A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
3 No esconderijo
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NO ESCONDERIJO
A partir do m om ento em que Mutti e eu fom os para a clandestinidade, entrei num m undo que parecia protegido. Os dias eram passados inteiram ente na com panhia da m inha m ãe e os lem bro repletos de calor e am or. Pelos dois anos seguintes, escondidas no sótão, ela m e ensinou alem ão, francês, geografia e história com os livros trazidos pela Sra. Klom pe. Um a ou duas vezes por sem ana, o Sr. Broeksm a vinha dar aulas de holandês e m atem ática. Eu queria aprender e ocupei bem o m eu tem po, m as, diferente de Heinz, não era extrem am ente brilhante e tinha dificuldades. Eu lutava sozinha, sentindo enorm e falta da com panhia de outros alunos. Às vezes, deitava-m e na cam a com saudade dos velhos tem pos na praça, quando corríam os com o loucos com nossas bicicletas. No ínfim o cubículo no sótão, eu j ogava as pernas para o alto e girava o corpo num a agonia de energia e frustração reprim idas por ser j ovem e aprisionada.
Mas vez ou outra, m uito de vez em quando, havia dias de radiante reencontro com Pappy e Heinz. O esconderij o deles ficava no cam po, em Soesdij k, e era perigosíssim o visitá-los, porque tínham os de viaj ar de trem . Curiosam ente, nós j am ais ousávam os sair para ir às loj as locais, por tem or de serm os reconhecidas por m oradores da região, m as nos aventurávam os m ais longe, fingindo que estávam os term inando a visita à Sra. Klom pe.
A senhoria de Pappy, a Sra. De Bruin, perm itia que ficássem os durante o fim de sem ana, e nós voltávam os a Am sterdã na m anhã de segunda-feira m isturadas com os viaj antes. Nas raras e gloriosas sextas de visita, saíam os da casa carregando nossas m aletas e andávam os até a estação de trem . Era um a sensação estranha estar na rua de novo. Mas, com o tínham os pele clara e parecíam os com quaisquer m ãe e filha holandesas, com sorte podíam os cam inhar anonim am ente na m ultidão. Mesm o assim , era arriscadíssim o: sentíam os m edo o tem po inteiro, sobretudo porque éram os ocasionalm ente paradas pela polícia ou por soldados na barreira da estação, quando Mutti tinha de m ostrar o falso cartão de identidade. Com o eu ainda não com pletara 16 anos, não era obrigada a apresentar docum ento, m as precisava ter a m inha história na ponta da língua caso fosse necessário responder a perguntas. Nunca foi preciso; eu devia parecer m uito autêntica para despertar suspeitas.
Invariavelm ente, os trens estavam cheios de soldados, e as SS costum avam fazer buscas durante a viagem . Tentávam os parecer despreocupadas, em bora estando om bro a om bro com nossos terríveis inim igos. Essa j ornada era sem pre traum ática, m as valia a pena para poderm os estar com Pappy e Heinz.
Assim que nos reuníam os nos aposentos no sótão da Sra. De Bruin, m eus pais se trancavam para ficar sozinhos, e Heinz e eu com eçávam os a conversar. À noite, Mutti dividia o quarto com Pappy, e eu ficava num colchão no chão do quarto de Heinz. Na escuridão, rastej ava até a cam a dele e subia, para ganhar carinho. Nós com eçávam os a nos beij ar e abraçar com a alegria de estarm os j untos outra vez, até toda nossa energia reprim ida e sexualidade em flor com eçar a nos excitar. Os beij os e as carícias ficavam furtivam ente m ais e m ais agradáveis. Nós passávam os a trocar afagos, sentindo extáticas ondas de am or adolescente. Não fizem os nada realm ente errado, e tínham os m uito m edo de serm os descobertos por nossos pais, m as não conseguíam os evitar. Tínham os apenas um ao outro para am ar. Quando estava sozinha na m inha cam a no sótão, chorava por Heinz, sentindo sua falta m ais do que qualquer coisa.
