A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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DO LADO DE FORA DO PORTÃO
Minhas em oções, dorm entes por tanto tem po, agora com eçavam a aflorar outra vez. O m enor incidente m e fazia rir histericam ente ou chorar sem controle. Ainda vivíam os apreensivas em relação ao que nos aconteceria, m as não m ais com m edo da m orte im inente.
Agora, tínham os com ida adequada para nossas necessidades, consistindo principalm ente em pão preto e batatas, com vegetais com o cebolas, cenouras e canola. Acrescentávam os lentilhas para engrossar as sopas. Suplem entávam os a dieta com queij o e leite condensado e usávam os óleo, m anteiga e farinha para cozinhar, m as não tínham os carne fresca. Os cozidos fum egantes que os russos com partilharam conosco despertaram em nós a vontade de com er carne.
Quando um novo contingente chegava, nós os procurávam os, esperando um a aj uda que os russos sem pre nos deram . Mas, nessa m anhã em particular, não tivem os sorte. Eles só estavam de passagem , a cavalo, carregando provisões para a linha do front. Olga e Mutti retornaram para preparar a refeição, m as eu fiquei ali para ver a m ovim entação.
Um a égua parecia m ortalm ente cansada debaixo da pesada carga. Ela deitou no chão, resfolegante, e recusou-se a se erguer, apesar de todas as tentativas dos soldados. Fiquei observando os soldados fazerem um a roda, considerando a atitude a tom ar, até que um russo sacou a pistola m atou-a com um tiro na cabeça. Eles deixaram o anim al m orto na neve e partiram . Eu sabia que era só um cavalo, m as fiquei incom odada com a m orte.
Na m anhã seguinte, levei Olga até o local. A carcaça dura estava coberta por neve recém -caída.
— Isso significa um belo cozido à noite e um bom estoque de carne! — disse Olga, de m aneira prática, sem o m enor m elindre.
Ela foi para a cabana e voltou com um a grande e afiada faca de cozinha. Precisei ficar a um a certa distância. Mal consegui olhar quando Olga se inclinou sobre o cadáver e fez um corte na parte m acia da barriga, que parecia ter um a boa carne para cozidos.
De repente, ela se endireitou.
— Venha dar um a olhada, Eva! — Cham ou-m e e, vencendo m inha resistência, fui até lá ver o que tanto despertara sua atenção.
Em vez de carne com estível, ela encontrara um filhote m orto perfeitam ente form ado no útero da égua. Fiquei tão chocada que dei um a olhada e saí correndo. Encostei-m e na parede da casa, chorando com pulsivam ente por um longo tem po, porque, com o todo o resto em Birkenau, o filhote estava m orto sem nenhum bom m otivo. Eu sabia que era irracional. Já tinha visto m uita gente m orrer e ficara paralisada, im potente, da m esm a m aneira que com o potro. Mas, quando Mutti veio e m e achou, chorei em seu om bro por aquele pequeno ser m ais do que havia chorado por qualquer outra coisa.
Mais tarde, todavia, quando Olga serviu um a porção quente de carne de cavalo, não consegui resistir e com i com as dem ais.
Após esse incidente, pareceu haver um intervalo nos com bates. Nenhum outro russo surgiu e três ou quatro dias se passaram sem os sons de canhões.
Ainda continuávam os nos revezando para buscar água no furo do gelo do laguinho a cerca de 50 m etros da casa. Com o agora estávam os bem m ais relaxadas, íam os desacom panhadas e, nessa m anhã, era a vez de Mutti. Fiquei observando-a da j anela, despreocupada, enquanto cam inhava pela neve carregando um balde e um m achado. Ela passou a golpear o gelo e então a vi aj oelhar-se para pegar a água.
Nesse instante, para m eu horror, dois cam inhões cheios de hom ens da Wehrm acht alem ã pararam no portão do cam po. Em seguida, o prim eiro cam inhão seguiu pelo cam po direto para o barracão do hospital. O outro cam inhão foi para a direção de Mutti, que estava congelada pelo susto. Um soldado desceu apontando a arm a para ela e ordenou que subisse na traseira. A essa altura, nós três estávam os escondidas, agachadas, e ouvim os vozes gritando em alem ão para as prisioneiras doentes do hospital.
— Todas para fora! Fora, todas! Preparem -se para m archar!
Assisti por trás da cortina o terrível transporte vagarosam ente sair do cam po, com um cam inhão na frente e o outro atrás. Vários soldados acom panhavam os veículos a pé e com arm as apontadas para o grupo de m ulheres cam baleantes. Vi Mutti em seu vestido azul olhando para a j anela, seu rosto tom ado pelo terror. A fila de desventuradas passou devagar e ouvim os o barulho dos cam inhões em m archa lenta se distanciando até restar som ente o silêncio.
Não tínham os com o saber se os alem ães haviam deixado soldados para trás para incendiar as construções a fim de destruir as evidências dos cam pos, m as eu estava em pânico. Mal podia crer que Mutti ia ser m orta agora, após tudo o que passáram os. Fiquei agachada, perplexa, com o punho dentro da boca para tentar reprim ir gritos histéricos.
— Tente ser coraj osa, Eva — Olga disse, rastej ando em m inha direção. — Deus vai cuidar dela.
Ela tentou m e abraçar, m as eu a em purrei, em pânico.
— Fique quieta — Yvette sibilou. — Você vai nos entregar!
Ficam os escondidas no chão por um tem po que pareceu horas. Mantive-m e encolhida num canto em profundo desespero, sem saber o que fazer. Vez ou outra ouvíam os os ecos de tiros correndo sobre a neve, m as, exceto por isso, tudo estava quieto. Ao anoitecer, m ais um a vez caiu um a forte nevasca. Assum im os que, a essa altura, os soldados alem ães deviam estar longe.
De repente, um a forte batida na porta causou-nos um sobressalto. E, então, incrivelm ente, m iraculosam ente, ouvim os a voz de Mutti cham ando:
— Evertj e, sou eu, estou aqui!
Abri a porta e nos abraçam os. Lágrim as de alívio correram pela m inha face. Minha querida Mutti estava de volta em segurança.
Mais tarde, sentadas ao redor do fogão tom ando sopa quente, ela nos contou o que acontecera. Pouco depois de atravessar os portões do cam po, inúm eras m ulheres caíram , sem condições de prosseguir, e os alem ães ou as m ataram a tiros ou as deixaram para m orrer. Mutti viu que tinha de fingir-se de m orta. Com eçou a se arrastar m ais lentam ente pela neve e, então, desabou no chão, confiando em Deus que eles não se dariam ao trabalho de desperdiçar um a bala com ela. Ficou lá, im óvel, enquanto as outras presas passavam cam baleando. Ela pôde sentir o chão trem er quando as rodas do cam inhão passaram a m enos de um m etro. Perm aneceu assim até ter certeza de que era seguro se m over, e então fez o cam inho de volta à cabana, no escuro.
Nós dorm im os j untas na m esm a cam a essa noite, m ais um a vez abraçadas.
Na m anhã seguinte, depois de clarear, fom os j untas até a principal estrada fora do cam po para ver se alguém ainda estava viva. Só havia um silêncio sepulcral. Até onde a vista alcançava, a estrada se achava coberta de corpos congelados. Muitas estavam sobre poças de sangue que m anchavam a neve. Mais de cem m ulheres m orreram durante a noite.