A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

23 Odessa

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ODESSA

 

[Continuação da história de Eva]

 

13 de abril de 1945 — Viena é liberada pelos russos

 

A neve desaparecera, o sol brilhava com m ais calor e as árvores com eçavam a dar flores. Todo dia íam os ao m ercado aberto de alim entos, aonde fazendeiros levavam sua produção. A m aioria dos m oradores locais trocava m ercadorias, em vez de pagar com dinheiro — porcelana ou têxteis, até m esm o pequenas peças de m obília eram usadas para se obter com ida. Várias vezes os cam poneses m e ofereceram um a galinha pelas m inhas excelentes botas de couro, m as m e recusei a abandoná-las tão cedo. Mutti recebera algum dinheiro, e agora podíam os com prar com ida se precisássem os. Vim os e provam os algo que nunca tínham os com ido. O sabor parecia com crem e de leite azedo, era suave com o veludo e se cham ava smetena. Um a delícia.

Estávam os m uito bem em Chernivtsi, m as todos se preocupavam com os parentes. Tínham os a esperança de que a Cruz Verm elha fizesse contato o m ais rápido possível com inform ações sobre eles. Eu vira novam ente o pai de Anne, Otto Frank, durante a viagem de Katowice a Chernivtsi, de pé sozinho num a das paradas. Ele parecia cansado e triste. Mutti estava com igo e pediu para ser apresentada. Sabia que Otto acabara de ser inform ado por Rootj e que sua m ulher m orrera, e sentia m uita pena dele. Fom os até ele, e os dois trocaram palavras cordiais, m as não havia com o consolá-lo e Otto não tinha interesse em nada. Parecia querer ficar isolado e sozinho com o seu luto.

Mutti sentia-se fraca — ainda tinha febre —, então, em Chernivtsi fom os ao hospital local. Os m édicos e as enferm eiras foram prestativos e atenciosos, tirando raios X e a exam inando detalhadam ente. Ficam os aliviadas em saber que não havia nada de errado com os pulm ões, m as ela contraíra tifo, que, em condições norm ais, desapareceria com o tem po.

 

16 de abril de 1945 — Tropas dos EUA chegam a Nuremberg

 

Veio a notícia de que seríam os transferidas para o sul. Dessa vez, após quatro dias viaj ando de trem da m aneira usual, chegam os a Odessa, um a im portante cidade portuária e turística no m ar Negro. Para nós, era um m undo diferente. Quando o trem entrou na cidade, pudem os ver elegantes m ansões e vilas em terrenos verdej antes. O clim a era bem m ais am eno, e as árvores estavam cheias de folhas.

Só havia um cam inhão disponível para transportar os m ais fracos, e, assim , precisam os andar até o novo lar. Soldados organizaram as pessoas, m ais ou m enos cem , em grupos e disseram que o local ficava a cerca de 2 quilôm etros. Após um a hora, quando com eçam os a nos cansar, ouvim os palavras de incentivo para continuar:

— Só m ais m eia hora.

E, depois disso, eles disseram :

— Vam os, só m ais 15 m inutos.

Tivem os perm issão para descansar um pouco. Então, eles alegrem ente falaram :

— Só m ais um quilôm etro e estarem os lá!

Qual era o tam anho de um quilôm etro russo? Nós andam os até cobrirm os pelo m enos 10 quilôm etros, levando quatro horas!

Estávam os exaustos. Cada pedaço do corpo doía quando entram os num a propriedade que no passado havia sido a residência de verão de um príncipe russo. Para m im , era com o o paraíso na Terra. O terreno continha várias casas m enores e charm osas, usadas por parentes do czar. Agora, todas se achavam ocupadas por prisioneiros de guerra libertados, com cada vila abrigando um diferente contingente — australianos, italianos, franceses. Mas o nosso grupo j udeu teve o privilégio de ser instalado no principal palacete. Ainda assim , não havia m obília, e m ais um a vez voltam os aos colchões no chão; m as que chão de parquete elegante! Os tetos apresentavam pinturas de cenas gloriosas e toda a decoração era ornada e opulenta. Jam ais fui hospedada em tal esplendor, e fiquei bastante im pressionada!

Fom os alertados para não sairm os da propriedade e nem irm os à cidade, m as tivem os perm issão para cam inhar e explorar o terreno. Nos prim eiros dias, sentíam o-nos tão exaustos da viagem que obedecem os com alegria.

Ao relaxar diariam ente sob o sol, olhando para o azul profundo do m ar Negro, com eçam os a nos recuperar e a descartar o j ugo da m entalidade de prisão. Meu corpo ganhava peso e m inha energia deu um grande salto. Num m om ento do passado, Mutti m al conseguira se m anter viva. Agora, tam bém ela ficava m ais forte e m ais atraente.

