A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

21 Chernivtsi

21

CHERNIVTSI

 

A j ornada para o leste sem Mutti prosseguiu com paradas e partidas durante vários outros dias, e não houve sinal dela em lugar nenhum .

Exceto pela m inha própria ansiedade pessoal, a atm osfera no trem estava se tornando relaxada e até m esm o j ovial. Alguns vagões transportavam prisioneiros de guerra italianos contentíssim os por escapar do conflito. Eram repletos de piadas, canções e charm e ensolarado. Em pouco tem po, todo m undo estava se integrando. Diversos hom ens e m ulheres, privados da com panhia do sexo oposto por tanto tem po, flertavam entre si, e não dem orou m uito para com eçarem a fazer am or nos vagões escuros e sacolej antes. Fiquei intrigada pelos ruídos apaixonados que acom panhavam o ritm o das rodas.

Tantos nam oros que ocorriam encoraj aram um hom em no vagão a pôr os olhos em m im . Ele tentou se esgueirar para dentro do m eu edredom , e eu não gostei nem um pouco da ideia. Mas entendi. Era um a figura tão solitária e patética, ansiando por am or m ais um a vez, que eu não quis hum ilhá-lo repelindo-o. Felizm ente para m im , eu havia com ido tantos ovos cozidos que m eu corpo produziu um terrível odor sulfuroso e, para m eu alívio, isso pareceu desanim á-lo.

Por fim , entram os na cidade de CHERNIVTSI, que fizera parte da Rom ênia. A cidade no passado abrigara um a grande população j udia, protegida pelo governo rom eno, e fom os precedidos por rum ores de nossa chegada. Quando saím os da estação, as ruas estavam tom adas por j udeus acenando, batendo palm as e aproxim ando-se para nos abraçar e oferecer pequenos presentes de alim entos ou roupas. Ficam os m uito em ocionados ao sentir tanto am or e apoio.

Fom os conduzidos a um a escola vazia, com colchões colocados num grande salão, que seria nosso abrigo por alguns dias. Estava com eçando a m e acostum ar com essa vida nôm ade — e até m esm o a gostar.

Após nos acom odarm os, um pequeno grupo com os m ais anim ados de nós saiu para explorar a cidade. Cam inham os j untos, em subgrupos de três ou quatro, olhando para vitrines e peram bulando por áreas residenciais.

Mais um a vez, a necessidade de usar o banheiro com eçou a ocupar nossas m entes, então Rootj e, Kea e eu decidim os entrar num prédio residencial, bater em algum a porta e explicar a situação. Por sorte, a porta foi aberta por um a m aternal senhora j udia que exibiu um largo sorriso e im ediatam ente nos acolheu. Seguindo a tradição, insistiu para que ficássem os para um chá. Ela nos colocou ao redor da m esa e com em os bolo caseiro com chá doce. Em bora houvesse um a escassez de com ida, a sua hospitalidade lem brou-nos de nossos lares e ficam os bastante em otivas. Contam os tudo o que havíam os passado e, quando fom os em bora, nós a abraçam os e beij am os com o se a conhecêssem os por toda a vida.

Ao sairm os, notam os um m ezuzá (o sinal de um lar j udaico) na porta. A partir daí, procuram os por casas com m ezuzás. Sem pre funcionava! Sem pre que batíam os na porta, éram os recebidas com tanto calor e am or que desfrutam os de boa com ida e confortos do lar por inúm eras vezes. Essa gente tam bém tinha sofrido adversidades, m as com partilhava tudo o que podia conosco, tratando-nos com o convidados de honra. Senti-m e m uito contente por ser j udia.

Todos com quem falávam os odiavam intensam ente os alem ães. Éram os os poucos que haviam sido resgatados de suas garras, e todos se alegravam por a “Solução Final” nazista não ter sido final. Experim entávam os um grande sentim ento de conquista por term os sobrevivido contra todas as adversidades.

 

Eu estava m e divertindo em Chernivtsi m esm o sem Mutti. Experim entava um novo tipo de independência e, apesar de m e preocupar com ela, pegava no sono sozinha sem m uitos problem as.

No m eio de um a noite, as luzes no salão de súbito se acenderam e um grupo de m ilitares russos agitados entrou, gritando para nos levantarm os e aj udarm os. Quando acordei, eu os vi esvaziando sacos de batatas em enorm es pilhas, as quais tinham de ser descascadas im ediatam ente. Os russos tinham pedido reforços, e m uitos soldados estavam prestes a chegar. Eles precisariam ser alim entados durante a noite, antes de partirem para o front.

— Chega de descascar batatas — resm ungaram algum as das m ulheres m ais velhas e m al-hum oradas, recusando-se de pronto a se levantar. — Já fizem os bastante trabalho escravo.

Mas que falta de educação, pensei, sentindo-m e envergonhada pela atitude.

Kea e eu de bom grado concordam os em aj udar na sopa. Nós, as m oças m ais anim adas, daríam os conta da tarefa. A essa altura, encarávam os tudo com o um a aventura, e estávam os contentes por sentir que contribuiríam os um pouco para o esforço de guerra.

Dava para sentir o bafo de vodca dos soldados que organizaram a descascação das batatas. Eles passavam baldes de água de m ão em m ão e, enquanto isso, cantavam canções tradicionais russas com vozes profundam ente m elodiosas. Fiquei encantada; viva e em polgada. Quando a m ontanha de batatas desapareceu, eles trouxeram balalaicas e com eçaram a dançar. Aj oelhavam -se, rodavam de m ãos dadas, davam pulos acrobáticos; era um a dança m aravilhosa, cheia de entusiasm o e vida e realizada com um a incrível habilidade atlética. Nunca vira nada parecido antes. Foi um a apresentação im pressionante, com os soldados dando cam balhotas, um após o outro, executando diferentes tipos de saltos e passos, girando e rodando — todos eles dançarinos exím ios. Num teatro, teriam eletrizado a plateia. Nós aplaudim os e os incentivam os, inteiram ente tom adas pelo talento e pela energia. Que hom ens eram esses russos!

Por fim , eles quiseram que nós tam bém participássem os. Tentam os, m as depois de um a ou duas investidas débeis, caíam os no chão rindo. Pensei que podia dançar com eles, parecia tão fácil quando faziam , m as não consegui dar nem m esm o um sim ples passo.

Com o dia nascendo, voltam os exaustas para os colchões, radiantes de entusiasm o com a exuberância desses hom ens inspirados. Eram genuínos, diretos, descom plicados e de corações abertos, e adorei estar com eles.

Mergulhei num sono profundo, m as voltei à sem iconsciência pelo som de vozes excitadas. Alguém m e sacudia. Abri as pesadas pálpebras e lá estava Mutti sorrindo para m im . Eu nunca realm ente duvidara de que iríam os nos reencontrar, m as por estranho que pareça a m inha reação foi de intensa raiva. Que tolice dela ter perdido toda a diversão, boa com ida e com panhia. Sentei-m e e com ecei a criticá-la, soltando toda a m inha frustração, com as lágrim as correndo pela face dela. Então, finalm ente, nos abraçam os e fom os dorm ir, reconciliadas.