A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
12 Pappy
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PAPPY
Eu passava 14 horas por dia sentada no banco, com fom e, frio e solidão, trabalhando na m inha cota de cordas. Fiquei com depressão profunda, chorava o tem po inteiro e raram ente falava. Cortei todos os pensam entos, exceto os som brios.
Um a m anhã, por volta das 10 horas, um a kappo entrou no galpão de trabalho; ela parecia estar procurando alguém . Estávam os m orrendo de m edo. Com frequência, quando pegavam alguém era porque a pessoa havia feito algo de errado e estava prestes a ser punida, ou até m esm o m orta. A kappo andou para cim a e para baixo na oficina, vasculhando as fileiras de rostos assustados, e, quando a senti parada atrás de m im , congelei de m edo. Em bora eu estivesse com a cabeça abaixada, as m ãos trem iam tanto que m al conseguia prosseguir com o trabalho. Esperei sentir um forte golpe nas costas, m as, para grande surpresa, ela falou num tom bastante diferente daquele que eu m e acostum ara a ouvir das kappos.
— Vá para fora — disse com voz am istosa. — Alguém quer vê-la.
Eu sim plesm ente não conseguia im aginar quem pudesse querer m e ver, e fiquei aterrorizada. Talvez eu tivesse caído nas vistas de um hom em das SS que m e desej ava para sexo. Não tinha a m enor vontade de m e m exer, m as a kappo insistiu e continuou a m e tocar nas costas, dizendo “Apresse-se!”.
Lenta e relutantem ente, arrastei-m e para fora nos m eus sapatos inadequados, os olhos pregados no chão — não ousava fitar a pessoa à m inha espera. Quando enfim ergui a cabeça, m al pude acreditar.
— Pappy ! — gritei.
Lá estava ele, com o uniform e de listras azuis e cinza de prisioneiro e um a boina na cabeça rapada. Parecia m uito m ais m agro e velho do que eu m e lem brava, m as os olhos estavam cheios de um im enso am or por m im . Joguei-m e em seus braços e senti seu calor e sua força fluírem para m im e m e trazerem de volta à vida.
Quis gritar de alegria, m as com ecei a chorar. Eu soluçava incontrolavelm ente enquanto ele m e m antinha perto de si, com o se j am ais fosse m e soltar. Deve ter se sentido tão feliz quanto eu, com a filhinha em seus braços m ais um a vez.
Por fim , papai m e afastou, devagar.
— Evertj e, não chore — falou. — Tudo ficará bem . Onde está Mutti? Eu vou tentar vê-la tam bém .
E, então, tive de contar. Meu corpo trem ia de angústia ao dizer:
— Oh, Pappy ! Ela foi selecionada e m andada para as câm aras de gás.
Pappy cam baleou para trás, com o se eu tivesse batido nele. Tentou não desm oronar na m inha frente, m as seus olhos encheram -se de lágrim as e pude ver que o seu m undo se destruíra.
Ele conseguiu se recom por, por m im , e conversou em voz baixa, m as firm e. Mandou que eu fosse coraj osa e não desistisse.
— Logo estarem os livres, Evertj e — prom eteu, apertando-m e forte —, e ficarem os j untos novam ente. Você, eu e Heinz.
— Com o está Heinz? — Não ousara perguntar antes.
— Ele está bem — Pappy afirm ou. — Trabalha na horta, cuidando dos tom ates. O ar fresco e o exercício estão sendo benéficos.
Tinha certeza de que Pappy m entia.
— E você precisa ver com o seu irm ão está alto — Pappy continuou.
Não havia nada que eu quisesse m ais!
— Eu tenho um bom trabalho. — Ele tentava m e tranquilizar. — Continuo responsável pelo escritório da m adeireira perto daqui, e você pode ver que ganhei perm issão do chefe das SS para vir encontrá-la.
Ergui os olhos para ele, m aravilhada com sua habilidade para inspirar tanta confiança. Pappy era extraordinário. Conseguira m anobrar a situação a nosso favor. Eu o adorava, idolatrava.
— Eu voltarei — prom eteu. — Agora tenho de ir à cozinha falar com um a das cozinheiras.
Ele segurou m eu rosto nas m ãos por um instante e beij ou-m e suavem ente na bochecha.
