A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
PARTE III Jornada pela Rússia
PARTE III
Jornada pela Rússia
16
Os russos
27 de janeiro de 1945
Nesse dia, nossos libertadores entraram no cam po em pequenos grupos: fortes soldados russos a cavalo puxando arm am entos e provisões para o avanço. Eles tinham pouco tem po para se preocupar com o bem -estar dos prisioneiros que restavam . Ficam os ao seu redor, observando cada m ovim ento, m as a barreira da língua entre nós era grande dem ais para qualquer real com unicação. Sentim os que estavam ansiosos para perseguir os alem ães em retirada. Eles ficaram apenas o suficiente para m ontar a cozinha de cam po dentro do com plexo. Em pouco tem po, circulou o delicioso arom a de sopa quente de batata e repolho, borbulhando no caldeirão, e ficam os anim adas quando gesticularam para nos aproxim arm os e entregaram tigelas fum egantes. Pude sentir o calor penetrando no m eu corpo.
Com a chegada dos russos, nosso pequeno grupo achou estar seguro o suficiente para se m udar para os aloj am entos que tinham abrigado as SS. No fim da tarde, nós quatro atravessam os os portões do cam po. Era um a sensação assustadora. Não havia guardas para nos deter, nem cães latindo, apenas os sons de cavalos relinchando e o vento soprando.
Chegam os à cabana e tentam os abrir a porta. Surpreendentem ente, não estava trancada e, apreensivas, entram os nas instalações de Herr Obersturmführer. Inspecionam os os dois principais aposentos. Exalavam lim peza e exibiam o asseio da civilização. Queríam os ficar j untas, por segurança e com panhia, e, assim , optam os pelo quarto com dois beliches, am bos com cam as arrum adas e lim pas.
Mais im portante, havia um fogão preto de ferro no centro do dorm itório, com um suprim ento de lenha em pilhado num canto. Mal conseguíam os esperar para que estivesse aceso. Colocam os a m adeira, acendem os e ficam os ao redor observando as cham as crescerem . Então, sentadas no chão da nossa prim eira acom odação confortável, desfrutam os da m aravilhosa sensação de finalm ente nos sentirm os aquecidas de novo.
Estávam os com bastante sono a essa altura, m entalm ente exaustas com a tensão e excitação do dia e desej ando m ais um a vez deitar em lençóis lim pos. O quarto reluzia com o calor e, pela prim eira vez em m uitos m eses, ficam os só com as roupas íntim as e deitam os nas cam as. Olga escolheu um a cam a de baixo, e Yvette ficou com a de cim a. Mutti se pôs sob os lençóis da outra cam a inferior com um olhar de êxtase no rosto. Joguei o m eu edredom na cam a de cim a, subi e m e aninhei na sua acolhedora m aciez. Mas dem orei m uito para cair no sono. Fiquei observando as som bras dançando nas paredes brancas, convencendo-m e do que eu m al acreditara ser possível. Nós conseguíram os. Havíam os sobrevivido.
Acordam os cedo. Lá fora, o ar estava absolutam ente parado e fazia um silêncio total. Quando olhei pela j anela, vi que nevara durante a noite.
Os canos na cabana haviam congelado e não tínham os com ida, então delegam os a Olga e Yvette a tarefa de furar o gelo no lago para conseguir água, enquanto Mutti e eu íam os aos arm azéns. Dessa vez, descobrim os m ais salas subterrâneas, lotadas com provisões. Enchem os dois sacos com batatas, cenouras, cebolas e cevada, até quase não poderm os erguê-los, e os arrastam os de volta pela neve.
Olga j á tinha água fervendo num a panela e logo preparou um a encorpada sopa de legum es. Quando ficou pronta, nós a engolim os com o lobos fam intos. Eu não conseguia parar de com er e queria m ais — e, então, ainda m ais —, m as Mutti m e advertiu para não com er tanto. Tinha certeza de que ia m e fazer m al se não parasse. Mutti estava certa, é claro. Arrependi-m e m ais tarde, porque m eu corpo estava desacostum ado a digerir com ida e acabei dobrando-m e de cólicas estom acais e diarreia. Meu abdôm en ficou terrivelm ente inchado e eu gem i de dor. Im plorei a Mutti para fazer algo que acabasse com a m inha agonia.
