A Fogueira das Vaidades
Capítulo 12
12
O ÚLTIMO GRANDE FUMANTE
Depois de um sono irrequieto, Sherman chegou à Pierce & Pierce às 8 horas. Sentia-se exausto e o dia ainda não começara. A sala de operação de obrigações tinha um ar alucinatório. A claridade espantosa que entrava pelo lado do porto... as silhuetas que se contorciam... os algarismos verde-rádio que deslizavam pela superfície de um número infinito de terminais de computação... os jovens Senhores do Universo, tão absolutamente alienados, gritando com as rosquinhas elétricas.
— Pago dois!
— É, mas e a ressalva da data de lançamento?
— Caiu dois ticks!
— Uma ova! Não se pode apagar um estopim!
Até Rawlie, o pobre e deprimido Rawlie, estava em ação, com o telefone ao ouvido, os lábios se mexendo a um quilômetro por minuto, tamborilando no tampo da escrivaninha com um lápis. O jovem Arguello, senhor dos pampas, estava com a cadeira deitada para trás, as coxas abertas, o telefone ao ouvido, os suspensórios de moiré resplandecendo e um largo sorriso naquele rosto jovem de gigolô. No dia anterior fechara no Japão uma transação fantástica com obrigações do Tesouro. A sala inteira comentava. Sorrindo, sorrindo, sorrindo, sorrindo, o seboso sentava-se em triunfo.
Sherman sentiu muita vontade de ir ao Yale Club tomar um banho turco, deitar numa daquelas mesas de tampo de couro, fazer uma boa massagem, enérgica e quente, e ir dormir.
Sobre a mesa encontrou um recado, urgente, para chamar Bernard Levy em Paris.
A quatro terminais de distância, Félix trabalhava no sapato direito de um jovem ás, antipático, chamado Ahlstrom, recém-saído de Wharton. Ahlstrom estava ao telefone. Só marcando tentos, hein, sr. Ahlstrom? Félix — The City Light. Estaria nas bancas a essa altura. Queria ver o jornal, mas temia vê-lo.
Mal se dando conta do que fazia, Sherman levou o telefone ao ouvido e discou o número da Trader T em Paris. Debruçou-se na mesa e apoiou-se nos dois cotovelos. Assim que Félix terminasse com o jovem Ahlstrom, ele o chamaria. Uma parte da sua mente estava ouvindo quando a rosquinha francesa, Bernard Levy, disse:
— Sherman, depois que falamos ontem, conversei com Nova York, e todos concordaram que você tem razão. Não tem sentido esperar.
Graças a Deus.
— Mas — continuou Bernard —, não podemos chegar a 96.
— Não podemos chegar a 96?
Estava ouvindo palavras prodigiosas... porém não conseguia se concentrar... Os jornais matutinos, o Times, o Post, o News, que lera durante a corrida de táxi até o centro, continham repetições da reportagem de The City Light, acrescidas de mais declarações do tal negro, reverendo Bacon. Violentas denúncias contra o hospital onde o garoto continuava em coma. Por um momento Sherman se animara. Estavam culpando o hospital de tudo! Então percebeu que isso era apenas a racionalização do seu desejo. Iriam culpar... Era ela quem estava dirigindo. Se eles finalmente apertassem o cerco, se tudo mais falhasse, era ela quem estava dirigindo. Era ela. Aferrou-se a isso.
— Não, 96 não está mais em cogitação — disse. — Mas estamos prontos a fechar a 93.
— Noventa e três!
Sherman se aprumou na cadeira. Isso não podia ser verdade. Com certeza, em seguida Bernard ia lhe dizer que se enganara. Diria 95 na pior das hipóteses. Sherman pagara 94. Seiscentos milhões de obrigações a 94! A 93, a Pierce & Pierce iria perder 6 milhões de dólares.
— Seguramente você não disse 93!
— Noventa e três, Sherman. Achamos que é um preço justo. De qualquer forma, essa é a oferta.
— Deus do céu… Tenho que pensar um instante. Ouça, volto a ligar. Você vai estar aí?
— Claro.
— Tudo bem. Volto a ligar daqui a pouco.
