A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

Postscriptum de Fritzi Frank

 

 

Na prim eira vez que Otto Frank fez um a visita a Eva e a m im em Am sterdã após nosso retorno de Auschwitz, pude ver que estava devastado com a perda da m ulher, Edith. Na viagem de Auschwitz a Odessa, ele soube que Edith m orrera de exaustão e inanição em j aneiro, pouco antes da chegada dos russos. Mas ainda tinha a esperança, com o nós por Erich e Heinz, de que as duas filhas retornassem .

Quando veio da próxim a vez, várias sem anas depois, j á sabíam os que os nossos entes queridos tinham perecido no cam po de concentração austríaco de Mauthausen, e ele recebera a notícia de que Margot e Anne haviam m orrido de febre tifoide em Bergen-Belsen. Estávam os todos profundam ente deprim idos. Eu não sabia de que m aneira poderia prosseguir. Erich sem pre organizara tudo para a fam ília, e agora, sem ele, m e sentia perdida.

Num a das suas visitas, Otto contou que Anne havia escrito um diário durante a clandestinidade. Todos sabiam disso, em bora Anne j am ais perm itisse que alguém o lesse. Ela tam bém escrevera histórias infantis e ocasionalm ente as lia para a fam ília e os am igos. Miep Gies encontrara os seus papéis no esconderij o dos Frank, levara-os para o escritório e os guardara ali. Miep não os leu, e pretendia devolvê-los para Anne, caso ela retornasse.

Após a notícia de que ela m orrera, Miep deu o m anuscrito a Otto. Ele precisou esperar m uito tem po para ler, j á que achou ser um a experiência em ocional m uito poderosa. Quando term inou a leitura, contou-nos que tinha descoberto não conhecer verdadeiram ente a filha. Em bora, lógico, se desse bem com ela, j am ais soubera coisa algum a sobre seus pensam entos m ais íntim os, seus elevados ideais, sua crença em Deus e suas ideias progressistas, que o surpreenderam im ensam ente.

Ele leu partes do m anuscrito para Eva e para m im , e Eva disse-lhe que sem pre tivera a sensação de que Anne era m uito m ais m adura do que ela própria e que talvez esse fosse o m otivo para as duas nunca terem ficado m uito íntim as.

— Se eu pudesse encontrá-la hoj e — Eva disse —, nós nos entenderíam os m uito m elhor, j á que m udei bastante após todas as m inhas experiências.

Otto Frank aj udou a construir a com unidade j udaica liberal de Am sterdã, tornando-se um dos seus diretores. Ele com parecia às então um tanto prim itivas instalações da sinagoga, quando esta foi criada, e com frequência eu o acom panhava aos serviços das noites de sexta-feira. Com o todos havíam os perdido m uitos am igos j udeus, gostávam os de prom over encontros com j udeus e conversar com eles sobre suas vidas durante e após a ocupação.

Otto tam bém trabalhou com em penho no seu negócio, que precisou ser reconstruído. Estava determ inado a dar àqueles bons am igos que arriscaram suas vidas para aj udá-lo a esconder a fam ília a recom pensa de um a existência segura novam ente — e nisso ele teve êxito.

Quando O diário de Anne foi publicado na Holanda, tornou-se um trem endo sucesso, e logo vieram inúm eras propostas de outros países. Otto m anteve-m e inform ada sobre todos esses eventos e lem bro que um a vez, quando fui à Inglaterra visitar m eus pais e m inha irm ã, ele foi j unto para conversar com um editor de Londres. Fom os de trem e barco e, no cam inho, ele m e deu m ais partes do m aterial para ler.

Com a passagem do tem po, tornei-m e sua confidente e, de m eu lado, apresentei-lhe m eus problem as. Contei sobre Heinz e com o ele fora um m enino tão talentoso. No Liceu, e depois na Escola Judaica, m eu filho m ostrou-se um aluno brilhante. Se lhe punham um instrum ento m usical nas m ãos, podia sim plesm ente pegá-lo e com eçar a tocar. No esconderij o, pintou quadros e escreveu poesias — e tam bém aprendeu sozinho italiano para poder ler livros italianos.

Tendo passado pelas m esm as experiências, Otto e eu descobrim os que possuíam os m uito em com um , e ele tam bém se interessou por Eva. Quando foi escolhido com o representante da Holanda na conferência da União Mundial do Judaísm o Progressista em Londres, levou j unto Eva para representar a Juventude Judaica Holandesa.

Eu frequentem ente o convidava para m e fazer com panhia em palestras e concertos. Durante o últim o ano de Eva no Liceu, decidim os que ela deveria escolher a fotografia com o profissão. Eva conseguiu um a vaga com o aprendiz num estúdio fotográfico, ao qual com pareceria várias tardes por sem ana. Mas, no geral, Eva não era feliz na Holanda, que tinha m uitas m em órias tristes para ela. Assim , decidiu que queria ir para a Inglaterra aperfeiçoar seu talento na fotografia.

Agora que estava sozinha, e com o Otto e eu ficam os cada vez m ais atraídos um pelo outro, decidim os casar e m udar para a Suíça, onde a fam ília dele vivia. Nosso casam ento aconteceu em novem bro de 1953, e a união, que durou até a m orte de Otto, foi m uito feliz para nós dois.

Eu o aj udava com seu trabalho, respondendo todas as cartas que recebia após o Diário de Anne ser publicado em m uitos países. Juntos, íam os visitar Escolas Anne Frank e editores, e recebíam os m uitos j ovens que haviam lido o Diário e desej avam conhecer o pai de Anne. Ao longo dos anos, Eva e Zvi tiveram três filhas adoráveis, as quais Otto adotou com o netas. Elas tam bém o am avam m uito.

Assim , pela tragédia em nossas vidas, j untos nós encontram os um a nova felicidade.