A Fogueira das Vaidades
Capítulo 5
5
A MOÇA DE BATOM COR DE TERRA
No jirau do sexto andar do Edifício da Municipalidade do Bronx próximo aos elevadores, havia um largo portal emoldurado em dois ou três tons de mogno e mármore, bloqueado por um balcão e uma cancela. Por trás do balcão sentava-se um guarda com um revólver calibre 38 num coldre preso ao quadril. O guarda fazia as vezes de recepcionista. O revólver, que parecia grande o suficiente para deter um furgão, supostamente servia para dissuadir os ocasionais delinquentes vingativos e furiosos do Bronx.
No alto do portal havia grandes letras maiúsculas em estilo romano, que tinham sido fabricadas em latão a um custo considerável para os contribuintes de Nova York e cimentadas no revestimento de mármore com cola epóxi. Uma vez por semana um servente subia numa escada e esfregava as letras com um polidor, para que a legenda RICHARD A. WEISS. PROMOTOR PÚBLICO. MUNICÍPIO DO BRONX brilhasse com mais intensidade do que qualquer outra coisa que os arquitetos do edifício, Joseph H. Fredlander e Max Hausle, tivessem tido a coragem de colocar, mesmo no exterior do prédio, em sua alvorada gloriosa, cinquenta anos antes.
Quando Larry Kramer saiu do elevador e se dirigiu a essa radiosidade de latão, o lado direito de sua boca recurvou-se subversivamente. O A era a inicial de Abraham. Weiss era conhecido por seus amigos, seus companheiros políticos, os repórteres dos jornais, os canais de TV 1, 2, 4, 5, 7 e 11, e os constituintes, predominantemente judeus e italianos dos arredores de Riverdale, Pelham Parkway e Co-op City, como Abe Weiss. Ele odiava o apelido Abe, que haviam lhe pespegado quando era garoto no Brooklyn. Há alguns anos anunciara que preferia que o chamassem de Dick, e fora praticamente enxotado a gargalhadas da organização democrática do Bronx. Essa foi a última vez que Abe Weiss mencionou Dick Weiss. Para Abe Weiss, ser enxotado a gargalhadas da organização democrática do Bronx, ou ser desligado dela de qualquer outro modo, teria sido o mesmo que o atirarem pela amurada num cruzeiro natalino em pleno mar das Caraíbas. Assim sendo, ele só era Richard A. Weiss no New York Times e nos dizeres daquele portal.
O guarda destravou a cancela para Kramer passar, e os tênis de Kramer rangeram no chão de mármore. O guarda lançou-lhes um olhar cheio de dúvida. Como fazia habitualmente, Kramer estava levando os sapatos de couro na sacola de compras da A & P.
Passado o portal, o nível de grandiosidade da Promotoria Distrital apresentava altos e baixos. O gabinete do próprio Weiss era maior e mais vistoso do que o do prefeito de Nova York, devido aos painéis nas paredes. Os chefes de departamentos, Homicídios, Investigações, Delitos Graves, Supremo Tribunal, Tribunal Criminal, Tribunal de Apelação, tinham sua cota de painéis e sofás de couro legítimo ou sintético e cadeiras Sheraton. Mas quando se chegava finalmente aos promotores distritais assistentes, como Larry Kramer, o que se via era o bastante-bom-para-o-serviço-público em termos de decoração de interiores.
Os dois promotores distritais assistentes que dividiam com ele o gabinete, Ray Andriutti e Jimmy Caughey, estavam esparramados em cadeiras giratórias. Só havia espaço suficiente para três escrivaninhas de metal, três cadeiras giratórias, quatro arquivos, um velho cabideiro para casacos com seis ganchos de aspecto feroz e uma mesa com uma máquina de café cercada de uma promiscuidade de xícaras e colheres de plástico, uma massa pegajosa de guardanapos de papel, envelopes brancos de açúcar e envelopes rosa de sacarina grudados numa bandeja de plástico castanho-avermelhada, com uma pasta de cheiro muito adocicado, composta de café derramado e leite em pó. Os dois, Andriutti e Caughey, estavam sentados com as pernas cruzadas do mesmo jeito. O tornozelo esquerdo apoiava-se no joelho direito, como se fossem tão bem-dotados que não pudessem fechar mais o ângulo das pernas, mesmo que quisessem. Essa era a postura de sentar sancionada pela Delegacia de Homicídios, a mais máscula das seis delegacias da Promotoria Distrital.
Os dois estavam sem o paletó, que tinham pendurado no cabideiro com o descuido estudado de quem está se lixando. Estavam com o colarinho da camisa desabotoado e o laço da gravata afrouxado alguns centímetros. Andriutti esfregava as costas do braço esquerdo com a mão direita, como se sentisse comichão. Na realidade, estava apalpando e admirando o tríceps, que ele desenvolvia no mínimo três vezes por semana, fazendo séries de exercícios com pesos no New York Athletic Club. Andriutti podia se dar o luxo de se exercitar no Athletic Club, em vez de fazê-lo em cima do tapete entre uma tina de dracena e um sofá-cama, porque não tinha mulher e filho para sustentar num formigueiro de 888 dólares por mês na área da West 70th Street. Não precisava se preocupar com a atrofia dos tríceps, deltoides e dorsais. Andriutti gostava da ideia de que, quando estendia a mão para puxar um de seus braços maciços por trás, fazia com que os músculos mais largos das costas, os dorsais, os latissima dorsae, se distendessem até praticamente romper a camisa e os peitorais se enrijecerem e se transformassem em duas montanhas de puro músculo. Kramer e Andriutti eram da nova geração, em que os termos “tríceps, deltoides, latissima dorsae e pectoralis major” eram mais conhecidos do que os nomes dos principais planetas. Andriutti esfregava seus tríceps, em média, cento e vinte vezes por dia.
Ainda massageando-os, Andriutti olhou para Kramer, que entrava, e exclamou:
— Nossa, aí vem a mulher da sacola. Que transa de sacola da A & P é essa, Larry? Faz uma semana que todos os dias você entra aqui com essa porra. — Então se virou para Jimmy Caughey e disse: — Parece a mulher da transa da sacola.
Caughey também era atleta, mas do tipo que pratica saltos, de rosto fino e queixo comprido. Apenas sorriu para Kramer, como se dissesse “Bem, que responde a isso?”
Kramer perguntou:
— Está com o braço comichando, Ray? — Em seguida olhou para Caughey e disse: — Ray pegou uma porra de uma alergia. Chama-se síndrome do halterofilista. — E, dirigindo-se novamente a Andriutti: — Coça pra caramba, não é mesmo?
Andriutti tirou a mão do tríceps.
— E para que são esses tênis de corrida? Parece aquelas moças que vão trabalhar a pé na Merril Lynch. Todas arrumadas, com essas porras dessas lanchas de borracha nos pés.
— Afinal o que é que carrega nessa sacola? — perguntou Caughey.
— Meus sapatos de salto alto — respondeu Kramer. Tirou o paletó, pendurou-o à moda da casa, estou-me-lixando, num gancho do cabideiro, afrouxou a gravata, desabotoou a camisa, sentou-se na cadeira giratória, abriu a sacola de compras, fisgou os sapatos de couro marrom da Johnston & Murphy e começou a descalçar os tênis.
— Jimmy — disse Andriutti a Caughey —, você sabia que os judeus homens, Larry... não quero que se ofenda... todos têm um gene bicha? Isso é fato sabido. Não suportam sair na chuva sem guarda-chuva, ou têm todas essas merdas modernas em seus apartamentos, ou não gostam de caçar, ou são a favor da não proliferação nuclear e das ações positivas, ou usam tênis para ir trabalhar, ou alguma frescura dessas. Sabia?
— Puxa — disse Kramer. — Não sei por que achou que eu iria me ofender.
— Vamos, Larry — disse Andriutti —, diga a verdade. Lá no fundo será que não gostaria de ser italiano ou irlandês?
— Gostaria — respondeu Kramer —, assim eu não saberia porra nenhuma do que está rolando neste bordel.
Caughey começou a rir.
— Bom, não deixe Ahab ver esses tênis, Larry. Vai mandar Jeanette preparar a porra de um memorando.
— Não, vai convocar a porra de uma entrevista coletiva — comentou Andriutti.
— É sempre uma boa dica.
E com isso mais uma porra de dia na porra da Delegacia de Homicídios da porra da Promotoria Distrital do Bronx teve seu esporrento início.
Um promotor assistente da Delegacia de Delitos Graves começara a chamar Abe Weiss de “capitão Ahab” e agora todos o imitavam. Weiss era célebre por sua obsessão por publicidade, mesmo entre seus pares, promotores distritais, que eram por natureza doidos por publicidade. De forma diferente dos grandes promotores distritais de outrora, como Frank Hogan, Burt Roberts ou Mario Merola, Weiss nunca punha os pés num tribunal. Não tinha tempo. O dia tinha um número finito de horas para se manter em contato com os canais 1, 2, 4, 5, 7 e 11 e os jornais de Nova York, Daily News, Post, The City Light e o Times.
Jimmy Caughey disse:
— Acabei de ir lá dentro ver o capitão. Você devia...
— Você foi? Para quê? — perguntou Kramer traindo uma curiosidade excessiva e uma inveja nascente na voz.
— Eu e Bernie — disse Caughey. — Ele queria se inteirar do caso Moore.
— É coisa quente?
— Uma merda. Esse babaca desse Moore tem uma mansão em Riverdale, e a mãe da mulher mora com eles e vem infernizando a vida dele há uns 37 anos, certo? Então o cara perde o emprego. Trabalha para uma dessas companhias de resseguros e ganha uns 200 ou 300 mil dólares por ano e agora está desempregado há uns oito ou nove meses, e ninguém quer contratá-lo, e não sabe que diabo vai fazer, certo? Então, um dia está se distraindo com o jardim e a sogra sai e diz: “Ora, ora, quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré.” Isso é uma citação textual. “Quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré. Você devia arranjar um emprego de jardineiro.” Então esse cara fica puto dentro das calças, enlouquecido. Entra e diz para a mulher: “Estou cheio da sua mãe. Vou apanhar minha espingarda e dar um susto nela.” Então sobe até o quarto, onde guarda uma espingarda calibre 12, desce e sai atrás da sogra, e vai lhe pregar um susto do caramba, e diz: “Muito bem, Gladys”, e tropeça no tapete, e a arma dispara e mata e — pum! — Homicídio Não Premeditado.
