A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

19 Auschwitz

19

AUSCHWITZ

 

Fevereiro de 1945

 

A m anhã estava lim pa e agradável quando partim os de Birkenau. Alguns dias antes, Mutti e eu vasculham os os arm azéns e encontram os um a m ala pequena, a qual enchem os com um a m uda de calcinhas, algum as m eias de lã e vestidos (saias eram inúteis, j á que não tínham os cintura). Tam bém pegam os um pão. Dissem os a Olga que estávam os determ inadas a partir o quanto antes. Um estranho Destino nos deixara dependentes um as das outras e, então, ela se j untou a nós prontam ente.

De início, a euforia nos carregou — estávam os livres e parecia quase inconcebível que, apenas alguns quilôm etros para trás, m ilhões da nossa gente tivessem sido sistem aticam ente assassinados.

Caíra um a nevasca durante a noite e, cam inhando com dificuldade sobre um a m anta m acia, nós três podíam os ver na estrada as ondulações na neve que cobria os corpos da últim a e funesta m archa forçada. Tudo agora estava branco e silencioso.

Nossas preciosas colchas estavam enroladas sob os braços. Mutti e eu nos revezam os com a m ala, m as, depois de algum tem po, ela com eçou a ficar m ais pesada a cada passo. Cada pegada era um a testem unha da nossa determ inação de chegarm os a Auschwitz. A respiração se transform ava em vapor com o frio, e cam inham os cansadas, ansiosas dem ais sobre o que nos aguardava no futuro para falar. Fui andando aos tropeções, com os olhos sem icerrados, desej ando reencontrar Pappy e Heinz e im aginando a cara de Pappy quando visse Mutti viva na sua frente, e não m orta com o im aginava. Ele não conseguiria acreditar que, entre tantas vítim as, nós duas havíam os sobrevivido e regressado. A expectativa do reencontro dava-nos força para prosseguir.

Passaram -se m ais de duas horas antes que as construções de tij olos verm elhos de Auschwitz surgissem no horizonte. Os russos continuavam por ali, ativam ente organizando provisões e tropas. Quando alcançam os o prim eiro grupo de soldados, Olga cam inhou até eles, virou-se para nós e gesticulou para continuarm os. Passam os por ela e j am ais a vim os de novo.

 

Conduzi Mutti ao prim eiro prédio que visitara antes. Os treliches continuavam ocupados por hom ens encolhidos e enfraquecidos, principalm ente j ovens que agora pareciam anciões; os crânios rapados, acinzentados, e m axilares proem inentes eram recobertos por pele sem carne em baixo. Todos não passavam de esqueletos vivos. Com eçam os a cam inhar lentam ente pelas fileiras procurando por Pappy ou Heinz. Olhos ansiosos nos encaravam e seguiam , procurando reconhecer seus próprios entes queridos. Não localizei o Sr. Frank novam ente, m as encontram os um hom em que havíam os conhecido em Am sterdã e visto em Westerbork. Algum traço em sua fisionom ia deteve Mutti ao lado da cam a.

— Sr. Hirsch? — ela perguntou, incerta.

Ele ficou im óvel, com os olhos voltados para nós, m as sem nenhum a expressão.

— Sr. Hirsch — Mutti repetiu —, você não m e reconhece... Fritzi Geiringer?

Muito devagar, sua expressão se alterou, o rosto esboçou um fraco sorriso e ele estendeu um a m ão débil para pegar a de Mutti.

— Estou tão feliz por você continuar vivo — disse Mutti.

— Fritzi? Você conseguiu! — ele sussurrou com voz rouca. — Que m aravilhoso! Mas não posso m e levantar para cum prim entá-la — se desculpou. — Minha perna está quebrada e am arrada a um a tábua.

Perguntam os por Pappy e Heinz. E, então, ele deu a notícia que tem íam os ouvir:

— Eles se foram . — Balançou a cabeça em reação à expressão desesperada de nossas faces. — Partiram num a das últim as m archas forçadas. Erich disse que quem ficasse certam ente seria m orto pelas SS em retirada e achou que ele e Heinz tinham de se esforçar para ir. Eu não tive escolha, não posso andar.

