A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

20 Katowice

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KATOWICE

 

Mutti e eu em barcam os ao som de risadas e cantoria. A atm osfera era totalm ente diferente da últim a viagem de trem .

No m eio da confusão, preparam os um a pequena cam a, com um a colcha estendida no chão e outra por cim a, aconchegadas num canto para um a longa j ornada. No centro do vagão havia um fogão de ferro continuam ente aceso para nos m anter aquecidos e perm itir que cozinhássem os. E não haveria m ais os baldes fedorentos no canto. Disseram -nos que, dessa vez, o trem pararia a intervalos regulares.

A locom otiva aos poucos se afastou do lugar m ais m edonho da Terra. Da linha do front, viaj am os através da Polônia liberada. Durante o dia, todos sentaram -se silenciosam ente ao redor do fogão, m ergulhados em pensam entos, m al ousando esperar por algo m ais do que essa quieta cam aradagem e relativa segurança. Com o trem atravessando os cam pos, o futuro era algo a ser ansiado. A guerra ainda prosseguia. Poucos estavam em condições físicas de cuidar de si próprios e nos indagam os sobre quais planos os russos teriam para nós.

O trem parava a cada poucas horas. Todos descíam os para nos aliviar ao lado dos trilhos, estender as pernas e respirar um pouco de ar fresco. Ao olhar em volta, testem unham os a devastação que o ataque alem ão e a contraofensiva russa haviam im posto à terra. Incontáveis vezes vim os vilas desertas e queim adas. Mas, quando o trem desacelerava para parar em estações pequenas e destruídas, figuras encurvadas em ergiam do que pareciam crateras no solo; eram os aldeões sobreviventes, cam ponesas envoltas em xales e lenços, carregando cestas de ovos ou batatas para vender. Nenhum de nós tinha dinheiro, m as apresentávam os o que possuíam os, pedaços de coisas, lenços, m eias; elas pareciam contentes em fazer a troca m esm o assim . Duas vezes por dia, quando parávam os em um a estação, os russos nos davam sopa e pão.

Trens de tropas russas passavam continuam ente na direção do front. Sem pre que nos detínham os perto de outro trem im óvel, todos desciam para conversar e trocar notícias dos fronts leste e oeste. Queríam os fazer contato com pessoas que não fossem ex-prisioneiras para descobrir todo o possível sobre o progresso da guerra.

Alguns soldados russos eram pouco m ais do que crianças, 15 ou 16 anos no m áxim o. Uns poucos falavam alem ão e conversavam conosco. De onde vínham os? Com o eram as condições no front? Assim que dizíam os que éram os j udeus, eles apertavam nossas m ãos e voltavam correndo para os vagões. Então, orgulhosam ente retornavam trazendo um dos colegas j udeus e ficavam de lado sorrindo e observando o im enso sentim ento de conexão fluindo entre nós. Os j udeus russos sabiam um pouco de ídiche e ficavam em polgados e aliviados por encontrar j udeus que haviam sobrevivido ao Holocausto. Pareciam saber tudo sobre os cam pos de concentração.

Então, de novo, ao pararm os em plataform as arruinadas, soldados russos tiravam dos bolsos fotografias de pais, irm ãos ou filhos e perguntavam ansiosam ente se os havíam os visto... em algum lugar, em algum a parte.

Alguns hom ens levavam fotos de Stálin, as quais beij avam fervorosam ente, dizendo que era o nosso salvador, aquele que nos conduziria à vitória. Todos os soldados — hom ens fortes e sim ples — eram ferrenhos com unistas. Eram tom ados pelo entusiasm o e repetiam histórias de com o seus próprios pais ou avós tinham sido servos sem nenhum a perspectiva, obrigados a viver em choças com o anim ais, oprim idos pelos latifundiários. Mas, agora, sob Stálin, tinham direitos iguais e, m ais im portante, a barriga cheia; m oravam em casas decentes e nutriam esperança no futuro. Fiquei bastante im pressionada pelo fervor. Seus rostos ansiosos m e encheram de confiança e senti-m e segura de que seríam os bem protegidas por hom ens de tam anha convicção.

 

7 de março de 1945 —Forças dos EUA cruzam o Reno em Reimagen

 

Viaj am os para o sudeste por quase três sem anas, sem saber o destino final até que, finalm ente, em 25 de m arço, param os num a grande estação que continuava intacta. Era Katowice, um a im portante cidade de m ineração de carvão, onde pela prim eira vez em m uitos m eses entram os em um a área construída. Estávam os de volta à civilização.

Com ânim o elevado, tiram os nossos pertences do trem . Reparei em Otto Frank desem barcando e apontei-o para Rootj e. Ela fez um aceno com a cabeça e foi cam inhar a seu lado enquanto éram os levados para os aloj am entos dos operários, na periferia da cidade. Colchões de palha haviam sido colocados no chão e os soldados no com ando falaram para nos instalarm os confortavelm ente, j á que ali seria nosso lar por vários dias, até que chegassem ordens instruindo-os sobre o que fazer conosco. Devem os ter sido um problem a e tanto para eles, m as o exército parecia estar no controle da situação. Im ediatam ente os soldados m ontaram cozinhas de cam po no pátio para fazer a deliciosa sopa quente de repolho e batata. Havia pedaços de pão de m ilho, m as o gosto era tão ruim que eu m al com i. Mutti, cuj as forças retornavam aos poucos, ficava insistindo para que eu com esse pelo m enos um pouquinho da m inha porção.

