A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

5 Prisão

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PRISÃO

 

Um a cam inhonete preta levou-nos para a prisão local. Sentam o-nos na traseira com várias outras fam ílias, olhando im passíveis de um para o outro: todos em profundo estado de choque. Funcionários holandeses da prisão nos j untaram nos fundos e separaram hom ens de m ulheres. Eu m e agarrei a Mutti. Ela tinha os olhos fixos em Pappy, que m oveu os lábios em silêncio: “Queixo para cim a!”, enquanto nos separávam os m archando.

Foi a pior coisa que aconteceu com igo em toda a m inha vida. Não conseguia entender por que deveria ser colocada na prisão ou por que, com 15 anos, eu era um a pessoa indesej ável sim plesm ente por ser j udia. Era tudo um a perseguição sem sentido e m e revoltei de verdade. Queria saber por que tudo aquilo estava acontecendo conosco.

Quando você é pega num a arm adilha dessas e se vê im potente para fazer qualquer coisa a respeito, com eça a sentir-se bem vazia por dentro. Meu instinto norm al seria m e envolver com as pessoas ao redor e conversar, m as qualquer um a delas poderia ser o inim igo nos espionando. Eu não confiaria m ais em ninguém , exceto Mutti. Assim , teve início o desligam ento que era parte do processo desum anizador dos cam pos de concentração.

Mutti e eu fom os postas num grande dorm itório, onde havia fileiras de treliches. Cerca de quarenta outras m ulheres j á estavam confinadas naquele espaço, com as m ais prim itivas privadas num canto. Foi a prim eira vez que tive de dividir m inhas noites com tanta gente. Subi num a cam a do alto e deitei em cim a de um cobertor cinza, com a cabeça num travesseirinho, olhando para o teto. Meu corpo doía da surra que recebera. Inclinei-m e para Mutti, na cam a de baixo — não queria passar a noite sozinha. Ela fez um aceno ao ver m eu cabelo despenteado e m eu rosto m achucado olhando para baixo. Passei para o lado dela na cam a. Não conseguia dorm ir.

Durante a noite, novas presas foram trazidas. Havia m ulheres com bebês, os quais sentiam o sofrim ento ao redor e gritavam de m edo enquanto as m ães tinham de lidar com as crianças sem instalações e m ateriais adequados. Um a asm ática crônica sofreu vários ataques durante a noite, e sua respiração era tão irregular que m uitos gritaram pedindo um m édico e enferm eiras. Por fim , os guardas holandeses m andaram um m édico.

Mutti ficou deitada em silêncio, e enfim consegui m e desligar de todo barulho e agitação e caí no sono com seus braços ao m eu redor.

Na m anhã seguinte, recebem os algum a com ida. Foi o prim eiro pedaço de pão, ou líquido, que pus na boca desde o interrom pido café da m anhã de aniversário. De repente, fiquei esfom eada, e Mutti m e deu um pouco do seu pão após eu com er o m eu. Quando estávam os sentadas nas cam as, com endo, todas com eçaram a contar suas histórias e com o haviam sido pegas... e todas nós tentam os adivinhar qual seria o nosso destino.

Todas estavam bastante desesperadas, m as no treliche ao lado havia um a j ovem , de 20 e poucos anos, que parecia irradiar coragem . Quando a m anhã chegou, ela deu um a volta pelo recinto, aj udando as m ães com os bebês, confortando m ulheres que choravam e encoraj ando todas a m anter o ânim o.

Ao m eio-dia, novam ente trouxeram alim ento, e ela sentou-se ao m eu lado enquanto com íam os. Ela disse que se cham ava Francesca (Franzi) e que nascera em Am sterdã, em bora os pais viessem da Rússia. Franzi esperava entrar na universidade no ano em que os nazistas chegaram . Apesar do fato de que sua m ãe fora capturada antes — com o irm ão m ais velho e a m ulher dele —, Franzi e sua irm ã m ais nova, Irene, conseguiram ir para a clandestinidade.

Elas levaram j unto a filhinha do irm ão, Rusha. Por causa do bebê, tiveram de m udar de esconderij o m uitas vezes, com a aj uda dos holandeses clandestinos, e pouco tem po antes Irene e Rusha haviam sido colocadas num a fazenda distante no cam po, para viver com o filhas de um casal de fazendeiros. Franzi rezava para continuarem a salvo. No fim , o seu destino foi o m esm o que o nosso; ela tam bém fora traída por dinheiro.

— Pelo m enos estam os num a prisão holandesa adequada — disse. — Os holandeses são hum anos, e estam os relativam ente seguras aqui.

No fim do segundo dia, a cadeia estava com pletam ente lotada, e acham os que logo seríam os m andadas para um cam po de detenção holandês no cam po, em Westerbork.

— Seria m elhor estarm os ali? — perguntei, com eçando a enfrentar a realidade de que éram os prisioneiras do nosso inim igo m ortal.

