A Fogueira das Vaidades
Capítulo 19
19
LEALDADE DE JUMENTO
No início do expediente de segunda-feira de manhã, Kramer e Bernie Fitzgibbon foram chamados ao gabinete de Abe Weiss. Milt Lubell também estava presente. Kramer percebia que sua posição melhorara durante o fim de semana. Weiss agora o chamava de Larry e não de Kramer, e não dirigia todos os comentários sobre o caso Lamb a Bernie, como se ele, Kramer, não passasse de um soldado de Bernie.
Mas Weiss estava olhando para Bernie quando disse:
— Não quero perder tempo com esse caso se não tiver que fazê-lo. Temos suficiente evidência para intimar esse tal de McCoy ou não?
— Temos, Abe — respondeu Fitzgibbon —, mas não estou inteiramente satisfeito. Temos esse tipo Auburn que identifica McCoy como o cara que estava dirigindo o carro que atropelou Lamb, e temos o empregado da garagem que diz que o carro de McCoy estava fora da garagem quando a coisa aconteceu, e Martin e Goldberg encontraram o operador do táxi pirata, Brill, que confirmou que Auburn usou um de seus carros naquela noite. Mas não encontraram o motorista, esse Curly Kale — ele girou os olhos e inspirou como se dissesse: “Essa gente e os nomes que têm” —, e acho que devíamos falar com ele primeiro.
— Por quê? — perguntou Weiss.
— Porque há certos dados que não têm sentido e Auburn é um porra de um traficante nojento que não está se encaixando no quadro. Eu ainda gostaria de saber por que Lamb não mencionou que foi atropelado por um carro quando deu entrada no hospital. Gostaria de saber o que aconteceu naquele táxi, e gostaria de saber se Auburn realmente levou o garoto até o hospital. Gostaria de saber um pouco mais sobre Auburn, também. Você sabe, ele e Lamb não são sujeitos de irem juntos ao Texas Fried Chicken. Pelo que se sabe Lamb é um rapaz razoavelmente decente e Auburn é um traficante.
Kramer sentiu uma estranha paixão despontar em seu peito. Queria defender a honra de Roland Auburn. Isso! Defendê-lo!
Weiss acenou a mão num gesto de abandono.
— Muitas pontas soltas, Bernie, é o que isso me parece. Não sei por que não podemos trazer McCoy e fichá-lo e então reunir as pontas soltas. Todo mundo acha que essa história de “estarmos investigando” é uma manobra para ganhar tempo.
— Mais uns dias não vão fazer diferença, Abe. McCoy não vai a lugar algum, e Auburn certamente não vai a lugar algum.
Kramer viu uma brecha e, impelido pela sua nova posição, entrou na conversa:
— Poderíamos ter um problema aí, Bernie. É verdade, Auburn não vai a lugar algum, mas acho que devíamos usá-lo logo. Ele provavelmente pensa que vai sair sob fiança a qualquer momento. Temos que pôr o sujeito diante de um júri assim que pudermos, se pretendemos usá-lo.
— Não se preocupe com isso — disse Fitzgibbon. — Ele não é brilhante, mas sabe que pode escolher entre passar três anos na prisão e não ir para a prisão. Não vai ficar de boca fechada conosco.
— Foi esse o acordo que fizemos? — perguntou Weiss. — Auburn não cumpre pena alguma?
— É nisso que vai se resumir. Temos que dispensar o indiciamento e reduzir a acusação para um delito menor de posse, venda.
— Merda! — exclamou Weiss. — Gostaríamos que não tivéssemos andado tão rápido com o filho da mãe. Não gosto de dispensar indiciamentos feitos por um júri.
— Abe — disse Fitzgibbon, sorrindo —, é você mesmo quem está dizendo, e não eu! Só o que estou dizendo é que se deve ir mais devagar. Eu me sentiria muito melhor se tivéssemos mais alguma coisa para comprovar o que ele diz.