— Todos os soldados russos com em — repetia —, e vej a com o são fortes!

No entanto, eu não estava m ais fam élica — e com eçava a escolher o que com er.

Durante as tardes, Mutti, Rootj e, Kea e eu, com alguns outros am igos, nos aventurávam os na cidade para desfrutar a sensação de cam inhar por ruas com loj as. Nenhum a vitrine tinha m uitos produtos em exibição, m as para nós tudo parecia o m áxim o do luxo. Não tínham os dinheiro para com prar nada, m as nos alegrávam os por fazer parte da vida com um . Não tínham os fom e apenas de com ida em Birkenau. Estávam os fam intos pela norm alidade.

Um dia, para nossa grande satisfação, dem os de cara com o cinem a local, que exibia um velho film e austríaco. Fiquei tão excitada que não parei de pular im plorando a Mutti para pedir à caixa para nos deixar entrar. Mutti estava extrem am ente relutante, porém , vendo m eu rosto, foi até a surpresa garota na bilheteria e explicou que éram os um grupo de prisioneiras libertadas de Auschwitz ansiosas por ver um film e. Nós oferecíam os um a pobre vista: cabelos curtos, olhos afundados, ossos protuberantes e a m ais estranha variedade de roupas suj as penduradas nos nossos corpos. Ela fez um a careta, m as ficou com pena e liberou a entrada. E assim , um esfarrapado am ontoado de refugiadas ansiosas fez fila para receber ingressos e escapar para a grande ilusão do cinem a.

O film e j á tinha com eçado. Estava escuro quando procuram os lugares, de m odo que ninguém pôde olhar para as figuras excêntricas que devíam os parecer. Era um a história sobre o im perador Francisco José. Reconheci os j ardins e o palácio Schoenbrun, onde brinquei quando criança. A m úsica de Johann Strauss enchia o auditório e, durante aquelas duas horas, eu m e esqueci com pletam ente dos m eses de m iséria e tortura que tínham os enfrentado. Era um a fuga total da realidade.

Quando acabou, saím os para a rua j á escurecendo e foi aí que soube que enfim estávam os livres. A enorm idade disso m e atordoou. Era um a adolescente que sobrevivera à tragédia de Auschwitz, e supus que voltaria à vida norm al, à escola com professores e colegas de classe, fazendo coisas do dia a dia que, por m uitos anos, haviam sido proibidas e inalcançáveis. De repente, m e senti m uito assustada. Com o conseguiria lidar com tudo isso? Já estava escuro e segurei firm e a m ão de Mutti, ainda um a criança. Apesar de não term os dito nada, nós duas pensam os em Pappy e Heinz. A possibilidade de que eles talvez não tivessem sobrevivido pairava sobre nós com o um a som bra sinistra.

Ficam os no aloj am ento por vários dias até que, certa m anhã, disseram para nos prepararm os para partir. Seríam os levados ainda m ais para o leste, j á que os russos tiveram de adm itir que a guerra não avançava de m aneira satisfatória e que havia a possibilidade de os alem ães recapturarem Katowice.

 

31 de março de 1945

 

Mais um a vez em barcam os num trem , e este ia para o coração da Ucrânia. De vez em quando, ele parava. Às vezes, esperava durante horas, para m anter as linhas livres para m ovim entos de tropas. Vez ou outra, parava apenas dez m inutos para os passageiros se aliviarem . Saltávam os de um a altura de cerca de 1,20 m etro até os trilhos, fazíam os nossas necessidades e em barcávam os de novo antes de o trem seguir viagem .

Na tarde do terceiro dia, após o trem ter parado várias vezes, poucas pessoas aproveitaram o intervalo. Mutti desceu e estava se agachando a alguns m etros do vagão, quando, de repente, o trem sacudiu e lentam ente com eçou a se m over. Várias pessoas ainda estavam nos trilhos e foram puxadas para dentro. Mas Mutti, que com eçara a correr ao lado do vagão, sim plesm ente não tinha a força necessária para pular de volta, nem a coragem de agarrar as m ãos estendidas em seu auxílio. Com o trem acelerando, ela desistiu e parou de correr. Fiquei vendo, horrorizada, a sua solitária figura ao lado dos trilhos aos poucos se transform ar em um pontinho preto na distância. Fiquei histérica. Rootj e e Kea tentaram m e acalm ar e tranquilizar.

— Ela pegará o próxim o trem .

— Sua m ãe vai nos alcançar na próxim a parada.

— Com o? — perguntei. — Ela não sabe para onde estam os indo! Nem nós sabem os para onde estam os indo.

Na parada seguinte, as três encontram os um oficial que estava no com ando. Ele não entendia um a palavra de alem ão, e, assim , tivem os de contar o infortúnio de Mutti por m ím ica. Era com o um j ogo. Nós nos aj oelham os fazendo ruídos e, então, fingim os tentar pular num trem im aginário. Estávam os seriíssim as, m as devem os ter parecido m uito engraçadas. Ele achou tão côm ico que explodiu em gargalhadas, com lágrim as correndo pela face. Deu tapinhas no m eu om bro para indicar que tudo ficaria bem — m as não m e im pediu de ficar preocupada ou irritada com Mutti. Com o ela pôde ter sido tão tola a ponto de m e deixar sozinha de novo? Dessa vez, era tudo culpa dela.