A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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SOZINHA
Vestim o-nos num silêncio am argo. Nessa noite, em vez de serm os levadas de volta ao velho barracão no Lager A, fom os conduzidas a um a outra parte do cam po, a qual era separada por um portão de aram e farpado vigiado com um a sentinela e holofotes.
Franzi tentou m e confortar, m as eu estava inconsolável. Sim plesm ente sabia que tinha de tentar encontrar Minni para contar o que acontecera. Essa com pulsão era tão forte que não pensei no que aconteceria com igo se fosse pega.
Disse a Franzi que iria voltar. Ela fez tudo para m e im pedir, im plorando e advertindo, m as nada do que disse fez algum sentido para m im , exceto que, se eu fosse m orta, teria o m esm o destino que Mutti.
Fom os conduzidas para nossos treliches m ais um a vez e fiquei acordada, esperando pela m adrugada. Franzi, que estava ao m eu lado, beij ou m inha cabeça quando desci da cam a do m eio e esgueirei-m e para fora do barracão. Podia ver a torre de vigia e m e colei à parede, nas som bras, enquanto o facho do holofote girava devagar em sentido horário pelo cam po. Tudo estava quieto. Desloquei-m e furtivam ente na direção do portão da sentinela sem considerar que poderia estar fechado. Por m ilagre, estava escancarado, m as não parei para pensar enquanto atravessava correndo, com o holofote às m inhas costas.
Fui até o barracão de Minni e entrei sem fazer barulho. Todas dorm iam . Os treliches das enferm eiras ficavam perto da porta, e eu acordei a prim eira pessoa que vi.
— Preciso ver Minni com urgência — sussurrei.
A m ulher acordou de im ediato e sussurrou de volta:
— De onde você veio? Quem é você? — Ela saiu da cam a e m e olhou, para ter certeza de que eu não era um a inform ante.
— Por favor, por favor, é m uito im portante — insisti. — Tenho de ver Minni.
A essa altura, várias outras enferm eiras e pacientes j á estavam acordadas, com m edo da agitação que eu provocava. Ela m e pegou pelo braço e m e conduziu por algum as fileiras de cam as até eu ver o corpo de Minni em baixo de um cobertor fino. Eu a sacudi.
— Eva! — ela acordou com um sobressalto. — O que está acontecendo?
Minni m e apertou contra o peito enquanto eu soluçava incontrolavelm ente e dava a terrível notícia.
— Eles selecionaram Mutti.
— Calm a, querida. Verei o que posso fazer. Eu vou tentar — ela repetia —, eu vou tentar.
Tam bém contei que fora transferida do Lager A para o Lager B. Agora que tinha feito tudo o que podia fazer, com eçava a m e acalm ar.
— Falarei com Herr Doctor Mengele am anhã — o tom de Minni m e tranquilizou. — Volte agora. Tenha cuidado para não ser vista.
Trocam os um beij o de adeus e regressei para a noite. Ninguém m e viu e, surpreendentem ente, não havia cachorros por perto. Quando retornei da perigosa travessia, Franzi esperava na porta e m e abraçou. Sentia-m e fraca e anestesiada e voltei para o m eu lugar, em ocional e fisicam ente exausta. Todas as m ulheres que dividiam o espaço no treliche com igo, com algum as am igas holandesas que tinham conhecido Mutti na prim eira viagem de trem , estavam acordadas e m e aguardavam . Elas tentaram m e dar conforto e esperança, e enfim consegui cair no sono.
Pela prim eira vez desde nossa captura eu estava sem Mutti à noite.
Na m anhã seguinte, após a Appel, fom os com unicadas de que seríam os transferidas para o Cam po C, a cerca de 2 quilôm etros, para outra unidade de trabalho, cham ada Weberei. Fom os então conduzidas dos horrores fam iliares para novos horrores.
Eu estava desesperada. Chorei o cam inho inteiro. Franzi andou ao m eu lado, m as não conseguia fazer nada para acabar com as m inhas lágrim as. Eu sentia que era o adeus final e que os últim os laços com a m inha fam ília — m inha m ãe e m inha prim a — haviam sido quebrados. Nada podia m e consolar da noção de que agora eu estava totalm ente sozinha.
Nessa prim eira m anhã após a seleção de Mutti, m archam os até um im enso galpão que continha longas m esas com pilhas de trapos e rolos de papelão. Nossa tarefa era cortar o m aterial em tiras de cerca de 3 centím etros de largura e trançá-las em cordas de uns 5 centím etros de espessura, com pletando diariam ente um a cota de 20 m etros. Disseram que o m aterial seria cortado e usado para o lançam ento de granadas de m ão. Havia apenas uns poucos pares de tesouras em todo o galpão, as quais podíam os pegar em prestadas um as das outras, m as no geral tínham os apenas nossas m ãos com o ferram enta. Frequentem ente eu precisava usar os dentes.
