A Fogueira das Vaidades
Capítulo 3
3
DO QUINQUAGÉSIMO ANDAR
Sherman McCoy saiu de seu edifício segurando a mão da filha, Campbell. Dias enevoados como esse produziam claridade cinza-azulada na Park Avenue. Mas logo que deixavam o abrigo do toldo da entrada... que radiosidade! O canteiro central da Park era uma guirlanda de tulipas amarelas. Havia milhares delas, graças às taxas que os proprietários de apartamentos, como Sherman, pagavam à Park Avenue Association e aos milhares de dólares que a associação pagava a um serviço de jardinagem chamado Wiltshire Country Gardens, dirigido por três coreanos de Maspeth, Long Island. Havia um quê de celestial no fulgor dourado das tulipas. O que era justo. Desde que Sherman segurasse a mão da filha e a levasse ao ponto do ônibus, sentia-se partícipe da graça de Deus. Era uma sensação sublime e não custava muito. O ponto do ônibus ficava no outro lado da rua. Havia pouca chance de se impacientar com os passinhos de Campbell e estragar o refrescante gole de paternidade que tomava todas as manhãs.
Campbell frequentava o primeiro ano na Taliaferro, que como todos — tout le monde — sabiam, pronunciava-se Toliver. Todas as manhãs, a Taliaferro School despachava para a Park Avenue seu ônibus particular, com motorista e uma acompanhante para as crianças. Na verdade, poucas eram as meninas da Taliaferro que não moravam a uma curta distância do trajeto do ônibus.
Para Sherman, ao desembocar na calçada segurando a mão de Campbell, ela era uma visão. Era uma visão renovada a cada manhã. Seu cabelo era uma exuberância de ondas macias iguais às da mãe, porém mais claras e mais douradas. O rostinho — uma perfeição! Nem mesmo a fase desajeitada da adolescência iria alterá-lo. Tinha certeza disso. Vestida com a sainha vinho da escola, blusa branca de gola amarela, sacolinha de náilon, meias brancas três-quartos, ela era um anjo. Sherman achava a visão em si inacreditavelmente comovente.
O porteiro do turno da manhã era um velho irlandês chamado Tony. Depois de abrir a porta, saiu para baixo do toldo e observou-os partir. Isso era ótimo... ótimo! Sherman gostava de ter a sua paternidade notada. Essa manhã ele era um indivíduo sério, que representava a Park Avenue e a Wall Street. Usava um terno cinza-azulado de lã penteada, talhado sob medida na Inglaterra por 1.800 dólares, com dois botões e recortes discretos nas lapelas. Na Wall Street os jaquetões e as lapelas pontiagudas eram considerados um pouco exagerados, um pouco janotas demais. Seu basto cabelo castanho estava penteado para trás. Ele aprumou os ombros e levantou o nariz comprido e o maravilhoso queixo.
— Queridinha, deixe-me abotoar seu suéter. Está um pouquinho frio.
— Nem vem, José — respondeu Campbell.
— Vamos, fofinha, não quero que apanhe um resfriado.
— NÃO, Séjo, NÃO. — E afastou os ombros para longe num movimento brusco. Séjo era José silabado de trás para diante. — N-n-n-nããõooo.
Diante disso Sherman suspirou e abandonou o plano de proteger a filha dos elementos. Caminharam mais um pouquinho.
— Papai?
— Sim, queridinha?
— Papai, e se Deus não existir?
Sherman assustou-se, embatucou. Campbell tinha os olhos erguidos para ele numa expressão perfeitamente normal, como se tivesse acabado de perguntar como se chamavam aquelas flores amarelas.
— Quem disse que Deus não existe?
— Mas e se não existir?
— Que a faz pensar... alguém lhe disse que Deus não existe?
Que encrenqueirozinho pérfido em sua turma andara espalhando um veneno daqueles? Ao que Sherman soubesse, Campbell ainda acreditava em Papai Noel, e ali estava ela começando a questionar a existência de Deus! Por outro lado... era uma pergunta precoce para uma menina de seis anos, não era? Não havia dúvida alguma. Pensar que tal especulação...
— Mas e se não existir? — Estava aborrecida. Perguntar-lhe sobre a origem da pergunta não era resposta.
— Mas Deus existe, fofinha. Por isso não sei lhe responder sobre o caso de “não existir”.
Sherman procurava nunca mentir para a filha. Mas desta vez achou que era o mais prudente. Sempre alimentara esperanças de que nunca teria de discutir religião com ela. Tinham começado a mandá-la à escola dominical da Igreja Episcopal Saint James, na esquina da Madison com a 71th. Era assim que se resolvia o problema de religião. Matriculavam-se os filhos na Saint James e evitava-se conversar ou pensar de novo no assunto.
— Ah! — exclamou Campbell. Ficou com o olhar perdido na distância. Sherman sentiu-se culpado. Ela levantara uma questão difícil, e ele a evitara. E ali estava a menina, com seis anos de idade, tentando juntar as peças do maior quebra-cabeça da vida.
— Papai?
— Sim, queridinha? — Prendeu o fôlego.
— Sabe a bicicleta da sra. Winston?
“A bicicleta da sra. Winston?” Então lembrou-se. Dois anos antes, no jardim de infância de Campbell, havia uma professora chamada sra. Winston, que enfrentava o tráfego e ia de bicicleta para a escola todos os dias. Todas as crianças achavam aquilo maravilhoso, uma professora que ia para a escola de bicicleta. Nunca mais ouvira Campbell mencionar a mulher desde então.
— Ah, sei, lembro. — Uma pausa ansiosa.
— MacKenzie tem uma igualzinha.
“MacKenzie?” MacKenzie Reed era uma menininha da turma de Campbell.
— Tem, é?
— Tem. Só que é melhor.
Sherman esperou... pelo salto lógico... mas ele não veio. Isso era tudo. Deus está vivo! Deus está morto! A bicicleta da sra. Winston. Nem vem, José! NÃO, Séjo! Tudo vinha da mesma miscelânea do baú dos brinquedos. Sherman se sentiu aliviado por um instante, mas em seguida se sentiu roubado. O pensamento de que sua filha poderia de fato ter questionado a existência de Deus aos seis anos de idade — isso ele tomara como sinal de uma inteligência superior. Nos últimos dez anos, no Upper East Side, pela primeira vez, a inteligência se tornara algo socialmente aceitável para meninas.
Muitas menininhas de saia vinho, com os pais ou as babás, estavam reunidas no ponto de ônibus da Taliaferro, na calçada oposta da Park Avenue. Assim que Campbell os viu, tentou soltar a mão de Sherman. Estava nessa fase. Mas ele nunca deixaria. Segurou a mãozinha com firmeza e atravessou a rua com a menina. Era o seu protetor. Olhou feio para um táxi que parou rangendo os freios no sinal. De boa vontade se atiraria diante do táxi, se isso fosse necessário, para salvar a vida de Campbell. Ao atravessarem a Park Avenue, teve uma visão do par ideal que formavam. Campbell, o anjo perfeito num uniforme de escola particular; ele, com cabeça aristocrática, o queixo de Yale, o físico avantajado, e o terno de 1.800 dólares, o pai do anjo, um homem de muitos talentos; imaginou os olhares de admiração, os olhares de inveja dos motoristas, dos pedestres, de todos.
