A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
24 Repatriação
24
REPATRIAÇÃO
7 de maio de 1945 A Alemanha rende-se incondicionalmente 8-9 de maio de 1945 Os canhões param de atirar na Europa
A guerra term inou. Os Aliados m archaram em Berlim . Houve grande j úbilo na propriedade. Todos agradeceram a Deus, depois aos Aliados, depois aos russos e depois, de novo, a Deus! Vodca foi distribuída livrem ente, e, então, todos nós ficam os bastante bêbados; houve m uita dança, m uita cantoria e gente fazendo am or, tam bém .
Os russos organizaram para nós a m elhor com em oração que conseguiram . No fim da sem ana, chegou um a trupe de cantores de ópera, bailarinos e m úsicos. Montaram um palco no salão de bailes da m ansão e fizeram um a m agnífica apresentação. Sentam os no chão, com pletam ente encantados. Foi o prim eiro espetáculo de balé que vi na vida e j am ais im aginei que algo tão puro e m aravilhoso pudesse existir. A plateia, a qual os artistas devem ter achado um a das m ais insólitas que j á encontraram , ergueu-se ao m esm o tem po e deu-lhes possivelm ente a m aior ovação que receberam em suas carreiras. Nossos vivas e aplausos duraram séculos, e lágrim as de alegria correram até m esm o pelas m ais duras faces. Foi um a noite que j am ais esquecerei!
11 de maio de 1945
Meu aniversário de 16 anos! O sol brilhou o dia inteiro. Não houve festa, m as eu fiquei m uito feliz. Kea fez para m im um delicado colar com conchas da praia, e Bill m e deu um a enorm e barra de chocolate. A paz era o m elhor presente que eu poderia ter, exceto por notícias de Pappy e Heinz.
Com o decorrer dos dias, os diferentes grupos foram ficando inquietos. A guerra acabara e todos queríam os voltar para casa. De fato, um a tarde, quando fom os visitar nosso am igo australiano, Bill, encontram os a casa totalm ente vazia. O contingente inteiro partira sem se despedir!
Por um lado, estávam os tristes, m as com preendem os que esforços estavam sendo feitos agora para nos devolver aos nossos países, e a perspectiva de reencontrar a fam ília nos excitava por dem ais.
Não tivem os de esperar m uito. Em 19 de m aio, o navio de transporte de tropas neozelandesas SS Monoway ancorou no porto de Odessa e iniciou os preparativos para nos em barcar para a repatriação.
Várias centenas de pessoas se reuniram em frente à vila para serem levadas ao porto. Form ávam os um grupo variado: hom ens e m ulheres que sobreviveram aos cam pos de concentração, prisioneiros de guerra franceses e italianos libertados, operários holandeses e belgas sequestrados pelos alem ães para serem usados com o m ão de obra em fábricas de m unições e m uitos trabalhadores voluntários de diversos países. Tínham os um a coisa em com um — todos queríam os ir para casa.
O grande casco cinza do SS Monoway estava à vista no porto. Para nós, sua presença serena e sólida parecia um bastião da dem ocracia e civilização ocidentais. Era nossa nau da liberdade.
Oficiais navais em uniform es brancos aguardavam no convés o nosso em barque. A única bagagem era a que levávam os nos braços, e Mutti e eu ainda nos agarrávam os com firm eza às nossas colchas. Em barcam os atrás de Rootj e e Kea e, ao pisarm os a bordo, fom os recebidas por um oficial que apertou nossas m ãos e cham ou-nos de “m adam es”. Kea e eu ficam os deliciadas!
As m ulheres foram alocadas em cabines dos conveses A e B; os hom ens teriam de dorm ir em redes em andares inferiores. Um com issário de bordo nos levou a um a cabine com quatro leitos no deque B, pediu para nos instalarm os confortavelm ente e disse que o alm oço seria servido no salão de refeições em um a hora.
Kea e eu im ediatam ente subim os nas cam as superiores para experim entá-las. Havia travesseiros de penas m acias, um luxuoso colchão coberto com lençóis brancos passados e cobertores quentes. Joguei o m eu precioso edredom de penas para Mutti guardá-lo em segurança no arm ário. Ela sentou-se em silêncio na cam a. Nós todas estávam os tão em ocionadas que m al conseguíam os falar.