Durante o dia, as m ulheres e os hom ens das SS andavam ao redor para checar se as cordas trançadas eram fortes o suficiente. Eram bastante rígidos quanto à qualidade. Se você não fazia o trabalho direito, era fortem ente espancada. Toda noite, a nossa quantidade individual de corda era m edida. No com eço, se não com pletávam os a cota, éram os advertidas para m elhorar. Caso não m elhorássem os, diziam que seríam os selecionadas. Com o era de esperar, algum as m ulheres ficaram fracas dem ais para trabalhar bem , e pouco a pouco perderam a força para rasgar o m aterial m ais grosso com as m ãos ou os dentes. Um a após a outra, foram selecionadas e desapareceram da linha de m ontagem . Todas tem íam os que isso acontecesse conosco, m as sem pre consegui com pletar m inha cota.
Agora que Mutti partira, m inhas noites se tornaram intensam ente sofridas e, sem seus braços reconfortantes m e protegendo, eu achava m uito difícil suportar as condições atrozes. Todas perto de m im , de algum m odo, tentaram m ostrar um pouco de am or extra para com pensar, e Franzi assum iu a tarefa de ficar sem pre que possível ao m eu lado. Assim , ela tornou-se um a das m inhas colegas de cam a e esforçou-se para substituir Mutti e dar-m e carinho à noite. Contudo, todas nós estávam os perdendo o ânim o, exauridas pela tensão e pela falta de com ida adequada, e ninguém podia assum ir o lugar da m inha m ãe.
As condições no cam po novo, incluindo o dorm itório, eram exatam ente com o antes. No entanto, exceto por Franzi, eu agora tinha um novo grupo de colegas de cam a — não havia escolha, sim plesm ente nos alocavam os lugares ao entrarm os no barracão. As dem ais no m eu treliche form avam um a m istura variada: algum as eram bem m ais velhas; algum as eram intelectuais com enorm e dificuldade para lidar com a degradação; outras, diam antes brutos, capazes de aceitar as condições — com o Gretl, que tam bém era vienense e, m esm o nessa situação som bria, sem pre conseguia encontrar algo para nos fazer sorrir. Mas, com o a m ais j ovem , eu m e sentia m uito vulnerável e caía na autocom iseração. Estava presa no m ais abom inável lugar e, à noite, sonhava em escapar, fugindo por florestas e escondendo-m e dos hediondos torturadores. Não queria vingança contra as kappos, apenas desej ava fugir para longe delas. Estava determ inada a viver e a ser livre.
Cada noite era um teste de resistência. Pouco im portando o que havíam os sido antes da captura — m édicas, enferm eiras, donas de casa ou vendedoras —, agora estávam os todas na m esm a situação terrível. Tínham os de ser um a equipe à noite. Ficávam os tão apertadas no treliche que ninguém podia se deitar de costas ou bruços, som ente de lado. Nós dez dorm íam os j untas com o um conj unto de colheres hum anas, e quando um a se virava no sono, todas tínham os de acom panhar. Até o nosso sono era regulam entado.
Em geral, eu ficava tão cansada que não conseguia m anter-m e acordada, apesar de um a outra espécie de com panhia dividir a cam a conosco — percevej os pretos, enorm es e horrorosos, que se m ultiplicavam livrem ente, prosperando com o nosso calor e a lã velha dos treliches.
Cada vez que a “equipe” do treliche de cim a se virava, esses insetos noj entos caíam em grande núm ero e grudavam em nossas peles. Eram sanguessugas repugnantes que se fartavam à custa de nossos corpos. Havia tantos que ficaríam os cobertas se não os raspássem os im ediatam ente. Mesm o assim , nossas peles ficavam m arcadas pelas picadas e pelos furúnculos causados por seus ataques.
O m odo com o tínham os de viver era nauseante. Um dia, achei que tinha encontrado um a possível solução para o problem a de não poder m e lim par após usar as latrinas. Vi um grande rolo de lã de algodão branco largado atrás de um barracão, peguei um pedaço e guardei-o no bolso do vestido até poder usá-lo m ais tarde. Eu queria algum a coisa m acia para m e lim par, m as, quando o usei, descobri na hora que não era algodão, m as fibra de vidro. Cortei todo o m eu traseiro com pequenos fragm entos de vidro, os quais tive de arrancar do j eito que dava. Logo infeccionou e fiquei dolorida por dias.
