A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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REENCONTRO
Dei um salto, gritando:
— Pappy !
Ele olhou para m im com tanta surpresa e alegria que quisem os rir e chorar ao m esm o tem po. Correm os até a cerca que nos separava. Quase podíam os nos tocar, m as não ousam os, porque era m uito perigoso. Estávam os inebriados pela em polgação com a coincidência de nos verm os. Naquele vasto cam po, sabíam os que era um m ilagre nós dois estarm os no m esm o lugar na m esm a hora. Deus nos reunira por um breve instante, m as para sem pre eu passei a sentir que não fora abandonada. Não parava de m e lem brar daquele súbito encontro, do nada, com Pappy. Minha fé e determ inação de sobreviver foram reforçadas.
A visão do m eu pai vigoroso e atraente num uniform e listrado de prisioneiro e com um a boina cobrindo a cabeça rapada foi terrível. Sabia o quão m eticuloso era com a aparência. Ele sem pre m andara fazer os ternos na Savile Row, de Londres. Odiei essa hum ilhação e quis chorar por dentro, m as ele estava radiante e sussurrou do outro lado do aram e farpado:
— Evertj e, Liebling. Graças a Deus você está viva.
— Pappy... — Eu não conseguia falar m ais.
— Onde está Mutti? Está com você?
— Ela tam bém está aqui no “Canadá” — falei. — E Heinz? — perguntei, esperando que estivesse por perto.
— Ele está bem , trabalhando fora do cam po. Ar fresco e exercício estão lhe fazendo bem . Eu trabalho com o gerente do escritório num a m adeireira aqui perto. Sou respeitado pelos trabalhadores, e até m esm o os chefes das SS parecem im pressionados. Venho m e tornando indispensável.
Tinha certeza de que ele estaria bem .
— Querida, você consegue alguns cigarros? — ele perguntou, num tom m ais urgente.
— Mas você não fum a! — Fiquei surpresa por Pappy ter m udado os hábitos dentro da prisão.
— Não, claro que não, m as são m oeda bastante útil aqui. Posso trocá-los por favores. Talvez consiga dar um j eito de voltar aqui am anhã, na m esm a hora. Você pode estar aqui tam bém ?
Prom eti que tentaria, dessa vez com Mutti.
Foi m aravilhoso contar a ela à noite sobre o encontro e ver sua face quando soube que Pappy e Heinz continuavam vivos e bem . Choram os de alívio.
Conseguim os dar um j eito de estar perto da cerca quando Pappy veio no dia seguinte. Assisti ao reencontro dos m eus queridos pais, enquanto se olhavam através da cerca, e enxuguei com as costas das m ãos as lágrim as que corriam pelo m eu rosto.
Nos dias seguintes, Pappy voltou com regularidade, e Mutti e eu pudem os j ogar-lhe pacotes de cigarros por cim a do aram e farpado. Às vezes, éram os vistas pelas kappos. Certa ocasião, um a guarda chegou a ver e nos deu um alerta, m as sem m uita gravidade. Todo m undo contrabandeava cigarros.
No final da sem ana, para nossa enorm e decepção, Pappy não apareceu m ais entre os hom ens que passaram pelo outro lado da cerca eletrificada.
O trabalho no “Canadá” era suj o e quente, e assim , no fim do dia tínham os perm issão para um banho antes de voltarm os para o barracão. Os chuveiros ficavam num espaço aberto envolvido por um a cerca de m adeira. Quando tirávam os a roupa, m uitos hom ens das SS se divertiam espiando por cim a da divisória. Às vezes, uns ficavam estim ulando os outros a entrar no espaço para brincar com as m ulheres, j ogando água em nós. Algum as das prisioneiras m ais antigas e espertas alertaram -m e repetidam ente para ter m uito cuidado para não ser pega por um alem ão e em purrada num canto para ser estuprada. Eu tinha m ais m edo disso do que de qualquer outra coisa, e então tentava m e esconder. Durante algum tem po, consegui m e desviar da vista deles m e m antendo atrás de prisioneiras m aiores do que eu.
Mas um soldado j ovem não parava de m e olhar. Ele com eçou a m e seguir, m e assediando pelo cam po. Para onde eu ia, notava que ele m e observava — no com plexo, nos chuveiros, em toda parte. Tentava circular em grupos para m e proteger, m as sabia que ele estava se tornando um a am eaça.
Num a tarde, um a kappo m e cham ou para levar um a m ensagem de um galpão para outro. Quando saí, fiquei aterrorizada ao ver o soldado atrás de m im . Ele tinha um fuzil pendurado no om bro e seus passos soavam deliberados e determ inados. Fiquei petrificada. Não sabia o que fazer. Ele facilm ente m e dom inaria e, se eu resistisse, poderia m e m atar.