Tratam os de nos colocar da m aneira m ais apresentável possível e, então, fom os para o salão de refeições. Ao atravessarm os a porta do restaurante, vim os que cada m esa estava coberta com um a im pecável toalha branca, talheres de prata, porcelanas e copos reluzentes. Fiquei sem fôlego. Apenas algum as sem anas antes estávam os bebendo em canecas de lata. Mutti não conteve as lágrim as ao ver a cena. Ficam os bastante tocadas por de novo estarm os sendo tratadas com o seres hum anos.
Em cada prato havia um pãozinho branco e um guardanapo branco prim orosam ente dobrado. Assim que sentam os, agarram os os pãezinhos e os com em os. Era o prim eiro pão branco que víam os em anos. Os com issários observaram im pressionados essa peculiar seleção de passageiros engolindo a com ida sem ligar para as boas m aneiras. Mas eles gentilm ente trouxeram m ais pães. Serviram , então, um a nutritiva refeição ao estilo inglês: sopa, legum es e em padão de carne, seguidos por torta. Mesm o após um banquete desses, com todos com pletam ente em panturrados, todo m undo levou um pãozinho extra para a cabine — só para garantir!
Fom os para o convés após o alm oço e descobrim os que j á navegávam os no m ar Negro rum o à Turquia. O sol cintilava na água azul-celeste, e fiquei no parapeito observando a terra verde e suas vilas brancas transform arem -se num borrão cinza. Senti-m e triste por deixar um país que aprendera a am ar. Mal tivera tem po de dizer adeus a pessoas por quem nutria a m ais profunda gratidão e a m ais elevada estim a. Sabia que j am ais as esqueceria.
Apesar da com ida nutritiva, servida a intervalos regulares, todos escondiam porções de pão, frutas ou queij o (qualquer coisa!) em suas cabines até finalm ente o capitão anunciar pelos alto-falantes que não era necessário se preocupar — havia bastante com ida a bordo, e tudo o que precisávam os fazer era pedir — e que, por favor, não levássem os m ais para as cabines, porque representava um risco à saúde. Todos nos sentim os um pouco tolos e envergonhados.
A viagem durou sete dias e passam os o tem po tom ando banho de sol no convés superior. Muitas m ulheres aproveitaram para flertar com os oficiais. Entram os no Bósforo, o estreito com apenas algum as centenas de m etros de largura, com a Europa de um lado e a Ásia do outro. As colinas da Turquia apresentavam um a exuberante vegetação sulista. Na distância, m inaretes refletiam a luz do sol. O SS Monoway m aj estosam ente atracou no porto de Istam bul.
Com o havia o tem or de que pudéssem os transm itir infecções, não recebem os perm issão para desem barcar, m as os cônsules-gerais de todos os países envolvidos subiram a bordo e ofereceram -se para enviar telegram as a nossos parentes.
Mutti sentou-se e escreveu um a m ensagem aos pais e à irm ã em Lancashire: “Estam os vivas e a cam inho da Holanda. Am am os todos vocês, Fritzi e Eva.”
A Cruz Verm elha veio a bordo para m ontar listas com os sobreviventes e registram os os nossos nom es. Estávam os no prim eiro grupo a ser enviado do leste e rezam os para que Pappy e Heinz fossem notificados de que estávam os bem .
Com tem po m agnífico, deixam os a costa da Turquia para navegar pelo estreito de Dardanelos, através do Mediterrâneo, até o sul da França. O navio atracou em Marselha ao m eio-dia de 27 de m aio. Enchem os o convés, esprem endo-nos contra o parapeito para ver duas bandas m arciais devidam ente param entadas tocar a Marselhesa. Foi um espetáculo m aravilhoso; nossos corações bateram forte e os olhos ficaram úm idos de em oção. Acenam os com tudo o que havia à m ão — sobretudo guardanapos roubados! —, dem os vivas e gritam os até ficarm os roucos de prazer.
