A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

PARTE II Auschwitz-Birkenau

PARTE II

 

Auschwitz-Birkenau

6

DEPORTAÇÃO

 

Maio de 1944

 

Logo ao am anhecer no dom ingo, enquanto ainda estávam os no dorm itório, um a guarda da prisão apareceu e leu em voz alta um a lista com nom es para deportação im ediata.

— ... Fritzi Geiringer, Eva Geiringer...

Nossos corações quase pararam quando fom os cham adas. Franzi tam bém estava incluída.

Nervosas e abaladas, fizem os preparativos para a partida. As que perm aneceriam ficaram aliviadíssim as por poderem prolongar a estada na Holanda, m as fizeram o m áxim o possível para nos equipar com com ida extra, roupas, cobertores, m alas e até m esm o sapatos — qualquer coisa que pudesse aj udar a sobrevivência na viagem e depois. Exatam ente quatro dias após term os visitado Pappy e Heinz no esconderij o “seguro”, estávam os sendo deportadas. Suspeitam os que estávam os a cam inho de Auschwitz, m as na realidade não tínham os nenhum a ideia.

Centenas de nós m archaram para a linha de trem . Ao seguirm os para os vagões de gado, carregando nossas m alas e esprem idas um as contra as outras, Pappy e Heinz subitam ente apareceram perto de m im . Quando procurei ao redor por Franzi, ela havia desaparecido na m ultidão.

Ao nos aproxim arm os do trem , pudem os ver que a parte dianteira j á estava ocupada por ciganos — hom ens de aparência desalinhada e m ulheres carregando bebês e crianças, com as m ais velhas se agarrando às saias. Pappy, Mutti, Heinz e eu tam bém nos agarram os, para não nos separarm os. Nós nos puxam os e nos em purram os para dentro dos vagões com pouca dignidade e em barcam os as m alas e os cobertores. O vagão estava tão apertado que não dava para sentar, e nos am ontoam os num canto. Pappy m e abraçava com firm eza, e Mutti segurava Heinz. O único conforto era que continuávam os j untos.

Olhando para cim a, vi duas pequenas j anelas com barras perto do teto do vagão. Tam bém notei dois baldes de ferro no canto oposto. Era a única provisão adotada para as nossas necessidades.

Muitas pessoas do cam po de Westerbork vieram se despedir e transm itir coragem . Esperam os cerca de um a hora até que, a um grito de com ando, as portas foram fechadas e trancadas por fora.

Agora havia tão pouca luz no vagão que m al podíam os ver as faces uns dos outros. Era com o um a descida ao inferno. Os vagões trem eram e o trem de carga com eçou a se m over. À m edida que a viagem prosseguia, as pessoas se revezavam para ficar de pé, para que algum as pudessem ter um pouco m ais de espaço para se esticar no assoalho. Todos se esforçavam ao m áxim o para aj udar, m as não havia m uito o que fazer.

Durante o dia, as portas foram abertas um a vez, os baldes foram trocados e j ogaram alguns pães para dentro — era com o alim entar anim ais num a j aula. Várias pessoas ficaram violentam ente nauseadas, e isso agravou o fedor e o estresse dentro do vagão. Entre nós havia um a grávida, que ficou tom ada pelo pânico; se entrasse em trabalho de parto durante a viagem , quem a aj udaria com o bebê?

Cada vez que as portas se abriam , tentávam os falar com os guardas, im plorando por com paixão e aj uda, m as os pedidos eram ignorados pelos im passíveis hom ens das SS. Cachorros ferozes latiam para nós e fuzis eram apontados para dentro dos vagões. O im pulso de tentar fugir era m uito forte, m as sabíam os que praticam ente não existiam chances. Éram os civis desarm ados e indefesos, e sem dúvida levaríam os um tiro nas costas se tentássem os escapar.

Quando dizíam os qualquer coisa aos nossos captores, as únicas palavras cuspidas de volta, em alem ão, eram : “Halt das Maul, Sau Juden” (calem a boca, j udeus im undos).

Em um a parada, quando as portas foram abertas, vim os m etralhadoras postadas diante dos vagões. Guardas gritaram para que entregássem os todos os valores que ainda tivéssem os, incluindo alianças de casam ento e relógios. Eles am eaçaram m atar quem não obedecesse. Depois dessa parada, perdem os a noção do tem po.

Enquanto o trem se m ovia, dias e noites se fundiam . Houve dois, talvez três dias de viagem interm itente. Às vezes, podíam os sentir que o trem parava em trilhos laterais, onde ficava por horas. Sem m ovim ento, os vagões se tornavam insuportavelm ente quentes e abafados. O fedor dos baldes nos subj ugava, fazendo com que m uitos passassem extrem am ente m al.

Após cerca de três dias nessa situação, o trem parou, ouvim os gritos do lado de fora e as grades foram destravadas. Com andos agressivos foram lançados em alem ão. Muitos não conseguiam entender, m as eu nascera na Áustria e tinha 9 anos quando parti. O alem ão era a m inha língua m aterna.

Quando nossas portas se abriram , pudem os ver cam inhões esperando ao lado do trem . Os SS gritavam :

— Se houver pessoas doentes ou cansadas dem ais para um a longa cam inhada, elas podem subir agora no cam inhão para o cam po.