“Por favor, Deus, aj ude-m e!”, rezei com fervor, m eio correndo, m eio andando para m e m anter afastada dele, até que vi um a enorm e pilha de roupas com cerca de 10 m etros de altura que haviam sido j ogadas ali para triagem . Várias m ulheres se achavam agrupadas ao redor, tagarelando e gesticulando, e aí eu rapidam ente fui por trás delas e m e afundei dentro da m ontanha de roupas. Tinha certeza de que ninguém m e vira e rezei para que, quando eu saísse, o soldado não estivesse m ais ali.
Eu podia ouvir as m ulheres conversando entre si, enquanto gradualm ente reduziam o tam anho do m eu esconderij o, m as não ousei deixá-las m e ver, j á que poderiam m e entregar. Fiquei escondida por um a eternidade — pelo m enos m eia hora. Quando as m ulheres se afastaram , tudo com eçou a ficar em silêncio. Pensei que, se ficasse ali por m uito m ais tem po, apanharia da kappo, então, devagar e com cautela, tirei m inha cabeça rapada de baixo dos casacos e vestidos e olhei ao redor.
Para m eu grande alívio, o soldado desistira e fora em bora. A sorte ainda estava com igo. Ri, pensando em com o devia ter sido engraçada a cena da m inha cabeça pelada aos pouco em ergindo da m ontanha de roupas.
Nossa vida “boa” durou m uito pouco tem po, apenas algum as sem anas, durante j unho e parte de j ulho. Inevitavelm ente, nossa sorte com eçava a acabar.
Em j unho, m ilhares de húngaras chegaram , fazendo com que prisioneiras e trabalhadoras do “Canadá” im prim issem grande velocidade à triagem de suas posses para os nazistas. Eu continuava procurando Pappy todos os dias, m as ele não vinha.
No final de j ulho, houve um a dim inuição das entradas em Auschwitz e fom os dispensadas.
20 de agosto de 1944 — Os russos capturam a Romênia
Não havia nenhum outro trabalho do tipo para nós e, assim , Mutti e eu fom os transferidas para o Aussen Komando.
Fom os colocadas com um grupo de m ulheres que tinham de carregar enorm es blocos de pedra de um lado do cam po para o outro. Então, para preencher o tem po, devíam os fragm entar as pedras com m artelos pesados, transform ando-as em pedaços pequenos. Esse trabalho interessante era supervisionado pelos alem ães m ais brutais. Eram valentões cruéis. Se ousássem os descansar um pouco ou se não batêssem os com força nas pedras, eles nos xingavam , am eaçavam com a coronha da arm a e, por fim , batiam . Sofrem os durante várias sem anas nesse trabalho duro, e Mutti acabou em agrecendo bastante, em parte devido à falta de com ida, m as tam bém por exaustão e preocupação.
Às vezes, à noite, tínham os o raro alívio de um a folga de vinte m inutos entre o trabalho e a Appel. Foi aí que Mutti teve um a ideia para aum entar nossa dieta.
— Vam os atrás do barracão da cozinha ver o que podem os encontrar na pilha de lixo — ela disse.
Asseguram o-nos de que ninguém percebesse o que íam os fazer, cam inhando despreocupadas pelos blocos até chegarm os à fedorenta pilha de dej etos atrás da cozinha. Mutti ficou vigiando enquanto eu pegava a folhagem descartada de um a cenoura.
— Isso deve ser bom para com er — falei, j á m astigando.
— Eu tentaria essa parte. —Mutti olhava para folhas e caules m urchos. — Diria que é salsa, rica em vitam inas.
Vasculhei ao redor e descobri m etade de um a abóbora em bolorada ainda com um pouco de polpa dentro.
— Podem os fingir que é um m elão — falei.
Colocam os pedacinhos de cascas descartadas e as folhagens de cenoura em nossas canecas e levam os para o barracão. Dissem os que era m elão e salsa e trocam os por pão. Todas ansiavam por vitam inas extras. Sabíam os ser essencial tentar m anter as forças. Estava se tornando um a questão de vida ou m orte para todas nós. Queríam os evitar as pernas e barrigas inchadas que a falta de vitam inas produzia nas prisioneiras antigas.
Revezando-nos na vigilância, tentávam os vasculhar as latas de lixo em busca de folhagens de beterraba, cascas de cebola, folhas de repolho — qualquer coisa que pudéssem os com er com pão, com o um a pequena iguaria extra. Mutti m e m andava lavar os pedaços de vegetais descartados na im itação de café para evitar infecções.