Ficar escondido era um peso im enso sobre Pappy. Sem pre um hom em de negócios ativo e entusiasm ado, com boa parte do tem po ocupada pelo trabalho, ele tam bém foi obrigado a encontrar outras m aneiras de canalizar as energias. Prim eiro, com eçou a fazer pinturas a óleo — paisagens e quadros de lugares que conhecia. A cada visita, Mutti tinha de posar para um retrato. Aí, de m aneira m ais surpreendente, ele com eçou a escrever poesias que revelaram um a natureza criativa e sensível que não havíam os apreciado antes. Pappy sorria um tanto envergonhado e lia suas com posições. Afinal de contas, nós éram os sua única plateia, m as Mutti ficou surpresa com esse outro lado da sua personalidade. Explicava a origem de m uitos dos dons de Heinz.
Heinz tinha m uitos talentos. Ele era um artista com grande dom para a cor. Um a das suas pinturas trazia um a criancinha brincando no chão com um trem ; outra m ostrava um sótão vazio com raios de luz batendo num a caixa de brinquedos no canto. Mas a m ais poderosa era um a dele m esm o em desespero. Heinz está sentado diante de um a m esa em prim eiro plano com a cabeça nos braços, enquanto no fundo há um a pessoa agonizando.
Ele tam bém era um m úsico bastante dotado, capaz de com por m úsica solene. Suas poesias eram cheias de significado. Além disso, era um intelectual form idável. Durante o período de esconderij o, Heinz estudava italiano sozinho e, num a das nossas visitas, pediu para levarm os rom ances em italiano para que pudesse ler. Tinha sede de conhecim ento e estava determ inado a não desperdiçar nenhum m om ento do “cativeiro” no ócio.
23 de outubro de 1942 — El Alamein, Rommel é derrotado no norte da África
Toda noite, às nove horas, Pappy ligava no noticiário da BBC falado em holandês. Lem bro-m e da excitação de ouvir o tem a da vitória, da “Quinta” de Beethoven, antes das transm issões. Ouvim os a notícia da derrota de Rom m el em um a das prim eiras visitas a Pappy e trocam os abraços em êxtase. A guerra logo acabaria.
Nossos pais nos ensinaram bridge, e costum ávam os passar a noite j ogando j untos. Eu m e confundia com as vozes, m as fiquei m uito boa nos blefes. Pappy sem pre fazia com que m e sentisse m uito orgulhosa quando j ogava com ele, m as Heinz e eu éram os a m elhor dupla de todas, especialm ente quando ganhávam os de Mutti e Pappy ! Nós j ogávam os calados, falando aos sussurros, porque estávam os sem pre conscientes de que podíam os ser ouvidos. Tudo tinha de ser feito em segredo e no m aior silêncio possível. A essa altura, Heinz até m esm o tinha sido obrigado a disfarçar a aparência j udia tingindo com água oxigenada os cabelos, que agora tinham um a cor loiro-averm elhada.
Pappy enfrentava um a situação ainda m ais difícil porque os vizinhos da Sra. De Bruin eram holandeses nazistas. Ela alertou Pappy a respeito, garantindo-lhe que m antinha relações am istosas som ente para evitar suspeitas. Contudo, isso com plicou a situação porque certo dia os nazistas perguntaram -lhe se podiam dorm ir em sua casa enquanto reform avam o quarto. Com o ela poderia negar?
A Sra. De Bruin subiu as escadas aterrorizada e insistiu para que os dois não saíssem da cam a durante toda a visita. Ela deu-lhes um grande suprim ento de pão e leite, colocou um penico ao lado e os proibiu de fazer qualquer som . No fim , a visita durou apenas dois dias, m as o incidente com eçou a inquietar Pappy, ressaltando a dura realidade de depender totalm ente da boa vontade e coragem da Sra. De Bruin.
2 de fevereiro de 1943 — Stalingrado: rendição do 6º Exército alemão
Até então, parecia que os alem ães vinham tendo êxito na Rússia, m as a virada chegou quando os russos e seu inverno derrotaram os alem ães. Ouvim os com Pappy a gloriosa notícia na BBC de que 91 m il alem ães haviam sido capturados. Pappy sentiu que o desfecho finalm ente estava à vista.
No entanto, as derrotas na África e na Rússia som ente serviram para tornar os alem ães m ais dedicados na caça aos j udeus. Recom pensas eram oferecidas para quem delatasse j udeus à Gestapo, e Pappy se deu conta de que o esconderij o estava ficando m enos seguro e que ele e Heinz corriam grande perigo. Os tem ores cresceram quando a Sra. De Bruin tornou-se hostil, gradualm ente dando-lhes m enos com ida e fazendo com entários rudes. Ela exigia m ais e m ais dinheiro para escondê-los, e o dinheiro com eçava a acabar. Essa situação desagradável se arrastou por quase 18 m eses, deixando Pappy deprim idíssim o. Ele vivia im plorando a Mutti para encontrar-lhes outro esconderij o.