Kramer não conseguiu se conter:
— Não sei... o que ele diz é bastante plausível. Contou-me coisas que era preciso estar lá para saber. Sabia a cor do carro, o número de portas... sabia que era um modelo esporte. Sabia o nome de batismo de McCoy. Ele ouviu “Chââmân”, mas, quero dizer, é bem próximo. Ele não poderia ter sonhado tudo isso.
— Eu não estou afirmando que ele não estava lá, Larry, e não estou afirmando que não vamos usá-lo. Vamos. Só estou afirmando que ele é escorregadio e que devemos ter cuidado.
— “Escorregadio?” Vocês estão falando da minha testemunha!
— Não sei, Bernie — retorquiu. — Pelo que pude apurar até o momento, ele não é um garoto assim tão mau. Consegui um relatório da condicional. Ele não é um gênio, mas nunca esteve perto de ninguém que o fizesse usar a cabeça. Pertence a uma terceira geração de gente que vive de pensão, a mãe tinha quinze anos quando ele nasceu, e teve mais dois garotos de pais diferentes, e agora está vivendo com um companheiro de Roland, um garoto de 21 anos, só um ano mais velho que o filho. Nossa, dá para imaginar? Eu acho que teria uma ficha pior do que a dele. Duvido que jamais tenha conhecido um parente que morasse fora do conjunto.
Bernie Fitzgibbon agora estava sorrindo para ele. Kramer se surpreendeu, mas continuou:
— Uma outra coisa que descobri é que ele tem algum talento. O curador da condicional me mostrou alguns quadros que pintou. São realmente interessantes. São o que se chama...
— Colagens? — perguntou Fitzgibbon.
— É! — disse Kramer. — Colagens com esse tipo de prata...
— Papel-alumínio amarrotado formando o céu?
— É! Você os viu! Onde foi que os viu?
— Não vi nenhum de Auburn, mas já vi muitos iguais. É arte de xadrez.
— Que quer dizer com isso?
— É o que sempre se vê. Eles fazem esses quadros na prisão. Essas figuras, uma espécie de figuras de quadrinhos, certo? E então enchem o fundo com papel-alumínio amarrotado?
— É...
— Vejo essa merda sempre. Uns dois ou três advogados entram aqui todo ano com essas colagens de alumínio, para me dizer que estou mantendo Michelangelo atrás das grades.
— Bem, pode ser — disse Kramer. — Mas eu diria que esse garoto realmente tem algum talento.
Fitzgibbon não respondeu. Apenas sorriu. E agora Kramer compreendeu aquele sorriso. Bernie achava que estava tentando melhorar a imagem de sua testemunha. Kramer conhecia todos esses truques — mas isso era diferente! Melhorar a imagem da testemunha era um fenômeno psicológico comum entre os promotores. Em um caso criminal, era provável que a testemunha-chave viesse do mesmo ambiente que o acusado e podia até ter antecedentes criminais. Era pouco provável que fosse conhecido como um pilar de probidade — e no entanto era a única testemunha-chave de que se dispunha. A essa altura, era muito provável que sentisse o impulso de melhorar a imagem dele à luz da verdade e da credibilidade. Mas isso não era meramente uma questão de melhorar sua reputação aos olhos de um juiz e de um júri. Sentia a necessidade de saneá-lo perante si mesmo. Precisava acreditar que o que se estava fazendo com esse indivíduo — ou seja, usando-o para despachar um outro para a prisão — não era apenas funcional, mas correto. Esse verme, esse micróbio, esse vagabundo, esse antigo veado era agora o seu camarada, a sua ponta de lança na batalha do bem contra o mal, e você próprio queria acreditar que uma luz se irradiava desse... organismo, desse antigo inseto nocivo entocado sob uma pedra, agora um jovem logrado e incompreendido.
Ele conhecia tudo isso — mas Roland Auburn era diferente!
— Muito bem — disse Abe Weiss, pondo um fim a esse debate estético com mais um aceno de mão. — Isso não importa. Preciso tomar uma decisão e já a tomei. Temos o suficiente. Vamos prender McCoy. Vamos prendê-lo amanhã de manhã e anunciar sua prisão. Terça-feira é um bom dia?
