A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 33 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Epílogo

 

Exatamente um ano mais tarde, a seguinte notícia apareceu na página B1 da seção de Notícias Locais do The New York Times:

“FINANCISTA ACUSADO DA MORTE DE ALUNO BRILHANTE

Overton Holmes Jr.

O ex-financista da Wall Street, Sherman McCoy, foi levado ao Bronx, ontem, algemado e acusado da morte de Henry Lamb, um aluno negro e brilhante, de dezenove anos, que era o orgulho de um conjunto habitacional do South Bronx.

O sr. Lamb faleceu na segunda-feira à noite, no Lincoln Hospital, em consequência de lesões cerebrais infligidas ao ser atropelado pelo Mercedes-Benz esporte do sr. McCoy no Bruckner Boulevard, no Bronx, há treze meses. Nunca recuperou a consciência.

Manifestantes da Solidariedade dos Povos e de outras organizações gritavam ‘Assassino da Wall Street’, ‘Capitalista assassino’, ‘Finalmente justiça’, enquanto os detetives conduziam o sr. McCoy ao Edifício dos Tribunais Criminais do Bronx, na East 161st Street. O papel desempenhado pelo sr. McCoy no atropelamento do sr. Lamb tornou-se o centro de uma tempestade política no ano passado.

Uma figura aristocrática

Solicitado pelos repórteres a comentar o contraste entre a sua vida na Wall Street e na Park Avenue e a sua situação atual, o sr. McCoy gritou: ‘Não tenho qualquer ligação com a Wall Street e nem com a Park Avenue. Sou um réu profissional. Sofri um ano de tormentos legais e vou sofrer mais um — ou talvez de 8 1/3 a 25 anos.’

Os números foram uma aparente referência à sentença de prisão que receberá se for condenado pela nova acusação. O promotor distrital do Bronx, Richard A. Weiss, declarou ter preparado uma acusação de cinquenta páginas para apresentar ao júri de instrução. A denúncia tenaz promovida pelo sr. Weiss neste caso é considerada a chave para a sua reeleição em novembro.

Homem de figura alta e aristocrática, filho de um eminente advogado da Wall Street, John Campbell McCoy, e produto de St. Paul’s School e Yale, o sr. McCoy, 39 anos, vestia uma camisa esporte de colarinho aberto, calça cáqui e sapatos de excursionista. O seu traje contrastava violentamente com os ternos ingleses de 2 mil dólares, feitos sob medida, que o fizeram famoso quando era o lendário ‘rei do mercado de obrigações’ da Pierce & Pierce e percebia um salário de 1 milhão de dólares por ano.

Ao ser conduzido pela porta que dá acesso ao Registro Central do Bronx, no porão do Edifício dos Tribunais, o sr. McCoy declarou, a uma indagação do repórter: ‘Já lhe disse que sou um réu de carreira. Agora me visto pelo figurino da prisão, embora não tenha sido condenado por nenhum crime.’

Queda no estilo de vida

Na leitura da acusação, seis horas mais tarde, o sr. McCoy compareceu diante do juiz Samuel Auerbach apresentando o queixo ligeiramente inchado do lado esquerdo e ferimentos nas juntas das mãos. Interrogado pelo juiz Auerbach, respondeu, cerrando os punhos: ‘Não se preocupe, juiz. Isso é algo que posso resolver sozinho.’

Os policiais comentaram que o sr. McCoy se envolvera numa disputa com dois outros prisioneiros numa cela comum, que resultou numa luta corpo a corpo, mas que dispensara os oferecimentos de tratamento médico.

Quando o juiz perguntou-lhe qual era a sua posição diante da acusação, o sr. McCoy disse em voz alta: ‘Absolutamente inocente.’ Contrariando o conselho do juiz, insistiu em representar-se na leitura da acusação e informou que agirá da mesma forma num futuro julgamento.