Mutti e eu tam bém estávam os num a situação difícil. Quando retornam os a Am sterdã após um dos fins de sem ana longe de casa, fom os recebidos por um a apavorada Sra. Klom pe. A Gestapo havia vasculhado a casa m ais um a vez e feito am eaças.
— Abrigar vocês duas está causando m uita tensão — ela disse. Parecia cheia de rem orso, m as estava bastante firm e na opinião de que devíam os partir.
Claro que nós com preendíam os, m as tínham os de esperar pela aj uda do m ovim ento clandestino para serm os transferidas, e a espera tornou a relação entre nós bastante tensa.
Por fim , fom os levadas para a casa de pessoas que j á conhecíam os.
Ele era o Sr. Reitsm a, outro bravo frísio, casado com um a artista j udia bastante talentosa. Os dois eram idosos, e seu filho, Floris, vivia com eles. Eram m uito gentis e nos fizeram sentir bem -vindas no curto período em que ficam os hospedadas em seu lar. A Sra. Reitsm a estava atarefada com o seu trabalho artístico e ficou feliz por Mutti assum ir a cozinha.
Nessa época, os alim entos eram extrem am ente escassos na Holanda e, assim , Mutti decidiu arriscar um a visita ao nosso depósito secreto para pegar parte da com ida escondida. Com o era desnecessário que nós duas nos expuséssem os ao risco de captura, ela foi sozinha e eu fiquei esperando, nervosa por sua volta. Por fim , Mutti trouxe latas e pacotes de farinha, arroz, açúcar, chocolate e chocolate em pó, e pensam os no banquete que iríam os ter. Porém , apesar de os alim entos estarem em boa condição, tudo tinha o estranho gosto de naftalina. De qualquer form a, a com ida foi bastante apreciada e conseguim os levar um pouco para Pappy e Heinz na visita seguinte.
Pappy estava ainda m ais deprim ido e de novo im plorou para Mutti tentar encontrar outro esconderij o. Mutti entendeu que a situação se tornara insuportável quando, ao chegar, a Sra. De Bruin a encurralou num canto e disse:
— O seu casaco de pele é elegante. É um desperdício que estej a com você, j á que só sai um a ou duas vezes por m ês. Eu tenho de fazer todas as com pras para o seu m arido e o seu filho, então sugiro que o dê para m im .
Foi m ais um a exigência que um pedido, e Mutti achou que deveria entregar. Estávam os sendo chantageados. Sabíam os que não seria fácil transferir Pappy e Heinz, m as quando voltam os a Am sterdã relatam os a situação ao Sr. Broeksm a. Ele não pareceu tão surpreso.
— Não há m uito o que eu possa fazer — disse. — A situação deles não é única. Muitos outros estão sendo chantageados. E m uitos m ais estão sendo entregues à Gestapo por dinheiro.
Mutti em palideceu ao ouvir isso, m as estava determ inada a tentar aliviar o sofrim ento de Pappy. Assim , tom ou a iniciativa de procurar um a am iga cristã, Doortj e, em busca de conselho. No apartam ento do andar de baixo havia um a enferm eira que sabiam pertencer ao m ovim ento clandestino. Doortj e prom eteu falar com ela, e logo veio com boas notícias para nós. Haviam encontrado um esconderij o em Am sterdã. Ficaríam os m ais próxim os e acham os que tam bém seria m ais seguro.
Não havia dúvidas de que a Sra. De Bruin não iria desistir facilm ente da sua fonte de renda, e assim Pappy e Heinz planej aram escapar durante a noite. Eles saíram da casa sem serem notados e pegaram um dos prim eiros trens para a cidade, onde foram recebidos pela enferm eira. Ela os levou sem dem ora para o novo abrigo, m ais perto de nós.
Tudo parecia estar indo dentro dos planos. Quando visitam os Pappy e Heinz no dia seguinte, sentíam o-nos m ais contentes. O novo esconderij o ficava num a enorm e casa antiga, com quartos im ensos, e o casal proprietário foi especialm ente afável e gentil. Agora parecia haver m enos pressão sobre nós, e Mutti e eu voltam os à noite para nossa base com os Reitsm a bem m ais tranquilas.