Com grande alívio, m uitos desceram do trem e andaram para um cam inhão, gritando para os parentes “a gente se vê lá!”.

O resto de nós ficou observando os cam inhões partirem . Muito m ais tarde, no cam po, soubem os que essas pessoas foram levadas direto para as câm aras de gás.

Guardas alem ães com cachorros e arm as deram ordens para sairm os. Havia poucos guardas, em com paração com os m uitos j udeus e ciganos, m as estávam os tão dom inados que j am ais sonham os em fazer qualquer coisa que não fosse obedecer às ordens. Não sei por quê. Talvez nós verdadeiram ente pensássem os que as condições iriam m elhorar. Parecia que nada podia ser pior.

Quando eu estava prestes a descer do trem , Mutti m e deu um casaco longo e um chapéu de feltro de adulto.

— Ponha isso — ela instruiu.

— Não preciso — protestei. Era um dia m uito quente e j á seria um grande alívio estar do lado de fora, ao ar livre.

— Ponha — ela insistiu. — Pode ser tudo o que você terá perm issão de levar. Eles podem tirar nossas m alas.

Nesse instante, vieram m ais ordens em alem ão:

— Saiam , ponham seus pertences ao lado do trem e façam filas de cinco.

Relutante, vesti o casaco. Estava certa de que parecia ridícula de chapéu. Era de feltro m arrom e para gente adulta. Jam ais vestiria um chapéu tão horrível por escolha própria.

— Você parece um a j ovem elegante agora — Pappy disse, tentando m e encoraj ar.

Heinz sorriu palidam ente para m im . Ele parecia petrificado, com o rosto branco de m edo ao descer do vagão, m as se virou para m e aj udar. Ao saltar para os seus braços, enlacei seu pescoço. De repente, estávam os nos apertando e abraçando com o se j am ais fôssem os nos ver de novo.

Dem orou cerca de um a hora até que todos descessem e se organizassem . As m ulheres receberam ordens para andar até a frente da plataform a, enquanto os hom ens foram separados e m archaram para os fundos.

Pappy agarrou m inhas m ãos, olhou profundam ente dentro dos m eus olhos e disse:

— Deus vai te proteger, Evertj e!

Mutti abraçou Heinz, correndo os dedos pelos seus cabelos e beij ando seu rosto. Então, m eus pais se abraçaram um a últim a vez antes de serem forçados a se afastar.

Nós avançam os em linhas de cinco por cerca de dez m inutos, até chegarm os a um grupo de hom ens das SS. Eles dividiam a fila em duas, esquerda e direita. Todas as idosas e as crianças até cerca de 15 anos tinham de ir para a direita, enquanto o resto das m ulheres era direcionado para a esquerda.

Às vezes, um a m ãe tinha de dar a criança para um a idosa que era m andada para a direita. Quando chegam os perto dos selecionadores, a j ovem na m inha frente com eçou a chorar e, então, a gritar descontroladam ente ao ser obrigada a pôr o filho de 8 ou 9 m eses nos braços de um a estranha, um a m ulher de idade, cuj os olhos estavam cheios de lágrim as.

— Eu cuidarei dele — ela disse. Seus braços eram quase frágeis dem ais para segurar o m enino, que se virava para se agarrar à m ãe.

— Quero ir com ele! — a m ãe gritava, m as foi puxada com força para trás.

O bebê com eçou a chorar pungentem ente.

— Eu não vou reconhecê-lo de novo — ela im plorou, tentando se acalm ar e protestar de m aneira razoável. — Ele está crescendo m uito rápido.

Os guardas continuaram im passíveis.

— Por favor... por favor, não tirem o m eu filho! — Ela com eçou a gritar de novo e tentou pegar o bebê de volta, enquanto o guarda em purrava a idosa para a frente e se colocava no m eio.

Fiquei assistindo im potente, m as então Mutti deu um passo à frente e colocou os braços ao redor dos om bros da m ulher que soluçava.

— Mesm o que você não reconheça o seu bebê — ela disse —, a senhora irá se lem brar de você e saberá a quem entregá-lo de volta.

Isso pareceu tranquilizá-la. Sua resistência desapareceu, ela se calou e cam inhou na fila. Pouco im portando o quanto as pessoas protestassem , chorassem ou tentassem ir para o outro lado com suas fam ílias, não adiantava. O processo era im placável. Desse m odo, as fam ílias eram sistem aticam ente rom pidas. Nessa altura, contudo, ainda não percebíam os o que “seleção” de fato significava.

Então, foi a m inha vez. O oficial das SS olhou-m e de cim a a baixo e indicou a esquerda. Mutti logo veio e ficou ao m eu lado na fila, segurando o m eu braço. Eu tinha apenas 15 anos. Bem m ais tarde, notei que era, de longe, a pessoa m ais j ovem na nossa fila de transporte. Muitas m ães haviam perdido filhas da m inha idade. Por m ais ridículos que tenham ficado em m im , aquele chapéu e o casaco longo salvaram a m inha vida. As orações de Pappy m ais um a vez foram atendidas.