu, a impulsiva sessão na cama.

Quando a fita acabou de tocar, Sherman disse a Killian:

— Nossa, é assombroso. De onde veio isso?

Killian olhou para Sherman, mas apontou o indicador direito para o amigo. Então Sherman olhou para Quigley. Era o momento pelo qual Quigley esperara.

— Assim que me disse onde ela lhe contara o golpe do aluguel, eu percebi. Simplesmente tive certeza. Esses loucos. Esse tal de Hiellig Winter não é o primeiro. Os gravadores acionados pelo som da voz. Então fui direto lá. Essa figura tem microfones escondidos nas caixas de interfone dentro dos apartamentos. O gravador é guardado no porão, num armário trancado.

Sherman arregalou os olhos para o rosto radiante do homem.

— Mas por que se daria ao trabalho?

— Para despejar os inquilinos! — explicou Quigley. — Metade das pessoas que moram nesses apartamentos de aluguel tabelado não são inquilinos legais. A metade está dando golpes, como a sua amiga lá. Mas provar isso no tribunal é outra conversa. Então esse louco está registrando todas as conversas no prédio com esse gravador que se liga ao som da voz. Acredite-me, ele não é o primeiro.

— Mas... isso não é ilegal?

— Ilegal — repetiu, Quigley satisfeitíssimo —, é tão ilegal que nem chega a ter graça! É tão ilegal, que se ele entrasse por essa porta agora e eu dissesse: “Ei, tirei a porra da sua fita. Que é que acha disso?” Ele responderia “Não sei de que está falando”, e iria embora como um bom menino. Mas estou lhe dizendo, esses maníacos são furiosos.

— E você simplesmente tirou a fita? Como conseguiu entrar lá?

Quigley sacudiu os ombros com arrematada presunção.

— Não foi nenhum bicho de sete cabeças.

Sherman olhou para Killian.

— Nossa... então talvez... Se isso está gravado, então talvez... Logo depois de a coisa acontecer, Maria e eu voltamos ao apartamento dela e discutimos a coisa toda, tudo o que aconteceu. — Se estiver gravado... isso seria... fantástico!

— Não está lá — informou Quigley. — Ouvi quilômetros de fitas. Não cobrem tanto tempo assim. Ele deve apagar de vez em quando e tornar a gravar, para não precisar viver comprando fitas novas.

Com o ânimo nas nuvens, Sherman disse a Killian:

— Bom, talvez isso seja suficiente!

Quigley disse:

— A propósito, você não é o único visitante que ela recebe naquela espelunca.

Mas Killian o atalhou:

— É, bom, nesta altura isso só tem interesse histórico. Agora preste atenção, Sherman. Não quero que alimente muitas esperanças a respeito disso. Temos dois problemas sérios. O primeiro é que ela não se expõe, dizendo que atropelou o garoto e que você não o atropelou. O que ela diz é indireto. Metade do tempo, parece que talvez esteja apenas acompanhando o que você está dizendo. Contudo, é uma boa arma. Certamente é o bastante para deixar o júri em dúvida. Certamente parece concordar com a sua teoria de que houve uma tentativa de assalto. Mas temos mais um problema, e, para ser honesto com você, não sei como poderemos resolvê-lo. Não há maneira de se poder usar essa fita como evidência.

— Não se pode? Por que não?

— Conforme Ed disse, essa fita é inteiramente ilegal. Esse maluco do Winter poderia ir para a cadeia por fazer isso. Não há maneira de uma fita escondida e ilegal poder ser usada em um tribunal de justiça.

— Então por que foi que instalou um gravador em mim? É uma gravação furtiva. Como então poderia ser usada?

— É furtiva mas não é ilegal. Você tem direito de gravar as próprias conversas, secretamente ou não. Mas se a conversa é de outra pessoa, é ilegal. Se esse maluco desse sr. Winter estivesse gravando as próprias conversas, não haveria problema.

Sherman olhou para Killian boquiaberto, as suas esperanças recém-nascidas, já esmagadas.

— Mas isso não é direito. Isso é evidência vital! Não podem suprimir evidência vital baseados numa tecnicalidade!

— Tenho notícias para você, cara. Podem. Suprimiriam. O que precisamos é pensar numa maneira de usar essa gravação para obrigar alguém a nos prestar um testemunho legítimo. Como por exemplo descobrir um jeito de usar isso para fazer a sua amiga Maria dizer a verdade. Tem alguma ideia brilhante?

Sherman pensou um momento. Então suspirou e olhou para além dos dois homens. Era tudo tão absurdo!

— Não sei como conseguiriam que ela ouvisse essa maldita gravação.

Killian consultou Quigley com o olhar. Quigley sacudiu a cabeça. Os três ficaram quietos.

— Espere um minuto — disse Sherman. — Deixe-me ver essa gravação.

— Ver? — perguntou Killian.

— É. Dê-me aqui.

— Tirar do gravador?

— É. — Sherman estendeu a mão.

Quigley rebobinou a fita e retirou-a do aparelho muito desajeitadamente, como se ela fosse uma peça preciosa de vidro soprado à mão. Entregou-a a Sherman.

Sherman segurou-a com as duas mãos e olhou-a fixamente.