Foi um a notícia devastadora. Mal conseguim os olhar um a para a outra, estávam os com pletam ente abaladas. Mutti deu um tapinha na m ão dele e prom eteu retornar depois que providenciássem os um abrigo para a noite. Nossos corações estavam pesados quando saím os. De algum m odo, tínham os de continuar com a vida. Tentam os nos confortar com a esperança de que Pappy e Heinz estivessem em razoáveis condições físicas e assim sobrevivessem à m archa. Teríam os apenas de esperar um pouco m ais para nos reunirm os.

No andar superior do m esm o prédio havia quartos pequenos ocupados agora por russos e alguns prisioneiros com aparência m ais saudável. Encontram os um quarto vazio com duas cam as de m adeira, colchões de palha, um a m esinha e um a cadeira de m adeira. O m elhor de tudo é que havia um a porta que podíam os fechar e conseguir um pouco de privacidade. Fizem os do quarto nosso aposento e j ogam os os parcos pertences nas cam as antes de descer para investigar. Os espólios de guerra estavam por toda parte, dezenas de pessoas peram bulavam saqueando os arm azéns e desprezando m ercadorias que não queriam . Encontram os no térreo banheiros com água fria corrente, m as os vasos sanitários estavam entupidos. Pegam os um balde no corredor para usar no nosso quarto com o privada e tiram os alguns pratos e talheres de um a pilha do lado de fora. E então fiz a m elhor descoberta de todas: um a enorm e linguiça de fígado largada na estrada e pronta para ser pega. Ficam os com água na boca ao im aginar nosso prim eiro sanduíche de liverwurst em anos. Iríam os dividi-la com o Sr. Hirsch, e essa ideia ocupou totalm ente nossas m entes até voltarm os para o quarto. Quando abrim os a porta, nossos corações afundaram . A m ala e todos os nossos pertences haviam sum ido! Só ficaram as colchas.

Sentam os desconsoladas nas cam as, olhando para a linguiça e, com pão ou sem pão, trinquei os dentes nela. Mutti m ordeu um pouco tam bém , advertindo-m e novam ente para não com er m uito de um a só vez, m as eu era com o um anim al fam into e selvagem , e nada no m undo poderia m e deter. O im pulso de com er foi tão forte que só parei quando não restava m ais nada.

Fora um dia exaustivo e carregado em ocionalm ente. Quando a noite caiu, deitam os nas cam as separadas, debaixo das nossas colchas, m as o cansaço não era forte o bastante para eu superar a necessidade do calor de Mutti e, após alguns m inutos, fui para sua cam a m e aninhar ao seu lado.

Mais tarde, acordei com terríveis cólicas estom acais que m e fizeram correr para o balde. Tive de passar ali o resto da noite, pagando pela m inha gula!

Na m anhã seguinte, fom os conversar com os russos. Parecia haver um pequeno grupo perm anente de soldados que lidavam com os problem as do cam po de concentração abandonado. Alguns cavavam buracos para latrinas para os prisioneiros, outros reuniam pessoas com força para aj udar a descascar vastas m ontanhas de batatas que seriam j ogadas em pesados caldeirões pretos para fazer sopa de batata e repolho. Era o alim ento básico de todos, inclusive dos m ilitares. Grandes pedaços de pão de m ilho rústico foram distribuídos e então havia com ida suficiente para deter os sintom as da inanição. Estávam os dispostas a assum ir quaisquer tarefas em troca de com ida extra. Um oficial russo pediu a Mutti para lim par as j anelas do seu escritório, que estavam im undas com a suj eira do inverno. Não havia água, m as ele m ostrou com o lim par com bolas de j ornal. Depois, nos deu pão e queij o, e ficam os m uito agradecidas.

Três soldados russos j ovens e fortes apareceram num a m anhã, arm ados com serras e m úsculos, e com eçaram a cortar as cam as superiores dos treliches. A conversão do sistem a de treliches em algo próxim o a um a ala hospitalar perm itiu que nos distanciássem os da sensação de prisão. Ficam os confortadas em saber que alguém tinha consciência do nosso infortúnio, e foi um a m edida bastante im portante para nosso m oral. Mais tarde, vim os a m adeira ser j ogada nas fogueiras da cozinha de cam po e percebem os que fora cortada para a obtenção de com bustível.