Ao cam inharm os, m antínham os a atenção no chão em busca de qualquer coisa útil. Um a noite, quando vagávam os m iseravelm ente pelo com plexo, Mutti descobriu alguns baldes cheios de itens descartados, com o lenços, luvas e até m esm o cigarros. Eram pequenos pertences pessoais que os recém -chegados haviam guardado nos bolsos até serem forçados a j ogá-los fora. Para nós, eram um a preciosidade. Pegam os o que conseguim os. Os lenços estavam suj os, é claro, m as os lavam os da m elhor m aneira possível em baixo do chuveiro, dobrando-os e guardando-os sob o colchão. Então, andam os pelos blocos oferecendo, “quem quer trocar pão por lenços ou cigarros?”, e conseguim os m ais ofertas do que tínham os para dar.
Foi um a m aneira incom um de com eçar um pequeno negócio, m as funcionou. Às vezes, éram os descobertas e punidas — nossa ração de pão foi confiscada —, m as passam os a ser procuradas por m ulheres que tinham algo para trocar. À noite, todas nós conversávam os incessantem ente a respeito de com ida. A essa altura, j á estávam os m uito m agras e letárgicas. Notávam os em todas nós as m udanças físicas. Era curioso, m as praticam ente desde a prim eira sem ana, ninguém ficou m enstruada. Afligia-nos im aginar o que aconteceria se tivéssem os um a m enstruação, ainda m ais porque não contávam os com nada para nos m anterm os lim pas, m as isso nunca ocorreu. Alguém disse que havia brom eto na sopa, o que im pede o ciclo, m as não sabíam os se era verdade. Eu achava que podia ser o caso, porque frequentem ente tinha um a estranha sensação de flutuação após tom ar a sopa.
25 de agosto de 1944 — Paris é liberada
A cada poucas sem anas, as kappos praticam ente rapavam nossos cabelos com enorm es tesouras cegas. Era doloroso e hum ilhante. A cabeça de Mutti ficava com um a aparência nodulosa m uito estranha após ser rapada. Ela sem pre ficava agradecida quando o cabelo crescia uns poucos centím etros e com eçava a esconder o crânio novam ente. Dizia que se sentia m ais hum ana. As kappos insistiam que os cortes regulares eram para controlar piolhos. Na verdade, era um deliberado processo desum anizador que nos deixava com a aparência e a sensação de serm os crim inosas. Odiávam os ter de nos subm eter a isso.
3 de setembro de 1944 — Bruxelas é liberada por forças britânicas 2 de outubro de 1944 — O 1º Exército dos EUA rompe a Linha Siegfried, ao norte de Aachen No com eço de outubro, durante as sessões de chuveiro sem anais, notam os um a diferença na atm osfera. Algo terrível estava prestes a acontecer. As kappos gritavam m ais do que o norm al conosco. O m edo pairava no ar.
Com o sem pre, deixam os as roupas do lado de fora antes do banho. Ficam os m uito apreensivas ao entrar na sala de banho e ouvir as portas se fecharem atrás de nós. Prendem os a respiração. Quando a água fria caiu sobre nossas cabeças, rezam os aliviadas.
Mas, para nossa consternação, quando as portas se abriram do outro lado, para sairm os, havia vários hom ens e m ulheres das SS. Um oficial esguio, ereto e im aculadam ente uniform izado postava-se na frente deles, encarando-nos. De im ediato nós o reconhecem os com o o Dr. Mengele, que detinha o poder de vida ou m orte sobre nós. Ele era conhecido com o o Dr. Morte. Histórias sobre os seus chocantes experim entos circulavam entre os prisioneiros e traziam terror às suas vítim as. Percebem os, com grande pavor, que haveria um a “seleção”.
Cada um a de nós foi obrigada a participar de um desesperado desfile em que tínham os de girar lentam ente diante dele. Mengele nos escrutinava com um a espécie de precisão clínica para decidir o nosso destino. Todas nós tentam os exibir um a aparência ereta e forte, m as éram os um patético grupo de m ulheres desnutridas, extenuadas e em aciadas. A um com ando seu, as prim eiras foram m andadas para a direita, então um a m ulher pequena foi encam inhada para a esquerda. Ela ficou parada ali, trem endo de pavor. Logo depois, outras duas foram m andadas para a sua com panhia, onde perm aneceram coladas um as às outras. A seleção prosseguia.
Quando cam inhei para a frente, ele acenou para eu ir para a direita. Virei-m e para esperar por Mutti e fiquei horrorizada ao ver um a kappo em purrando-a bruscam ente para o lado das selecionadas.
Eu gritei. Mutti atravessou correndo a sala para um beij o de adeus, m as um a das m ulheres das SS a pegou e bateu ferozm ente em sua coluna com um a cinta de couro, m as não antes de ela chegar perto o suficiente para m e sussurrar um a instrução:
— Tente avisar a Minni!
Meu corpo com eçou a trem er de m aneira incontrolável e os m eus dentes batiam com violência enquanto via m inha m ãe, m inha querida Mutti, m archar nua com as outras do seu grupo. Foi o m om ento m ais negro da m inha vida. Pensei ser a últim a vez que a veria.