Certa noite, fui acordada por um a sensação esquisita no pé. Olhei para baixo e vi um rato preto prestes a m e m order e gritei de m edo, fazendo tanto barulho que pensaram que eu estava sendo m orta. Fiquei trem endo e suando ali até as outras finalm ente m e convencerem de que o anim al havia ido em bora. Depois disso, tinha pânico na hora de dorm ir.
Sofríam os diariam ente com a dor causada pela fom e. A com ida era suficiente apenas para nos m anter vivas, nada além . Estávam os sendo devastadas pela necessidade de m ais alim entos. Ficam os tão obcecadas por com ida que poderíam os com eter qualquer crim e para obter rações extras. Com frequência, davam -nos um a papa tão asquerosa e m ofada que, em bora estivesse aos poucos m orrendo de fom e, não conseguia com er m ais do que um bocado da coisa.
Em alguns dias, eu m e oferecia para aj udar a trazer dos barracões de cozinha os pesados caldeirões de sopa, enorm es barris de m adeira, m aiores do que latas de lixo. Eram necessárias quatro de nós para carregá-los de volta. Às vezes, tínham os a sorte de encontrá-los cheios de leite. Por um m inuto ou dois, nós podíam os colocar os barris no chão, longe da vista dos barracões, beber o líquido nutritivo e agradecer a Deus por isso. Tínham os de ser m uito cuidadosas para não deixar nenhum sinal do roubo nas faces ou roupas, caso contrário enfrentaríam os um a cruel surra das kappos.
Devido a percevej os e condições im undas, surgiu um grande furúnculo em m inha nuca. Estava dolorosam ente crescendo num a bola que precisava ser lancetada. Havia um a kappo particularm ente cruel que sem pre m e batia na Appel porque era im possível para m im ficar im óvel tanto tem po. Dessa vez, quando m e bateu, sua m ão acertou em cheio o furúnculo. Foi o que bastou! O furúnculo explodiu e o pus j orrou para todo o seu rosto e sua m ão. Senti um a im ensa satisfação ao ver sua cara de noj o enquanto se lim pava.
Aprendem os m uito cedo que era essencial ter um utensílio próprio para a com ida, de preferência um a caneca ou tigela, para a sopa aguada, e nas prim eiras sem anas Mutti e eu passam os sem pão para trocá-lo por um a para cada um a de nós. Tam bém percebem os que essas enferruj adas canecas velhas eram itens preciosos que, caso você se descuidasse, acabavam roubados. Geralm ente, eu a am arrava na cintura com um trapo ou pedaço de cordão, m as m esm o assim houve vezes em que perdi a caneca e tive de passar fom e de novo para conseguir outra. Os banhos sem anais significavam que todas as nossas roupas eram rem ovidas para despiolhação. Nada pertencia a nós pessoalm ente e, se possuíam os algo para deixar a vida um pouco m ais civilizada — com o um a caneca, um alfinete, um pedaço de sabão —, era com um que isso se perdesse com nossas roupas na porta dos chuveiros. Nós com eçam os a desenvolver m étodos para m anter esses obj etos.
As kappos tinham olhos atentos e puniam quem pegassem com algo de valor. Ao passar diante delas a cam inho dos chuveiros com as dem ais m ulheres nuas, aperfeiçoei a técnica de segurar a caneca na m inha frente e, logo depois, nas costas.
Era um j ogo terrível devido à chance de ser descoberta e sofrer os espancam entos que podiam se seguir. Ainda assim , nossas pequenas posses significavam tanto para nós que nos determ inávam os a ludibriar as kappos se houvesse algum a chance. Escondíam os coisas nas axilas ou até m esm o de m aneiras m ais engenhosas. Um a m ulher que outrora tivera seios grandes, então reduzidos a m agras pelancas, tentou esconder um a toalhinha em baixo deles. Bem quando estava entrando nos chuveiros, o olhar atento da kappo detectou um a pontinha de tecido que aparecia. Ela cam inhou até a contraventora e, com um a expressão pervertida na cara, pegou o m am ilo com o polegar e o indicador, levantou a pelanca e deixou cair a toalhinha no chão. Ficam os todas congeladas de pavor. Houve um silêncio absoluto, enquanto esperávam os pelos gritos de insulto, m as a kappo de repente viu o lado côm ico da situação e riu. Para nosso alívio, o incidente acabou aí.
Após o banho, j ogavam para nós um conj unto diferente de roupas despiolhadas. Se tínham os sorte, achávam os pequenos itens nos bolsos, os quais podíam os usar em trocas. Dá para im aginar trocar um alfinete enferruj ado para não deixar as calcinhas caírem por um pedaço de trapo para se enxugar? O m enor dos obj etos era m oeda preciosa.