— Por que Weiss estava interessado?
— Bem, o cara é branco, tem algum dinheiro, mora numa mansão em Riverdale. A princípio pareceu que ele talvez fosse forjar uma morte acidental.
— Isso é possível?
— Não. O babaca é um dos meus. Basicamente um irlandês que venceu na vida, mas continua irlandês. Está afogado em remorsos. Parece até que matou a mãe de tão culpado que se sente. Nesse momento, confessaria qualquer coisa. Bernie poderia sentá-lo diante do vídeo e resolver todos os casos de homicídio do Bronx dos últimos cinco anos. Não, é uma merda, mas parecia quente a princípio.
Kramer e Andriutti imaginaram a merda sem precisar de maiores explicações. Todo promotor assistente no Bronx, desde o italiano mais jovem, recém-saído da St. John’s Law School, até o irlandês mais velho chefe de delegacia, alguém como Bernie Fitzgibbon, com 42 anos, partilhava da mania do capitão Ahab pelo Grande Réu Branco. Para começo de conversa, não era agradável passar a vida dizendo a si mesmo “Ganho a vida despachando pretos e latino-americanos para a cadeia”. Kramer fora criado como liberal. Nas famílias judias como a dele, o liberalismo vinha com o leite da mamadeira, o suco de maçã, a Instamatic e os sorrisos do papai à noite. E mesmo os italianos, como Ray Andriutti, e os irlandeses, como Jimmy Caughey, a quem os pais não chegavam a massacrar com o peso do liberalismo, não podiam evitar serem afetados pela atmosfera mental das faculdades de direito, onde havia tantos professores judeus. Quando se terminava uma faculdade de direito na área de Nova York, era, bom... grosseria!... ao nível social normal... andar fazendo piadas sobre os yoms. Não que fosse moralmente errado... É que era de mau gosto. Assim, essa eterna perseguição dos pretos e dos latinos fazia os rapazes se sentirem mal.
Não que não fossem culpados. Uma coisa que Kramer aprendera nas primeiras duas semanas como promotor assistente no Bronx era que dos 95 por cento dos acusados que chegavam a ser pronunciados, talvez 98 por cento fossem realmente culpados. O volume de casos era tão esmagador, que não se perdia tempo em dar andamento aos casos marginais, a não ser que a imprensa ficasse em cima. Aqueles camburões azul e laranja lá fora na Walton Avenue carreavam culpados às toneladas. Mas os pobres filhos da mãe por trás da tela de arame grosso não chegavam bem a merecer o nome de “criminosos”, se por criminoso tivermos em mente a ideia romântica de alguém que tem um objetivo e procura alcançá-lo por meio de algum recurso desesperado fora da lei. Não eram simplórios incompetentes, a maioria deles, e faziam coisas inacreditavelmente estúpidas e perversas.
Kramer olhou para Andriutti e Caughey, sentados ali com as coxas musculosas em ângulo. Sentia-se superior a eles. Era formado pela Columbia Law School, e os dois eram formados pela St. John, famosa por ser a faculdade de direito dos lanterninhas da competição acadêmica. E era judeu. Muito cedo na vida adquirira a noção de que os italianos e os irlandeses eram animais. Os italianos eram porcos, e os irlandeses, mulas ou bodes. Não se lembrava se os pais realmente usavam ou não esses termos, mas passavam essa ideia com muita clareza. Para seus pais, Nova York — Nova York? ora, todos os Estados Unidos, o mundo inteiro! — era um drama intitulado Os judeus enfrentam os goyim, e os goyim eram animais. Assim, que estava fazendo ali com aqueles animais? Um judeu na Delegacia de Homicídios era coisa rara. A Delegacia de Homicídios era o corpo de elite da promotoria, os fuzileiros navais do promotor público, porque o homicídio era o mais grave dos crimes. Um promotor assistente na Delegacia de Homicídios tinha que estar disponível para sair à rua e ir à cena dos crimes a qualquer hora, noite e dia, ser um verdadeiro comando, trabalhar ombro a ombro com a polícia, saber como confrontar acusados e testemunhas e intimidá-los quando chegasse a hora, e eles seriam muito provavelmente os acusados e testemunhas mais atrasados, mais sinistros, mais mesquinhos na história da justiça criminal. Durante cinquenta anos no mínimo, talvez bem mais, a Delegacia de Homicídios fora um enclave irlandês, mas os italianos conseguiram abrir uma brecha. Os irlandeses deixaram seu selo na delegacia. Eram extremamente corajosos. Mesmo quando seria loucura não recuar, eles jamais recuavam. Andriutti tinha razão, ou meia razão. Kramer não queria ser italiano, mas gostaria de ser irlandês, e Andriutti também gostaria, o babaca. Sim, eram animais! Os goyim eram animais, e Kramer se orgulhava de estar entre animais, na Delegacia de Homicídios.
De qualquer jeito, ali estavam os três, sentados nesse gabinete bastante-bom-para-o-serviço-público, ganhando de 36 a 42 mil dólares por ano em vez de estar na Cravath, Swaine & Moore ou outro lugar de igual categoria, embolsando de 136 a 142 mil dólares por ano. Tinham nascido a milhões de quilômetros da Wall Street, ou seja, nos bairros da periferia. Brooklyn, Queens e Bronx. Para suas famílias, a ida à universidade e a formatura em direito foram o maior acontecimento do mundo desde Franklin Delano Roosevelt. E ficavam sentados na Delegacia de Homicídios falando sobre a porra disso e a porra daquilo, errando na conjugação dos verbos e na pronúncia das palavras como se não tivessem instrução.
Ali estavam eles... e ali estava ele, e quais eram as perspectivas? Quais eram os casos que estavam cuidando? Merdinhas! Um monte de lixo... Arthur Rivera e outro traficante discutem por causa de uma pizza num clube e puxam facas, e Arthur diz: “Vamos guardar as facas e brigar de homem para homem.” E fazem isso, mas logo em seguida Arthur puxa uma segunda faca, golpeia o outro cara no peito e o mata... Jimmy Dollard. Jimmy Dollard e seu melhor amigo, Otis Blakemore, e mais outros três pretos estão bebendo, cheirando pó e jogando o que chamam de “dúzias”, um jogo em que a ideia é ver quem é capaz de ofender mais o parceiro, e Blakemore está dando um banho em Jimmy, e Jimmy puxa o revólver, mete-lhe uma bala no coração e em seguida desmorona em cima da mesa soluçando e dizendo “Meu camarada! Meu camarada Stan! Matei meu camarada Stan!”... E o caso de Herbert 92X...
Por um instante pensar no caso Herbert suscitou uma visão da moça de batom cor de terra...
A imprensa não queria nem ver tais casos. Era apenas gente pobre matando gente pobre. Instaurar processos para tais casos fazia parte do serviço de coleta de lixo, necessário e honrado, cansativo e anônimo.
O capitão Ahab não era tão ridículo assim, afinal. Cobertura da imprensa! Ray e Jimmy podiam se fartar de rir, mas Weiss conseguira que a cidade inteira conhecesse o seu nome. Ele enfrentaria em breve uma eleição, o Bronx era 70 por cento preto e latino, e ele ia garantir que o nome Abe Weiss aparecesse constantemente em todos os canais. Talvez não fizesse muito mais, mas isso ele ia fazer.
Um telefone tocou: o de Ray.
— Homicídios — respondeu. — Andriutti... Bernie não está. Acho que foi para o tribunal... Quê?... Diz outra vez? Uma longa pausa. — Afinal ele foi atropelado por um carro ou não foi?... Hã-hããã... Ora, merda, não sei. É melhor falar com Bernie. Certo?... Certo. — Desligou, sacudiu a cabeça e olhou para Jimmy Caughey. — Era um detetive que está no Lincoln Hospital. Diz que tem um provável defunto, um garoto que deu entrada no setor de emergência e não sabe se escorregou na banheira e quebrou o pulso ou foi atropelado por um Mercedes-Benz. Ou uma merda qualquer. Quer falar com Bernie. Então que se foda e fale com Bernie.
Ray sacudiu mais um pouco a cabeça, e Kramer e Caughey balançaram a cabeça em solidariedade. As eternas merdinhas do Bronx.
Kramer consultou o relógio e se levantou.
— Bom — disse —, vocês, caras, podem ficar aqui pastando se quiserem, mas tenho que ir ouvir aquele porra ler o Corão: Herbert 92X, o famoso sábio do Oriente Médio.
Havia 35 salas de audiência no Edifício da Municipalidade do Bronx destinadas aos casos criminais, cada uma conhecida como “câmara”. Tinham sido construídas no início da década de 1930, em que ainda se presumia que a própria aparência da sala de audiências devia proclamar a gravidade e a onipotência do domínio da lei. O pé-direito tinha uns bons 4 metros. As paredes eram inteiramente revestidas de madeira escura. O juiz se sentava a uma enorme mesa em um palco. A mesa tinha um número suficiente de cornijas, molduras, painéis, pilastras, entalhes e o peso da madeira maciça para fazer qualquer um acreditar que o próprio Salomão, que era rei, a acharia imponente. As cadeiras para o público eram separadas da cadeira do juiz, do júri, das mesas do promotor, do acusado e do oficial de justiça por uma balaustrada de madeira com um enorme corrimão entalhado, a chamada barra da justiça. Em suma, não havia nada na aparência do recinto que sugerisse ao desavisado o atropelo das tarefas diárias do juiz de um tribunal criminal.
No momento em que Kramer entrou, sentiu que o dia começara mal na Câmara 60. Bastava olhar para o juiz. Kovitsky estava instalado na cadeira, de beca negra, com os dois cotovelos apoiados no tampo da mesa. Seu queixo estava tão baixo que parecia que ia bater na mesa. O crânio ossudo e o nariz adunco emergiam da toga num ângulo tão fechado que fazia lembrar um urubu. Kramer via suas íris flutuarem e girarem nas córneas observando a sala e sua coleção maltrapilha de seres humanos. Parecia prestes a bater as asas e atacar. Kramer tinha sentimentos ambivalentes a respeito de Kovitsky. Por um lado, não apreciava suas tiradas no tribunal, que eram em geral pessoais e destinadas a humilhar. Por outro, Kovitsky era um guerreiro judeu, um filho de Massada. Só Kovitsky poderia ter silenciado os fanfarrões do camburão com uma cusparada.
— Onde está o sr. Sonnenberg? — perguntou Kovitsky. Mas não houve resposta.