Desligou e esfregou os olhos. Nossa! Devia haver um jeito de corrigir isso. Deixara-se assustar por Bernard no dia anterior. Fora fatal! Bernard percebera o pânico em sua voz e recuara. Controle-se! Reorganize-se! Pense bem! Não pode deixar a transação ir por água abaixo depois de tudo isso! Ligue para ele de novo e seja você mesmo, o melhor operador da Pierce & Pierce! — Senhor do... Perdeu o pique. Quanto mais se animava, mais nervoso ficava. Consultou o relógio. Olhou para Félix. Félix estava justamente se levantando. Fez-lhe sinal para se aproximar. Tirou o clipe de notas do bolso da calça, sentou-se, colocou-o sobre os joelhos para escondê-lo, puxou uma nota de cinco dólares e a meteu em um envelope pardo, em seguida se pôs de pé enquanto Félix se aproximava.
— Félix, há cinco dólares aí dentro. Será que pode descer e comprar o City Light para mim? O troco é seu.
Félix olhou para ele, lançou-lhe um sorriso estranho e disse:
— Tudo bem, mas sabe, da última vez me deixaram esperando na banca, o elevador não vinha e perdi um tempão. São cinquenta andares para descer. Leva um tempão. — Ele não se mexeu.
Era um absurdo! Estava alegando que cinco dólares para ir buscar um jornal de 35 cents estava reduzindo sua margem de lucro como engraxate! Tinha a coragem de extorqui-lo — ahhhh... era isso. Alguma espécie de radar primitivo lhe dizia que se Sherman estava escondendo o jornal em um envelope, então é porque era contrabando. Era ilegal. Era desespero, e as pessoas desesperadas pagam mais.
Mal conseguindo conter a fúria, Sherman meteu a mão no bolso e retirou mais uma nota de cinco dólares e empurrou-a para o negro, que a apanhou, lançou-lhe um olhar impertinentemente entediado e saiu com o envelope.
Ele tornou a ligar para Paris.
— Bernard?
— Eu.
— Sherman. Ainda estou examinando a questão. Dê-me mais uns quinze ou vinte minutos.
Pausa.
— Tudo bem.
Sherman desligou e olhou na direção da grande janela de fundos. As silhuetas subiam e desciam e se contorciam em movimentos rápidos, formando imagens delirantes. Se estivesse disposto a chegar a 95... Não demorou nada e o negro voltou. Entregou-lhe o envelope sem dizer palavra ou exprimir algo inteligível.
O envelope estava estufado com o tabloide. Era como se tivesse dentro alguma coisa viva. Guardou-o debaixo da mesa, onde a coisa se debateu.
Se jogasse parte de seu lucro na transação... Começou a anotar os números num pedaço de papel. A visão dos números — sem significação! Não se ligavam com nada! Ouvia a própria respiração. Apanhou o envelope e rumou para o banheiro masculino.
No interior do cubículo, a calça do seu terno de 2 mil dólares da Saville Row adornando a tampa do vaso sem proteção, seus sapatos New & Lingwood apoiados contra o vaso de porcelana, Sherman abriu o envelope e retirou o jornal. Cada estrépito do jornal o acusava. A primeira página... “ESCÂNDALO DOS ELEITORES-FANTASMAS DE CHINATOWN”... que interesse tinha isso... Abriu o jornal... Página 2... Página 3... a foto de um chinês dono de restaurante... Estava na segunda metade da página.
“RESULTADOS SECRETOS
NO ATROPELAMENTO DO BRONX ”
Acima da manchete, em letras brancas numa tarja preta: “Nova bomba no caso Lamb”. Abaixo da manchete, mais uma tarja preta: “Exclusiva de City Light”. A reportagem era do mesmo Peter Fallow:
“Declarando estar [cheio dessa embromação], uma fonte do Registro de Veículos forneceu ontem a The City Light uma listagem de computador que reduz para 124 o número de veículos que poderiam estar envolvidos no atropelamento e fuga que incapacitou Henry Lamb, o aluno brilhante.
A fonte, que no passado já trabalhou com a polícia em casos semelhantes, disse: ‘Eles podem investigar 124 veículos em poucos dias. Mas precisam querer destacar os policiais necessários à tarefa. Quando a vítima mora em um conjunto habitacional, eles nem sempre querem.’
Lamb, que vive com a mãe viúva no Edgar Allan Poe Towers, um conjunto habitacional do Bronx, encontra-se aparentemente em coma irreversível. Antes de perder a consciência, conseguiu dizer à mãe a primeira letra — R — e cinco possibilidades para a segunda letra — E, F, B, R, P — da placa do luxuoso Mercedes-Benz que o atropelou no Bruckner Boulevard e fugiu.