Assim que chegaram ao ponto do ônibus, Campbell se desvencilhou. Os pais que levavam as filhas para o ponto do ônibus da Taliaferro de manhã formavam um grupo animado. Estavam sempre dispostos a conversar! Sherman começou por dar seus bons dias. Edith Tompkins, John Channing, a mãe de MacKenzie Reed, a babá de Kirby Coleman, Leonard Shorske, a sra. Lueger. Quando foi cumprimentar a sra. Lueger — nunca soubera seu nome de batismo — fez uma tomada dupla. Era uma loura pálida e esguia que nunca usava maquiagem. Essa manhã devia ter corrido com a filha para o ponto do ônibus em cima da hora. Vestia uma camisa azul de homem com os dois botões de cima desabotoados. Jeans velhos e umas sapatilhas de balé. Os jeans eram muito justos. Tinha um corpinho fantástico. Nunca reparara nisso antes. Era realmente incrível! Parecia tão... pálida e semiadormecida e vulnerável. Sabe, a senhora está precisando é de uma xícara de café, sra. Lueger. Vamos, estou indo para aquela cafeteria na Lexington. Ah, isso é bobagem, sr. McCoy. Venha até o meu apartamento. Já tenho café pronto. Ele a encarou por uns bons dois segundos mais do que deveria, e nessa hora... pimba... o ônibus chegou, um veículo grande e sólido do tamanho de um ônibus interestadual, e as crianças subiram os degraus aos pulos.
Sherman deu as costas e tornou a olhar para a sra. Lueger. Mas ela não estava olhando para ele. Caminhava na direção do seu edifício. A costura do zíper de seu jeans praticamente dividia a calça em duas. Havia manchas esbranquiçadas de cada lado dos fundilhos. Eram relevos da carne que se avolumava sob o tecido. Que maravilhoso traseiro o dela! E ele sempre pensara nessas mulheres como mamães. Quem poderia adivinhar que chamas ardiam no íntimo das mamães?
Sherman pôs-se a caminhar para leste, em direção ao ponto de táxi, na esquina da First Avenue com a 79th Street. Sentia-se eufórico. Exatamente por quê, não saberia explicar. A descoberta da linda sra. Lueger... sim, mas na realidade sempre saía do ponto do ônibus bem-humorado. A Melhor Escola, as Melhores Meninas, as Melhores Famílias, o Melhor Bairro da capital do mundo ocidental nos fins do século XX — mas a única cena que ficava impressa em sua mente era a sensação da mãozinha de Campbell apertando a sua. Era por isso que se sentia tão bem. O toque daquela mãozinha confiante, absolutamente dependente, era a própria vida.
Então seu ânimo se abateu. Estava caminhando a passos rápidos, com o olhar distraído tomando uma panorâmica das fachadas de arenito pardo das casas. Nessa manhã cinzenta, elas pareciam velhas e deprimentes. Sacos de polietileno deformados de lixo, em tons de castanho-cocô-de-cachorro e verde-bosta, estavam amontoados diante delas, junto ao meio-fio. A superfície dos sacos tinha uma aparência pegajosa. Como as pessoas podiam viver assim? A apenas dois quarteirões de distância ficava o apartamento de Maria... o de Ralston Thorpe era em algum lugar ali... Sherman e Rawlie tinham frequentado Buckley, St. Paul e Yale juntos, e agora ambos trabalhavam para a Pierce & Pierce. Rawlie se mudara de um apartamento de dezesseis cômodos na Fifth Avenue para os dois últimos andares de um palacete de arenito pardo, por ali, depois do divórcio. Muito deprimente. Bil Sherman dera um largo passo na direção de um divórcio na noite anterior, não? Não só Judy o apanhara em flagrante telefonema, por assim dizer, como também ele, abjeta presa da luxúria que era, não recuara e se deixara comer — perfeito! nada mais nada menos que isso! — fora comido! — e só voltara para casa 45 minutos depois... Que seria de Campbell se ele e Judy algum dia se separassem? Não conseguia imaginar a vida depois disso. Direito de visitas à própria filha? Como era a frase que usavam? “Tempo qualitativo”? Tão pretensioso, tão pretensioso... A alminha de Campbell iria se empedernir, mês após mês, transformando-se numa casquinha quebradiça...
A meio quarteirão de caminhada ele já estava se odiando. Teve vontade de dar meia-volta e retomar o caminho do apartamento, pedir perdão e jurar que nunca mais. Teve vontade, mas sabia que nunca faria isso. Isso o faria chegar atrasado ao escritório, o que não era nada bem-visto na Pierce & Pierce. Ninguém dizia nada abertamente, mas supostamente todos deviam chegar cedo e começar a fazer dinheiro... e dominar o universo. Um fluxo de adrenalina — as Giscards! Estava em vias de fechar o maior negócio de sua vida, as Giscards, as obrigações de ouro — Senhor do Universo! — e o desânimo voltou. Judy dormira no divã do quarto de vestir da suíte do casal. Ainda dormia, ou fingia dormir, quando ele se levantou. Bom, graças a Deus por isso. Não teria apreciado mais um round com ela pela manhã, principalmente com Campbell ou Bonita escutando. Bonita era uma dessas empregadas sul-americanas de jeito perfeitamente simpático, porém formal. Demonstrar cólera ou aflição diante dela seria uma gafe. Não admira que os casamentos costumassem durar mais. Os pais de Sherman e seus amigos, todos tinham muitos empregados, e os empregados trabalhavam muitas horas e moravam em casa. Se não havia disposição para discutir na frente deles, então não havia muita oportunidade de se discutir.
Assim, no melhor estilo McCoy, do mesmo modo que seu pai teria procedido — exceto que não conseguia imaginar seu pai numa enrascada dessas —, Sherman mantivera as aparências. Tomou o café da manhã na cozinha com Campbell, enquanto Bonita a ajudava a comer e a se preparar para a escola. Bonita tinha uma TV portátil na cozinha, e continuamente se virava para ver o noticiário sobre a rebelião no Harlem. Eram notícias quentes, mas Sherman não lhes dera atenção. Tudo parecia tão remoto... o tipo de coisa que acontecia lá... entre aquela gente... Andara ocupado tentando se munir de charme e alegria para que Bonita e Campbell não percebessem a atmosfera envenenada que envolvera a família.
A essa altura Sherman já caminhara até a Lexington Avenue. Sempre parava numa bonbonnière quase na esquina e comprava o Times. Ao virar a esquina, uma moça vinha em sua direção, uma moça alta com uma volumosa cabeleira loura. Uma grande bolsa pendia a tiracolo do seu ombro. Caminhava rapidamente, como se estivesse indo para o metrô da 77th Street. Trajava um longo suéter aberto na frente, que revelava uma camisa polo com um emblema bordado sobre o seio esquerdo. Usava uma calça branca do tipo não tô nem aí, muito larga e bamba nas pernas, mas excepcionalmente justa na virilha. Excepcionalmente! Havia uma espantosa fenda. Sherman arregalou os olhos e em seguida ergueu-os até o rosto dela. Ela o encarou de volta. Diretamente nos olhos. E sorriu. Não diminuiu a marcha nem lhe lançou um olhar provocante. Era um olhar confiante, otimista, que só faltava dizer “Oi! Somos um casal de belos animais, não somos?” Tão franco! Tão ousado! Tão avidamente descarado!
Na bonbonnière, depois de pagar pelo Times, Sherman voltou-se para sair, e seus olhos relancearam por uma estante de revistas. A carne salmão saltou diante dele... moças... rapazes... moças com moças... rapazes com rapazes... moças com rapazes... moças com seios nus, moças com traseiros nus... moças com adereços... uma orgia alegre e sorridente de pornografia, uma festança, uma depravação, um chafurdeiro... Na capa de uma revista há uma moça usando apenas um par de sapatos de salto alto e uma tanga... Só que não é uma tanga, é uma cobra... De alguma forma está encaixada na virilha e olha diretamente para Sherman... A moça está olhando diretamente para Sherman, também... Em seu rosto existe o sorriso mais radiante, mais singelo que se possa imaginar... É o rosto da moça que nos serve uma casquinha de sorvete de flocos na Baskin-Robbins...