Então tornou a repetir a pergunta, desta vez com uma surpreendente voz de barítono cravando uma a uma as sílabas da frase na parede dos fundos e assustando todos que se encontravam pela primeira vez na sala do juiz Myron Kovitsky:
— ONDE ESTÁ O SE-NHOR SON-NEN-BERG!
Exceto pelos dois menininhos e a menininha que corriam por entre as cadeiras brincando de pique, os espectadores congelaram. Um por um, eles se congratularam intimamente. Por mais infeliz que fosse a vida deles, pelo menos não tinham decaído ao ponto de ser o sr. Sonnenberg, aquele inseto miserável, quem quer que fosse.
Aquele inseto miserável era um advogado, e Kramer conhecia a natureza de seu delito, que era impedir com sua ausência que se despejasse o rango nas entranhas da justiça criminal, Câmara 60. Em cada câmara, o dia começava com a chamada sessão de pauta, durante a qual os juízes despachavam moções e apelos de uma variedade de casos, talvez uns doze a cada manhã. Kramer tinha que rir toda vez que via um programa de TV com uma cena de tribunal. Sempre mostravam julgamentos! Quem era o panaca que bolava esses programas idiotas? Todos os anos havia 7 mil acusações de crimes capitais no Bronx e uma capacidade máxima de 650 julgamentos. Os juízes tinham que despachar os outros 6.350 casos de duas maneiras: arquivá-lo ou deixar o indiciado se declarar culpado de uma acusação atenuada e em troca liberar o tribunal de proceder a um julgamento. O arquivamento dos casos era uma maneira arriscada de reduzir o número de processos acumulados, até para o mais grotesco cínico. Sempre que um caso de crime capital era descartado, alguém, como a vítima ou a família, provavelmente punha a boca no mundo, e a imprensa não cabia em si de contentamento ao atacar juízes que deixavam malfeitores em liberdade. Com isso só restavam os acordos, que eram objeto das sessões cronológicas. Assim, as sessões cronológicas eram o próprio canal de alimentação da justiça criminal no Bronx.
Toda semana o escrevente de cada câmara entregava um cartão de controle a Louis Mastroiani, juiz administrativo chefe da divisão penal, Tribunal Superior, município do Bronx. O cartão de controle indicava quantos casos o juiz daquela câmara tinha no seu rol de causas pendentes e quantos despachara durante a semana, por meio de acordos, arquivamentos e julgamentos. Na parede da sala de audiências, sobre a cabeça do juiz, liam-se os dizeres EM DEUS CONFIAMOS. No cartão de controle, no entanto, estava escrito ANÁLISE DE CASOS ACUMULADOS, e a eficiência do juiz era avaliada quase que inteiramente pela ANÁLISE DE CASOS ACUMULADOS.
Quase todos os casos eram convocados às 9 e meia. Se o oficial de justiça convocasse um caso e o acusado ou o advogado não estivessem presentes, ou se ocorresse alguma coisa entre dezenas de possibilidades que impedissem o caso de avançar pelo funil, os interessados do caso seguinte estariam presumivelmente à mão, prontos para a apresentação. Assim, o espaço reservado ao público era pontilhado de grupinhos de pessoas, o que não chegava bem a ser um público em qualquer sentido esportivo. Havia acusados e seus advogados, acusados e seus companheiros, acusados e suas famílias. As três criancinhas saíram escorregando por entre duas fileiras de cadeiras, correram para o fundo da sala de audiências, rindo, e desapareceram por trás da última fileira. Uma mulher virou a cabeça e ralhou com elas, mas não se deu ao incômodo de ir buscá-las. Agora Kramer reconhecia o trio. Eram os filhos de Herbert 92X. Não que achasse isso digno de nota; havia crianças nas salas de audiências todos os dias. Essas salas eram uma espécie de creche comunitária no Bronx. Brincar de pique na Câmara 60 durante as moções, apelos, julgamentos e sentenciamentos do pai fazia parte do crescimento.
Kovitsky virou-se para o funcionário do tribunal, que se sentava a uma mesa abaixo da cadeira do juiz, a um canto. O funcionário era um italiano de pescoço taurino chamado Charles Bruzzielli. Estava sem paletó. Usava uma camisa de mangas curtas, colarinho aberto e a gravata a meio mastro. A gravata tinha um enorme laço duplo.
— Esse é o sr... — Kovitsky baixou os olhos para uma folha de papel sobre a mesa, e depois para Bruzzielli: — ... Lockwood?
Bruzzielli confirmou com a cabeça, e Kovitsky olhou diretamente para uma figura esguia que se adiantara até a barra, da assistência.
— Sr. Lockwood — perguntou Kovitsky —, onde está o seu advogado? Onde está o sr. Sonnenberg?
— Não sei — respondeu a figura.
Mal se conseguiu ouvir. Ele não tinha mais que dezenove ou vinte anos. A pele morena. Era tão magro que não havia sinal de ombros sob a jaqueta acolchoada preta. Usava jeans preto justo e enormes tênis brancos atados com tiras de velcro em vez de cordões.
Kovitsky encarou-o por um momento e disse em seguida:
— Muito bem, sr. Lockwood, sente-se. Se e quando o sr. Sonnenberg dignar-se a nos brindar com sua presença, chamaremos o senhor de novo.
Lockwood deu as costas e começou a voltar para as cadeiras reservadas ao público. Tinha o mesmo andar arrogante que praticamente todo jovem acusado do Bronx exibia, a ginga de cafetão. “Que egos machistas, autodestrutivos e imbecis”, pensou Kramer. Nunca deixavam de se apresentar com as jaquetas pretas, os tênis e a ginga de cafetão. Nunca deixavam de parecer os jovens delinquentes que eram, da raiz dos cabelos à ponta dos pés, aos olhos dos juízes, júri, oficiais de livramento condicional, psiquiatras oficiais, aos olhos de todos que deviam opinar se iam ou não para a prisão e por quanto tempo. Lockwood encaminhou-se gingando para uma cadeira ao fundo do espaço reservado ao público e sentou-se ao lado de mais dois garotos de jaquetas acolchoadas pretas. Eram sem dúvida seus amiguinhos, seus companheiros. Os companheiros do acusado sempre chegavam ao tribunal com as brilhantes jaquetas acolchoadas pretas deles e tênis tipo estou-me-lixando. Isso também era muito inteligente. Estabelecia imediatamente o fato de que o acusado não era uma pobre vítima indefesa da vida no gueto, mas membro de uma matilha de jovens delinquentes impiedosos do tipo que gosta de derrubar velhinhas com bastões de resina na Grand Concourse e roubar suas bolsas. A matilha inteira entrava na sala de audiências cheia de energia, exibindo músculos de aço e queixos contraídos em desafio, pronta para defender a honra e, se necessário, a pele dos amiguinhos contra o Sistema. Mas não demorava muito e uma onda de tédio e confusão engolfava a todos. Estavam preparados para a ação. Não estavam preparados para o que o dia exigia, ou seja, esperar enquanto algo de que nunca ouviram falar, uma sessão de pauta, os confundia com uma linguagem floreada do tipo “se dignar a nos brindar com a sua presença” .
Kramer passou pela barra e se dirigiu à mesa do escrevente. Três outros promotores assistentes estavam parados ali, apreciando e esperando a vez de comparecer perante o juiz.
O escrevente anunciou:
— O Povo contra Albert e Marilyn Krin...
Hesitou e olhou para os papéis diante dele. Voltou os olhos para uma moça parada a um metro de distância, uma promotora assistente chamada Patti Stullieri, e disse num sussurro teatral:
— Que diabo é isso?
Kramer olhou por cima do ombro dele. O documento dizia “Albert e Marilyn Krnkka”.
— Kri-nic-ka — silabou Patti Stullieri.
— Albert e Marilyn Kri-nic-ka! — declamou o escrevente. — Processo 3-2-8-1. — E para Patti Stullieri: — Nossa, que diabo de nome é esse?
— É iugoslavo.
— Iugoslavo para você. Parece que alguém prendeu os dedos na porra do teclado.
Do fundo da parte reservada ao público, um casal marchou até a grande barra e se debruçou sobre a grade. O homem, Albert Krnkka, sorriu de maneira cativante e parecia querer chamar a atenção do juiz Kovitsky. Albert Krnkka era um homem alto e desengonçado com um cavanhaque de uns doze centímetros mas sem bigode e cabelos longos e louros como um músico de rock fora de moda. Tinha nariz ossudo, pescoço comprido e um pomo de adão que parecia se deslocar uns trinta centímetros para cima e para baixo todas as vezes que engolia. Usava uma camisa verde com um colarinho maior que ele e, no lugar dos botões, um fecho ecler que corria diagonalmente do ombro esquerdo ao lado direito da cintura. Junto dele estava a esposa. Marilyn Krnkka era uma mulher de cabelos negros e rosto fino e delicado. Os olhos eram duas fendas. Apertava os lábios e fazia caretas o tempo todo.
Todos, o juiz Kovitsky, o escrevente, Patti Stullieri, até mesmo Kramer, olhavam para os Krnkkas, esperando que seu advogado se adiantasse ou entrasse pela porta lateral ou se materializasse de alguma forma. Mas nada de advogado.
Furioso, Kovitsky voltou-se para Bruzzielli e perguntou:
— Quem está representando esses dois?
— Acho que é Marvin Sunshine — respondeu Bruzzielli.
— Muito bem, e onde está ele? Vi-o há poucos instantes lá atrás. Que foi que deu nessas figuras?
Bruzzielli sacudiu os ombros naquele Gesto Primordial e virou os olhos para o alto, como se a coisa toda o constrangesse incrivelmente mas não houvesse nada que pudesse fazer.
A cabeça de Kovitsky estava agora bem baixa. Suas íris flutuavam como destróieres num lago branco. Mas antes que pudesse se lançar num discurso virulento sobre advogados delinquentes, uma voz falou na barra.
— Meritíssimo! Meritíssimo! Ei, juiz!
Era Albert Krnkka. Acenava com a mão direita tentando atrair a atenção de Kovitsky. Seus braços eram magros, mas os pulsos e as mãos eram enormes. A boca pendia frouxa num meio sorriso que pretendia convencer o juiz de que era um homem compreensivo. Na verdade, ele parecia, da cabeça aos pés, um desses sujeitos agitados, altos e ossudos, cujo metabolismo funciona a uma velocidade triplicada e que, mais do que qualquer outra pessoa do mundo, é inclinado a explosões.
— Ei, juiz! Olhe.
