A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
18 A estrada para Auschwitz
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A ESTRADA PARA AUSCHWITZ
Para nosso alívio, os russos passaram a ressurgir em ondas a cada dois ou três dias, acam pando por um a ou duas noites e, então, seguindo em frente. Metade deles estava a cavalo. Sem pre m ontavam um acam pam ento com um a unidade de cozinha, com cerca de vinte ou trinta hom ens por vez.
Nós quatro, m uito nervosas, discutim os o que fazer. Achávam os que tínham os de descobrir se ainda havia hom ens vivos no cam po principal de Auschwitz. Talvez fosse m ais seguro se conseguíssem os nos unir a eles.
Aparentem ente, os alem ães haviam recuado em definitivo, e, assim , definim os que Yvette e eu iríam os ao cam po principal de Auschwitz no dia seguinte para investigar o que restara ali.
Preparam o-nos contra o frio, eu com m eu edredom sobre a j aqueta, calça e botas, e Yvette com um a j aqueta acolchoada russa que ganhara de um soldado.
Saím os por volta das 11, quando o tem po m elhorou, cam inhando lado a lado pela estrada coberta de neve, seguindo as m arcas das rodas dos cam inhões. Não encontram os ninguém . Raj adas de vento j ogavam flocos de neve nos nossos rostos enquanto tropeçávam os sobre a neve firm e. O silêncio só era quebrado pelo ruído das botas no solo. Trocam os poucas palavras, econom izando a respiração e os esforços para vencer o frio intenso. Além disso, sentíam os m edo do que poderíam os encontrar.
Por fim , após m ais ou m enos duas horas, vim os prédios de dois andares erguendo-se na distância. Eles indicavam o com eço das cercanias de Auschwitz. Agora, havia vários cam inhões russos estacionados ao longo da estrada. Russos corpulentos, com roupas e chapéus de pele, circulavam ao redor, ocupados em consertar m otores ou lim par arm as. Ao nos aproxim arm os, os hom ens viraram -se para nos observar cam inhar em sua direção, m as ninguém disse nada ou nos deteve.
Quando chegam os perto do cam po principal de Auschwitz, havia um a atm osfera de atividade, organização e perm anência em relação à presença russa. Ironicam ente, em cim a do portão via-se um a m ensagem em ferro fundido: arbeit m acht frei (o trabalho liberta). A constatação de que eu estava livre era tão poderosa que m al podia assim ilá-la.
Os russos haviam m ontado um quartel-general e cozinhas de cam po, e os m ilitares pareciam ter total controle da situação. Era exatam ente o que tínham os desej ado; sinais de vida. Quase percorrem os correndo as últim as centenas de m etros. Estávam os m uito em polgadas e contentes em ver hom ens que podiam nos proteger.
À m edida que nos aproxim ávam os, outros hom ens com boinas e uniform es listrados de prisioneiros cam inhavam devagar em nossa direção. Estavam em aciados e tinham dificuldade para m anter o equilíbrio. Olhei seus rostos, desej ando reconhecer Pappy ou Heinz.
Fom os para os prim eiros barracões de tij olos que vim os e subim os a escada que dava num longo salão. Dentro, fileiras de treliches com cam as individuais ocupadas por prisioneiros. Alguns estavam deitados, outros sentavam -se nas cam as inferiores. Quando nos viram , m uitos levantaram -se e arrastaram -se até nós, ansiosos por fazer perguntas. Confirm am os que havíam os cam inhado desde Birkenau, e a notícia os deixou totalm ente estupefatos. Foi com o se um interruptor elétrico tivesse sido ligado. Todos com eçaram a falar ou gritar ao m esm o tem po. Quem éramos? Havia outras mulheres vivas? Conhecíamos tal e tal? Sobraram muitas mulheres vivas em Birkenau?
Vinham vozes de todos os lados em alem ão, francês, ídiche, polonês, húngaro e holandês. Ficam os atordoadas, sem saber o que dizer. Éram os as prim eiras m ulheres que eles viam desde a libertação, e estavam ansiosos para saber se suas am adas haviam sobrevivido. Não podíam os aj udá-los, porque percebem os que, m uito provavelm ente, elas não tinham conseguido.