 

Por fim , com eçam os a ser dom inadas pela curiosidade. Certa m anhã, Mutti disse:

— Sabe, nunca vam os ter outra chance de visitar Odessa.

— Então vam os explorá-la? — perguntei. Pareceu um a ótim a ideia na hora.

— Não ligo m ais tanto para regras. — Mutti sorriu. — Então vam os!

Cam inham os casualm ente pela propriedade até encontrarm os um ponto deserto perto de um a estrada externa. Assegurando-nos de que não havia ninguém por perto, atravessam os os arbustos e com eçam os a andar na direção da cidade.

O desj ej um de chá preto doce, pão de m ilho e geleia de am eixa ainda estava quente dentro de nós enquanto cam inhávam os lado a lado por vias no cam po, rum o à estrada principal. Logo, pudem os ouvir sons de tráfego e o barulho de um bonde elétrico indo na direção da cidade. No ponto, esperam os, nervosas, j unto aos m oradores locais. Tentam os identificar onde estávam os, m as todas as placas das ruas eram num a estranha escrita russa que acham os im possível de ler, quanto m ais entender! Contudo, notam os que a vila em frente tinha um portão de ferro ornado e várias árvores floridas, e resolvem os contar as paradas de cada lado do cam inho.

O bonde chegou e entram os. Lotado e sem bancos, o bonde ia balançando na direção de Odessa. Foi um a viagem com odores tão estranhos. Todas as pessoas pareciam ter com ido cebolas ou ervas exóticas no café da m anhã!

— O que farem os se vierem cobrar? — indaguei, ansiosa.

Mutti estava preparada para tudo.

— Apenas terem os de falar em holandês e dizer que estam os sem dinheiro — disse, seca. — O que eles podem fazer conosco? — Deu de om bros. — Decerto não vão nos fuzilar!

Quando entram os na cidade, o bonde ficou ainda m ais lotado, de m odo que nenhum cobrador conseguiria chegar perto de nós, e a viagem transcorreu sem problem as. Cuidadosam ente contam os cada parada. Concordam os em não passarm os de dez pontos e, então, descerm os.

Param os num a elegante praça arborizada que no passado fora o centro da burguesia rica. Muitos palacetes agora se encontravam vazios e abandonados, sobretudo por causa da guerra e tam bém devido ao fato de os com unistas não se im portarem em m anter as residências do velho regim e. Algum as casas estavam sendo usadas com o hospitais, com am bulâncias trazendo soldados feridos. Mas os antigos j ardins ainda abrigavam flores perfum adas e exuberantes plantas sem itropicais. As árvores estavam floridas — num glorioso contraste com a total aridez da paisagem de Auschwitz. A atm osfera de luxo e glória perm anecia, e ficam os im ensam ente em polgadas. Olham os ao redor, decidindo qual cam inho explorar.

— Não podem os nos separar nunca m ais — eu disse, lem brando a Mutti para ficar j unto de m im . — E tam bém não podem os nos perder. Talvez devêssem os ir deixando pelo cam inho pedrinhas para sinalizar, com o João e Maria.

Mas Mutti tinha bastante confiança em ser capaz de reconhecer o cam inho da volta.

Desfrutam os o passeio por várias horas, peram bulando por Odessa e adm irando as m aravilhosas igrej as com cúpulas douradas. Gostam os de tudo o que vim os. Apenas parar diante das vitrines e olhar, em bora não houvesse praticam ente nada em exposição, j á nos encheu de prazer.

Nossos estôm agos se encarregaram de indicar a hora de voltar à praça.

— Eu disse que podia encontrar o cam inho de volta com facilidade — falou Mutti.

— Mas qual bonde vam os pegar? — perguntei.

O problem a era que não tínham os a m enor ideia! Pensam os que saberíam os, m as quando chegou a hora de enfrentar os estranhos sinais russos ficam os m uito confusas.

— Este é o nosso bonde. — Eu apontei para o prim eiro am arelo que parou.

— Não, não é — insistiu Mutti.

Assim , não entram os.

— O próxim o vai ser o nosso — ela disse.

Mas, quando chegou, nenhum a de nós tinha certeza. Perdem os com pletam ente a confiança e com eçam os a ficar bastante irritadiças um a com a outra. Não éram os capazes de concordar sobre qual era o nosso.

Eu estava ficando nervosa. Se pegássem os o bonde errado, j am ais encontraríam os o cam inho de volta para a base, e nem im aginávam os o nom e do local ou em que parte da cidade ficava. Com o fora estúpido não saber as localizações!