— Vou providenciar para ela lhe dar um pouco de com ida extra aqui e ali. — Então, Pappy m e fez dar m eia-volta, em purrou-m e suavem ente na direção da porta da oficina e foi em bora.
Voltei para m eu lugar no banco com o se estivesse num sonho. Era a prim eira vez que o via desde o “Canadá”.
Todas haviam parado de trabalhar e olhavam para m im , espantadas. Eu m e sentia radiante e devia estar transbordando de alegria, porque todas as m ulheres sorriam de volta para m im . Estavam genuinam ente contentes porque algo bom podia acontecer m esm o naquele lugar terrível.
Tinha fé total em Pappy. Estava convencida de que enfim tudo com eçaria a m elhorar e que ele seria capaz de providenciar para que eu tivesse algum as batatas extras, qualquer coisa que aliviasse a sensação vazia de fom e intensa que ardia dentro de m im sem cessar.
Nessa noite, após o trabalho, cam inhei hesitante para o barracão da cozinha. Quando pus m eu rosto na porta, um a garota polonesa afável e de seios fartos m e reconheceu.
— Que hom em é o seu pai! — ela disse cheia de si, estalando a língua e virando os olhos para o teto. — E providenciou isto para você.
A garota m e entregou um a tigela de legum es quentes, que eu agarrei e devorei na hora, observada por ela, que ficou ali parada, sorrindo para m im . Eu estava no céu.
Depois disso, toda noite eu ia até a porta da cozinha para ganhar alguns restos deliciosos. Mas o prato m ais satisfatório de todos foi um a tigela fum egante de água salgada usada para cozer batatas. Foi a coisa m ais deliciosa que j á provei. Pensei em com o fôram os estúpidas no passado, j ogando fora essa deliciosa e nutritiva refeição direto pelo ralo!
Eu estava orgulhosíssim a por Pappy. Mesm o num uniform e da prisão e com a cabeça rapada, m eu pai ainda irradiava um charm e que as m ulheres achavam irresistível. Apenas ver um prisioneiro j á era um a aventura para qualquer m ulher no cam po, e assim correu a história de que m eu pai e eu, de algum m odo, éram os protegidos pelas SS. É claro que não era verdade, m as essa reputação garantiu que a partir daí as kappos m e tratassem com um a certa dose de respeito e evitassem m e assediar.
Cada vez que um a kappo ou m ulher das SS se aproxim ava para inspecionar m eu trabalho, ela parava e dizia, m eio sarcasticam ente: “E com o vai o seu pai?”
No fim de outubro, fui novam ente cham ada para fora. Encontrei Pappy m ais um a vez, e ele garantiu que Heinz estava bem e que chegavam notícias da ofensiva aliada.
— Evertj e, estou convencido de que a guerra não vai durar m uito tem po — ele disse. — Tenha esperança. Logo, tudo estará acabado.
Trocam os olhares de am or e saudade tão intensos que ainda vej o seu rosto assim nos m eus sonhos.
Novembro de 1944
O frescor do outono polonês afastou o longo e quente verão e então o frio do inverno com eçou a nos envolver. A Appel ainda acontecia duas vezes por dia, ao am anhecer e à noite. Com os ventos do norte varrendo as planícies, os guardas das SS protegeram -se com grossos sobretudos e as kappos vestiram cam adas extras de roupas, m as nós não recebem os nada. A distribuição se lim itava apenas a um par de calcinhas, um a vestim enta e os sapatos precários que nos faziam parecer ainda m ais frágeis do que j á éram os. Nós trem íam os para nos m anter vivas.
Em bora o barracão em que eu trabalhava nas cordas trançadas fosse um a cabana de m adeira fechada, não havia assoalho, só terra, que deixava passar um idade e frio. Ficávam os o dia inteiro sentadas às m esas com os pés no chão gelado. Às vezes, eu punha um pedaço de pano em baixo dos pés dorm entes, m as, se um a kappo notava, era obrigada a pegá-lo. Desej ava tanto um par de m eias quentes e confortáveis!
Passei a ter geladuras nos dedos dos pés. À noite, quando o calor das colegas de treliche com eçava a esquentar os pés gelados, a dor lancinante m e acordava. Eu ficava ali soluçando e rezando para que Pappy viesse de novo e m e salvasse. A cada dia que passava, o frio na oficina e no barracão tornava-se m ais insuportável. Mas Pappy não veio.