Era um alívio sentir-se lim pa novam ente, m as a sensação durava pouco tem po. Éram os infestadas por piolhos. Essas pragas rastej avam por todo o corpo, m e m ordiam atrás das orelhas, entre as pernas, em qualquer parte da pele que estivesse úm ida e quente. Todas eram atorm entadas por eles. Apesar de os barracões serem lim pos, nós próprias éram os im undas, e nossa condição física encoraj ava a m ultiplicação dos piolhos. As m ordidas provocavam bolinhas de sangue, que explodiam quando as coçávam os. Era im possível não coçar — quase íam os à loucura. Um a vez por sem ana, após o banho, j ogavam em nós algum tipo de pó que provavelm ente m atava os piolhos, m as não os ovos, de m odo que alguns dias depois estávam os de novo infestadas.
À noite, os percevej os retom avam os ataques. Por volta de m eados de outubro, quando eu havia conseguido m ais um a vez não m e separar da m inha caneca durante o banho, cuidadosam ente, com o sem pre, coloquei-a à vista e ao alcance da m ão na beirada do treliche, antes de cair num sono exausto. A noite foi úm ida e desconfortável. Quando acordei na m anhã seguinte e estendi a m ão para garantir que a caneca continuava ali, vi que estava coberta, por dentro e por fora, com um a cam ada viva de percevej os de cerca de 2 centím etros de espessura. Quando peguei a caneca, m eus dedos os esm agaram e o sangue deles esguichou na m inha m ão. Estrem eci de noj o. Quase passei m al. O m esm o aconteceu de novo com outro incidente, algum as m anhãs depois.
Toda noite, os dois baldes que serviam de privada em cada extrem idade do barracão eram usados continuam ente. Quem tivesse o azar de chegar aos baldes e encontrá-los cheios era com pelida a levá-los até o barracão das privadas e esvaziá-los. Isso significava que era preciso andar dez blocos com baldes derram ando excrem entos. Essa tarefa m edonha, claro, era adiada por todo m undo até o últim o m om ento possível, quando os baldes estavam cheios até as bordas e, com frequência, era eu quem tinha de fazer esse transporte nauseante. Eu lutava pelo cam inho para evitar respingar nos m eus pés. Os baldes eram tão pesados que a pessoa tinha de ser m uito forte para carregá-los. As m ais fracas não conseguiam ir m uito longe e, às vezes, secretam ente esvaziavam o conteúdo do lado de fora, perto do bloco.
Nessa m anhã particular, um a alem ã das SS notou a suj eira do lado de fora. Ela entrou furiosa no barracão, na hora em que estávam os acordando.
— Verfluchte Mistbienen! Vocês não podem nem m esm o carregar sua m erda até o lugar certo? — esbravej ou conosco.
Então, pegou a m inha caneca e j ogou o conteúdo do balde m ais próxim o no m aior núm ero possível de prisioneiras. A im undície caiu em todo o m eu vestido e em m inhas pernas, e eu sabia que não haveria com o m e lim par antes do fim da sem ana. Ficam os fedendo até o próxim o banho.
Foi o m om ento em que senti o m aior desespero e degradação. Estrem eci por dentro, pensando em Pappy e todos os seus bons conselhos sobre m anter-se lim po. Eu era im potente contra o sadism o das kappos. Nada era capaz de m e fazer sentir m ais verdadeiram ente sozinha e atem orizada.
24 de outubro de 1944 — Aachen é capturada pelo 1º Exército dos EUA
Sentindo-m e totalm ente abandonada, fui perdendo a coragem e a esperança que haviam m e m antido viva. Sabia que perdera Mutti, e desesperada ansiava por reencontrar Pappy. Eu precisava de alguém para m e encoraj ar a viver; sem aj uda am orosa, não conseguia continuar lutando pela sobrevivência. Estava com pletam ente possuída pela autocom iseração. Era j ovem dem ais para cuidar sozinha de m im m esm a. Não havia ninguém com quem eu quisesse conversar ou trocar confidências. Todas ao redor pareciam m uito m ais velhas. Até m esm o Franzi, que tinha 25 anos, parecia velha dem ais para m im .
Antes desse m om ento, eu fora propelida por um intenso desej o de sobreviver, um espírito alim entado pelos laços íntim os com Mutti, m inha necessidade de viver por ela e por m im m esm a, e pelas lições de sobrevivência recebidas de Pappy. Dali em diante, com eçava a perceber que não tinha m ais a capacidade de m e agarrar ao passado. Mesm o que conseguisse sobreviver, não enxergava nenhum tipo de futuro para m im . Não via com o poderia lidar com um m undo sem a m inha fam ília.
E assim , sofrendo os horrores do presente e sem vislum brar nenhum a esperança no futuro, com ecei a m e resignar com a m orte.