Kovitsky arregalou os olhos, espantado com essa atitude.
— Ei, juiz! Olhe. Há duas semanas ela nos disse de dois a seis, certo?
Quando Albert Krnkka disse “de dois a seis”, ergueu as duas mãos no ar e mostrou dois dedos de cada mão, como se fizesse um V de vitória ou um sinal de paz, e agitou-os no ar, como se estivesse marcando o compasso da frase “de dois a seis” num par de tambores invisíveis e etéreos.
— Sr. Krnkka — disse Kovitsky, em voz baixa.
— E agora ela entra aqui e diz “de três a nove” — continuou Albert Krnkka. — Nós já tínhamos dito “Certo, de dois a seis” — e tornou a erguer as mãos e o par de vês e a bater no ar o compasso de “de dois a seis” — “e entra aqui e diz de três a nove. De dois a seis” — e bate no ar — “de dois a seis...”
— SE-NHOR KRI-NIC-KA. SE O SE-NHOR...
Mas Albert Krnkka não se deixava dobrar pela voz retumbante do juiz Kovitsky.
— De dois a seis — plam, plam, plam —, compreendeu?
— SE-NHOR KRI-NIC-KA. Se o senhor deseja encaminhar uma petição a este tribunal, deverá fazê-lo através de seu advogado.
— Ei, juiz, pergunte a ela! — E esticou o indicador esquerdo na direção de Patti Stullieri. Seu braço parecia ter um quilômetro de comprimento. — Foi ela. Ofereceu de dois a seis, juiz. Agora entra aqui...
— Sr. Krnkka...
— De dois a seis, juiz, de dois a seis! — Percebendo que o seu tempo à barra estava terminando, Albert Krnkka agora comprimia sua mensagem na frase-chave, o tempo todo batendo no ar com as manoplas.
— De dois a seis! Compreendeu? De dois a seis! Compreendeu?
— Sr. Krnkka... SENTE-SE! Espere pelo seu advogado.
Albert Krnkka e a mulher começaram a se afastar da barra, mantendo os olhos em Kovitsky o tempo todo, como se deixassem a sala do trono. Albert continua a enfatizar as palavras “de dois a seis” e a sacudir os dedos em V.
Larry Kramer aproximou-se do lugar em que Patti Stullieri estava parada e perguntou:
— Que foi que eles fizeram?
Patti Stullieri informou:
— A mulher apontou uma faca para a garganta de uma moça enquanto o marido a estuprava.
— Nossa! — exclamou Kramer, sem conseguir se conter.
Patti Stullieri sorriu com um jeito de quem está cansada do mundo. Tinha uns 28, 29 anos. Kramer se perguntou se valeria a pena lhe passar uma cantada. Não era nenhuma beleza, mas por alguma razão sua Pose de Durona o excitava. Kramer pôs-se a imaginar como teria sido na escola secundária. Se teria sido uma daquelas galinhas magras e nervosas que andavam sempre irritadas e intratáveis e nem bem eram femininas nem bem eram fortes. Por outro lado, tinha a pele oliva, os cabelos pretos e espessos, grandes olhos negros, e os lábios de Cleópatra que na cabeça de Kramer formavam o retrato da Garota Italiana Safadinha. Na escola secundária — nossa, aquelas Garotas Italianas Safadinhas! — Kramer sempre as achara ordinárias, inacreditavelmente burras, anti-intelectuais, inabordáveis e intensamente desejáveis.
A porta da sala de audiência se abriu, e entrou um velho com uma cabeça grande, vistosa, senhoril. “Jovial” era a palavra. Ou pelo menos era “jovial” pelos padrões da Gibraltar. Usava terno azul-marinho risca de giz e paletó jaquetão, camisa branca com colarinho engomado e gravata vermelho-escura. Os cabelos negros, que eram ralos e tinham o tom opaco produzido pelo tingimento, estavam penteados para trás, emplastrados no crânio. Tinha um bigode antiquado bem fininho, que criava uma linha negra muito nítida de cada lado do sulco sob o nariz.
Larry Kramer, que estava de pé junto à mesa do escrevente, ergueu os olhos e o encarou. Conhecia aquele homem. Possuía um certo charme — não, coragem — a seu modo. Ao mesmo tempo, dava arrepios. Esse homem fora, como Kramer era agora, promotor distrital assistente. Bingo! Bingo! Bingo! Trinta anos haviam se passado, e ali estava ele terminando a carreira como advogado, representando esses pobres incompetentes, inclusive os que não tinham dinheiro para pagar advogados. Bingo! Bingo! Bingo! Não era muito tempo, trinta anos!
Larry Kramer não foi o único que parou para olhar. A entrada do homem foi um acontecimento. Seu queixo tinha o formato de um melão. Ele o mantinha espetado num ângulo presunçoso, como se fosse um boulevardier, como se a Grand Concourse ainda pudesse ser chamada de boulevard.
— SE-NHOR SONNENBERG!
O velho advogado olhou para Kovitsky. Parecia agradavelmente surpreso que sua chegada pudesse ocasionar uma saudação tão calorosa.
— Chamamos o seu caso há cinco minutos!
— Peço perdão, Meritíssimo — disse Sonnenberg, aproximando-se com desenvoltura da mesa da defesa. Girou o grande queixo para o alto fazendo um arco elegante na direção do juiz. — Fui retido pelo juiz Meldnick na Câmara 62.
— Que estava fazendo com um caso na Câmara 62, sabendo que este tribunal marcou sua audiência no início da sessão para acomodar os seus interesses? O seu cliente, sr. Lockwood, trabalha, se não me engano.
— Perfeitamente, Meritíssimo, mas achei...
— O seu cliente está presente.
— Eu sei.
— Está esperando pelo senhor.
— Estou ciente disso, Meritíssimo, mas não fazia ideia de que o juiz Meldnick...
— Muito bem, sr. Sonnenberg, está pronto para se apresentar agora?
— Estou, Meritíssimo.
Kovitsky mandou o escrevente, Bruzzielli, tornar a convocar o caso. O rapaz negro, Lockwood, levantou-se na seção reservada ao público e veio gingando até a mesa da defesa para se juntar a Sonnenberg. Logo se tornou visível que a finalidade daquela audiência era permitir que Lockwood se declarasse culpado da acusação, assalto à mão armada, em troca de uma pena atenuada, de dois a seis anos, oferecida pela Promotoria Distrital. Mas Lockwood não estava de acordo. Só o que Sonnenberg conseguiu foi reiterar a declaração de inocência do cliente.
Kovitsky disse:
— Sr. Sonnenberg, poderia se aproximar, por favor? E o sr. Torres?
Torres era o promotor distrital assistente encarregado do caso. Era baixo e gordo, embora não chegasse a ter trinta anos. Tinha o tipo de bigode que os jovens advogados e médicos usam para tentar parecer mais velhos e mais sérios.
Quando Sonnenberg se aproximou, Kovitsky comentou, num tom informal e amável:
— O senhor está igualzinho a David Niven hoje, sr. Sonnenberg.
— Essa não, juiz — respondeu Sonnenberg. — David Niven não. Talvez William Powell, mas não David Niven.
— William Powell? O senhor está se fazendo de velho. Não é tão velho assim, é? — Kovitsky virou-se para Torres e comentou: — Não demora e vamos saber que o sr. Sonnenberg está de partida para a Flórida. Vai se instalar num condomínio e sua única preocupação será chegar ao shopping a tempo para o café dos boêmios do Denny’s. Não terá mais que pensar em acordar cedo e apresentar recursos na Câmara 60 do Bronx.
— Ouça, juiz, eu juro...
— Sr. Sonnenberg, conhece o sr. Torres?
— Claro.
— Muito bem, o sr. Torres conhece tudo sobre condomínios e cafés para boêmios. E é meio judeu também.
— E mesmo? — Sonnenberg não sabia se devia parecer satisfeito ou não.
— É, metade porto-riquenho e metade judeu. Certo, sr. Torres? — Torres sorriu e deu de ombros, tentando parecer polidamente divertido.
— Assim sendo, usou seu kop judeu e se candidatou a uma bolsa para minorias na faculdade de direito — disse Kovitsky. — Sua metade judia se candidatou a uma bolsa de estudos para minorias em favor da metade porto-riquenha! Esse mundo é único, ou não é? E preciso usar a porra do kop, ah, isso é.
Kovitsky ficou olhando para Sonnenberg até que este sorrisse e em seguida olhou para Torres até que ele sorrisse e aí foi a vez de o proprio Kovitsky sorrir para os dois. Por que se tornara subitamente tão brincalhão? Kramer olhou para o acusado, Lockwood. Estava parado à mesa da defesa observando o trio bem-humorado. Que estaria lhe passando pela cabeça? Tinha a ponta dos dedos apoiada na mesa e o peito parecia ter afundado. Os olhos! Seus olhos eram os de um animal caçado à noite. Observava a cena, em que seu advogado sorria e ria com o juiz e o promotor. Ali estava ele, seu advogado branco, sorrindo e tagarelando com o juiz branco e aquele balofo branco que estava tentando pô-lo em cana.
Sonnenberg e Torres estavam diante da cadeira do juiz, olhando para Kovitsky. Agora Kovitsky ia entrar no assunto.
— Que ofereceu a ele, sr. Torres?
— De dois a seis, juiz.
— Que diz o seu cliente, sr. Sonnenberg?
— Não quer aceitar, juiz. Conversei com ele na semana passada e tornei a conversar hoje de manhã. Ele quer ir a julgamento.
— Por quê? — perguntou Kovitsky. — Explicou-lhe que poderá ser liberado para trabalhar dentro de um ano? Não é um mau acordo.
— Bem — respondeu Sonnenberg —, o problema é que — e o sr. Torres sabe disso — o meu cliente é um delinquente juvenil. Da outra vez foi preso pela mesma coisa, assalto à mão armada, e se ele se declarar culpado desta, então terá de cumprir pena pela outra também.
— Ah! — exclamou Kovitsky. — Muito bem, quanto é que está disposto a aceitar?
— Aceitará de um e meio a quatro, com a sentença da primeira incluída nesta.
— Que diz a isso, sr. Torres?
O jovem promotor distrital assistente engoliu em seco, baixou os olhos e sacudiu a cabeça.
— Não posso aceitar, juiz. Estamos falando de assalto à mão armada.
— É, eu sei — interpôs Kovitsky —, mas era ele quem segurava a arma?
— Não — informou Torres.
Kovitsky desviou os olhos do rosto de Sonnenberg e de Torres e olhou para Lockwood.