A polícia e a Promotoria Distrital do Bronx levantaram a objeção de que aproximadamente quinhentos Mercedes-Benz registrados no estado de Nova York têm placas que começam com essas letras, um número alto demais para justificar uma verificação veículo por veículo, em um caso em que a única testemunha conhecida, o próprio Lamb, talvez nunca recobre a consciência.
Mas a fonte de The City Light no Registro de Veículos informou: ‘Claro, há quinhentas possibilidades, mas apenas 124 são prováveis. O Bruckner Boulevard, onde o rapaz foi atropelado, não é exatamente uma atração turística. Seria lógico presumir que o veículo pertença a alguém da cidade de Nova York ou de Westchester. Se nos basearmos nesse pressuposto — e já vimos os tiras fazerem isso em outros casos — o número ficará reduzido a 124.’
A revelação induziu o líder negro Reginald Bacon a fazer novas exigências no sentido de que sejam feitas investigações completas sobre o incidente.
‘Se a polícia e o promotor distrital não quiserem fazê-la, nós as faremos por conta própria’, disse Bacon. ‘A estrutura do poder permite que destruam a vida desse jovem brilhante e, como única reação, boceja. Mas não vamos tolerar isso. Temos a listagem, agora, e procuraremos os carros nós mesmos se tivermos que fazê-lo.’”
O coração de Sherman saltou dentro do peito.
“Diz-se que o bairro de Lamb, South Bronx, está ‘revoltado’ e ‘espumando de fúria’ com o tratamento que os ferimentos do rapaz receberam e a suposta relutância das autoridades em ampliar as investigações do caso.
Um porta-voz da Secretaria de Saúde declarou que estava em curso uma ‘investigação interna’. A polícia e o promotor distrital do Bronx, Abe Weiss, informaram que as investigações ‘prosseguem’. Recusaram-se a comentar sobre a redução do número de veículos, mas a porta-voz do Registro de Veículos, Ruth Berkowitz, referindo-se às informações obtidas por The City Light, disse: ‘A liberação não autorizada de dados do cadastro de proprietários de veículos, em um caso delicado como esse, é uma desobediência séria e muito irresponsável aos regulamentos deste departamento.’”
Era só. Sherman continuou sentado no vaso sanitário olhando fixamente para o texto impresso. Apertando o cerco! Mas a polícia não estava prestando atenção ao caso... Sim, mas suponha que esse... esse Bacon... e um bando de negros raivosos, revoltados, começassem a investigar os carros por conta própria... Tentou visualizar... Era grosseiro demais para sua imaginação... Ergueu os olhos para a porta bege-acinzentada do cubículo... A dobradiça pneumática da porta do banheiro masculino estava girando. Então uma porta se abriu uns dois cubículos mais adiante. Devagarinho Sherman fechou o jornal, dobrou-o e meteu-o de volta no envelope. Muito devagarinho levantou-se do vaso sanitário; muito silenciosamente abriu a porta do cubículo; muito furtivamente atravessou o banheiro masculino, enquanto seu coração disparava.
De volta à sala de operação de obrigações, ergueu o telefone. Preciso ligar para Bernard. Preciso ligar para Maria. Tentou assumir uma expressão facial de quem trata de negócios. Ligações pessoais da sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce não eram nada bem-vindas. Ligou para o apartamento na Fifth Avenue. Uma mulher com um sotaque espanhol atendeu. A sra. Ruskin não estava. Ligou para o esconderijo, discando os números com grande determinação. Não atendia. Tornou a se recostar na cadeira. Seus olhos perderam-se na distância... a claridade, as silhuetas se agitando, o ruído...
O som de alguém estalando os dedos acima de sua cabeça... Olhou para cima. Era Rawlie estalando os dedos.
— Acorde. Não é permitido pensar por aqui.
— Eu só estava... — Não se deu ao trabalho de terminar porque Rawlie já se fora.
Curvou-se sobre a mesa e examinou os algarismos verde-rádio deslizando pelas telas.
Num impulso decidiu procurar Freddy Button.
Que diria a Muriel, a assistente de vendas? Diria que ia ver Mel Troutman na Polsek & Fragner para conversar sobre o lançamento da Medicart Fleet... Isso é o que diria a ela... e a ideia deixou-o com náuseas. Uma das máximas do Leão era “uma mentira pode enganar os outros, mas lhe grita a verdade: você é fraco”.
Não conseguia se lembrar do número de telefone de Freddy Button. Fazia muito tempo que não lhe telefonava. Procurou-o no caderninho de telefones.