— Faça um furo no m eu estôm ago para tirar o ar — supliquei.
Porém , não havia m uito que ela pudesse fazer, exceto m e am parar até o balde sanitário, onde passei a m aior parte da noite.
Depois dessa experiência, fiquei m uito m ais cuidadosa com a quantidade de com ida que ingeria. Por segurança, nos revezávam os para ir aos arm azéns buscar quaisquer provisões necessárias, com frequência ouvindo o barulho de tiros de canhões a distância e o som de aviões russos no ar.
Ainda fazia um frio intenso, com a água congelando nos canos e no lago. Dividim os entre nós a tarefa extenuante de conseguir água. Quando era m inha vez e de Mutti, íam os com um a picareta. A fum aça cinza da respiração congelava nos cachecóis, ao arfarm os devido ao esforço para quebrar o gelo, apesar de ser um a cam ada m ais fina, form ada durante a noite sobre o antigo buraco. Gastávam os um a boa m eia hora a cada vez. Ainda nos encontrávam os fracas e, quando enfim conseguíam os a água, estávam os exaustas e congeladas. Só tínham os um balde e, assim , precisávam os voltar lá várias vezes por dia.
Olga era a m ais forte de nós, enfrentando todas as tarefas com determ inação. Era cheia de entusiasm o e energia. Sendo polonesa, estava certa de que logo voltaria para casa e a fam ília. Yvette, no entanto, era bastante letárgica e deprim ida. Suspeitava que nenhum dos fam iliares tivesse sobrevivido. Assustada com o que o futuro pudesse revelar, ficava horas deitada na cam a de cim a do beliche, m uitas vezes chorando baixinho.
Passam os três dias nessa relativa segurança e conforto quando, perto do anoitecer, após decidirm os ir para a cam a cedo, ouvim os um a agitação do lado de fora e a porta foi de súbito aberta com um pontapé. Sentam os nas cam as, agarrando as cobertas, alarm adas, com todo o nosso frágil senso de segurança im ediatam ente abalado. Parados na soleira, dois hom ens fortes vestidos com longos casacos de pele. Seus rostos estavam sem iocultos por grandes chapéus de pele, e os olhos brilhavam sob as sobrancelhas cobertas de gelo. Eram m ais dois dos nossos ursos russos hipnotizados ao nos ver.
Após o choque inicial, descem os dos beliches e correm os para trazê-los para o calor do quarto. Olga falou em polonês com eles, oferecendo com ida e tentando obter inform ações, m as os dois m al respondiam . Estavam cansadíssim os. Disseram que tudo o que queriam era dorm ir. Indicam os que eram bem -vindos para usar nossas cam as e prontam ente rearranj am os os leitos; Olga e Yvette dividiram a cam a superior de um beliche, com Mutti e eu na de baixo. Mutti colocou-m e contra a parede e, protetora, deitou-se no lado externo. No fundo, estávam os com m uito m edo desses hom ens porque havíam os ouvido m uitas histórias de russos estuprando m ulheres. Mas tivem os um sono pesado durante a noite e, quando acordam os na m anhã seguinte, am bos haviam desaparecido.
Só voltam os a ver soldados dois dias depois, quando a principal vanguarda, com dez cam inhões e cerca de cem hom ens, acam pou perto da casa. Os russos foram m aravilhosos conosco. Sem pre dividiam a com ida quente, e ficávam os sentados ao redor da fogueira trocando histórias. Ao contrário dos rum ores, nunca nos sentim os sexualm ente am eaçadas por eles. Sem pre foram honestos, decentes e nos trataram com respeito. Sabíam os que, finalm ente, estávam os com am igos.