—Não parece um mau menino — o comentário de Kovitsky era dirigido a Torres. — De fato, parece um bebê. Vejo esses meninos aqui todos os dias. São facilmente influenciáveis. Moram num desses bairros fedorentos e acabam fazendo tolices. Que tal é ele, sr. Sonnenberg?
— É mais ou menos isso, juiz — respondeu Sonnenberg. — O garoto é um aprendiz. Não é nenhum santo, mas também não é um caso perdido. Pelo menos na minha opinião.
Era evidente que esse perfil destinava-se a amaciar Torres e fazê-lo oferecer a Lockwood uma sentença de apenas um ano e quatro meses a quatro anos, e esquecer sua condenação como delinquente juvenil.
— Olhe, juiz, não adianta — disse Torres. — Não posso concordar. De dois a seis é o mínimo que posso oferecer. A promotoria...
— Por que não liga para Frank? — pediu Kovitsky.
— Não adianta, juiz. Estamos falando de assalto à mão armada! Ele talvez não tenha apontado a arma para a vítima, mas foi porque estava com as duas mãos ocupadas em revistar-lhe os bolsos! Um homem de 69 anos, enfartado, que anda assim...
Torres saiu arrastando os pés diante do juiz, capengando como um velho enfartado.
Kovitsky sorriu.
— É o judeu se revelando nele! O sr. Torres tem algum dos cromossomos de Ted Lewis e nem sabe disso.
— Ted Lewis era judeu? — perguntou Sonnenberg.
— Por que não? — admirou-se Kovitsky. — Era comediante, não era? Muito bem, sr. Torres, acalme-se.
Torres voltou para a mesa.
— A vítima, sr. Borsalino, diz que partiu uma costela. Nem mesmo vamos acusá-lo disso, porque o velho nunca foi ao médico para examiná-la. Não, de dois a seis.
Kovitsky refletiu.
— Explicou isso ao seu cliente?
— Claro que expliquei — respondeu Sonnenberg. Deu de ombros e fez uma careta, como a indicar que o cliente não queria ouvir a voz da razão. — Está disposto a se arriscar.
— A se arriscar?! — exclamou Kovitsky. — Mas assinou uma confissão.
Sonnenberg tornou a fazer a careta e levantar as sobrancelhas.
Kovitsky disse:
— Deixe-me falar com ele.
Sonnenberg contraiu os lábios e girou os olhos, como se dissesse “boa sorte”.
Kovitsky tornou a erguer a cabeça, olhou para Lockwood, aprumou o queixo e disse:
— Venha cá... meu filho.
O rapaz permaneceu congelado à mesa, sem ter muita certeza se o juiz estava se dirigindo a ele ou a mais alguém. Então Kovitsky acrescentou um sorriso, o sorriso do líder bondoso, Aquele Que Está Disposto a Ser Paciente, fez sinal com a mão direita e disse:
— Venha até aqui, filho. Quero falar com você.
O rapaz — Lockwood — começou a andar, devagar, cautelosamente, até onde Sonnenberg e Torres estavam parados e olhou para Kovitsky. O olhar que lançou era inteiramente inexpressivo. Kovitsky o encarou. Era como olhar para uma casinha abandonada à noite com todas as luzes apagadas.
— Meu filho — começou Kovitsky —, você não me parece mau. Parece um bom rapaz. Agora, quero que dê a você mesmo uma oportunidade. Eu vou lhe dar uma oportunidade, mas pnmeiro terá que se dar uma oportunidade.
Então Kovitsky encarou Lockwood nos olhos como se o que estava prestes a dizer fosse uma das coisas mais importantes que o rapaz provavelmente ouviria na vida.
— Meu filho, para que quer se envolver em todos esses assaltos?
Os lábios de Lockwood se moveram, mas ele lutou contra o impulso de falar, talvez temendo que pudesse se incriminar. — Que diz sua mãe? Você mora com ela?
Lockwood assentiu com a cabeça.
— Que diz sua mãe? Ela nunca lhe deu uns cascudos?
— Não — respondeu Lockwood. Seus olhos pareceram se embaciar. Kovitsky tomou isso por um sinal de que estava fazendo progressos.
— Agora, filho, você tem emprego?
Lockwood confirmou com a cabeça.
— O que você faz?
— Sou segurança.
— Segurança — repetiu Kovitsky. Fixou o olhar em um ponto da parede, como se ponderasse as implicações dessa resposta para a sociedade, e então decidiu se concentrar na questão mais imediata.
— Está vendo? — continuou Kovitsky. — Você tem emprego, você tem família, você é jovem, você é um rapaz bem-apanhado e inteligente. Você tem muita coisa a seu favor. Mais do que a maioria das pessoas. Mas tem um grande problema a superar. ESTEVE ENVOLVIDO NA PORRA DESSES ASSALTOS! Ora, o promotor distrital lhe fez uma proposta de dois a seis anos. Se aceitar a proposta e se comportar, em pouco tempo tudo isso ficará para trás, e você continuará a ser jovem e a ter toda a vida pela frente. Se for a julgamento e for condenado, talvez apanhe de oito a 25 anos. Agora, pense bem. O promotor distrital lhe fez uma proposta.
Lockwood não disse nada.
— Por que não aceita? — perguntou Kovitsky.
— Porque não.
— Por que não?
Lockwood virou a cabeça. Não ia lutar com palavras. Só ia aguentar firme.
— Olhe aqui, filho — disse Kovitsky —, estou tentando ajudá-lo. Isso não vai passar. Não pode simplesmente fechar os olhos e esperar que tudo desapareça. Compreende o que estou dizendo?
Lockwood continuou a olhar para baixo ou para o lado, sempre desviando o olhar uns poucos centímetros para não encontrar o do juiz. Kovitsky mexia a cabeça procurando interceptá-lo, como um goleiro de hóquei.
— Olhe para mim, filho. Está compreendendo?
Lockwood deu-se por vencido e olhou para o juiz. Era o tipo de olhar que um pelotão de fuzilamento talvez esperasse ver.
— Agora, filho, pense nisso da seguinte maneira. É como ter um câncer. Já ouviu falar de câncer?
Não havia sequer um vislumbre de compreensão, fosse de câncer ou de qualquer outra coisa.
— O câncer tampouco desaparece de repente. A pessoa tem que se tratar. Se o descobre ainda no início, enquanto ainda está pequeno, antes que se espalhe por todo o corpo e domine toda a sua vida — e arruíne sua vida — e acabe com a sua vida... está compreendendo? — acabe com a sua vida — se tomar uma providência enquanto ele ainda for um probleminha, se fizer a pequena cirurgia de que precisa, então acabou! — Kovitsky abriu as mãos num gesto largo, ergueu o queixo e sorriu, como se fosse a própria personificação da flutuabilidade. — Ora, o mesmo ocorre com o problema que você tem agora. No momento, ele é apenas um probleminha. Se você se declarar culpado e receber uma sentença de dois a seis anos e se comportar direito, poderá ser liberado para trabalhar dentro de um ano, e terá direito a liberdade condicional dentro de dois. E estará tudo terminado. Mas se for a julgamento e for considerado culpado, então sua sentença mínima será oito anos. De oito anos e quatro meses a 25 anos. Oito — você está com dezenove anos agora. Oito anos, é quase a metade do tempo que já passou na Terra. Você pretende passar a juventude inteira na porra de uma cadeia?
Lockwood desviou os olhos. Não disse nem sim nem não.
— Então? — perguntou Kovitsky.
Sem erguer os olhos, Lockwood sacudiu a cabeça dizendo não.
— Muito bem, se é inocente não quero que se declare culpado, não importa o que lhe ofereçam. Mas você assinou uma confissão! O promotor distrital tem um videoteipe em que você faz essa confissão! Que vai fazer com ela?
— Não sei — respondeu Lockwood.
— Que diz o seu advogado?
— Não sei.
— Vamos, filho. É claro que sabe. Você tem um excelente advogado. O sr. Sonnenberg é um dos melhores. Tem muita experiência. Ouça o que ele diz. Ele lhe dirá que tenho razão. Esse problema não vai desaparecer do mesmo jeito que o câncer não vai desaparecer.
Lockwood continuava a olhar para baixo. O que quer que seu advogado, o juiz e o promotor distrital tivessem combinado, ele não ia aceitar.
— Olhe aqui, filho, converse mais um pouco com o seu advogado. Converse com sua mãe. Que diz sua mãe?
Lockwood ergueu o olhar cheio de ódio vivo. As lágrimas começaram a marejar seus olhos. Era delicado falar com esses garotos sobre a mãe deles. Mas Kovitsky o encarou.
— Muito bem, senhor advogado! — disse Kovitsky elevando a voz e olhando na direção de Sonnenberg. — E sr. Torres. Vou adiar essa audiência para daqui a duas semanas. E, filho — dirigiu-se a Lockwood —, pense no que lhe disse, consulte o sr. Sonnenberg e decida-se. Certo?
Lockwood deu a Kovitsky um último relance, balançou afirmativamente a cabeça e se afastou em direção às cadeiras reservadas ao público. Sonnenberg acompanhou-o e disse alguma coisa, mas Lockwood não respondeu. Quando passou pela barra e viu os companheiros se levantando na última fileira, Lockwood começou a gingar. Vamos dar o fora! Voltar à... Vida! Os três saíram gingando da sala de audiência, com Sonnenberg na esteira, o queixo espetado num ângulo de 30 graus.
O dia se arrastava e até aquele momento Kovitsky não resolvera um único caso.
A manhã já ia adiantada quando ele finalmente conseguiu dar saída aos casos em pauta e chegou ao julgamento de Herbert 92X, que estava agora no quarto dia. Kramer pôs-se de pé à mesa da promotoria. Os guardas judiciários giraram os ombros, espreguiçaram-se ou se prepararam de alguma maneira para a chegada de Herbert 92X, que consideravam suficientemente maníaco para fazer algum gesto idiota e violento na sala de audiências. O advogado de Herbert 92X, Albert Teskowitz, nomeado pelo tribunal, adiantou-se da mesa da defesa. Era um homem ossudo e curvado com um paletó xadrez azul-claro que passava a uns sete centímetros de seu pescoço e uma calça marrom que nunca tinham sido apresentada ao paletó. O cabelo ralo e grisalho era da cor de gelo seco. Deu a Kramer um sorrisinho extravagante, que valia por uma declaração: “A charada vai começar.”