Fontes ligadas ao sr. McCoy, cujos bens eram avaliados em mais de 8 milhões de dólares, comentaram que um ano de despesas legais extraordinárias e complicações deixaram-lhe apenas ‘dinheiro suficiente para pagar o aluguel’. Antigo proprietário de um apartamento de 3,2 milhões de dólares num condomínio na Park Avenue, 816, ele agora aluga dois modestos aposentos num prédio do pós-guerra na East 34 th Street, próximo à First Avenue.

A acusação original contra o sr. McCoy, negligência criminosa, foi anulada em junho passado, durante uma audiência turbulenta na câmara do antigo juiz do Supremo Tribunal, Myron Kovitsky. Na tempestade de protestos da comunidade negra que se seguiu, o sr. Weiss apresentou a acusação perante um segundo júri de instrução e obteve um novo indiciamento.

A Organização Democrática do Bronx, atendendo às exigências da comunidade, recusou-se a apresentar como candidato a reeleição o juiz Kovitsky, e ele foi fragorosamente derrotado nas eleições de novembro. Foi substituído pelo veterano juiz Jerome Meldnick. O julgamento do sr. McCoy, em fevereiro, terminou num empate em que três jurados brancos e um hispânico votaram pela sua absolvição.

Há dois meses um júri do Bronx concedeu ao sr. Lamb 12 milhões de dólares numa ação cível contra o sr. McCoy, que apelou dessa sentença. Recentemente, o dr. Albert Vogel, advogado do sr. Lamb, acusou o sr. McCoy de estar escondendo bens a fim de fugir ao cumprimento da sentença. Os bens em questão são o resultado da venda de seu apartamento na Park Avenue e de sua casa em Southampton, Long Island, que ele tentou doar à esposa Judy, com quem não vive, e à filha do casal de sete anos, Campbell. O tribunal congelou esses bens, juntamente com o saldo dos investimentos em títulos e objetos pessoais vendáveis, aguardando o julgamento de seu recurso de prejuízos cíveis.

A sra. McCoy e a filha, segundo é voz corrente, mudaram-se para o meio-oeste, mas a sra. McCoy estava na seção reservada ao público ontem no tribunal, aparentemente incógnita para o barulhento grupo de manifestantes, brancos e negros, que ocupavam a maioria das cadeiras. A certa altura, o sr. McCoy olhou para a esposa, sorriu, e ergueu a mão esquerda numa saudação de punho fechado. O significado desse gesto não foi entendido. A sra. McCoy recusou-se a falar com os repórteres.

Ninho de amor de aluguel tabelado

O casamento do sr. McCoy desestabilizou-se com a revelação de que Maria Ruskin Chirazzi, herdeira da fortuna de Ruskin em fretamentos aéreos, encontrava-se no automóvel com o sr. McCoy no momento em que o sr. Lamb foi atropelado. O casal, como se veio a descobrir, estava tendo um caso num apartamento secreto que foi mais tarde chamado de ‘ninho de amor de aluguel tabelado’. O marido da sra. Chirazzi à época, Arthur Ruskin, faleceu de um ataque cardíaco pouco antes de vir a público o envolvimento de sua esposa no caso.

O promotor distrital Weiss estava disposto a levar novamente a julgamento a acusação de negligência criminosa quando o sr. Lamb faleceu, expondo o sr. McCoy à acusação mais grave de homicídio. O sr. Weiss já anunciara que o promotor distrital assistente, Raymond I. Andriutti, conduziria a acusação. Devido a uma ocorrência anormal, o sr. Weiss foi forçado a remover do caso o promotor do primeiro julgamento, Lawrence N. Kramer, quando se descobriu que o sr. Kramer intercedera com um senhorio para obter o chamado ninho de amor de aluguel tabelado para uma amiga, Shelly Thomas, uma publicitária. O sr. Kramer, que é casado, conheceu a srta. Thomas quando servia como jurada num outro caso em que ele atuou como promotor. O réu daquele caso, Herbert (Herbert 92X) Cantrell, obteve uma revogação de sua condenação de homicídio de primeiro grau alegando ‘má conduta do promotor’.