Franzi fez que sim com a cabeça, j á ouvira a respeito do cam po.

— Certam ente seria m enos lotado que aqui. — E olhou ao redor para os treliches ocupados por várias m ulheres e crianças. — Desde que fiquem os detidas na Holanda, nossas vidas devem estar a salvo. Eles vão deixar as fam ílias j untas.

Ela tinha total confiança nos holandeses.

Mutti, sentada em silêncio, se ocupava com seus próprios pensam entos, e de repente sugeriu que deveria escrever um a breve nota aos Reitsm a, pedindo algum as roupas. Ela foi até o guarda e negociou para conseguir m andar um a carta. À noite, um a m aleta foi entregue para nós na prisão com algum as roupas de baixo, vestidos, saias e o casaco de Mutti.

 

13 de maio de 1944

 

Na m anhã de quinta-feira, fom os todas cham adas pelo nom e, form am os filas e m archam os para a estação sob forte guarda da Gestapo.

Em barcam os num trem norm al, com assentos e vagões, e, quando entrava, vislum brei Pappy e Heinz na plataform a.

Um apito soou e o trem se afastou de Am sterdã, pegando velocidade e atravessando o cam po prim averil, onde árvores frutíferas estavam cheias de flores. Pude ver vacas e ovelhas pastando, fazendeiros trabalhando no cam po, e desej ei estar ao ar livre e em liberdade.

Dentro do vagão, discutim os as nossas perspectivas. Todas tínham os m edo de ser m andadas para um cam po de concentração no leste. Talvez até m esm o Auschwitz. Nossa única esperança era que a guerra acabasse em pouco tem po e que pudéssem os perm anecer em Westerbork até lá.

Quando enfim chegam os, constatei que Franzi estava certa. As acom odações eram bastante razoáveis. Tínham os beliches lim pos, boas instalações sanitárias e, ainda m elhor, podíam os nos m ovim entar livrem ente para conversar e ver os hom ens durante o dia. Pappy e Heinz logo nos descobriram e ficaram por perto.

Nós com íam os j untos num grande refeitório e ganhávam os purê de batatas e cenouras com m olho em cim a, e o gosto era bom . Às m esas, todos tinham histórias para contar.

Os detentos em Westerbork eram na m aioria j udeus, e havia uns poucos cristãos que tinham dado abrigo a j udeus. Tam bém havia um grupo de ciganos, os quais, para os nazistas, eram tão abom ináveis quanto os j udeus. Com o recém -chegados, nosso grupo continha os prisioneiros m ais vulneráveis. Em bora os holandeses fossem responsáveis pela adm inistração, sob a supervisão de alem ães, a m aior parte dos serviços internos era feita de m aneira eficiente por j udeus, alguns dos quais Pappy conhecia pessoalm ente.

Mutti e Pappy avaliaram nossa posição.

— Se puder, vou fazer contato com pessoas aqui que conheci antes da guerra. Algum as delas estão em posições influentes. Se conseguirem nos arrum ar trabalhos convenientes, poderíam os tentar m anobrar para ficarm os em posições protegidas. Assim , talvez evitem os ser despachados. — Pappy acreditava que essa era nossa única chance. Ele se esforçou ao m áxim o. Alguns am igos o reconheceram e prom eteram fazer tudo ao alcance para nos aj udar. Sabíam os que a coisa m ais im portante era perm anecerm os na Holanda pelo m aior tem po possível.

Um dos am igos de Pappy, George Hirsch, trabalhava no escritório central, e prom eteu tentar nos colocar num a escala de trabalho. Era um hom em sincero e bondoso. Ele dividiu suas cam isas com Pappy e Heinz, porque os dois só tinham a roupa do corpo.

Para nossa consternação, com eçam os a ouvir rum ores de que um grande transporte de ciganos seria encam inhado para Auschwitz no dom ingo seguinte e, com o havia uns poucos vagões de gado ainda vazios, j udeus seriam em barcados para com pletar a carga. Com o estávam os entre os recém -chegados, o Sr. Hirsch não tivera oportunidade de garantir trabalho para nós. Acham os que estávam os destinados a ser incluídos entre os desafortunados.

Então percebem os que esse era o passo no abism o. Auschwitz ficava na Polônia, no coração do território inim igo. Ouvim os na BBC que era conhecido com o um cam po de exterm ínio.

Tentam os não deixar que o desânim o tom asse conta. Certam ente, enquanto estivéssem os em boa form a e capazes de trabalhar, eles não nos m atariam .

Agora, havia pouca coisa que Pappy pudesse fazer, exceto nos dar orientações de sobrevivência. Ele enfatizou que bondade e cam aradagem eram im portantes, que teríam os de aj udar uns aos outros para sobreviver. Falou sobre a necessidade de lim peza e higiene. Constantem ente m e lem brava de não sentar na privada e de lavar as m ãos depois. Mal sabia que nenhum de nós teria poder algum sobre requintes desse tipo.