— Muito bem, Larry — disse —, está preparado para a sabedoria de Alá?
— Deixe-me perguntar uma coisa — disse Kramer. — Herbert escolhe as passagens todos os dias com a ideia de apresentá-las como uma espécie de comentário ao que está ocorrendo, ou simplesmente abre o livro ao acaso? Não sei qual dos dois.
— Não sei — respondeu Teskowitz. — Não me meto nesse assunto, para dizer a verdade. Basta mencioná-lo e se perde uma hora de vida. Já conversou com um louco lógico antes? É pior do que um louco comum.
Teskowitz era um advogado tão fraco que Kramer sentia pena de Herbert. Mas sentiria pena de qualquer jeito. O nome legal de Herbert 92X era Herbert Cantrell; 92X era o seu sobrenome muçulmano. Trabalhava como motorista para um distribuidor de bebidas alcoólicas. Essa era uma das muitas coisas que faziam Kramer pensar que o homem não era um verdadeiro muçulmano. Um verdadeiro muçulmano não se envolveria com bebidas alcoólicas. De qualquer forma, um dia, o caminhão de Herbert foi furtado em trânsito na Willis Avenue por três italianos do Brooklyn que não tinham feito nada nos últimos dez anos a não ser furtar caminhões em trânsito a quem lhes pagasse para tanto. Apontaram armas para Herbert, amarraram-no, deram-lhe um soco na cara e o atiraram numa caçamba de lixo numa rua lateral, advertindo-o de que não se mexesse por uma hora. Então os três italianos levaram o caminhão para o depósito do seu patrão atual, um distribuidor de bebidas malandro que rotineiramente cortava seus custos furtando mercadoria. Chegaram com o caminhão furtado, e o capataz na plataforma de carregamento disse:
— Puta merda! Vocês se meteram na maior enrascada! Esse é um dos nossos caminhões!
— Como assim?
— Esse é um dos nossos caminhões! Acabei de carregá-lo faz duas horas! Vocês estão roubando mercadoria que acabamos de roubar! Vocês acertaram num dos nossos motoristas! Vocês se meteram na maior merda!
Então os italianos pularam para a boleia do caminhão e dispararam para a caçamba a fim de devolver o veículo a Herbert 92X. Mas Herbert conseguira fugir. Começaram a subir e a descer as ruas de caminhão, procurando por ele. Finalmente encontraram-no em um bar onde entrara para acalmar os nervos. Positivamente, isso não era atitude de muçulmano. Entraram para lhe dizer que sentiam muito e que podia retomar seu serviço, mas Herbert pensou que vinham atrás dele porque desprezara o aviso de permanecer na caçamba. Então sacou da jaqueta acolchoada um revólver calibre 38 — que estivera ali o tempo todo, mas aqueles marginais o tinham apanhado de surpresa — e deu dois tiros. Não acertou nos três italianos mas matou um homem chamado Nestor Cabrillo, que entrara no bar para dar um telefonema. A arma talvez fosse uma peça necessária à defesa pessoal numa ocupação obviamente arriscada. Mas não tinha licença para porte de arma, e Nestor Cabrillo era um cidadão íntegro com cinco filhos. Assim, Herbert foi acusado de homicídio involuntário e posse criminosa de arma; era preciso promover a ação penal, e Kramer estava atolado nessa tarefa. O caso era um estudo sobre a estupidez, a incompetência e a inutilidade; em suma, uma merdinha. Herbert 92X recusava-se a aceitar um acordo, pois considerava o que acontecera um acidente. Lamentava apenas que o 38 tivesse sacudido sua mão daquele jeito. Com isso, aquela merdinha agora estava em julgamento.
Uma porta a um lado da cadeira do juiz abriu-se, e dela surgiu Herbert 92X com dois guardas penitenciários. O Departamento Penitenciário administrava a carceragem, umas gaiolas sem janelas, meio andar acima da sala de audiências. Herbert 92X era um homem alto. Seus olhos brilhavam sob as sombras do pano de cabeça xadrez à Yasser Arafat que lhe caía pela testa. Usava um camisão marrom que lhe batia pelas canelas. Por baixo do camisão via-se uma calça bege, com pespontos de cor contrastante nas costuras laterais, e usava sandálias de dedo marrons. Trazia as mãos às costas. Quando os guardas penitenciários viraram-no para abrir as algemas, Kramer reparou que ele segurava o Corão.
— Eh, Herbert! — A voz de um menininho alegre. Era uma das crianças ao pé da barra. Os guardas judiciários olharam feio para ele. Uma mulher sentada nas cadeiras reservadas ao público gritou:
— Venha já aqui!
O menininho riu e correu de volta para onde ela estava. Herbert parou e se virou para o menino. Sua expressão furiosa dissolveu-se. Deu ao menino um sorriso largo e tão caloroso e amoroso que Kramer teve que engolir em seco — e ter mais um pequeno espasmo de Dúvidas. Então Herbert se sentou à mesa da defesa.
O escrevente, Bruzzielli, anunciou:
— O Povo contra Herbert Cantrell, processo número 2-7-7-7.
Herbert 92X pôs-se de pé com a mão para o alto.
— Ele anunciou meu nome errado outra vez!
Kovitsky curvou-se sobre a mesa e disse pacientemente:
— Sr. 92X, expliquei-lhe isso ontem e anteontem e trasanteontem.
— Ele anunciou meu nome errado!
— Já lhe expliquei isso, sr. 92X. O escrevente tem que cumprir exigências legais. Mas em vista da sua evidente intenção de mudar de nome, o que é um direito seu, e para isso existe um processo legal, o tribunal aceita referir-se ao senhor como Herbert 92X, para as finalidades deste processo. Está bem assim?
— Muito obrigado, Meritíssimo — disse Herbert 92X ainda de pé. Abriu o Corão e começou a folhear as páginas. — Esta manhã, Meritíssimo...
— Podemos continuar?
— Sim, juiz. Esta manhã...
— Então sente-se!
Herbert 92X encarou Kovitsky por um momento, depois afundou na cadeira, ainda segurando o Corão aberto. Um tanto amuado, perguntou:
— O senhor vai me deixar ler?
Kovitsky consultou o relógio de pulso, concordou com a cabeça; em seguida girou a cadeira uns 45 graus e pousou o olhar na parede acima das cadeiras do júri.
Sentado, Herbert 92X descansou o Corão sobre a mesa de defesa e disse:
— Esta manhã, Meritíssimo, lerei o capítulo 41, intitulado “Estão distintamente explicados, revelados em Meca”... em nome do Deus Misericordiosíssimo... Esta é uma revelação do Misericordiosíssimo... Que os avisa do dia em que os inimigos de Deus serão reunidos no fogo do inferno e marcharão em bandos isolados até que, quando ali chegarem, seus ouvidos e seus olhos e suas peles testemunharão contra eles...
Os guardas judiciários giravam os olhos. Um deles, Kaminsky, um verdadeiro porco cuja camisa branca da farda mal sustentava o pneu de banha que se formava sobre o cinturão do coldre, deixou escapar um forte suspiro e deu meia-volta no salto dos sapatões de tira em couro negro. Os promotores e advogados de defesa consideravam Kovitsky um terror. Mas os guardas judiciários eram a tropa operária básica do serviço público, e consideravam Kovitsky, e praticamente todos os outros juízes, absurdamente e pusilanimemente indulgentes com os criminosos... deixando esse maníaco sentar ali e ler o Corão enquanto os filhos corriam pela sala de audiências gritando “Eh, Herbert”. Aparentemente Kovitsky raciocinava que já que Herbert 92X era esquentado e já que a leitura do Corão o acalmava, estava poupando tempo a longo prazo.
— ... afaste o mal com o que tem de melhor, e contemple, o homem com quem tinha inimizade tornar-se-á, como o era, seu maior amigo, mas ninguém alcançará... — Na leitura melancólica e ressonante de Herbert, as palavras desciam sobre a sala como um chuvisco... A mente de Kramer divagava... A moça de batom cor de terra... Logo ela estaria entrando... Bastou esse pensamento para que ele se endireitasse na cadeira... Desejou que tivesse se olhado no espelho antes de entrar na sala de audiências... o cabelo, a gravata... Retesou os músculos do pescoço e atirou a cabeça para trás... Estava convencido de que as mulheres se impressionavam com homens que possuíam enormes esternoclidomastóideos... Fechou os olhos...
Herbert continuava a ler sem parar, quando Kovitsky o interrompeu:
— Muito obrigado, sr. 92X, com isso concluímos a leitura do Corão.
— Como? Ainda não terminei!
— Disse que com isso terminamos a leitura do Corão, sr. 92X. SERÁ QUE FUI CLARO?
A voz de Kovitsky elevou-se tão subitamente que os assistentes ofegaram.
Herbert pôs-se em pé de um salto.
— O senhor está violando os meus direitos! — Seu queixo apontava para Kovitsky, e seus olhos flamejavam. Parecia um foguete prestes a subir.
— Sente-se!
— O senhor está violando a minha liberdade de religião!
— SENTE-SE, sr. 92X!
— Julgamento nulo! — gritou Herbert. — Julgamento nulo! — Então voltou sua fúria para Teskowitz, que continuava sentado a seu lado. — Ponha-se de pé, cara! Isso é um julgamento nulo!
Assustado e um tanto atemorizado, Teskowitz se levantou.
— Meritíssimo, meu cliente...
— EU DISSE SENTE-SE! OS DOIS!
Os dois se sentaram.
— Agora, sr. 92X, este tribunal tem sido muito indulgente com o senhor. Ninguém está violando a sua liberdade religiosa. A hora está avançando, e temos um júri lá fora numa sala que não é pintada há 25 anos, e chegou a hora de concluir a leitura do Corão.
— Disse, concluir? Quer dizer proibir! Está violando os meus direitos religiosos!
— O acusado queira se CALAR! O senhor não tem o direito de ler o Corão, ou o Talmude, ou a Bíblia, ou as palavras do Anjo Moroni, que escreveu o Livro dos Mórmons, ou qualquer outro livro espiritual, por mais divino que seja: o senhor não tem o direito de lê-lo neste tribunal. Deixe-me lembrar-lhe, senhor, que não estamos numa nação do Islã. Acontece que vivemos numa república, e nesta república o Estado e a Igreja são separados. Compreende? E este tribunal é governado pelas leis desta república, que estão reunidas na Constituição dos Estados Unidos.
— Isso não é verdade!
— O que não é verdade, sr. 92X?
— A separação da Igreja e do Estado. E posso provar.