A essa altura, m eus dedos j á tinham grandes buracos infeccionados, e eu m al podia andar. À noite, com o sangue retornando aos pés, eu gem ia de agonia. Franzi não parava de repetir “você precisa ir para o hospital”.
Eu tinha m edo dem ais para concordar. Seleções eram feitas o tem po inteiro. Em bora estivessem perdendo a guerra, os nazistas continuavam com a m eticulosam ente planej ada aniquilação do povo j udeu. O desum ano regim e das SS, a falta de higiene e o frio intenso aceleravam as m ortes. Após dar entrada no hospital, a m aioria das pessoas nunca m ais era vista.
— Não quero ir para o hospital — eu dizia, teim osa. — Sei que não m e deixarão sair e serei selecionada.
Nessa m esm a noite, após o trabalho, quando cerca de quarenta de nós deveríam os tom ar o banho sem anal, fom os com unicadas de que os chuveiros habituais estavam com defeito e que teríam os de usar os de outro cam po. Ficam os horrorizadas, tínham os certeza de que era um truque para nos colocar dentro das câm aras de gás.
Ao m archarm os, tínham os em m ente que aqueles eram nossos últim os m om entos na Terra. Ficam os todas bem j untas. Franzi segurou m inha m ão para um pouco de conforto. Entram os na antessala dos chuveiros sem dizer nenhum a palavra. Quando veio a ordem para tirarm os a roupa, ficam os estáticas, sem o m enor gesto para nos despirm os. O grupo inteiro de m ulheres se recusou a cooperar. Nenhum a de nós iria entrar espontaneam ente num a câm ara de gás.
As kappos com eçaram a gritar conosco:
— Porcas j udias noj entas, preparem -se!
Mas dessa vez, convencidas de que estavam m andando nos preparar para m orrer, ninguém se m exeu. Pouco im portando o quanto as kappos gritassem ou nos batessem com cassetetes, ficam os passivas, sem colaborar.
As kappos estavam com pletam ente perplexas. Esse era o prim eiro grupo resistente que encontravam , e elas não sabiam com o lidar com isso.
— São chuveiros, suas tontas — elas gritavam . — Vocês serão fuziladas se não entrarem .
Mesm o assim , continuam os paradas. Foi um m om ento de desafio. Em bora não m e sentisse m uito coraj osa, disse para m im m esm a: Quando eu morrer, Mutti e eu estaremos juntas outra vez.
Por fim , elas pediram reforços. O prédio foi cercado por dezenas de alem ães arm ados e cães. Vários soldados entraram e apontaram fuzis para nós, e ainda assim continuam os quietas, resistindo ao nosso destino.
Um oficial entrou, rapidam ente pôs-se a par da situação e, m uito educado, disse em alem ão, em voz alta:
— Posso garantir-lhes que não há nada a tem er. Se um a de vocês inspecionar os chuveiros, verão que não querem os fazer-lhes m al.
Dessa vez era verdade! Eles abriram as portas e pudem os ver água quente correndo. Nós choram os e rim os de alívio, m as tam bém nos sentim os um pouco orgulhosas. Havíam os resistido às am eaças com um a coragem que nos surpreendeu a todas.
Após o banho, enfim ganham os roupas m ais quentes. Recebi algum as calcinhas, dois sapatos esquerdos e um pesado sobretudo m asculino, tão com prido e pesado que m al m e perm itia andar, m as era um abrigo ao redor do corpo, e deixou-m e um pouco m ais quente à noite.
No dia seguinte, devia ser por volta do m eio-dia quando um novo grupo de m ulheres chegou às nossas cabanas de trabalho. Reconheci algum as delas porque eram holandesas e haviam viaj ado no m esm o trem de Westerbork para Auschwitz. Passam os j untas pelas sem anas de quarentena.
De repente, um a delas m e viu sentada ali e gritou para as outras. Elas correram para m im e com eçaram a falar ao m esm o tem po.
— Eva! Graças a Deus você está viva!
— Tem os algo para te contar!
— Tem os um a notícia m aravilhosa para você!
— Nós ficam os no centro hospitalar...
Eu estava tão confusa, todas falavam ao m esm o tem po, m as só entendi um a coisa.
Mutti estava viva! Ela perm anecia no hospital, respirando e viva. Minni a salvara.