O sr. Andriutti declarou ontem que convocaria a sra. Chirazzi para testemunhar pela promotoria no novo julgamento do sr. McCoy, apesar de uma controvérsia sobre o seu testemunho perante o júri de instrução ter sido a causa da anulação do primeiro indiciamento do sr. McCoy pelo juiz Kovitsky. Ela não testemunhou no primeiro julgamento.

Propriedade elegante

Os problemas legais do sr. McCoy multiplicaram-se ontem, quando a funcionária de uma firma imobiliária, Sally Rawthrote, entrou com uma ação de 500 mil dólares contra ele no Tribunal Civil de Manhattan. A sra. Rawthrote recebeu uma comissão de 192 mil dólares pela venda do apartamento do sr. McCoy na Park Avenue por 3,2 milhões de dólares. Mas o sr. Lamb, por intermédio do dr. Vogel, processou-a para recuperar os 192 mill dólares, alegando que tal soma deveria ser desviada para o pagamento da ação de indenização que o sr. Lamb impetrou contra o sr. McCoy. A sra. Rawthrote acusa o sr. McCoy de ‘pôr à venda ilegalmente uma propriedade gravada’. Em declaração, afirmou que estava ‘apenas se precavendo de uma possível perda de sua comissão legal’ e na verdade deseja o bem do sr. McCoy.

Exatamente de que maneira o sr. McCoy pretende resolver esse e outros complexos problemas legais que decorrem do caso é uma incógnita. Procurado em sua casa em Long Island, o ex-advogado do sr. McCoy, Thomas Killian, disse que infelizmente já não podia representar o sr. McCoy devido à falta de fundos suficientes para montar uma defesa.

Presentemente, o sr. Killian está muito ocupado com uma barragem de ações impetradas por seus novos vizinhos na elegante comunidade de Lattingtown, no litoral norte. Há pouco tempo ele adquiriu a propriedade de 80.000m2 de Phipps e contratou o conhecido arquiteto moderno, Hudnall Stallworth, para projetar uma ampliação da casa principal, que está registrada no Patrimônio Histórico Nacional. Os conservacionistas locais objetam que se façam quaisquer alterações na majestosa estrutura georgiana.

O sr. Killian, porém, é veemente na defesa do sr. McCoy. Num discurso no almoço de um grupo privado, ontem, dizem que se referiu ao indiciamento por homicídio com um conhecido expletivo escatológico e declarou o seguinte: ‘Se este caso fosse julgado in foro conscientiae (no tribunal da consciência), os acusados deveriam ser Abe Weiss, Reginald Bacon e Peter Fallow de The City Light.’

Milton Lubell, porta-voz do sr. Weiss, informou que o promotor distrital não iria responder a ‘palpites’ de ‘alguém que não tem ligação com o caso’. E acrescentou: ‘Somente o tratamento privilegiado, dispensado por certos elementos do sistema penal, mantiveram o sr. McCoy à margem da lei até agora. É trágico que fosse preciso Henry Lamb morrer, um rapaz que representava os ideais de nossa cidade, para que finalmente se fizesse justiça neste caso.’

Buck Jones, porta-voz da Solidariedade dos Povos do reverendo Bacon, repudiou a acusação do sr. Killan classificando-a de ‘a costumeira conversa ambígua e racista de um porta-voz racista de um conhecido capitalista racista’, que está procurando ‘fugir ao pagamento devido pela destruição racista de um excelente rapaz’.

O sr. Fallow, vencedor do prêmio Pulitzer pela cobertura do caso McCoy, não foi encontrado pelo repórter. Aparentemente encontra-se num veleiro navegando pelo mar Egeu com Lady Evelyn, com quem se casou há duas semanas, e que é filha de Sir Gerald Steiner, o célebre editor e financista.”