Sherman retomou a caminhada em direção à First Avenue num estado de agitação. Pairava no ar! Era uma onda! Por toda parte! Iniludível!... Sexo!... à disposição!... Andava pela rua, com toda a ousadia!... Estava espalhado por todas as lojas! Se você fosse jovem e parcialmente vivo, que chance teria?... Tecnicamente, fora infiel à esposa. Bem, sem dúvida... mas quem poderia permanecer monógamo com esse, esse, esse maremoto de concupiscência rolando pelo mundo? Deus todo-poderoso! Um Senhor do Universo não poderia ser santo, afinal... Era inevitável. Pelo amor de Deus, não se podia esquivar de flocos de neve, e isso era uma nevasca! Só fora apanhado por ela, só isso, ou meio apanhado por ela. Não queria dizer nada. Não tinha dimensões morais. Era o mesmo que se encharcar. Na altura em que alcançou o ponto de táxi, na esquina da First com a 79th, praticamente acabara de acertar tudo na cabeça.
Na esquina da First Avenue com a 79 th Street os táxis se enfileiravam todos os dias para levar os jovens Senhores do Universo até a Wall Street. De acordo com os regulamentos, todo motorista de táxi era obrigado a levar o passageiro aonde ele quisesse ir, mas os motoristas parados na esquina da First com a 79 th nem se mexiam, a não ser que a pessoa fosse para a Wall Street ou suas imediações. Do ponto, os táxis rodavam dois quarteirões para leste e em seguida margeavam o East River pela rodovia, a FDR, a Franklin Delano Roosevelt.
Era uma corrida de dez dólares toda manhã, mas que era isso para um Senhor do Universo? O pai de Sherman sempre tomara o metrô para a Wall Street, mesmo quando era o executivo mais graduado da Dunning Sponget & Leach. Mesmo agora, com 71 anos, quando fazia suas excursões diárias a Dunning Sponget para respirar o mesmo ar que seus colegas advogados por três ou quatro horas, servia-se do metrô. Era uma questão de princípios. Quanto mais assustador o metrô se tornava, quanto mais pichações as pessoas fizessem nos trens, mais cordões de ouro arrancassem do pescoço das moças, mais velhos agredissem para roubar, mais mulheres empurrassem na frente dos trens, tanto mais decidido se tornava John Campbell McCoy de que não iam expulsá-lo do metrô da cidade de Nova York. Mas para a nova geração, a geração jovem, a geração de senhores, a geração de Sherman, tal princípio não existia. Isolamento! Essa era a senha. Era o termo que Rawlie Thorpe usava. “Se quiser morar em Nova York”, disse certa vez a Sherman, “é preciso se isolar, se isolar, se isolar”, denotando com isso isolar-se daquela gente. O cinismo e a presunção da ideia pareceram a Sherman muito au courant. Se era possível ir apanhando ar fresco pela FDR num táxi, então para que se meter nas trincheiras das guerras urbanas?
O motorista era... turco? armênio? Sherman tentou ler seu nome no cartão encaixado no painel do carro. Quando o táxi chegou à rodovia, recostou-se para ler o Times. Havia uma foto na primeira página de uma horda de gente em um palco e o prefeito parado junto a um pólido, olhando. O tumulto, sem dúvida. Começou a ler o artigo, mas sua mente divagava. O sol começava a romper as nuvens. Via-o no rio, para a esquerda. Naquele momento o pobre rio imundo cintilava. Afinal, era um dia ensolarado de maio. À frente, erguiam-se as torres do Hospital Nova York, à beira da rodovia. Havia um aviso para a saída da East 71st Street, a que seu pai sempre usava quando voltavam de Southampton nas noites de domingo. Só em avistar o hospital e a saída fez Sherman pensar em — não, não era tanto pensar quanto sentir — a casa da 73rd Street com os seus cômodos pintados de verde-nova-iorquino. Crescera naqueles cômodos de um verde acinzentado e claro, e subia e descia aqueles quatro lances de escadas estreitas acreditando que estava vivendo no auge da elegância em casa do poderoso John Campbell McCoy, o Leão da Dunning Sponget & Leach. Só recentemente percebera que nos idos de 1948, quando seus pais tinham comprado e reformado a casa, eles formavam um casal ligeiramente aventureiro, enfrentando o que à época era uma velha ruína num quarteirão decadente, mantendo o tempo todo um olho atento nos custos, e se orgulhando da excelente casa que tinham erguido por uma quantia relativamente modesta. Nossa! Se o pai algum dia descobrisse quanto pagara por seu apartamento e como o financiara, teria um enfarte! Dois milhões e seiscentos mil dólares, sendo 1,8 milhão financiados... Vinte e um mil dólares por mês de amortização e juros com um pagamento único de 1 milhão de dólares vencível dentro de dois anos... O Leão da Dunning Sponget ficaria estarrecido... e, pior que estarrecido, magoado... magoado de pensar que as suas lições incessantemente repetidas sobre dever, dívida, ostentação e proporção tinham entrado por um ouvido do filho e saído pelo outro...
Será que o pai dava suas voltinhas? Não estava fora de cogitação. Era um homem bonitão. Tinha o Queixo. No entanto, Sherman não conseguia imaginar.
E quando avistou a ponte do Brooklyn à frente, parou de tentar. Dentro de poucos minutos estaria na Wall Street.
O banco de investimentos Pierce & Pierce ocupava o quinquagésimo, o quinquagésimo primeiro, o quinquagésimo segundo, o quinquagésimo terceiro e o quinquagésimo quarto andares de uma torre de vidro que se elevava sessenta andares acima das entranhas sombrias da Wall Street. A sala de operação de obrigações, em que Sherman trabalhava, situava-se no quinquagésimo. Todos os dias ele desembarcava de um elevador revestido de alumínio no que parecia o saguão de recepção de um desses novos hotéis londrinos construídos para agradar ianques. Junto ao elevador havia uma falsa lareira e um consolo de mogno antigo com grandes cachos de frutas esculpidos nos cantos. Diante da falsa lareira havia uma grade de latão ou um guarda-fogo, como o chamavam nas casas de campo do oeste da Inglaterra. Nos meses apropriados ardia um fogo falso no interior da lareira, que projetava luzes tremulantes sobre um par de prodigiosos cães de lareira de latão. A parede circundante era revestida de mais mogno, avermelhado e luxuoso, em painéis esculpidos com dobras de linho tão fundas, que se podia sentir o custo na ponta dos dedos, só de olhar.
Tudo isso refletia a paixão do diretor responsável pela Pierce & Pierce, Eugene Lopwitz, por coisas inglesas. Coisas inglesas — escadas de biblioteca, consolos curvos, com pernas estilo Sheraton, espaldares estilo Chippendale, cortadores de charuto, poltronas felpudas, carpetes Wilton — multiplicavam-se no quinquagésimo andar da Pierce & Pierce de dia para dia. Ai dele, não havia muito que Eugene Lopwitz pudesse fazer pelo teto, que mal chegava a 2,40 metros do chão. O piso fora alteado trinta centímetros. Sob a superfície corriam cabos e fios suficientes para eletrificar a Guatemala. Os fios conduziam a energia para os terminais de computação e os telefones da sala de operação de obrigações. O teto fora rebaixado 30 centímetros para embutir as luminárias e os dutos de ar-condicionado e mais alguns quilômetros de fiação. O piso subira; o teto descera; era como se a pessoa estivesse numa mansão inglesa achatada.