— Aqui é Sherman McCoy. Gostaria de falar com o sr. Button.
— Sinto muito, sr. McCoy, ele está com um cliente. Será que pode ligar depois?
Sherman fez uma pausa.
— Diga-lhe que é urgente.
A secretária fez uma pausa.
— Um momento.
Sherman estava curvado sobre a escrivaninha. Olhou para os pés no chão... o envelope com o jornal. Não! Suponha que chamasse Freddy pelo interfone, e outro advogado, alguém que conhecesse seu pai, a ouvisse dizer... “Sherman McCoy, urgente”...
— Desculpe! Espere um instante! Não faz mal... ainda está aí? — ele gritava ao telefone. A moça se fora.
Olhou fixamente para o envelope. Rabiscou uns números num pedaço de papel, para parecer ocupado e profissional. A próxima coisa que ouviu foi a voz sempre suave e sempre anasalada de Freddy Button.
— Sherman, como vai? Que foi que houve?
Na saída, Sherman pregou a sua mentira a Muriel e se sentiu ordinário, sórdido e fraco.
A exemplo de muitas famílias protestantes conservadoras e há muito radicadas em Manhattan, os McCoys sempre tinham feito questão de que outros protestantes cuidassem de seus negócios particulares e de seus corpos. Atualmente isso custava algum esforço. Dentistas e contadores protestantes eram bichos raros e médicos protestantes não eram nada fáceis de se encontrar.
Advogados protestantes, porém, havia em quantidade, ao menos na Wall Street, e Sherman se tornara cliente de Freddy Button, da mesma maneira que se alistara nos Knickerbocker Greys, o corpo de cadetes infantis, quando criança. Seu pai providenciara tudo. Quando Sherman estava nos últimos anos de Yale, o Leão achou que estava na hora de fazer um testamento, algo prudente e metódico que fazia parte de seu crescimento. Então encaminhou-o a Freddy, que era nessa época um sócio novo e recente de Dunning Sponget. Sherman nunca tivera que se preocupar se Freddy era ou não um bom advogado. Procurara-o para ser organizado: para preparar testamentos, refeitos quando se casara com Judy e quando Campbell nascera, contratos, quando comprara o apartamento na Park Avenue e a casa em Southampton. A compra do apartamento fizera Sherman pensar duas vezes. Freddy soube que ele pedira 1,8 milhão de dólares emprestados para comprá-lo, e isso era mais do que queria que o pai (tecnicamente sócio de Freddy) soubesse. Freddy guardara segredo. Mas num assunto obsceno como esse, com os jornais alardeando, haveria alguma razão — alguma diretriz — alguma prática da firma — alguma coisa que obrigasse a história a circular entre os outros sócios — até chegar ao velho Leão?
Dunning Sponget & Leach ocupava quatro andares de um arranha-céu na Wall Street, a três quarteirões da Pierce & Pierce. Quando fora construído, era a última palavra no estilo moderno da década de 1920, mas agora tinha a aparência fuliginosa e triste, típica da Wall Street. Os escritórios de Dunning Sponget lembravam os da Pierce & Pierce. Em ambos os casos, os interiores modernos tinham sido revestidos com painéis ingleses do século XVIII e recheados de mobília inglesa do século XVIII. Isso porém não afetava Sherman. Para ele, tudo o que dizia respeito a Dunning Sponget era tão venerável quanto seu pai.
Para seu alívio, a recepcionista não reconheceu sua pessoa nem seu nome. Naturalmente, a essa altura o Leão não passava de um dos velhos e enrugados sócios que infestavam os corredores durante algumas horas por dia. Sherman acabara de se acomodar em uma poltrona quando a secretária de Freddy Button, srta. Zilitsky, apareceu. Conduziu-o por um corredor silencioso.
Freddy, alto, magro, elegante, charmoso, fumando, aguardava-o de pé à porta de sua sala.
— Al-ô, Sherman! — Uma espiral de fumaça de cigarro, um magnífico sorriso, um aperto de mão caloroso, uma encantadora demonstração de prazer ao ver Sherman McCoy.
— Puxa vida, puxa vida, como vai? Sente-se. Que tal uma xícara de café? Srta. Zilitsky!
— Não, obrigado. Para mim, não.
— Como vai Judy?
— Ótima.
— E Campbell? — Ele sempre se lembrava do nome de Campbell, o que agradava a Sherman, mesmo na presente situação.
— Ah, está crescendo que é uma beleza.
— Está na Taliaferro agora, não está?