Alguns falavam polonês, alguns alem ão, e ouvim os histórias terríveis do que os alem ães tinham feito ao seu povo. Havia um rapaz de 13 anos nessa linha avançada cuj a vila, incluindo toda a sua fam ília, fora exterm inada. Ele se determ inara a se vingar. Todos os russos estavam tom ados por pensam entos de vingança e não podiam esperar para pôr as m ãos nos prim eiros alem ães que encontrassem . Juraram aterrorizar todas as cidades e vilas alem ãs que cruzassem para devolver as atrocidades com etidas contra os seus entes queridos. Fiquei com a im pressão de que precisavam aliviar a culpa que sentiam por sobreviver, e isso era um a m aneira de j ustificar o ódio.
A prim eira leva ficou perto do nosso cam po durante a noite e partiu no dia seguinte. Eles haviam enfrentado com bates renhidos durante todo o avanço e estavam fadados a encontrar m ais luta dura. Mas eram im ensam ente otim istas e resilientes, e passei a nutrir grande am or e respeito por esses bravos russos.
Durante os dias seguintes, grupos de russos avançando apareceram de m aneira interm itente. Alguns vinham a pé, alguns em transportes m otorizados, outros a cavalo. Acam pavam por um ou dois dias, com partilhavam conosco com ida e inform ações e, então, seguiam em frente.
Atrás dos soldados sem pre vinham m eninos tentando aj udar da m elhor m aneira possível. Mantinham -se ao redor, esperando por tarefas, e eu costum ava m e cobrir com o edredom e sair para conversar com eles. Alguns falavam um pouco de alem ão e, de algum m odo, conseguíam os nos com unicar. Estavam tom ados por um ódio intenso e insaciável pelos alem ães e não paravam de repetir histórias de atrocidades nazistas em suas cidades.
Um a noite, durante um a pausa no avanço, bem quando estávam os para dorm ir, ouvim os um a tím ida batida na porta. Não sabíam os o que poderia ser. Juntam o-nos e abrim os a porta cuidadosam ente. Ao olharm os para fora, deparam os com um hom em alto, com 40 e poucos anos, vestido com o uniform e listrado de prisioneiro, que perguntou num alem ão precário se poderia entrar.
Ele disse que escapara e que estava com fom e e frio, e, assim , nós o deixam os entrar. Dem os pão e sopa, que ele rapidam ente engoliu, agradecendo-nos com polidas palavras em alem ão, que nos deram a im pressão de que, de algum m odo, não era autêntico. Parecia saudável dem ais para ter sofrido um a longa privação. Ficam os bastante desconfiadas, em bora ele estivesse claram ente aterrorizado.
Sua história era a de que, quando as SS ordenaram que todos os prisioneiros abandonassem o cam po, ele se escondera e conseguira escapar da m archa forçada. Im plorou que lhe perm itíssem os ficar por algum tem po, m as todas fom os inflexíveis na negativa. O hom em não parava de perguntar se havíam os visto russos e em que direção tinham ido. Se fosse autêntico, tínham os certeza de que os russos cuidariam dele e, então, de propósito o m andam os na direção errada, que o levaria às m ãos russas. Ficam os com pena, porque estava m uito nervoso, m as tínham os m edo o bastante para pô-lo para fora à noite.
A próxim a leva de russos chegou na m anhã seguinte. Com eles vinha o invasor noturno, agora feito prisioneiro. Suas m ãos estavam am arradas nas costas e ele era em purrado com agressividade. Ficam os bastante perturbadas pelo tratam ento duro que os russos lhe davam e externam os nossa opinião. Fizem os tanto barulho que, por fim , exasperado, um oficial o trouxe até a porta, tirando sua roupa na nossa frente e erguendo o seu braço. Havia um a tatuagem na axila, um a prova concreta da sua identidade com o SS. Estranham ente, não ficam os nem um pouco satisfeitas, e sim bastante perturbadas. Deveríam os estar im unes a qualquer tipo de sofrim ento, m as não. Sentim o-nos m al ao im aginar o que iria acontecer a ele. Foi um a estranha reação em ocional.