A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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HOLANDA
13 de junho de 1945
Na estação, funcionários da prefeitura anotaram nossos nom es e perguntaram para onde gostaríam os de ir. Não tínham os parentes na Holanda e, assim , acham os que deveríam os contatar am igos que pudessem nos abrigar pela noite, até nos orientarm os. Pensam os em Martin e Rosi Rosenbaum . Em bora ele fosse j udeu, por ela ser um a austríaca cristã era possível que ainda estivessem vivendo em Am sterdã. Recebem os dinheiro para um táxi até a casa deles.
Martin abriu a porta e nos reconheceu im ediatam ente.
— Fritzi Geiringer! — ele sorriu, abraçando Mutti e, depois, a m im .
Martin nos fez entrar e disse que naturalm ente poderíam os ficar. Então, nos deu a m ais extraordinária das notícias. Rosi acabara de dar à luz um m enino. Quem poderia im aginar? Isso m e pareceu o m aior de todos os m ilagres. Contra todas as chances, em m eio a todas as privações e agonias da guerra, um a nova vida fora gerada. O bebê tinha apenas três dias de idade e ainda estava no hospital com a m ãe.
Fom os visitá-la nessa noite. Rosi estava bastante orgulhosa do filho e tão surpresa com o nascim ento quanto nós, m as não se sentia m uito bem . Ela concordou com Martin que Mutti deveria ficar e aj udar a cuidar dela e do bebê quando am bos voltassem para casa.
Era um a época de austeridade. As árvores das ruas haviam sido cortadas para servirem com o com bustível, e m uitas portas de m adeira tam bém tinham sido arrancadas. Não havia fornecim ento de gás, de form a que não podíam os usar o fogão e tínham os de encontrar m adeira para o pequeno fogão a lenha. Havia m uito pouco o que com er. Decidim os procurar os Reitsm a, que tinham as chaves do arm azém secreto de com ida que m ontam os antes de irm os para a clandestinidade.
Eles ficaram bastante felizes em ver-nos m ais um a vez. Com o Martin e Rosi, não haviam sido deportados pelos alem ães e sobreviveram às dificuldades da guerra. Nosso estoque secreto de com ida os salvara em períodos de quase inanição, m as agora infelizm ente não restava m ais nada. Floris, o filho, perm anecera escondido durante a ocupação e agora estava m atriculado na Universidade de Am sterdã. Os dois pareciam velhos e frágeis, m as a Sra. Reitsm a estava anim ada porque acabara de ser com issionada pelo governo holandês para desenhar os selos postais com em orativos da libertação. Ela nos m ostrou as m atrizes em cobre que vinha fazendo e prom eteu m e dar lições de arte quando nos estabelecêssem os de novo.
No dia seguinte à volta de Rosi com o bebê para casa, ouvi um a batida na porta da frente e encontrei Otto Frank parado ali. O terno cinza estava bastante folgado no corpo alto e m agro, m as ele parecia tranquilo e digno.
— Tem os visita — eu disse, fazendo-o entrar.
Ao ver Mutti, ele estendeu a m ão para ser apresentado.
— Mas nós j á nos conhecem os — ela disse. — No cam inho para Chernivtsi.
Ele balançou a cabeça. Seus olhos castanhos estavam fundos e tristes.
— Não m e lem bro — afirm ou. — Peguei o seu endereço na lista de sobreviventes. Estou tentando rastrear o que aconteceu com Margot e Anne.
Ele estava desolado por ainda não as ter encontrado, m as sentou-se e conversou m uito tem po com Mutti, que ficou com a confiança fortalecida. Ela contou-lhe que estava ansiosa por Heinz e Pappy e que tentava recuperar o nosso apartam ento de volta. Outros inquilinos ocupavam o núm ero 46 da Merwedeplein, m as o local continuava alugado no nom e de um am igo não j udeu. Otto disse que se hospedara com Miep Gies e seu m arido — que haviam aj udado a esconder os Frank durante a guerra —, perto da Merwedeplein, e que teria m uito prazer em aj udar de qualquer form a caso precisássem os dele.
Continuam os com os Rosenbaum até o com eço de j ulho, quando recuperam os a posse do nosso apartam ento. Foi um a sensação m uito estranha subir as escadas. Dentro era com o se os últim os anos não tivessem acontecido. Foi com o voltar no tem po — tudo parecia exatam ente o m esm o. Entrei e saí dos quartos. Nossa m obília estava no m esm o lugar, as cortinas e a cor das paredes eram as m esm as, e, quando procurei o risco na parede do m eu quarto feito por Pappy para m arcar a m inha altura, vi que continuava ali.
Fui até a j anela e olhei para a praça em baixo. Algum as crianças brincavam num canto do asfalto. Mais tarde, ouvi um táxi parar na rua e corri para a porta pensando É Pappy voltando para casa com Heinz. Mas era só um vizinho do corredor.
Otto Frank nos visitava de tem pos em tem pos. Mutti estava preocupada sobre o que fazer com igo. Eu deveria voltar para a escola ou aprender um a profissão? Ele aconselhou-a fortem ente a m e m andar de volta para a escola para term inar os estudos.
Os pesadelos com eçaram no fim de j ulho. Eu acordava gritando. Um a vez, acordei e vi Mutti de robe ao lado da cam a, segurando um copo de água para m im .
— Não consigo dorm ir, Mutti — falei.
— Eu sei. — Ela entregou-m e o copo e sentou na m inha cam a.
— Quando Pappy vai voltar?
— Am anhã, talvez — ela disse, passando a m ão na m inha cabeça e beij ando m inha testa. Então, cobriu-m e com a m inha preciosa colcha e esperou na cam a de Heinz até eu cair no sono.