Mal se passava pela falsa lareira e já se ouvia um ruído ensurdecedor, como o vozerio de uma multidão. Vinha de algum ponto depois do canto. Não havia como não ouvi-lo. Sherman McCoy seguiu direto para ele, com prazer. Nessa determinada manhã, como em todas as manhãs, aquilo ressoava em suas entranhas.
Contornou o canto e lá estava: a sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce. Era um espaço amplo, talvez 18 metros x 24 metros, mas com o mesmo teto de 2,40 metros de altura comprimindo a cabeça de todos. Era um espaço sufocante com uma claridade violenta, silhuetas se contorcendo e ruído tonitruante. A claridade vinha de uma parede de vidro voltada para o sul, que descortinava o porto de Nova York, a estátua da Liberdade, Staten Island e o litoral do Brooklyn e de Nova Jersey. As silhuetas que se contorciam eram os braços e tronco dos rapazes, uns poucos com mais de quarenta anos. Estavam sem paletó. Andavam de um lado para o outro agitados e suarentos, já cedo pela manhã, aos gritos, o que produzia o tal ruído. Era o som de rapazes brancos e educados correndo atrás do dinheiro no mercado de obrigações.
— Atenda a porra do telefone, por favor! — um rapaz de rosto gorducho e corado da turma de 1976 de Harvard gritava para alguém a duas fileiras de distância. A sala era como a redação de um jornal na medida em que não havia divisórias nem sinais visíveis de hierarquia. Todos se sentavam às escrivaninhas de metal cinza-claro diante de terminais de computador cor de pele com telas negras. Carreiras de letras e números verde-diodo deslizavam pelas telas.
— Eu disse por favor atenda a porra do telefone! Que merda!
Havia meias-luas escuras sob as cavas de sua camisa e o dia acabara de começar.
Um rapaz da turma de 1973 de Yale, com um pescoço que parecia se espichar quase trinta centímetros para fora do colarinho, olhava fixamente para a tela e berrava ao telefone com um corretor em Paris:
— Se você não consegue ver a porra da tela... Ah, pelo amor de Deus, Jean Pierre, isso são os 5 milhões do comprador! Do comprador! Não vai entrar mais nada!
Então abafou o telefone com a mão, olhou para o teto e disse em voz alta para ninguém, exceto o deus-dinheiro:
— Bichas francesas! As porras das bichas francesas!
A quatro mesas de distância, um rapaz da turma de 1979 de Stanford estava sentado, olhando atentamente para uma folha de papel sobre a escrivaninha, segurando um telefone ao ouvido. O pé direito se apoiava no estribo de uma caixa de engraxate, e um negro chamado Félix, de uns cinquenta anos — ou seria uns sessenta? — estava debruçado sobre o pé, dando polimento no sapato com uma flanela de lustrar. O dia todo Félix se deslocava de escrivaninha em escrivaninha, engraxando sapatos de jovens operadores de obrigações enquanto estes trabalhavam, a 3 dólares o par, incluindo a gorjeta. Raramente trocavam uma palavra; quase não chegavam a registrar Félix em sua retina. Nesse momento, o Stanford 1979 se levantou, os olhos ainda colados na folha de papel, o telefone ainda ao ouvido — e o pé direito ainda apoiado no estribo da caixa de engraxate — e gritou:
— Ora essa, por que acha que todo mundo está vendendo a porra de vinte anos?
“Nem chegou a tirar o pé da caixa do engraxate! Que pernas fortes deve ter!”, pensou Sherman. Sherman se sentou diante do próprio telefone e dos terminais de computador. Os berros, as imprecações, a gesticulação, a porra da cobiça e do medo o envolviam, e ele adorava isso. Era o operador número um de obrigações, “o maior produtor”, como dizem, na sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce no quinquagésimo andar, e ele adorava o próprio rugido da tempestade.
— Essa ordem do Goldman ferrou com tudo!
— ... entre na porra da...
— ... venda a 8 e meio.
— Estou dois pontos fora.
— Alguém está tentando te ferrar. Não está vendo?
— Vou aceitar a ordem e comprar a seis ou mais...
— Negocie as de cinco anos!
— Venda as de cinco!
— Não dava para ser dez?
— Acha que vai continuar subindo?
— Corrida para vender as de vinte anos! Os panacas não falam em outra coisa!
— ... cem milhões de julho de 90 no preço certo...
— Estou completamente a descoberto!
— Nossa, que está acontecendo?
— Uma porra que acredito nisso!
— Puta que pariu! — gritaram os rapazes de Yale, os de Harvard e os de Stanford. — Pu-ta que pa-riu!
Como esses rebentos das grandes universidades, esses legatários de Jefferson, Emerson, Thoureau, William James, Frederick Jackson Turner, William Lyons Phelps, Samuel Flagg Bemis e outros gigantes de três nomes da erudição americana — como esses herdeiros da lux e da veritas acorriam agora para a sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce! Como circulavam histórias em todos os campi! Se o sujeito não estivesse ganhando 250 mil dólares por ano dentro de cinco anos, ou era exageradamente burro ou exageradamente preguiçoso. Essa era a conclusão. Aí pelos trinta anos, 500 mil dólares — e essa soma tinha o estigma da mediocridade. Aí pelos quarenta ou o sujeito estava fazendo 1 milhão por ano ou era tímido e incompetente. Ganhe agora! Esse lema ardia em cada coração como uma miocardite. Meninos na Wall Street, simples meninos, sem barba no queixo e com artérias sãs, meninos ainda capazes de se ruborizar estavam comprando apartamentos de 3 milhões de dólares na Park e na Fifth. (Por que esperar?) Estavam adquirindo casas de verão de trinta cômodos com 16 mil metros quadrados de terreno em Southampton, propriedades construídas na década de 1920 e descartadas na década de 1950 como elefantes brancos, mansões com alas para criadagem dilapidadas, e estavam reconstruindo essas alas e até mesmo ampliando-as. (Por que não? Temos empregados.) Mandavam instalar carrosséis completos nos extensos gramados verdejantes para as festas de aniversário dos filhos, com equipes de operadores e tudo. (Uma industriazinha que prosperava.)
E de onde vinha todo esse dinheiro novo? Sherman ouvira Gene Lopwitz dissertar sobre o assunto. Na análise de Lopwitz, deviam agradecer a Lyndon Johnson. Silenciosamente os Estados Unidos começaram a imprimir dinheiro aos bilhões para financiar a guerra do Vietnã. Antes que qualquer pessoa, até mesmo Johnson, soubesse o que estava acontecendo, desencadeara-se uma inflação de âmbito mundial. As pessoas só atentaram para isso quando inesperadamente os árabes majoraram os preços do petróleo no início da década de 1960. Num piscar de olhos, os mercados de todos os tipos viraram verdadeiros cassinos: ouro, prata, cobre, moedas, certificados bancários — e até obrigações. Durante anos as obrigações foram o gigante inválido da Wall Street. Em firmas como Salomon Brothers, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Pierce & Pierce muito mais dinheiro (o dobro) trocava de mãos no mercado de obrigações do que no mercado de ações. Mas os preços só se alteravam em cents e de um modo geral para baixo. Lopwitz definia: “O mercado de obrigações vem caindo desde a Batalha de Midway.” A Batalha de Midway (Sherman teve que consultar a enciclopédia) ocorrera na Segunda Guerra Mundial. A seção de obrigações da Pierce & Pierce consistia então de vinte almas, vinte almas um tanto insípidas conhecidas como os Obrigachatos. Os membros menos promissores da firma eram encaminhados para a seção de obrigações, onde não podiam causar prejuízo algum. Sherman resistiu ao pensamento de que ainda era assim quando ingressara na seção de obrigações. Bom, não se falava mais nos Obrigachatos hoje em dia... Ah, não! De modo algum! O mercado de obrigações pegara fogo, e vendedores experientes como ele subitamente se tornaram muito necessários. De repente, nas firmas de investimentos de toda a Wall Street, os Obrigachatos de outrora estavam faturando tanto que passaram a se reunir depois do trabalho em um bar da Hanover Square chamado Harry’s, para contar casos de guerra... e reafirmarem uns para os outros que isso não era só sorte, mas um surto de talento coletivo. As obrigações agora representavam 4/5 dos negócios da Pierce & Pierce, e os grã-fininhos, os graduados de Yale, Harvard e Stanford estavam desesperados para chegar à sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce, e agora mesmo suas vozes ricocheteavam pelas paredes de mogno com dobras de linho de Eugene Lopwitz.
