A Fogueira das Vaidades
O autor e sua obra
Casado, pai de um filho e dono de uma fulgurante carreira jornalística, Tom Wolfe tornou-se uma espécie de porta-voz da mais conturbada metrópole do planeta: Nova York. Seu romance de estreia, A fogueira das vaidades, encabeçou por catorze semanas a lista de best-sellers do jornal The New York Times. Em dois meses, vendeu mais de um milhão de exemplares. Recentemente lançado no Brasil, o livro também foi incluído rapidamente na relação dos mais vendidos. O romance agitou Nova York. No melhor estilo de Honoré de Balzac ou Émile Zola, seus ídolos confessos, Tom Wolfe fez um admirável retrato da Nova York dos anos 1980 — um aglomerado humano fascinante, mas também uma cidadela implacável, pronta a sugar e engolir os menos desavisados.
Amparadas por um paciente trabalho de pesquisa do autor, as personagens de A fogueira das vaidades ganham contornos extremamente reais. Mas o grande mérito do romance está na riqueza de detalhes com que o autor descreve o fim de uma época — a do deslumbramento yuppie ante os anos de prosperidade irrefreada. Wolfe lançou mão da mesma visão panorâmica que Balzac e Zola usaram para dissecar a Paris do século XIX. “Eu queria provar que não só era possível mas também desejável escrever um romance que utilizasse um enfoque que as pessoas haviam proclamado como morto nos últimos quarenta anos”, confessou ele aos críticos.
A polêmica, aliás, sempre esteve presente em sua vida. Filho de uma tradicional família da Virgínia, Tom Wolfe ou Thomas Kennerly Jr. nasceu na histórica cidade de Richmond a 2 de março de 1931. Seu pai foi professor de agronomia no Instituto Politécnico do Estado. Quando criança, Wolfe reescreveu algumas das lendas do rei Arthur e compilou biografias de outros heróis do passado. Depois de graduado em Yale, tinha tudo para ser tragado pela mesma Wall Street que tão bem descreve em seu primeiro romance. Em vez disso, antecipando a contracultura e o movimento hippie dos anos 1960, decidiu mandar a família às favas e meteu o pé no mundo. Por alguns anos foi motorista de caminhão.
O jornalismo, então, não parecia se enquadrar em suas possíveis opções. Mesmo assim, um tanto tardiamente, aos 31 anos, obteve emprego como foca no jornal Herald Tribune, de Nova York. Como trabalho de estreia, foi enviado a Los Angeles para fazer uma reportagem sobre uma exposição de carros velhos com motor envenenado. Seu editor lhe pediu, então, que fizesse um relatório detalhado sobre tudo o que vira no evento. Ele próprio se encarregaria de dar uma forma convincente ao texto final. No dia seguinte, no entanto, o texto de Wolfe apareceu impresso na íntegra, e na primeira página. Expressões debochadas, uma grande dose de coloquialismo, tiradas geniais e muitas expressões pessoais já chamavam a atenção dos leitores em seu primeiro artigo.
A esse descompromisso com a linguagem formal, Tom Wolfe acrescentou sua irônica capacidade de observação da cena americana. Desde então, sua carreira tem sido uma sucessão de êxitos e ousadias. Em seu primeiro livro, The pump house gang, reuniu uma série de divertidas reportagens sobre os surfistas da Califórnia. Em outro, chamado The electric koll-aid acid test, traçou um perfil cruel da geração psicodélica dos Estados Unidos — em que muitos faziam uma viagem da qual nunca mais voltariam. Em poucos anos, Wolfe angariou fama o bastante para ser considerado um dos pioneiros do New Journalism, movimento que subverteu totalmente os padrões da imprensa norte-americana.
O texto ferino de Tom Wolfe ganharia projeção nacional com a publicação de três outros livros de ensaios-reportagens no início dos anos 1970. O primeiro, Radical chic, nasceu de um ensaio para a revista New York em que Wolfe, após comparecer a uma festa que o maestro Leonard Bernstein oferecia aos líderes dos Panteras Negras, arrasou publicamente o namoro de entediados milionários de Manhattan com militantes de causas radicais. O segundo, A palavra pintada, desancou asperamente certos críticos especializados em artes plásticas. Finalmente, Os eleitos (The right stuff), tornou-se um dos mais belos momentos da carreira do jornalista. O livro, que levou seis anos para ser escrito e deu origem a um filme homônimo, estrelado por Sam Shepard, Scott Glenn, Ed Harris e Dennis Quaid, é um fantástico relato sobre a vida dos astronautas e o programa espacial norte-americano.
Suas tiradas corrosivas tornaram Tom Wolfe um dos mais temidos — e por vezes odiados — jornalistas de Nova York. São os liberais, principalmente, que mais se ressentem de suas estocadas ferinas e maldosas. Wolfe, no entanto, parece pairar acima dessas provocações ideológicas. Tão blasé como sempre, pode ser visto, por exemplo, batendo um papo com o pastor negro Jesse Jackson ou frequentando as badaladas reuniões da Casa Branca, onde se misturam algumas das mais poderosas personalidades do planeta.
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