A cada bonde que vinha e ia, nós, na calçada, discutíam os acaloradam ente.

— Terem os de confiar no acaso! — Mutti por fim disse, exasperada.

Em barcam os no bonde seguinte; algum as letras pareciam as m esm as do original. Quando a cobradora se aproxim ou, nós nos afundam os num banco de m adeira. Mutti estendeu as m ãos vazias e desenhou barras im aginárias no ar para indicar um a prisão. Então, nós duas erguem os as m angas e m ostram os as tatuagens nos braços. Ela reagiu falando anim adam ente e sorrindo, m as não entendem os nada do que dizia e, assim , usam os a única expressão em russo que sabíam os, “Ne pania maia” (não com preendo). Ela m eneou a cabeça e deixou-nos continuar a viagem .

Ficam os grudadas na j anela para não perder o ponto. Acabáram os de contar nove quando a cobradora voltou e indicou que a próxim a parada era a nossa. Descobrim os depois que dezenas de australianos haviam usado essa rota por várias sem anas, e todos sabiam da nossa presença!

Os russos tinham nos proibido de sair da propriedade, provavelm ente para o nosso próprio bem , m as tínham os certeza de que não nos negariam a entrada. Com grande casualidade, cam inham os confiantes na direção da sentinela no portão e fingim os não notá-lo ao tentar passar. Ele não ia deixar assim ! Estacou na nossa frente e com eçou a gritar palavras incom preensíveis em russo, balançando a cabeça de m aneira enfática e apontando para a cidade. Ficam os com m edo, porque ele obviam ente estava bastante irritado conosco.

Ele nos agarrou com firm eza pelos braços e nos levou até um grande canil ao lado da portaria. Então, fez com que nos aj oelhássem os, em purrou-nos para dentro e trancou a porta. Ficam os olhando para ele com nossas caras chocadas através das barras.

A sentinela se inclinou, deu um a olhada em nós e saiu para a portaria. Segundos depois, voltou rindo alto, com dois ossos grandes, e os passou para nós pelas barras. Ficam os bastante ofendidas, m as não havia nada que pudéssem os fazer. Estávam os m ais um a vez presas.

— A culpa é toda nossa — eu disse. Supus que era um a punição m erecida por quebrar as regras. — Mas estou cansada e com fom e — acrescentei, sentindo-m e m iserável.

— Bem , eu não gosto nem um pouco da ideia de passar a noite no canil! — disse Mutti.

Sentam os j untas, tentando nos consolar.

— Pelo m enos nossas vidas não estão em perigo, Mutti.

— Se esse for o nosso pior castigo, nossa pequena excursão terá valido a pena, não?

— Valeu bastante! — concordei.

Nossa ausência na vila estava deixando Rootj e, Kea e outros preocupados. Quando descobriram que estávam os no canil, vieram todos para ver, e m orreram de rir da nossa situação. Entendem os o lado engraçado da coisa e tudo acabou sendo um castigo razoavelm ente bem -hum orado!

— Mas estam os morrendo de fome! — eu disse.

Kea voltou para buscar um pouco da com ida que guardávam os nos quartos. Tínham os m uita cautela em relação à com ida, ninguém j am ais deixava os restos voltarem para a cozinha; continuávam os obcecados com a necessidade de esconder com ida com o esquilos, porque quem sabia que em ergências poderiam surgir no futuro? Tivem os de ficar no canil por um as duas horas, m as estávam os razoavelm ente confortáveis e com em os pão, queij o e ovos cozidos, pensando em com o éram os sortudas.

 

21 de abril de 1945 — O Exército Vermelho chega à periferia de Berlim

 

A partir daí, decidim os ser m eninas com portadas! Tam bém porque na m anhã seguinte nos reuniram para dar-nos roupas decentes. Tendas especiais foram m ontadas no gram ado, com chuveiros de cam panha, e fom os encoraj ados a tom ar um bom banho. Todos estavam de tão bom hum or que nos despim os sem que precisassem insistir m uito — para grande diversão dos hom ens, incluindo os soldados. Um a ou duas m ulheres m ais idosas ficaram constrangidas e acharam que não era de bom -tom , m as eu não liguei nem um pouco.

Após a chuveirada, recebem os calcinhas lim pas e fom os a outra tenda, onde havia um a longa m esa com um a pilha de sutiãs. Num a cadeira na entrada havia um soldado russo sentado. Parecia que ele estava no paraíso! A cada um a que passava, ele estendia as duas m ãos em concha e dava um a boa segurada para avaliar o tam anho. Quando ficava seguro sobre a m edida, gritava para o colega “pequeno” ou “m édio”! Então, esse cavalheiro vasculhava a pilha até encontrar um sutiã de tam anho adequado, o qual tinha grande prazer em nos vestir, prendendo o fecho nas costas e apalpando o caim ento na frente com as duas m ãos.