— Está. Como soube disso? Foi meu pai quem disse?
— Não, minha filha Sally. Formou-se na Taliaferro há dois anos. E simplesmente adorava a escola. Elas são atualizadas em tudo. Está na Brown agora.
— E está gostando da Brown? — Essa não, por que estou me dando ao trabalho de perguntar? Mas sabia a razão. A torrente fútil, rápida e volumosa de charme produzida por Freddy envolvia a pessoa. Indefesa, ela respondia o esperado.
Foi um erro. Freddy imediatamente emendou com uma anedota sobre a Brown e os dormitórios mistos. Sherman nem se importou em prestar atenção. Para explicar, Freddy virava as mãos longas para cima num gesto lânguido e efeminado. Estava sempre falando sobre famílias, a família dele, a sua família, a família de outras pessoas, e era homossexual. Não havia dúvida. Freddy tinha uns cinquenta anos, 1,90 metro ou mais, desajeitadamente estruturado, mas elegantemente vestido ao estilo inglês. O cabelo louro e muito liso, agora embotado por uma crescente mecha grisalha, estava alisado para trás à moda dos anos 1930. Languidamente, acomodou-se na cadeira à escrivaninha diante de Sherman, continuando a falar e a fumar. Deu uma longa tragada no cigarro e deixou a fumaça espiralar da boca e inalou-a pelas narinas em duas grossas colunas. Isso antigamente era conhecido como inalação à francesa e era muito familiar a Freddy Button, o último Grande Fumante. Soprou anéis de fumaça. Inalou à francesa e soprou outros grandes anéis de fumaça e em seguida rápidos aneizinhos, que passavam por dentro dos grandes. De tempos em tempos, em vez de segurar o cigarro entre os primeiros dois dedos, segurava-o entre o polegar e o indicador, aprumado, como uma vela. Por que seria que os homossexuais fumavam tanto? Talvez porque fossem autodestrutivos. Mas a palavra autodestrutivo era o limite máximo da familiaridade de Sherman com o pensamento psicanalítico, e então seus olhos começaram a vagar. O escritório de Freddy estava “produzido”, a julgar pela maneira de Judy falar em “produzir” apartamentos. Parecia algo saído das páginas de uma dessas abomináveis revistas... veludo borgonha, couro sangue de boi, madeira envernizada, latão e bibelôs de prata... De repente Freddy, seu charme, seu gosto se tornaram supremamente enfadonhos.
Freddy deve ter percebido sua irritação, porque interrompeu a história e disse:
— Bem... disse-me que aconteceu alguma coisa com você e seu carro.
— Infelizmente, você pode ler o que foi, Freddy. — Sherman abriu a pasta, tirou um envelope da Pierce & Pierce e puxou o exemplar de The City Light, dobrou-o na página 3 e estendeu-o por sobre a mesa. — A notícia na parte inferior da página.
Freddy apanhou o jornal com a mão esquerda, e com a direita apagou o cigarro num cinzeiro Lalique com a cabeça de um leão esculpida na borda. Puxou um lenço de seda branca que saiu displicentemente, voluptuosamente, do bolso do peito do paletó e retirou um par de óculos de aros de tartaruga. Então pousou o jornal e colocou os óculos com as duas mãos. Do bolso superior interno do paletó tirou uma cigarreira de prata e marfim, abriu-a e apanhou um cigarro preso por um clipe de prata. Bateu-o na tampa da cigarreira, acendeu-o com um isqueiro de prata fino e canelado, apanhou o jornal e começou a ler; ou a ler e a fumar. Com os olhos fixos no jornal, levou o cigarro aos lábios naquela posição de vela, entre o polegar e o indicador, deu uma longa tragada, girou os dedos e — bingo! — o cigarro saltou, colocando-se entre os nós dos dedos indicador e médio. Sherman ficou maravilhado. Como fizera aquilo? Então se enfureceu. Banca o acrobata do fumo — no meio da minha crise.
Freddy terminou de ler a notícia, pousou o cigarro no cinzeiro Lalique com todo o cuidado, tirou os óculos, tornou a guardá-los entre as dobras acetinadas do lenço de seda, apanhou o cigarro outra vez e deu mais uma profunda tragada.
Sherman disse quase cuspindo as palavras:
— Foi sobre o meu carro que você acabou de ler.
A raiva em sua voz assustou Freddy. Com extrema cautela, como se estivesse pisando em ovos, perguntou:
— Você tem um Mercedes com um número de placa que começa com R? R alguma coisa?