Senhores do Universo! O vozerio enchia a alma de Sherman de esperança, confiança, esprit de corps e virtude. É, virtude! Judy não entendia nada disso. Nadinha. Ah, reparava que seus olhos se embaciavam quando ele falava disso. Mover a alavanca que movia o mundo era o que ele fazia — e só o que ela queria saber era por que nunca chegava em casa na hora do jantar. E quando chegava em casa na hora do jantar, sobre o que queria conversar? Sobre o seu precioso negócio de decoração de interiores e a maneira pela qual conseguira estampar o apartamento deles no Architectural Digest, o que, sinceramente, para um verdadeiro wall-streetano era um constrangimento só. E será que o elogiava pelas centenas de milhares de dólares que tornavam possível a sua decoração e os almoços e qualquer outra coisa que fizesse? Isso não. Eram favas contadas... e assim por diante. Em noventa segundos, animado pelo ruído ensurdecedor da sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce, Sherman conseguiu encher a cabeça de justificado rancor contra a mulher que ousava fazê-lo se sentir culpado.
Apanhou o telefone e estava pronto para retomar o trabalho do maior negócio de sua jovem carreira, a Giscard, quando percebeu uma coisa pelo canto do olho. Pilhara algo — justificadamente! — em meio ao quadro de membros e torsos em contorções produzido pelas obrigações. Arguello estava lendo um jornal.
Ferdinand Arguello era um operador júnior de obrigações, de 25 ou 26 anos, vindo da Argentina. Estava displicentemente recostado na cadeira lendo um jornal, e mesmo a distância dava para Sherman ver qual era: The Racing Form. The Racing Form! O rapaz parecia uma caricatura de um jogador de polo sul-americano. Era esguio e bonitão; tinha cabelos negros, bastos e ondulados, penteados para trás. Usava um par de suspensórios de moiré. Moiré. A seção de operação de obrigações da Pierce & Pierce era como uma esquadrilha de combate da força aérea. Sherman sabia disso mesmo que esse jovem sul-americano não o soubesse. Na qualidade de operador número um de obrigações, Sherman não ocupava oficialmente nenhum cargo. Contudo, possuía uma posição de eminência moral. Ou a pessoa era capaz de fazer o trabalho e estava disposta a se dedicar cem por cento, ou dava o fora. Os oitenta membros da seção recebiam um salário-base, uma garantia líquida de 120 mil dólares por ano. Isto era considerado uma soma risível. O restante da renda provinha de comissões e participações nos lucros. Sessenta e cinco por cento dos lucros da seção iam para a Pierce & Pierce. Mas 35 por cento eram divididos entre os oitenta operadores. Um por todos e todos por um, e um monte para si! Logo... não se tolerava moleza! nada de parasitas! nada de pernas de pau! nada de vagabundos! Ia-se direto para a mesa, para o telefone, para o terminal de computação pela manhã. O dia não começava com conversa fiada, cafezinho e uma folheada no The Wall Street Journal e nas páginas de finanças do Times, muito menos no The Racing Form. Esperava-se que a pessoa pegasse o telefone e começasse a fazer dinheiro. Quando se saía do escritório, mesmo para almoçar, esperava-se que a pessoa informasse o seu destino e o número do telefone a um dos “assistentes de vendas”, que eram na realidade secretários, a fim de que pudesse ser chamada imediatamente se saísse uma nova emissão de obrigações (e precisasse ser vendida imediatamente). Se saísse para almoçar era melhor que o almoço tivesse alguma relação direta com a venda de obrigações para a Pierce & Pierce. Caso contrário — melhor sentar-se aqui junto ao telefone e encomendá-lo em uma delicatessen como todo o resto da esquadrilha.
Sherman se dirigiu à escrivaninha de Arguello e encarou-o do alto.
— Que está fazendo, Ferdi?
No instante em que o rapaz ergueu os olhos, Sherman percebeu que ele sabia o que significava a pergunta e sabia que estava errado. Mas se havia algo que um aristocrata argentino sabia fazer era enfrentar uma situação com arrogância.
Arguello sustentou o olhar de Sherman e respondeu num tom ligeiramente mais alto do que o necessário:
— Estou lendo The Racing Form.
— Para quê?
— Para quê? Porque quatro dos nossos cavalos vão correr em Lafayette hoje. É uma pista de corridas de Chicago.
E com isso retomou a leitura do jornal.
Aquele “nossos” foi a gota d’água. O “nossos” era para lembrar que ele estava na presença da Casa de Arguello, senhores dos pampas. Além disso, o merdinha estava usando um par de suspensórios de moiré vermelho.
— Olhe aqui... companheiro — disse Sherman —, quero que guarde esse jornal.
Desafiando:
— Que foi que disse?
— Você me ouviu. Eu disse: guarde a porra desse jornal! — Sua intenção era falar calmo e firme, mas falou com fúria. Com fúria. Com fúria suficiente para fazê-lo esquecer Judy, Pollard Browning, o porteiro e o pretenso assaltante.
O rapaz quedou mudo.
— Se voltar a vê-lo com The Racing Form aqui dentro, pode ir se sentar lá em Chicago para arranjar dinheiro! Pode se sentar na curva de chegada do prado e apostar em duplas exatas! Isto aqui é a Pierce & Pierce e não a central de apostas do turfe!
Arguello estava escarlate. Paralisado de cólera. Mas sua única reação foi lançar um olhar de puro ódio a Sherman. Sherman, virtuosamente irado, deu-lhe as costas e ao fazê-lo reparou com satisfação que o rapaz estava lentamente fechando The Racing Form aberto de uma folha à outra.
Irado! Virtuoso! Sherman estava exultante. As pessoas tinham os olhos arregalados. Ótimo! A Preguiça não era um pecado contra o indivíduo ou contra Deus, mas contra Mamona e Pierce & Pierce. Se lhe coubera chamar o seboso às falas, então — mas arrependeu-se do “seboso”, mesmo em pensamento. Considerava-se parte da nova era e da nova geração, um igualitário da Wall Street, um Senhor do Universo que só respeitava o desempenho. Wall Street ou Pierce & Pierce já não significavam Boa Família Protestante. Havia muitos e ilustres banqueiros de investimentos judeus. O próprio Lopwitz era judeu. Havia muitos irlandeses, gregos, eslavos. O fato de que nenhum dos oitenta membros da seção de obrigações fosse negro ou mulher não o incomodava. Por que deveria? Não incomodava Lopwitz, que defendia a posição de que a sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce não era lugar para gestos simbólicos.
— Ei, Sherman.