Os passes em itidos pelos russos para Mutti e para m im em Auschwitz depois da

liberação do cam po.

Havia várias outras m ulheres holandesas no cam po e, durante a sem ana, Mutti e eu as conhecem os. Algum as tinham sido capturadas em setem bro e não estavam em condições físicas tão precárias quanto as das prisioneiras antigas. Um a delas, Rootj e, era cheia de vida e afável, e tinha aproxim adam ente a m esm a idade de Mutti. As SS haviam descoberto seu esconderij o e ela fora pega com o m arido e Judy, a filha de 16 anos. Judy fora transportada para outro cam po de trabalho, e ela invej ava Mutti por ter-m e j unto. Elas logo estabeleceram um a am izade. Rootj e estava à procura do m arido, m as ele tam bém partira em um a das últim as m archas. Ela tam bém falou sobre a fam ília de Otto Frank, que ficara no m esm o barracão. Rootj e nos contou que Margot e Anne haviam sido despachadas em outubro, e que Edith ficara m entalm ente perturbada, im aginando que ainda estavam com as duas. Edith escondia com ida para elas e para o m arido, Otto. Em j aneiro, pouco antes da libertação, ela m orreu nos braços de Rootj e, de exaustão, fom e e desespero. Fiquei triste pelo Sr. Frank e desej ei que Anne e Margot estivessem vivas.

Um a m oça holandesa de 16 anos, m agra, alta e tím ida, cham ada Kea, travou am izade com igo. Fiquei contente de ter alguém da m inha idade para conversar em holandês, e tentam os nos encontrar todos os dias para fazer com panhia um a à outra. Seus pais e avós haviam providenciado para que fosse escondida num a fazenda da Frísia, m as ela tam bém acabou sendo traída. Kea não tinha notícias da fam ília e estava totalm ente só.

Durante um a noite na terceira sem ana, ouvim os tiros perto do cam po. E, então, canhões da artilharia. O bom bardeio prosseguiu por toda a noite, e Mutti e eu nos abraçam os, com m edo, debaixo dos edredons, tentando bloquear o barulho.

Quando descem os, na m anhã seguinte, encontram os a rua cheia de presos e soldados agitados. Gradualm ente com preendem os que os russos haviam sofrido um sério ataque dos alem ães e perdido terreno. O inim igo m útuo m ais um a vez avançava em nossa direção. Ficam os aterrorizadas. Tendo passado por todo aquele sofrim ento e sobrevivido, sabíam os que, se conseguissem retornar, eles se vingariam am argam ente e m atariam todos a sangue-frio.

Por fim , vários oficiais russos apareceram e nos acalm aram . Em alem ão precário, inform aram que iriam nos recuar para trás das linhas, em Katowice, que era um a zona m ais segura. Tínham os de estar prontos em um a hora.

Guardam os nossos pertences num a m ochila que Mutti fizera com panos de chão, enrolam os as colchas e descem os para aj udar o Sr. Hirsch. Ele continuava deitado, com m uitas dores. Queríam os que viesse conosco, m as ainda não podia se m over. Havia vários outros hom ens bastante enfraquecidos. Odiam os a ideia de deixá-los para trás, sob risco de serem recapturados pelos alem ães. Se os russos conseguissem m anter a posição, sem dúvida eles seriam bem cuidados, m as caso contrário...

Cerca de 150 hom ens e m ulheres reuniram -se na praça principal. Form ávam os um grupo esfarrapado, a m aioria vestida com os uniform es listrados de prisioneiros — todos com as cabeças rapadas —, ansiosos por sair de Auschwitz.

Vários cam inhões entraram na praça. Soldados russos abriram as traseiras e aj udam os uns aos outros a subir. Rootj e e Kea sentaram conosco nos bancos, esperando voltar para a infam e ferrovia. Mais um a vez vim os vagões de gado esperando por carga hum ana, m as dessa vez os russos estavam cuidando de nós. Dessa vez, finalm ente, estávam os a cam inho da liberdade.