— Exatamente. — Sibilando.
Freddy, desnorteado:
— Bom... por que não me conta o que aconteceu?
Só quando Freddy pronunciou essas palavras é que Sherman se deu conta de que... estava doido para contar! Estava doido para confessar... a alguém! A qualquer um! Até mesmo a esse Turnvereiner, esse ginasta da nicotina, esse homossexual almofadinha que era sócio de seu pai! Nunca encarara Freddy com tal clareza antes. Via-o agora. Freddy era uma espécie de varinha mágica de charme para cujo escritório uma firma da Wall Street, do porte da Dunning Sponget, desviava todas as viúvas e herdeiros, como ele, que presumivelmente possuíam mais dinheiro do que problemas. Era, porém, o único confessor disponível.
— Tenho uma amiga chamada Maria Ruskin — disse. — É mulher de um homem chamado Arthur Ruskin, que ganhou montes de dinheiro Deus sabe fazendo o quê.
— Já ouvi falar dele — disse Freddy, acenando com a cabeça.
— Andei... — Sherman parou. Não sabia muito bem como se expressar. — Andei vendo bastante a sra. Ruskin. — Comprimiu os lábios e olhou para Freddy. — A mensagem silenciosa era: “É, exatamente; um caso sórdido e banal de luxúria.”
Freddy assentiu.
Sherman tornou a hesitar, então mergulhou nos detalhes do passeio de automóvel no Bronx. Estudava o rosto de Freddy à procura de sinais de censura — ou ainda pior! — prazer! Não constatou nada, exceto uma preocupação amistosa pontuada por anéis de fumaça. Sherman, porém, já não sentia raiva dele. Que alívio! A peçonha estava sendo expelida! Meu confessor!
À medida que contava a história, tomava consciência de algo mais: uma alegria irracional. Ele era a personagem principal dessa história excitante. Mais uma vez sentiu orgulho — um orgulho imbecil! — de ter lutado na selva e vencido. Estava no palco. Era o astro! A expressão de Freddy passara de amistosa e preocupada... para a de pura fascinação...
— E aqui estou — disse Sherman finalmente. — Não consigo imaginar o que fazer. Gostaria de ter ido diretamente à polícia quando aconteceu.
Freddy recostou a cabeça, olhou para longe, deu uma tragada no cigarro, e então tornou a se virar para Sherman e lhe deu um sorriso tranquilizador.
— Bom, pelo que me disse, você não é responsável pelas lesões do rapaz. — Ao falar, a fumaça inalada saía de sua boca em jatos suaves. Sherman não via alguém fazer isso há anos. — Você talvez tenha alguma responsabilidade; como proprietário do veículo teria que comunicar o ocorrido, e talvez haja a questão da fuga da cena do acidente. Eu precisaria consultar o Código. Suponho que possam fundamentar uma acusação de agressão, por atirar o pneu, mas não creio que se sustentasse, uma vez que, sem dúvida alguma, você tinha razões para acreditar que sua vida estivesse em perigo. De fato, as circunstâncias não são tão extraordinárias quanto você poderia pensar. Conhece Clinton Danforth?
— Não.
— Ele é presidente da Danco. Representei-o numa ação contra a Triple A. Na realidade, creio que a firma era o Automóvel Clube de Nova York. Ele e a esposa... você nunca viu Clinton?
— Vi Clinton? Não.
— Muito respeitável. Lembra um desses capitalistas que os cartunistas costumavam desenhar, de cartola. Em todo caso, uma noite Clinton e a mulher estavam voltando para casa de carro... — Agora ele desfiava uma história sobre o carro de seu ilustre cliente, que enguiçou no Ozone Park, em Queens. Sherman peneirou as palavras procurando uma pepita de esperança. Então percebeu que isso era apenas o charme reflexo de Freddy em ação. A essência do indivíduo socialmente encantador era ter uma história, de preferência com nomes altissonantes, que cobrisse qualquer assunto. Em um quarto de século de advocacia, esse provavelmente era o único caso defendido por Freddy que tinha alguma ligação com as ruas de Nova York.
— ... um negro com um cão pastor na coleira...
— Freddy. — Sherman estava sibilando outra vez. — Não estou interessado no seu amigo gordo, Danforth.
— O quê? — Freddy, desconcertado e chocado.
— Não tenho tempo para isso. Tenho um problema.