Por acaso estava passando pela escrivaninha de Rawlie Thorpe. Rawlie era careca, exceto por uma orla de cabelo na base do crânio, mas mesmo assim ainda tinha uma aparência juvenil. Era um grande apreciador de camisas sociais e suspensórios Shep Miller. O colarinho tinha um caimento impecável.
— Que foi que houve? — perguntou a Sherman.
— Não dá para acreditar — respondeu Sherman. — Ele estava lá com The Racing Form, estudando a porra do programa de corridas. — Sentiu-se compelido a exagerar um tanto a transgressão.
Rawlie caiu na risada.
— Ora, ele é jovem. Provavelmente estava farto das rosquinhas elétricas.
— Farto de quê?
Rawlie tirou o fone do gancho e apontou para o bocal.
— Está vendo isso? É uma rosquinha elétrica.
Sherman arregalou os olhos. Realmente parecia uma espécie de rosquinha, com uma porção de furinhos no lugar de um furo grande no meio.
— Hoje é que percebi isso — disse Rawlie. — Só o que faço o dia inteiro é falar com outras rosquinhas elétricas. Acabei de fazer uma ligação para um cara em Drexel. Vendi-lhe 1 milhão e meio de obrigações da Joshua Tree. — Na Wall Street não se dizia “1 milhão e meio de dólares em obrigações”. Dizia-se “1 milhão e meio de obrigações”. — É uma droga de uma companhia no Arizona. O nome dele é Earl. Nem mesmo sei o sobrenome. Nos últimos dois anos aposto que fiz bem umas vinte e tantas transações com ele, cinquenta, sessenta milhões de obrigações, e nem ao menos conheço o seu sobrenome, e nunca o vi pessoalmente, e provavelmente nunca o verei. Ele é uma rosquinha elétrica.
Sherman não achou graça nisso. De alguma forma representava um repúdio à sua vitória sobre esse jovem argentino inepto. Era uma negação cínica de sua virtude. Rawlie era um homem divertido, mas não andava o mesmo desde o divórcio. Talvez já não fosse um valoroso combatente de esquadrilha tampouco.
— É — concordou Sherman, conseguindo produzir um sorriso para o velho amigo. — Bom, tenho que ligar para algumas da minhas rosquinhas.
De volta à escrivaninha Sherman se ocupou do trabalho em pauta. Estudou os simbolozinhos verdes que se enfileiravam na tela do computador à sua frente. Apanhou o telefone. A obrigação francesa de ouro... Uma situação estranha, muito promissora, e ele a descobrira quando um dos rapazes muito casualmente a mencionara, de passagem, certa noite no Harry’s.
Por volta daquele inocente ano de 1973, às vésperas de a jogatina se intensificar, o governo francês lançara uma obrigação conhecida como Giscard, em homenagem ao presidente francês, Giscard d’Estaing, com um valor nominal de 6,5 bilhões de dólares. A Giscard possuía uma característica interessante: era garantida em ouro. Assim, à medida que o preço do ouro subia ou descia, o mesmo acontecia com a Giscard. Uma vez que o preço tanto do ouro quanto do franco francês flutuara tão violentamente, os investidores americanos há muito tinham perdido interesse na Giscard, mas ultimamente, com o ouro se mantendo firme em torno dos 400 dólares, Sherman descobrira que um americano que comprasse Giscards teria oportunidade de ganhar duas ou três vezes mais juros do que seria possível com qualquer obrigação do governo americano, além de um lucro de 30 por cento quando a Giscard chegasse a termo. Era beleza pura. O grande perigo seria uma queda no valor do franco. Sherman neutralizara isso com um esquema para vender francos a descoberto para despistar.
O único problema real era a complexidade da coisa toda. Exigia investidores grandes e sofisticados para compreendê-la. Grandes, sofisticados e confiantes; nenhum novato poderia convencer alguém a investir milhões na Giscard. Era preciso apresentar ótimos resultados. Era preciso ter talento — gênio! — domínio do universo! — como Sherman McCoy, o maior produtor da Pierce & Pierce. Convencera Gene Lopwitz a entrar com 600 milhões de dólares da Pierce & Pierce para comprar Giscards. Cautelosamente, furtivamente, comprara as obrigações de vários investidores europeus sem revelar a mão poderosa da Pierce & Pierce, usando vários corretores como fachada. Agora vinha o grande teste para o Senhor do Universo. Só havia uma meia dúzia de jogadores que se enquadravam na categoria de prováveis compradores de algo tão esotérico como as Giscards. Desses, Sherman conseguira iniciar negociações com cinco: dois bancos fideicomissos, Trader’s Trust Co. (conhecido como Trader T) e Metroland; dois administradores de recursos financeiros; e um dos seus melhores clientes particulares, Oscar Suder, de Cleveland, que mencionara que compraria 10 milhões de dólares. Mas de longe a mais importante era a Trader T, que estava estudando a possibilidade de ficar com metade de todo o lote, ou seja, 300 milhões de dólares.
A transação traria à Pierce & Pierce uma comissão direta de 1 por cento — 6 milhões de dólares — pela concepção da ideia e o risco de seu capital. A parte de Sherman, incluindo comissões, bônus, participação nos lucros e taxas de revenda, chegaria a aproximadamente 1,75 milhão de dólares. Com essa soma pretendia liquidar o horrendo empréstimo pessoal de 1,8 milhão de dólares que assumira para comprar o apartamento.
Por isso a primeira tarefa do dia era ligar para Bernard Levy, um francês que estava cuidando da transação na Trader T; um telefonema simpático e descontraído, o telefonema do operador que mais produzia (Senhor do Universo), para lembrar a Levy que embora o ouro e o franco tivessem caído de preço no dia anterior e nessa manhã (na Bolsa europeia), isto não significava nada; tudo corria bem, de fato excepcionalmente bem. Era verdade que vira Bernard Levy apenas uma vez, quando se apresentaram. Andavam se consultando por telefone havia meses... mas rosquinha elétrica? O cinismo era uma forma covarde de superioridade. Essa era a grande fraqueza de Rawlie. Rawlie descontava seus cheques de pagamento. Não era suficientemente cínico para dispensá-los. Se queria se suicidar porque não conseguia se relacionar bem com a esposa, esse triste problema era dele.
Enquanto Sherman discava e esperava que Bernard Levy atendesse, o ruído crescente da tempestade de cobiça o envolveu mais uma vez. Da escrivaninha bem em frente à sua, um sujeito de olhos esbugalhados (Yale, turma de 77):
— Trinta e um, venda janeiro de 88...
De uma escrivaninha em algum lugar às suas costas:
— Estou descoberto em 70 milhões de dez anos!
De um ponto ignorado:
— Estão com a porra do comprador aberto!
— Estou numa sinuca!
— Fechei 125 contratos.
— ... um milhão de quatro anos de Midland...
— Quem andou manobrando com a porra das novas emissões?
— Estou lhe dizendo, estou encurralado!
— ... venda a 80 e meio...
— ... compre-as a seis ou mais...
— Suba dois pontos e meio...
— Esqueça! Está na hora do pega pra capar!
Às 10 horas, Sherman, Rawlie e cinco outros se encontraram na sala de reuniões dos escritórios de Eugene Lopwitz para decidir sobre a estratégia da Pierce & Pierce no principal acontecimento do dia, no mercado de obrigações, que era um leilão do tesouro americano de 10 bilhões de obrigações vencíveis em vinte anos. A medida da importância do negócio de obrigações para a Pierce & Pierce era o fato de os escritórios de Lopwitz se abrirem diretamente para a sala de operação de obrigações.