Busquei por Pappy ou Heinz. Não estavam ali, m as vi um rosto que pareceu vagam ente fam iliar. Ele era de m eia-idade, quase sem face, apenas o crânio de um esqueleto do qual m e encaravam dois olhos castanhos abatidos e inquisitivos.
— Eu o conheço — disse em holandês, com certeza quase absoluta no fundo da m inha m ente de que j á o vira antes.
Ele se levantou devagar, com m uita dor, ainda alto e digno, e curvou-se levem ente para m im .
— Sou Otto Frank. — E esboçou um débil sorriso. — E você é Eva Geiringer, não? A am iguinha de Anne.
E então ele m e tom ou nos braços e m e estreitou.
— Anne está com você? Você a viu, ou Margot? — perguntou, ansioso, m as tive de dizer que não encontrara nenhum a das m inhas am igas da Merwedeplein no cam po.
Otto tam bém não tinha nenhum a inform ação sobre Pappy ou Heinz, m as disse que todos os prisioneiros em boas condições tinham sido obrigados a m archar. Sentei por um tem po em sua cam a e contei-lhe tudo o que pudesse lhe interessar. Ele disse achar um a boa ideia nós irm os para Auschwitz, onde os russos tinham um quartel-general perm anente e iriam cuidar dos prisioneiros. Prom eti voltar a vê-lo.
Os russos deram sopa quente para Yvette e para m im . Em seguida, eu disse que devíam os voltar para Mutti e Olga. Yvette estava tão excitada por estar m ais um a vez na com panhia de hom ens que não via m otivo em regressar, e se recusou a m e acom panhar. Assim , tive de enfrentar a cam inhada de retorno sozinha.
Retom ei a estrada para Birkenau por volta das quatro da tarde, quando o sol j á se punha. Fiquei nervosa com a ideia de andar desacom panhada, m as não havia o que fazer. Cam inhei por um a boa hora e, então, a escuridão caiu. Não havia lua, m as o céu estava lim po, com um a infinidade de estrelas.
De repente, balas traçadoras espocaram e passaram pela m inha cabeça, riscando a escuridão com um azul esverdeado. Atirei-m e na neve para evitar o fogo cruzado. Tudo ficou em silêncio de novo. Na distância, ouvi um cam inhão se aproxim ando, m as não sabia se era alem ão ou russo, por isso arrastei-m e e escondi-m e atrás de um arbusto até ele passar. Quando ia retom ar a cam inhada, vários outros cam inhões passaram , obrigando-m e a continuar escondida.
A essa altura, j á estava bastante escuro e m uito frio. Sabia que, se m e perdesse, não sobreviveria à noite. E se eu morrer congelada aqui e jamais vir Mutti de novo?, pensei. O que Mutti fará se eu não voltar hoje?
Assim , reunindo toda a m inha coragem e energia, saí dos arbustos e pus-m e a cam inhar. Fui assobiando, para fazer com panhia a m im m esm a. Depois de algum tem po, quando cansei de assobiar, com ecei a chupar a ponta do edredom , para m e reconfortar. Sabia que havia cadáveres ao longo do cam inho. Ao passar por eles, pude verdadeiram ente sentir seus espíritos m e aj udando a prosseguir e, de repente, não tinha m ais m edo. Marchei de form a constante até enxergar o leve contorno do nosso abrigo.
Apenas poucas sem anas antes, teria experim entado grande pavor em relação a um a casa que fora ocupada por oficiais das SS, m as, naquele m om ento, ao bater vigorosam ente na porta, eu voltava para Mutti.
Na m anhã seguinte, partim os para nos j untar aos hom ens em Auschwitz, e com eçam os m ais um a vez a ansiar pelo futuro. Muito poucas m ulheres conseguiram sair livres de Birkenau, m as dei-m e conta, com um im enso sentim ento de gratidão e hum ildade, de que eu era um a delas.