— Ah, ouça. Por favor, desculpe-me. — Freddy falou baixinho, cautelosamente; mas também com tristeza, como se falasse com um doido que estivesse se enfurecendo. — Sinceramente, estava apenas tentando lhe mostrar...
— Não se preocupe em me mostrar. Apague o cigarro e me diga o que pensa.
Sem despregar os olhos do rosto de Sherman, Freddy apagou o cigarro no cinzeiro Lalique.
— Muito bem, vou lhe dizer exatamente o que penso.
— Não quis ser ríspido, Freddy, mas puxa vida...
— Eu sei, Sherman.
— Por favor, fume se quiser, mas vamos nos ater ao problema.
As mãos dele adejaram para indicar que fumar não era importante.
— Tudo bem — disse Freddy —, é assim que vejo a coisa. Acho que você não tem culpa na principal acusação, que é a lesão corporal. Poderia possivelmente correr o risco de uma acusação de crime doloso por ter fugido da cena do acidente e não notificar a polícia. Como disse, vou verificar isso. Mas creio que não é um caso muito difícil, presumindo que possamos estabelecer a sequência de acontecimentos que você resumir para mim.
— Que quer dizer com “estabelecer”?
— Bom, o que me preocupa nessa reportagem é que está muito distanciada dos fatos que me descreveu.
— Ah, sei disso! — disse Sherman. — Não há menção do outro... do outro sujeito, o que veio na minha direção primeiro. Não há uma única palavra sobre a barricada e nem mesmo sobre a rampa. Estão dizendo que aconteceu no Bruckner Boulevard. Não aconteceu no Bruckner Boulevard nem em nenhum outro bulevar. Estão inventando que esse garoto, esse... aluno brilhante... esse santo negro... estava atravessando a rua, cuidando de sua vida, quando um racista branco num carro de luxo passou, atropelou-o e seguiu caminho. É uma loucura! Não param de dizer que é um “carro de luxo” e é só um Mercedes. Nossa, um Mercedes é o que um Buick costumava ser.
O arquear de sobrancelhas de Freddy disse: “Não é bem assim.” Mas Sherman prosseguiu:
— Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Freddy. O fato de que... — começou a dizer “Maria Ruskin” mas não quis parecer ansioso por se livrar da responsabilidade — o fato de que eu não estava guiando quando o garoto foi atropelado me deixa legalmente isento de culpa?
— Parece-me que sim, no que concerne às lesões infligidas ao rapaz. Mais uma vez, gostaria de examinar o Código. Mas deixe-me perguntar uma coisa. Qual é a versão de sua amiga, a sra. Ruskin, sobre os acontecimentos?
— A versão dela?
— É. Como ela diz que esse sujeito foi atropelado? Diz que estava dirigindo o carro?
— Se diz que estava dirigindo? Ela estava dirigindo.
— Sei, mas vamos supor que veja uma possibilidade de ser acusada de um crime doloso se disser que estava dirigindo.
Sherman ficou sem fala por um instante.
— Bom, não posso imaginar que fosse... — Mentir foi o que quis dizer, mas não disse, porque na verdade isso não estava inteiramente fora do domínio da imaginação. A ideia o chocou. — Bom... só posso lhe afirmar que todas as vezes que conversamos, ela disse a mesma coisa. Sempre usou a expressão “Afinal era eu que estava dirigindo”. Quando sugeri pela primeira vez que fôssemos à polícia, logo depois do acidente, foi isso que me disse: “Era eu que estava dirigindo. Portanto, cabe a mim decidir.” Quero dizer, acho que tudo pode acontecer, mas... Deus do céu!
— Não estou tentando semear dúvida, Sherman. Só quero ter certeza de que sabe que ela talvez seja a única pessoa que pode corroborar a sua versão... e correndo algum risco pessoal.
Sherman afundou na cadeira. A guerreira voluptuosa que combatera a seu lado na selva e depois, esplendorosa, fizera amor com ele no chão...
— Então se eu for à polícia agora — disse — e contar o que aconteceu, e ela não confirmar minhas declarações, estarei numa situação pior do que estou agora.
— É uma possibilidade. Olhe, não estou sugerindo que não vá confirmar. Só quero que esteja consciente... de sua posição.
— Que acha que devo fazer, Freddy?
— Com quem conversou sobre isso?
— Com ninguém. Só você.
— E Judy?
— Não. Muito menos com Judy, se quer saber a verdade.