— Ora essa — disse, erguendo os olhos para Killian. — É minha.

— Que quer dizer com é sua?

— A gravação é minha. Eu a fiz.

Killian observou-o com ar de troça, como se procurasse entender a piada.

— O que quer dizer com você a fez?

— Instalei um gravador em mim naquela noite, porque essa reportagem acabara de sair em The City Light e presumi que talvez fosse precisar verificar o que realmente acontecera. Isso que acabamos de escutar... é a gravação que fiz naquela noite. É a minha gravação.

Killian estava boquiaberto.

— O que está dizendo?

— Estou dizendo que gravei essa fita. Quem vai dizer que não gravei? Essa gravação é minha propriedade, certo? Aqui está. Fiz essa gravação para ter um registro preciso das minhas conversas. Diga-me, doutor, o senhor consideraria essa gravação admissível num tribunal de justiça?

Killian olhou para Quigley.

— Puta que pariu. — Então olhou para Sherman. — Deixe-me ver se entendi direito, sr. McCoy. O senhor está me afirmando que instalou um gravador no corpo e fez essa gravação de sua conversa com a sra. Ruskin?

— Exatamente. Isso é admissível?

Killian olhou para Quigley, sorriu e voltou a olhar para Sherman:

— É perfeitamente possível, sr. McCoy, perfeitamente possível. Mas precisa me informar uma coisa. Como foi que fez essa gravação? Que tipo de equipamento usou? Como foi que instalou o equipamento no corpo? Creio que se quer que o tribunal aceite essa evidência, é melhor que seja capaz de justificar tudo o que fez, de A a Z.

— Bom — disse Sherman —, gostaria de ouvir o sr. Quigley aqui imaginar como foi que eu fiz. Ele me parece conhecer esse assunto. Gostaria de ouvi-lo imaginar.

Quigley olhou para Killian.

— Vá em frente, Ed, imagine.

— Bom — disse Quigley —, se fosse eu, arranjaria um Nagra 2600, que se liga ao som da voz, e... — Começou a descrever detalhadamente de que maneira usaria o fabuloso gravador Nagra, faria a instalação e tomaria cuidado para conseguir uma gravação da mais alta qualidade dessa conversa.

Quando terminou, Sherman disse:

— Sr. Quigley, o senhor realmente conhece o assunto. Sabe por quê? Foi exatamente o que fiz. O senhor não omitiu nenhum detalhe. — Em seguida olhou para Killian. — Aí está. O que acha?

— Vou lhe dizer o que acho — disse Killian lentamente. — Você me apronta cada surpresa! Nunca pensei que tivesse talento para isso.

— Nem eu — respondeu Sherman. — Mas gradualmente compreendi uma coisa nos últimos dias. Não sou mais o Sherman McCoy. Sou outra pessoa sem um nome adequado. Tenho sido essa pessoa desde o dia em que fui preso. Eu sabia que alguma coisa... alguma coisa fundamental acontecera naquele dia, mas a princípio não soube o que era. A princípio pensei que ainda era Sherman McCoy, e Sherman McCoy estava passando por um período de muito azar. Nos últimos dois dias, porém, comecei a encarar a verdade. Sou outra pessoa. Não tenho qualquer ligação com Wall Street, Park Avenue, Yale, St. Paul, Buckley ou com o Leão da Dunning Sponget.

— O Leão da Dunning Sponget? — perguntou Killian.

— É a imagem que sempre fiz do meu pai. Era um dirigente, um aristocrata. E talvez fosse, mas não tenho mais parentesco com ele. Não sou a pessoa com quem minha mulher se casou ou o pai que minha filha conheceu. Sou um ser humano diferente. Eu existo aqui embaixo, agora, se não se ofender com o que eu digo. Não sou um cliente excepcional da Dershkin, Bellavita, Fishbein & Schlossel. Sou o normal. Todo bicho tem o seu hábitat, e estou no meu neste instante. A Reade Street e a 16lst Street e os xadrezes — se achar que sou superior, só estarei me enganando, e parei de me enganar.

— Eiiiii, espere um instante — disse Killian. — Ainda não está tão ruim assim.

— Está ruim, sim — retorquiu Sherman. — Mas juro a você que estou me sentindo melhor agora. Sabe como fazem com um cachorro, um cachorro de estimação, um pastor-alemão que foi alimentado e cuidado a vida toda para o treinarem como um cão de guarda perverso?

— Já ouvi falar — respondeu Killian.

— Já vi fazerem isso — disse Quigley. — Vi quando estava na polícia.

— Bom, então conhece o princípio — continuou Sherman. Não alteram a personalidade do cachorro com biscoitos ou pílulas. Eles o acorrentam, batem nele, tentam-no, atormentam-no, e batem mais um pouco, até que um dia ele se vira e mostra os dentes e está pronto para o combate mortal todas as vezes que escutar um ruído.

— É verdade — confirmou Quigley.

— Bom, nessa situação os cães são mais inteligentes que os homens — concluiu Sherman. — O cão não se apega à ideia de que é um fabuloso animalzinho de estimação em alguma fantástica exposição de cães, como o homem faz. O cão entende o que se espera dele. O cão sabe quando é hora de se transformar num animal e lutar.