A sala de reuniões não tinha mesa apropriada.. Parecia o salão de chá de um hotel inglês para ianques. Era repleta de mesinhas e armários antigos. Tão velhos, frágeis e polidíssimos, que davam a sensação de que se a pessoa desse um bom peteleco com o dedo médio eles se partiriam. Ao mesmo tempo, a parede de vidro chapava uma vista do rio Hudson e dos molhes apodrecidos de Nova Jersey na cara das pessoas.
Sherman se sentou numa cadeira de braços George II. Rawlie acomodou-se do lado dele, numa cadeira velha de espaldar em forma de escudo. Em outras cadeiras antigas ou envelhecidas artificialmente, com mesinhas Sheraton e Chippendale ao lado, estavam: o operador-chefe do governo, George Connor, que era dois anos mais moço que Sherman; seu substituto, Vic Scaasi, que tinha apenas 28 anos; o analista-chefe de mercado, Paul Feiffer; e Arnold Parch, vice-presidente executivo, que era o lugar-tenente do Lopwitz.
Todos na sala sentavam-se em cadeiras clássicas e olhavam para um pequeno alto-falante de plástico castanho em cima de um móvel. O móvel era uma cômoda Adam bombé, de 220 anos, do período em que os irmãos Adam gostavam de fazer pinturas e ornamentações em peças de madeira. No painel central, havia uma pintura oval de uma donzela grega sentada numa pequena depressão ou gruta na qual folhas rendadas recuavam esfumadas em tons de verde cada vez mais profundos num céu fosco azul-acinzentado. A peça custara uma assombrosa quantidade de dinheiro. O alto-falante de plástico era do tamanho de um rádio despertador de cabeceira. Todos os olhares estavam fixos, à espera da voz de Gene Lopwitz. Lopwitz se encontrava em Londres, onde agora eram 4 horas da tarde. Presidiria a reunião por telefone.
Uma voz indistinta saiu do alto-falante. Talvez fosse uma voz, talvez um avião. Arnold Parch ergueu-se da cadeira, aproximou-se da cômoda, olhou para o alto-falante de plástico e disse:
— Gene, você está me ouvindo bem?
Olhava implorante para o alto-falante de plástico, sem desviar os olhos, como se fosse de fato Gene Lopwitz, metamorfoseado, como os príncipes se transformam em sapos nos contos de fadas. Por instantes o sapo de plástico nada disse. Então falou:
— Sim, estou ouvindo, Arnie. Estão gritando e aplaudindo muito. — A voz de Lopwitz soava como se estivesse vindo de uma tubulação de águas pluviais, mas dava para se ouvir.
— Onde é que você está, Gene? — perguntou Parch.
— Numa partida de críquete.
Depois, com menor clareza: — Como é mesmo o nome desse lugar? — Gene estava evidentemente em companhia de outras pessoas. — Tottenham Park, Arnie. Estou numa espécie de terraço.
— Quem está jogando? — Parch sorriu, como se quisesse mostrar ao sapo de plástico que aquela pergunta não era séria.
— Não me faça perguntas técnicas, Arnie. Uma porção de cavalheiros muito simpáticos com suéteres em ponto de trança e calças de lã branca, é o máximo que posso lhe informar.
Risos de compreensão irromperam na sala, e Sherman sentiu os próprios lábios se curvarem num sorriso de algum modo obrigatório. Correu os olhos pela sala. Todos estavam sorrindo e rindo para o alto-falante de plástico marrom, exceto Rawlie, que tinha os olhos virados para o alto numa atitude de “essa não”.
Então Rawlie se curvou para Sherman e falou num sussurro audível:
— Olhe todos esses idiotas rindo. Acham que o alto-falante de plástico tem olhos.
Isso não pareceu a Sherman muito engraçado, já que ele mesmo andara sorrindo. Temia também que o leal assessor de Lopwitz, Parch, pensasse que era cúmplice de Rawlie em fazer pouco do líder máximo.
— Bom, estão todos aqui, Gene — Parch dirigiu-se à caixa —, portanto vou pedir ao George para lhe passar os detalhes sobre a nossa posição no leilão a partir deste momento.
Parch olhou para George Connor, fez sinal com a cabeça e voltou para sua cadeira, e Connor levantou-se da dele, encaminhou-se para o móvel Adam, concentrou-se na caixa de plástico marrom e disse:
— Gene? Aqui é George.
— Sei, oi, George — disse o sapo. — Prossiga.
— Aqui vai o quadro, Gene — disse Connor postado diante do armário Adam, incapaz de desviar os olhos da caixa de plástico —; parece bastante bom. As velhas obrigações de vinte anos estão sendo negociadas a 8 por cento. Os operadores estão nos dizendo que vão participar dos novos lançamentos a 8,05 por cento, mas achamos que estão brincando conosco. Achamos que teremos negociações até 8 por cento. Então eis o que eu imaginei: vamos escalonar a 8,01, 8,02, 8,03, com o saldo a 8,04. Estou disposto a negociar até 60 por cento do lançamento.
O que, traduzido, significava: estava propondo comprar 6 bilhões de dólares dos 10 bilhões de dólares de obrigações oferecidas em leilão, com a expectativa de um lucro de dois pontos de dólar — 61/4 cents — em cada cem dólares batidos. Isso era conhecido como “dois ticks”.
Sherman não resistiu a dar outra olhada em Rawlie. Ele tinha um sorrisinho desagradável no rosto, e seu olhar parecia passar muitos graus à direita da cômoda Adam, na direção das docas Hoboken. A presença de Rawlie era como um copo de água gelada no rosto. Sherman indignou-se novamente com ele. Sabia o que lhe ia na cabeça. Ali estava aquele abominável arrivista, Lopwitz Sherman sabia que Rawlie pensava nele assim — tentando bancar o aristocrata num terraço de algum clube de críquete inglês e, ao mesmo tempo, conduzir uma reunião em Nova York para decidir se a Pierce ia apostar 2 bilhões, 4 bilhões ou 6 bilhões numa única emissão de obrigações do governo, dali a três horas. Com certeza Lopwitz tinha a própria plateia no clube de críquete para observar seu desempenho, enquanto suas grandes palavras ricocheteavam num satélite de comunicações em algum ponto do firmamento e caíam na Wall Street. Bom, não era difícil encontrar algo risível nisso, mas Lopwitz era, verdadeiramente, um Senhor do Universo. Lopwitz tinha uns 45 anos. Estar do outro lado do Atlântico... com bilhões em jogo! Rawlie poderia dar risadinhas... e caçoar à vontade... mas só de pensar no que Lopwitz tinha agora em seu poder, pensar no que ganhava por ano, só na Pierce & Pierce, e que era no mínimo 25 milhões, pensar no tipo de vida que levava — o primeiro pensamento que ocorreu a Sherman foi a jovem esposa de Lopwitz, Branca de Neve. Era assim que Rawlie a chamava. Cabelos negros como o ébano, lábios vermelhos como o sangue, pele branca como a neve... Era a quarta mulher de Lopwitz, francesa, condessa, aparentemente, nem um ano mais que 25 ou 26, um sotaque igual ao de Catherine Deneuve fazendo um comercial de óleo para banho. Ela era demais... Sherman a conhecera em uma festa na casa dos Petersons. Ela pousara a mão em seu braço, só para puxar conversa — mas o jeito com que pressionava o seu braço e o encarava a uns quinze centímetros de distância! Era um animal jovem e travesso. Lopwitz agarrara o que queria. Quisera um animalzinho jovem e travesso com lábios vermelhos como o sangue e a pele branca como a neve, e fora isso o que conseguira. O que acontecera com as outras três sras. Eugene Lopwitz era uma pergunta que Sherman nunca ouvira ninguém fazer. Quando se chegava ao nível de Lopwitz, isso nem importava.