— Bom, por ora não deve tocar nesse assunto com ninguém, provavelmente nem com Judy, a não ser que se sinta obrigado a fazê-lo. Mesmo assim, deve convencê-la da necessidade de ficar absolutamente calada. Ficaria surpreso se soubesse como as coisas que se diz podem ser apanhadas e distorcidas contra a pessoa, se alguém quiser. Já vi isso acontecer com demasiada frequência.
Sherman duvidou, mas meramente assentiu.
— Entrementes, com a sua permissão, vou discutir essa situação com outro advogado que conheço, um sujeito que trabalha nessa área em tempo integral.
— Não é alguém daqui da Dunning Sponget...
— Não.
— Porque detestaria ver esse caso ricocheteando pelos corredores deste maldito lugar.
— Não se preocupe, é outro escritório completamente diferente.
— Qual?
— Chama-se Dershkin, Bellavita, Fishbein & Schlossel.
A torrente de sílabas era como um mau cheiro.
— Que tipo de escritório é esse?
— Ah, advogam em todas as áreas, mas são mais conhecidos pelo trabalho em direito penal.
— Direito penal?
Freddy fez um ar de riso.
— Não se preocupe. Advogados penalistas assistem a pessoas que não são criminosas também. Já usamos esse sujeito antes. O nome dele é Thomas Killian. É muito inteligente. Tem mais ou menos a sua idade. Frequentou Yale, por falar nisso, ou pelo menos a faculdade de direito. É o único irlandês que se formou em direito por Yale, e é o único aluno de Yale que se tornou penalista. Estou exagerando, é claro.
Sherman tornou a afundar na cadeira e procurou absorver o termo “direito penal”. Vendo que mais uma vez era o advogado quem dava as cartas, Freddy puxou a cigarreira de prata e marfim, soltou um Senior Service do clipe de prata, bateu-o, acendeu-o e inalou com profunda satisfação.
— Quero saber a opinião dele — disse Freddy —, principalmente porque, a julgar pela reportagem desse jornal, o caso está assumindo conotações políticas. Tommy Killian pode avaliar isso muito melhor do que eu.
— Dershkin, Mais Alguma Coisa & Schloffel?
— Dershkin, Bellavita, Fishbein & Schlossel — disse Freddy. — Três judeus, um italiano e Tommy Killian, que é irlandês. Deixe-me dizer uma coisa, Sherman. A advocacia está se tornando muito especializada em Nova York. É como se houvesse uma porção de pequenos... clãs... anõezinhos... Vou lhe dar um exemplo. Se eu estivesse sendo processado por negligência na direção de um carro, não iria querer que ninguém na Dunning Sponget me defendesse. Procuraria um desses advogados na Broadway que não fazem outra coisa. São o fundo do tacho da profissão legal. São todos Bellavitas e Schlossels. São mal-educados, grosseiros, maleáveis, pouco atraentes: não dá nem para você imaginar o que são. Mas é quem eu procuraria. Conhecem todos os juízes, todos os escrivães, os outros advogados, sabem fazer acordos. Se alguém chamado Bradshaw ou Farnsworth aparecesse lá representando a Dunning Sponget, dariam o gelo nele. Sabotariam. O mesmo acontece no direito penal. Os advogados penalistas não são bem o bout en train, tampouco, mas em alguns casos há que usá-los. Dadas as circunstâncias, Tommy Killian é uma excelente escolha.
— Essa não — disse Sherman. De tudo o que Freddy dissera, apenas as palavras “direito penal” não lhe saíam da cabeça.
— Não fique tão deprimido, Sherman!
Direito penal.
Quando regressou à sala de operação de obrigações na Pierce & Pierce, a assistente de vendas, Muriel, lançou-lhe um olhar severo.
— Onde estava, Sherman? Andei tentando encontrá-lo.
— Estava... — Começou a repetir a mentira, com acréscimos, mas a expressão no rosto da moça lhe dizia que isso só iria piorar as coisas.
— Está bem, qual foi o problema?
— Apareceu um lançamento assim que você saiu, 200 milhões de Fidelity Mutuals. Então liguei para a Polsek & Fragner, mas você não estava lá e me disseram que sequer era esperado. Arnold não está satisfeito, Sherman. E quer vê-lo.
— Vou vê-lo. — Deu as costas e começou a andar em direção à escrivaninha.
— Um instantinho — pediu Muriel. — Um sujeito em Paris está tentando falar com você, também. Telefonou umas quatro vezes. Sr. Levy. Disse que você prometeu telefonar. Pediu-me para dizer que o preço é 93. Final. Disse que você saberia a que se referia.