— De que está falando, sr. 92X?
— Vire-se! Olhe para a parede! — Herbert estava de novo em pé, apontando para a parede acima da cabeça de Kovitsky. Kovitsky girou a cadeira e olhou para o alto. De fato, entalhadas no painel de madeira havia as palavras EM DEUS CONFIAMOS.
— Igreja e Estado! — Herbert exclamou triunfante. — Está bem aí entalhado na parede acima de sua cabeça!
— Eh heh hehhhh! — Uma mulher da assistência começou a rir. Um dos guardas judiciários gargalhou, mas virou a cabeça antes que Kovitsky pudesse localizá-lo. O escrevente, Bruzzielli, não conseguiu deixar de sorrir. Patti Stullieri cobria a boca com a mão. Kramer olhou para Mike Kovitsky, à espera da explosão.
O juiz, no entanto, estampou um largo sorriso no rosto. Mas a cabeça estava abaixada, e as íris voltavam a flutuar, agitando-se num mar branco e turbulento.
— Vejo que é muito observador, sr. 92X, e o cumprimento por isso. E já que é tão observador, poderá também observar que não tenho olhos na nuca. Mas tenho olhos no rosto e o que eles veem é um acusado que está sendo julgado por delitos graves com a perspectiva de uma pena de doze e meio a 25 anos de prisão, caso seja considerado culpado por um júri de seus pares, e quero que esse júri disponha de tempo para cuidar da balança da justiça... com ATENÇÃO e IMPARCIALIDADE!... e determinar· a culpa ou a inocência do acusado. Estamos num país livre, sr. 92X, e ninguém pode impedi-lo de acreditar na divindade que quiser. Mas enquanto estiver neste tribunal, é melhor acreditar no EVANGELHO SEGUNDO MIKE!
Kovitsky disse isso com tanta ferocidade que Herbert tornou a se sentar na cadeira. Não disse uma palavra. Em vez disso, olhou para Teskowitz. Teskowitz só fez dar de ombros e sacudir a cabeça como se dissesse: “É isso aí, Herbert.”
— Mande entrar o júri — ordenou Kovitsky.
Um guarda penitenciário abriu a porta que levava à sala do júri. Kramer empertigou-se na cadeira à mesa da promotoria. Atirou a cabeça para trás para exibir o pescoço musculoso. Os jurados começaram a entrar... três negros, seis porto-riquenhos... Onde estava a moça?... Lá estava, acabando de passar pela porta!... Kramer nem mesmo tentou ser sutil. Encarou-a em cheio. Aqueles cabelos castanho-escuros, longos e luzidios, suficientemente cheios para se enterrar a cabeça neles, partidos ao meio e puxados para trás revelando aquela testa branca, perfeita e pura, aqueles enormes olhos e as pestanas voluptuosas, e aqueles lábios de curva perfeita... com batom cor de terra! É! Pusera-o de novo! O batom cor de terra, caramelo, diabólico, rebelde, impecavelmente elegante...
Kramer rapidamente examinou a concorrência. O escrevente grandalhão, Bruzzielli, tinha os olhos vidrados nela. Os três guardas judiciários fixavam-na com tanta intensidade que Herbert poderia ter saído para dar uma volta e eles nem teriam notado. Mas o próprio Herbert a avaliava. Teskowitz a olhava. Sullivan, o estenógrafo do tribunal, sentado à sua máquina, a olhava. Kovitsky! Ele também! Kramer ouvira contar histórias de Kovitsky. Não parecia ser o tipo, mas nunca se sabia.
Para chegar à bancada do júri a moça tinha que passar bem diante da mesa da promotoria. Vestia um suéter cor de pêssego, fofo, de angorá ou mohair, aberto na frente, e uma blusa de seda com listras róseas e amarelas, sob a qual Kramer discernia, ou pensava discernir, a curva voluptuosa de seus seios. Usava uma saia de gabardine creme, suficientemente apertada para ressaltar a curva das coxas.
O diabo era que praticamente todos os homens do lado de cá da barra da justiça tinham chances. Bem, menos Herbert, mas o seu advogadozinho insignificante tinha. Até aquele guarda judiciário gordo lá adiante, aquela barrica do Kaminsky. O número de guardas judiciários, advogados de defesa, escreventes, promotores distritais assistentes (ah, sim!) e até juízes (não os exclua!) que já comeram (a palavra é essa) juradinhas apetitosas em casos criminais — nossa!, se a imprensa farejasse esse filão... mas a imprensa nunca aparecia no tribunal do Bronx.
Os jurados de primeira viagem nos tribunais criminais costumavam se embriagar com o romance, a tensão elétrica do mundo dos maus, que agora tinham ocasião de vislumbrar sentados na bancada do júri, e as mulheres jovens eram as mais ébrias de todos. Para elas os acusados não eram o rango; longe disso. Eram facínoras. E esses casos não eram merdinhas. Eram o drama nu e cru dessa cidade de bilhões de pés. E aqueles que tinham coragem de lidar com esses facínoras, lutar contra eles, refreá-los, eram... homens de verdade... até mesmo um guarda judiciário com um pneu de gordura de dez centímetros apoiado no cinturão do coldre. Mas quem era mais másculo do que um jovem promotor, que se postava a menos de três metros do acusado, sem nenhuma barreira entre eles, exceto o ar, e arremessava as acusações do Povo na cara dele?
Agora ela estava diante de Kramer. Retribuiu-lhe o olhar. Sua expressão não dizia nada, mas o olhar era tão franco e direto! E usava batom cor de terra!
Seguiu adiante e passou pela cancela do reservado do júri. Não ficaria muito bem se virar e olhar para ela, mas ele se sentiu tentado. Quantos deles teriam procurado o escrevente Bruzzielli para verificar o endereço e os números dos telefones de casa e do trabalho — como ele fizera? O escrevente guardava papeizinhos com essas informações, as chamadas cédulas, em uma urna sobre a sua mesa na sala de audiências, de modo que o tribunal pudesse se comunicar rapidamente com os jurados para informar mudanças de programa ou qualquer outra coisa. Na qualidade de promotor do caso, ele, Kramer, podia abordar Bruzzielli e pedir para ver a cédula da garota de batom cor de terra ou de qualquer outro jurado com a cara mais limpa. O mesmo poderia fazer Teskowitz, o advogado de defesa. Kovitsky poderia fazê-lo com uma cara razoavelmente limpa, e naturalmente o próprio Bruzzielli poderia dar uma olhada quando quisesse. Quanto aos guardas judiciários como Kaminsky, pedir para dar uma olhada caía na categoria de... uma piscadela e um favor. Mas Kramer já não vira Kaminsky conferenciando com Bruzzielli na mesa deste, muito entretidos com algum... assunto? A ideia de que até criaturas como o gordo Kaminsky estavam atrás dessa... dessa flor... tornou Kramer mais decidido do que nunca. (Salvaria a moça dos outros.)
Srta. Shelly Thomas de Riverdale.
Vinha da melhor seção de Riverdale, um subúrbio arborizado que geograficamente fazia parte do município de Westchester, mas politicamente, do Bronx. Ainda havia muitos lugares bonitos para se morar em North Bronx. As pessoas de Riverdale em geral eram endinheiradas e tinham também meios de obter dispensa do júri. Apelavam para todos os pistolões possíveis antes de se submeter à perspectiva de comparecer ao South Bronx, ao 44o Distrito, à ilha-fortaleza de Gibraltar. O júri típico do Bronx era porto-riquenho e negro com uma pitada de judeus e italianos.
Mas de vez em quando uma flor rara como a srta. Shelly Thomas aparecia na bancada do júri. Que espécie de nome era aquele? Thomas era um nome branco, anglo-saxão, protestante. Mas havia o Danny Thomas, e ele era árabe, libanês ou algo do gênero. Brancos, anglo-saxões, protestantes eram raros no Bronx, à exceção daqueles tipos da alta sociedade que, vez por outra, vinham de Manhattan, em carros com motoristas, para prodigalizar caridade à juventude do gueto. A organização Big Brother, o Episcopal Youth Service, a Daedalus Foundation — essa gente aparecia no Juizado de Menores, que era o tribunal para criminosos menores de dezessete anos. E tinham nomes como... Farnsworth, Fiske, Phipps, Simpson, Thornton, Frost... e intenções impecáveis.
Não, as chances de a srta. Shelly Thomas ser branca, anglo-saxã, protestante eram remotas. Mas quem era ela? Durante a escolha dos jurados obtivera a informação de que era diretora de arte, o que aparentemente significava uma espécie de desenhista industrial, na Prischker & Bolka, uma agência de publicidade em Manhattan. A Kramer isso sugeria uma vida indizivelmente glamourosa. Lindas criaturas correndo de lá para cá ao som de gravações new wave num escritório de paredes lisas e brancas e tijolos de vidro... uma espécie de escritório da MTV... fantásticos almoços e jantares em restaurantes decorados em madeira clara, latão, luz indireta e vidro jateado com desenhos em zigue-zague... codorna assada com cogumelos, disposta sobre batatas-doces, e uma guirlanda de folhas de dente-de-leão cozidas no vapor... Conseguia visualizar tudo. Ela fazia parte dessa vida, desses lugares onde vão as moças com batom cor de terra... Tinha os dois números de telefone, o da Prischker & Bolka e o de casa. Naturalmente não poderia fazer nada enquanto o julgamento durasse. Mas depois... Srta. Thomas? Aqui é Lawrence Kramer. Sou — ah! lembra! Isso é fantástico! Srta. Thomas, estou telefonando porque a intervalos regulares, quando encerramos um desses casos importantes, gosto de me certificar qual foi exatamente o argumento que convenceu o júri — uma súbita pontada de dúvida... Suponha que na realidade ela pusesse o caso a perder para ele? Os júris do Bronx já eram bastante difíceis para um promotor nas atuais circunstâncias. Era escolhido naquela camada que sabia que de fato a polícia era capaz de mentir. Os júris do Bronx alimentavam muitas dúvidas, tanto razoáveis quanto desarrazoadas, e acusados negros e porto-riquenhos, culpados completamente, culpados como a própria culpa, costumavam sair daquelas fortalezas, livres como pássaros. Felizmente, Herbert 92X matara um bom homem, um homem pobre, um homem de família do gueto. Graças a Deus! Provavelmente nenhum jurado que morasse em South Bronx simpatizaria com um doido mal-humorado como Herbert. Somente alguém imprevisível como a srta. Shelly Thomas de Riverdale poderia demonstrar simpatia! Uma mulher educada, jovem e branca, bem de vida, do tipo artístico, provavelmente judia... O tipo capaz de bancar a idealista e se recusar a condenar Herbert porque ele era preto, romântico e maltratado pelo Destino. Mas tinha que se arriscar. Não pretendia deixá-la escapar. Precisava dela. Precisava dessa vitória. Nesse tribunal ele ocupava o centro da arena. Os olhos dela nunca se despregavam dele. Sabia disso. Sentia-o. Já havia alguma coisa entre eles... Larry Kramer e a moça de batom cor de terra.