Ele olhou para Milt Lubell ao perguntar isso. Lubell assentiu sabiamente.
— Terça e quarta são os melhores dias. Terça e quarta. — Voltou-se para Bernie Fitzgibbon. — As segundas são péssimas. As segundas-feiras as pessoas só fazem ler as páginas de esporte o dia todo e assistir aos jogos de beisebol à noite.
Mas Fitzgibbon estava olhando para Weiss. Finalmente deu de ombros e disse:
— Tudo bem, Abe. Posso conviver com isso. Mas se vamos fazer isso amanhã, é melhor eu telefonar para Tommy Killian agora mesmo, antes que saia para o tribunal, e me assegurar de que ele vai aparecer com o homem.
Weiss indicou uma mesinha com um telefone a um canto do gabinete, além da mesa de reuniões, e Fitzgibbon se dirigiu para lá. Enquanto Fitzgibbon estava ao telefone, Weiss perguntou:
— Onde estão aquelas fotos, Milt?
Milt Lubell procurou em uma pilha de papéis que tinha no colo e puxou diversas páginas de uma revista que entregou a Weiss.
— Qual é o nome dessa revista, Milt?
— Architectural Digest.
— Olhe só isso. — Quando Kramer deu por si, Weiss estava se debruçando sobre a mesa e passando as fotos para ele. Sentiu-se incrivelmente lisonjeado. Estudou as páginas... o papel mais acetinado possível... luxuriantes fotografias em cores com detalhes tão nítidos que faziam a pessoa piscar... o apartamento de McCoy... Um mar de mármore levava a uma larga escada em curva com balaustrada de madeira escura... Madeira escura por toda parte e uma mesa entalhada com um carregamento de flores saindo de um enorme vaso... Era o hall de que falara Martin. Parecia suficientemente espaçoso para conter três dos formigueiros de Kramer de 888 dólares por mês, e era apenas o hall. Ouvira falar que havia gente que vivia assim em Nova York... Outra sala... mais madeira escura... Devia ser a sala de estar... Tão grande que havia três ou quatro grupos de mobília pesada nela... o tipo de sala em que se entra e se baixa a voz até transformá-la em um sussurro... Mais outra foto... uma ampliação de um detalhe em madeira entalhada, uma madeira lustrosa e avermelhada, uma série de figuras de terno e gravata caminhando para um lado e para outro, formando ângulos curiosos diante de edifícios... E agora Weiss estava se debruçando sobre a mesa e apontando para uma foto.
— Dê só uma espiada nisso — disse. — “Chama-se Wall Street” e foi feito por Wing Wong ou alguém assim, “o melhor escultor de Hong Kong”. Não é isso que diz aí? Está na parede da “biblioteca”. Gostei.
Agora Kramer podia ver o que Martin estivera falando. “A biblioteca”... Os brancos, anglo-saxões, protestantes... Trinta e oito anos... apenas seis anos mais velho que ele... Herdavam todo esse dinheiro dos pais e viviam em um Mundo Encantado. Bom, esse estava entrando em rota de colisão com o mundo da realidade.
Fitzgibbon voltou do canto da sala.
— Falou com Tommy? — perguntou Weiss.
— Falei. Ele manterá o homem à mão.
— Dê uma olhada nisso — disse Weiss, indicando as páginas da revista. Kramer passou-as a Fitzgibbon. — O apartamento de McCoy — esclareceu Weiss.
Fitzgibbon passou os olhos pelas fotos e devolveu-as a Kramer.
— Já viu alguma coisa parecida antes? — perguntou Weiss. — Foi a mulher dele quem decorou. Estou certo, Milt?
— Está, ela é uma dessas decoradoras de sociedade — disse Lubell —, uma dessas mulheres ricas que decoram casas para outras mulheres ricas. Publicam artigos sobre elas na revista New York.