— É, bem, isso parece bom, George — disse o sapo de plástico. — Que diz Sherman? Você está aí, Sherman?
— Oi, Gene! — cumprimentou Sherman, erguendo-se da poltrona George II. Sua voz soava muito estranha, agora que estava falando com uma caixa plástica, e nem teve coragem de dar uma olhada em Rawlie quando se dirigiu à cômoda Adam, tomou posição e encarou, enlevado, a máquina sobre o móvel.
— Gene, todos os meus clientes estão falando em 8,05. Minha intuição, porém, é que estão do nosso lado. O mercado está bem receptivo. Acho que podemos fazer uma oferta antes do preço do cliente.
— Certo — disse a voz na caixa —, mas garanta que você e George fiquem em cima das contas de repasse. Não quero ouvir falar que Salomon ou outro qualquer andou trabalhando a descoberto.
Sherman se surpreendeu admirando a sabedoria do sapo.
Um rugido estrangulado saiu do alto-falante. Todos o encararam.
A voz de Lopwitz voltou.
— Alguém acabou de dar uma tacada dos diabos — disse. A bola está meio morta, parece. Bom, vocês tinham que estar aqui. — Não ficou claro o que queria dizer com isso. — Bem, olhe, George. Está me ouvindo, George?
Connor pulou, levantou-se da cadeira e correu para a cômoda Adam.
— Estou ouvindo, Gene.
— Eu ia dizer que se você estiver a fim de entrar no jogo e dar uma boa tacada hoje, vá em frente. Parece uma boa.
E foi só.
Quarenta e cinco segundos antes da hora marcada para o leilão, às 13 horas, George Connor, a um telefone no centro da sala de operações, leu os lances finais escalonados para um funcionário da Pierce & Pierce no outro extremo da linha no Federal Building, que era o local do leilão. Os lances atingiam uma média de 99,62643 dólares por 100 dólares de obrigações. Poucos segundos depois das 13 horas, a Pierce & Pierce tinha em seu poder, conforme planejara, 6 bilhões das obrigações resgatáveis em vinte anos. O departamento de obrigações dispunha de quatro horas para criar um mercado favorável. Vic Scaasi liderava o ataque à mesa de operação de obrigações, revendendo-as principalmente para casas de corretagem — por telefone, Sherman e Rawlie lideravam os outros operadores de obrigações, revendendo-as principalmente para companhias de seguros e bancos fideicomissos — por telefone. Por volta das 14 horas, o ruído na sala de operação de obrigações, alimentado mais pelo medo que pela cobiça, era infernal. Todos gritavam, suavam, xingavam e devoravam suas rosquinhas elétricas.
Por volta das 17 horas tinham vendido 40 por cento — 2,4 bilhões — dos 6 bilhões, a um preço médio de 99,75062 dólares por 100 dólares de obrigações, com um lucro de quatro em vez de dois ticks! Quatro ticks! Isto representava um lucro de 12,5 cents em cada 100 dólares. Quatro ticks! Para um futuro pequeno comprador dessas obrigações, quer fosse um indivíduo, uma firma ou uma instituição, esse spread era invisível. Mas — quatro ticks! Para a Pierce & Pierce isso representava um lucro de quase 3 milhões em uma tarde de trabalho. E não iria parar aí. O mercado estava firme, tendendo a subir. Na semana seguinte poderiam faturar com facilidade mais uns 5 ou 10 milhões com os 3,6 bilhões de obrigações restantes. Quatro ticks!
Por volta das 17 horas Sherman estava flutuando em adrenalina. Fazia parte do poderio de destruição da Pierce & Pierce, Senhores do Universo. A audácia da transação era de cortar o fôlego. Arriscar 6 bilhões em uma tarde para faturar dois ticks — 6 1/4 cents por 100 dólares — e em seguida ganhar quatro ticks! — que audácia! — que audácia! — Haveria um poder mais excitante na face da terra? Que Lopwitz assista a todos os jogos de críquete que quiser! Que banque o sapo de plástico! Senhor do Universo — que audácia!
A audácia do lance corria pelos membros de Sherman, pelos vasos linfáticos, pelos rins. A Pierce & Pierce era o poder, e ele estava intimamente ligado ao poder, e o poder zumbia e pulsava em suas entranhas.
Judy... Não pensara nela nas últimas horas. Que importância tinha um único, talvez idiota, telefonema... no estupendo registro mantido pela Pierce & Pierce? O quinquagésimo andar era para pessoas que não tinham medo de agarrar o que queriam. E, nossa!, não queria muito, comparado ao que ele, um Senhor do Universo, tinha o direito de possuir. Só queria poder sair do sério quando lhe desse na telha, gozar os prazeres simples a que todos os poderosos guerreiros tinham direito.
Onde ela arranjava razão para fazê-lo sentir-se mal?
Se a quarentona queria o continuado apoio e a companhia do Senhor do Universo, então tinha que deixá-lo aproveitar o precioso bem que ganhara com o seu esforço, ou seja, juventude, beleza, seios sumarentos e nádegas plásticas.
Não tinha sentido! De algum modo, por alguma razão inexplicável, Judy sempre o censurara. Sentia-se superior a ele — de uma estatura inteiramente fictícia; mesmo assim, sentia-se. Era bem filha do professor Miller, E. (de Egbord!), Ronald Miller, da Universidade de Desportes, Terwilliger, Wisconsin, pobre e insípido professor Miller, com seus tweeds rotos, e cuja única pretensão à fama era um ataque um tanto cheio de rodeios (Sherman uma vez o lera a muito custo) ao seu conterrâneo wisconsinita, senador Joseph McCarthy, em 1955, na revista Aspeets. No entanto, no casulo dos primeiros tempos de casamento, em Greenwtich Village, Sherman lhe dera razão. Tinha sentido prazer em dizer a Judy que, embora trabalhasse na Wall Street, não era da Wall Street e estava apenas usando a Wall Street. Sentira-se contente quando ela condescendera em admirá-lo pela compreensão que despertava em sua alma. De alguma forma ela o tranquilizava dizendo que o pai, John Campbell McCoy, o Leão da Dunning Sponget, era uma figura um tanto prosaica, afinal, um curador de luxo do capital dos outros. Por que isso talvez fosse importante para ele, Sherman nem mesmo sabia como explicar. Seu interesse na psicanálise, nunca entusiástico, terminara certo dia em Yale quando Rawlie se referira a ela como “uma ciência de judeus” (exatamente a atitude que mais preocupara e enfurecera Freud, 75 anos antes).
Mas tudo isso fazia parte do passado, de sua infância, daquela infância na East 73rd Street e da outra em Greenwich Village. Essa era uma nova era! Essa era uma nova Wall Street! — E Judy era... um objeto que sobrara de sua infância... contudo continuava a viver, a envelhecer, a emagrecer... a se tornar “elegante”...
Sherman se recostou na cadeira e examinou a sala de operações. As fileiras de caracteres verde-fosforescentes continuavam a deslizar pelas telas dos terminais de computação, mas o ruído se atenuara, parecendo agora uma conversa de vestiário. George Connor estava parado ao lado da cadeira de Vic Scaasi com as mãos nos bolsos, batendo papo. Vic arqueou as costas, girou os ombros e pareceu prestes a bocejar. Havia Rawlie, sentado a prumo na cadeira, falando ao telefone, sorrindo e passando a mão na cachola lisa. Guerreiros vitoriosos depois da refrega... Senhores do Universo...
E Judy tinha o topete de afligi-lo por causa de um telefonema!