Os assistentes habituais se surpreenderam naquele dia com o zelo e a agressividade do promotor distrital assistente Kramer nesse caso barato de homicídio, no Bronx.
Ele começou por atacar as testemunhas do álibi de Herbert.
— Não é verdade, sr. Williams, que esse seu “testemunho” faz parte de uma transação em dinheiro entre o senhor e o acusado?
Que diabo acontecera com Kramer? Teskowitz estava começando a se enfurecer. Esse filho da mãe do Kramer estava deixando-o mal! Estava arrebatando o tribunal como se essa merdinha fosse o julgamento do século.
Kramer mostrava-se indiferente aos sentimentos feridos de Teskowitz, de Herbert 92X e de todo o resto. Só havia duas pessoas naquela sala cavernosa de mogno, e eram Larry Kramer e a moça de batom cor de terra.
Durante o intervalo para o almoço, Kramer voltou à promotoria, como o faziam sempre Ray Andriutti e Jimmy Caughey. Um promotor distrital assistente durante o julgamento de um caso de que estivesse encarregado tinha direito a almoço para si e suas testemunhas por conta do Estado de Nova York. Na prática, isso significava que todos na promotoria esperavam ganhar um almoço de graça, e Andriutti e Caughey eram os primeiros da fila. Esse patético privilegiozinho da promotoria era levado a sério. A secretária de Bernie Fitzgibbon, Gloria Dawson, encomendou sanduíches na delicatessen. E também ganhou um. Kramer pediu um sanduíche de rosbife com pão de cebola e mostarda. A mostarda veio em um envelope gelatinoso de plástico lacrado que ele precisou abrir com os dentes. Ray Andriutti estava comendo um de pimentão com tudo a que tinha direito de recheio, exceto duas enormes fatias de picles doces que jaziam num pedaço de papel parafinado sobre sua mesa. O cheiro da salmoura dos picles impregnava a sala. Kramer observava com fascinada repugnância Andriutti debruçar-se na escrivaninha, de modo que os farelos e os molhos que espirravam do sanduíche caíssem na mesa, e não em sua gravata. Ele repetia o gesto a cada bocada; atirava-se sobre a mesa, e os pedacinhos de comida e o molho escorriam pelo queixo, como se ele fosse uma baleia ou um atum. A cada mergulho seu queixo passava rápido por uma xícara plástica de café que estava em cima da mesa. O café vinha da cafeteira. A xícara estava tão cheia, que o café se avolumava na superfície. De repente, começou a transbordar. Um corregozinho viscoso e amarelado, da grossura de um barbante, começou a escorrer pelo lado da xícara. Andriutti nem reparou. Quando o filete amarelo e imundo alcançou o tampo da mesa, formou uma poça do tamanho aproximado de uma cédula de meio dólar com a cara do Kennedy. Não demorou, estava do tamanho e da cor de uma panqueca de um dólar. Em seguida os cantos de dois saquinhos vazios de açúcar submergiram no caldo. Andriutti sempre enchia o café de leite em pó e açúcar até transformá-lo numa bile amarelada, repugnante e melada. Suas mandíbulas abertas, atochadas de sanduíche, continuavam a avançar para a xícara de café. O ponto alto do dia! Um almoço de graça!
“E isso não vai melhorar”, pensou Kramer. Não eram apenas os jovens promotores assistentes como ele, Andriutti e Jimmy Caughey. Por toda a Gibraltar, nesse momento, do mais humilde ao mais importante, os representantes do Poder no Bronx estavam metidos em seus gabinetes, as costas encurvadas, atracados aos sanduíches para viagem da delicatessen. Em torno da grande mesa de reuniões no gabinete de Abe Weiss eles estavam atracados aos sanduíches da delicatessen, “eles” sendo no caso quaisquer pessoas que Weiss pensasse que precisava e conseguisse encontrar naquele dia na sua cruzada publicitária. Ao redor da grande mesa de reuniões no gabinete do juiz administrativo, chefe da Divisão Criminal, Louis Mastroiani, estavam atracados aos sanduíches da delicatessen. Mesmo quando esse respeitável jurista recebia a visita de um grande luminar, mesmo quando um senador dos Estados Unidos aparecia, sentavam-se atracados aos sanduíches da delicatessen, o luminar inclusive. Podia-se ascender ao topo do sistema judiciário no Bronx e comer sanduíches da delicatessen ao almoço até o dia de se aposentar ou morrer.
E por quê? Porque eles, o Poder, o Poder que administrava o Bronx, viviam aterrorizados! Aterrorizados ante sair para o coração do Bronx ao meio-dia e almoçar em um restaurante! Aterrorizados! E eles administravam esse lugar, o Bronx, um município de 1, 1, milhão de almas! O coração do Bronx transformara-se numa tal favela que já não havia nada que lembrasse um restaurante em que a pessoa pudesse se sentar. Mas mesmo que houvesse, que juiz, ou promotor público, ou promotor assistente, que guarda judiciário, mesmo portando um 38, iria deixar a Gibraltar na hora do almoço para chegar lá? Primeiro, havia o medo puro e simples. Andava-se do Edifício da Municipalidade do Bronx County até a Grand Concourse e descia-se a 161st Street para chegar ao Edifício dos Tribunais Criminais, à distância de um quarteirão e meio, se fosse necessário, mas o prudente detentor do Poder mantinha-se vigilante. Havia assaltos no topo da Grand Concourse, esse grande ornamento do Bronx, às 11 horas da manhã, em belos dias de sol. E por que não? Mais carteiras e bolsas andavam a pé nos belos dias de sol. Nunca se ultrapassava o Edifício dos Tribunais Criminais, de modo algum. Havia promotores assistentes que tinham trabalhado na Gibraltar dez anos e que não saberiam dizer, mesmo valendo uma aposta, o que havia na 162nd Street ou na 163rd Street, a um quarteirão da Grand Concourse. Nunca tinham estado no Museu de Arte do Bronx, na 164th. Mas suponha que alguém fosse corajoso a esse ponto. Restava ainda um outro medo mais sutil. Qualquer um era alienígena nas ruas do 44º Distrito, e percebia isso imediatamente, todas as vezes que o Destino o levava a entrar no território deles. Os olhares! Os olhares! A desconfiança mortal! Não se era desejado. Não se era bem-vindo. Gibraltar e o Poder pertenciam ao Partido Democrático do Bronx, aos judeus e italianos, especificamente, mas as ruas pertenciam aos Lockwoods, aos Arthur Riveras, aos Jimmy Dollards, aos Otis Blakemores e aos Herbert 92Xs.
Esse pensamento deprimiu Kramer. Ali estavam ele e Andriutti, o judeu e o italiano, devorando seus sanduíches, mandados trazer ao interior da fortaleza, ao interior da rocha. E para quê? Quais eram as perspectivas? Como é que essa estrutura poderia sobreviver tempo suficiente para que eles alcançassem o topo da pirâmide, mesmo presumindo que valesse a pena alcançá-lo? Mais cedo ou mais tarde os porto-riquenhos e os negros se agrupariam politicamente e se apossariam até da Gibraltar e de tudo o que havia nela. Entrementes, que estaria fazendo? Revolvendo a sujeira... revolvendo a sujeira... até que tirassem a varinha de sua mão.
Nesse momento, o telefone tocou.
— Alô!
— Bernie?
— Pediu o ramal errado — disse Kramer —, mas acho que ele não está.
— Quem está falando?
— Kramer.
— Ah, sei, lembro-me de você. Aqui é o detetive Martin.
Kramer não se lembrava realmente de Martin, mas o nome e a voz dispararam uma lembrança vagamente desagradável.
— Em que posso ajudá-lo?
— Bom, estou aqui no Lincoln Hospital com meu companheiro, Goldberg, e temos esse caso de tentativa de homicídio, e achei que devia falar com Bernie.
— Foi você que falou com alguém aqui há umas duas horas? Ray Andriutti?
— Fui eu.
Kramer suspirou.
— Bom, Bernie ainda não voltou. Não sei onde está.
Uma pausa.
— Merda. Talvez possa dar esse recado a ele.
Mais um suspiro.
— Tudo bem.
— Há um garoto aqui, Henry Lamb, L-A-M-B, dezoito anos, e está na unidade de tratamento intensivo. Chegou aqui à noite passada com um pulso quebrado. Certo? Quando deu entrada, ao menos segundo a papeleta, não mencionou nada sobre um carro que o atropelou. Aqui diz apenas que caiu. Certo? Então encanaram o pulso partido na sala de emergência e o mandaram para casa. Hoje, a mãe do garoto o trouxe de volta aqui, e ele teve uma concussão e entrou em coma, e agora o estão classificando como um possível óbito. Certo?
— Sei...
— O garoto estava em coma na altura em que nos chamaram, mas tem uma enfermeira aqui que diz que ele falou com a mãe que foi atropelado por um Mercedes, o carro sumiu, e ele se lembra de parte do número da placa.
— Alguma testemunha?
— Não. Isso tudo foi a enfermeira que disse. Não conseguimos encontrar a mãe.
— Supostamente isso é um ou são dois acidentes? Você falou num pulso quebrado e numa concussão.
— Um, segundo essa enfermeira, que está toda agitada e me torrando o saco a respeito de um atropelamento com fuga do responsável. Está uma zona danada, mas achei que devia falar com Bernie, caso ele queira tomar alguma providência.
— Bom, vou dar o recado a ele, mas não percebo o que isso tem a ver conosco. Não há testemunha, não há motorista — o sujeito está em coma —, mas falarei com ele.
— É, eu sei. Se encontrar a mãe e conseguir alguma coisa, diga ao Bernie que voltarei a telefonar.
— Certo.
Depois que desligou, Kramer rabiscou um bilhete para Bernie Fitzgibbon. A vítima esqueceu de mencionar que foi atropelada por um carro. Um caso típico do Bronx. Mais uma merdinha.