Weiss ficou olhando para Fitzgibbon, mas Fitzgibbon não disse nada. Então Weiss arregalou os olhos como se estivesse recebendo uma revelação.
— Você está conseguindo visualizar, Bernie?
— O quê?
— Bem, estou vendo a coisa assim — disse Weiss. — Acho que uma boa ideia, para acabar com esse falatório sobre justiça branca e Johannesbronx e toda essa merda, era prendê-lo no apartamento dele. Acho que seria um estrondo. Queremos dizer aos habitantes desse município que a lei não respeita ninguém, prende-se um sujeito da Park Avenue do mesmo jeito que se prende José García ou Tyrone Smith. Entrando-se na porra do apartamento deles, estou certo?
— É — comentou Fitzgibbon —, porque eles não viriam de nenhum outro modo.
— A questão não é essa. Temos uma obrigação para com o povo deste município. Este gabinete está sendo exposto a todos sob uma luz muito desfavorável, e isso porá um ponto final na coisa.
— Não é um pouco violento demais prender um sujeito na casa dele só para provar alguma coisa?
— Não há nenhuma maneira maravilhosa de se prender alguém, Bernie.
— Bom, não podemos fazer isso — disse Fitzgibbon.
— Por que não?
— Porque acabei de informar a Tommy que não agiríamos assim. Disse-lhe que poderia apresentar McCoy sozinho.
— Bom, sinto muito, mas não deveria ter feito isso, Bernie. Não podemos garantir a ninguém que daremos a seu cliente um tratamento especial. Você sabe disso.
— Eu não sei disso, Abe. Dei-lhe a minha palavra.
Kramer olhou para Weiss. Sabia que o “jumento” agora tinha empacado, mas e Weiss? Aparentemente, não.
— Olhe, Bernie, diga ao Tommy que eu passei por cima de você, está bem? Pode jogar a culpa em mim. Aguentarei o rolo que der. Compensaremos Tommy depois.
— Negativo — respondeu Fitzgibbon. — Você não vai precisar segurar rolo algum, Abe, porque isso não vai acontecer. Eu dei a Tommy minha palavra. É um contrato.
— É, bem, mas às vezes é preciso...
— Não tem é preciso, Abe, é um contrato.
Kramer não tirava os olhos de Weiss. A repetição da palavra “contrato” por Bernie atingira o alvo. Kramer percebia. Weiss parara abruptamente. Agora sabia que estava enfrentando aquele obstinado código de lealdade irlandês. Silenciosamente, Kramer suplicou a Weiss que não ligasse para o subordinado. Lealdade de jumento! Era obsceno! Por que ele, Kramer, deveria sofrer por causa da solidariedade fraternal entre irlandeses? A prisão de um banqueiro de investimentos da Wall Street em seu apartamento, acompanhada de muita publicidade — era uma ideia brilhante! Mostrar a imparcialidade da justiça no Bronx — perfeito! O promotor distrital assistente Lawrence Kramer... O Times, o News, o Post, The City Light, o Canal 1 e todos os outros conheceriam seu nome de cor em pouco tempo! Por que deveria Abe Weiss ceder ao código desses “gaiteiros”? E no entanto sabia que ele cederia. Via em seu rosto. Não era sequer pela valentia de irlandês de quatro costados de Bernie Fitzgibbon. Era a palavra “contrato”. Isso falava diretamente à alma de todo sujeito nesse negócio. No Banco de Favores todas as contas devidas tinham que ser saldadas. Essa era a lei do sistema de justiça penal, e Abe Weiss não passava de uma criatura do sistema.
— Que merda, Bernie — disse Weiss —, para que fez isso? Droga...
O impasse terminara.
— Acredite-me, Abe, você vai parecer melhor assim. Eles não vão poder dizer que você cedeu à emoção do povo.
— Hummmmm. Bom, da próxima vez não assuma esses compromissos sem falar comigo antes.
Bernie só fez olhar para ele e lhe dar um desses sorrisinhos que eram o mesmo que dizer “é preciso”.