Hilariantes ataques de risadinhas e gargalhadas de todos os lados deixaram o am biente anim ado, e não m e senti envergonhada ou constrangida. Essa era a essência do caráter desses hom ens. Eram pessoas gentis, decentes, genuínas e naturais, e não fizeram com que nos sentíssem os indecentes. Estávam os todas estranham ente contentes por vestir sutiãs após tanto tem po. Sentim o-nos civilizadas outra vez.

Após essa diversão, recebem os blusas verde-oliva com foices e m artelos decorativos nos botões, e saias com binando. Era o uniform e das soldadas, e sentim os m uito orgulho em usá-lo. Caso quiséssem os abandonar nossos sapatos gastos, havia um a pilha para escolherm os e, de súbito, dei-m e conta de que se pudesse pegar um par poderia trocar as botas — talvez por um a galinha.

À tarde, estávam os todas bem -vestidas para dar um a volta no parque e nos exibir. Mutti queria falar inglês e, então, fom os até os australianos libertados. Eles form avam um grupo alegre e otim ista, ansiando por voltar para a Austrália e seus rebanhos de ovelhas. A Cruz Verm elha os m antinha abastecidos com coisas boas, com o chocolate e corned beef, os quais estavam sem pre prontos para dividir conosco.

Para m inha surpresa, um soldado alto e bonito, que parecia um astro do cinem a em seu uniform e australiano e boina, desenvolveu um a grande afeição por Mutti. Não parava de oferecer-lhe doces e outras iguarias. Disse que se cham ava Bill.

— Que tal você vir até o m eu aloj am ento esta noite? — convidou, languidam ente.

— Acho que não — disse Mutti, olhando para m im .

— Você não precisa vir com a filha — ele sugeriu.

Mas Mutti não queria sem elhantes aventuras e, quando o visitam os, eu fui de dam a de com panhia.

Houve vários encontros nos dias seguintes, e ele com eçou a ficar bastante sério. Sentava com igo e Mutti em frente à vila, planej ando levar-nos até sua fazenda de ovelhas e chegando a dizer que m andaria nos buscar na Holanda. Bill queria fincar raízes. Era fazendeiro, ainda havia escassez de m ulheres na Austrália e ele achava que era um a boa oportunidade para nós duas olharm os para o futuro e nos estabelecerm os lá em segurança.

— Case-se com igo, Fritzi — Bill pediu-lhe. — Eu vou cuidar de vocês duas.

Mutti, naturalm ente, ficou bastante envaidecida, m as tentou fazê-lo com preender que tinha um casam ento feliz.

— Você pode ser um a viúva, Fritzi — ele alertou —, e, então, eu virei buscá-la. Lem bre-se disso!

 

25 de abril de 1945, 16h40 — Patrulhas da 69ª Divisão de Infantaria dos EUA encontram-se com elementos avançados da 58ª Divisão da Guarda Russa em Torgau, no Elba — o sul e o norte da Alemanha são divididos em dois

 

26 de abril de 1945 — Bombas russas caem na Chancelaria de Berlim

 

Um a tarde, alguns gazeteiros vieram dizer que tinham ido nadar no m ar. Atorm entei Mutti para irm os tam bém , e, com o não havia m aiôs, ela costurou um a espécie de biquíni com dois panos de prato, e nos j untam os ao próxim o grupo extraoficial m isto. Cam inham os pela avenida até darm os de encontro com o m ar azul-celeste estendendo-se além das areias douradas. Era um dia m aravilhosam ente quente, e m al pude esperar para colocar o m eu biquíni-pano de prato e correr para a água. Os hom ens do nosso grupo tiraram toda a roupa e atiraram -se no m ar, com igo logo atrás.

Mutti nadou cachorrinho e eu nadei em volta sentindo-m e eufórica e livre. Ela ficou tão em ocionada de m e ver de novo desfrutando o prazer de viver que, no cam inho de volta, m e disse:

— É com o se a vida estivesse voltando ao m undo, e você ainda está aqui para aproveitá-la.

Mas então ficam os introspectivas, pensando em todos os outros que não sobreviveram , e a saudade de Heinz e Pappy ficou m aior do que nunca. Voltam os, dolorosam ente conscientes de que poderíam os nunca m ais tornar a vê-los.

 

28 de abril de 1945 — Mussolini e sua amante, Clara Petacci, são executados

 

30 de abril de 1945 — Hitler e Eva Braun suicidam-se