Ao desem barcarm os, a m ultidão à espera bateu palm as. Porém , no navio havia conosco um grupo de operários que tinham se oferecido com o voluntários para fabricar m unições para os alem ães e que tam bém estavam sendo repatriados para o leste. Quando com eçaram a descer, a m ultidão fez silêncio e deu-lhes as costas. Sem pre m e perguntei com o sabiam que essas pessoas não m ereciam seu aplauso.
Nosso grupo foi recebido por um com itê de recepção instalado a m esas no cais. Eles tentavam estabelecer quem éram os e para onde desej ávam os ir. Com o nem todos falavam francês, houve m uita confusão, e Mutti ofereceu-se para ficar e aj udar com o intérprete. Dessa vez, não tem i m e separar dela. Cam inhões nos levaram para hotéis, onde nos fartam os com extraordinários pratos e vinhos franceses. Bebi pelo m enos três taças, ficando m uito alegre e, m ais tarde, m uito tonta!
Eu continuava obcecada com com ida e, quando Mutti chegou ao hotel, três horas depois, gritei:
— Por que dem orou tanto? Você perdeu toda a com ida! — Estava tão em briagada que m al podia falar.
Mutti parecia sim plesm ente exausta.
Nessa m esm a noite, em barcam os num trem com com partim entos, corredores e banheiros adequados, indo para o norte, na direção de Paris. Durante a viagem , param os m ais ou m enos a cada m eia hora — em Aix-en-Provence, Avignon, cada estação no cam inho. Em algum as delas, haviam levantado forcas, e bonecos de palha de Hitler balançavam na brisa. Em todas as estações, a população local aparecia para nos saudar, dando-nos flores e garrafas de vinho. Ofereciam tam bém bolos, queij os e baguetes, em quantidades suficientes para todos. Autoridades locais, com chapéus e correntes saindo dos bolsos, esperavam nas plataform as, enquanto bandinhas tocavam um anim ado repertório com alegre desconsideração por quem quer que estivesse tentando dorm ir. Acham os as recepções preparadas pelos franceses m agníficas e que eram todas para nós. Foi só depois de passarm os por Paris, quando as cerim ônias form ais se reduziram , que percebem os que prisioneiros de guerra franceses de regresso tam bém estavam no trem e que as boas-vindas eram para eles.
Os transportes ainda estavam m uito desorganizados. Continuam os o lento avanço para o norte pelo próxim o dia. O trem atravessou a Bélgica e, finalm ente, entrou na Holanda por Maastricht. Então, parou. Não dava para seguir em frente. As pontes sobre os rios haviam sido explodidas durante o recuo nazista.
Cerca de sessenta de nós fom os abrigados num convento, e nos disseram que teríam os de esperar até que providências fossem finalizadas para poderm os chegar às nossas casas. Havia pouca com ida disponível, não tínham os dinheiro, e nós, as poucas alm as rem anescentes que haviam sofrido as indignidades e os horrores dos cam pos, sentim o-nos terrivelm ente abandonados. Não houve recepção na Holanda. Tivem os de nos virar à própria custa, e ninguém parecia querer aj udar. Os próprios holandeses haviam sofrido im ensam ente e tam bém estavam exaustos e fam intos. A torm enta da Holanda e o terrível sofrim ento que tiveram que enfrentar apresentavam um enorm e contraste em relação à fartura que vim os na França. Um cam inhão chegou ao convento dois dias depois. Ficam os assistindo aos ocupantes descerem , sobreviventes enfraquecidos, quase fam élicos, dos cam pos de trabalho. De repente, Rootj e soltou um grito agudo de alegria e correu para um a garota tão m agra que ela pôde pegá-la no colo com o um bebê. Rootj e carregou a filha nos braços, chorando, “Judy, m inha Judy, m eu nenê”. Todos nós choram os de alegria por ela. Foi um reencontro m iraculoso. Eu apenas queria que acontecesse o m esm o para nós, com Heinz e Pappy.
Tivem os de esperar vários dias, enquanto pontes de pontões eram erguidas sobre os rios, e então um vagão foi providenciado para nos levar a Am sterdã. Atravessam os os cam pos e vim os todos os danos que a guerra causara. Aqui e ali despontavam cam pos floridos e, ao nos aproxim arm os da periferia da cidade, com eçam os a sentir um a crescente excitação.
Fom os levados para a Estação Central e nos despedim os com beij os e abraços dos dem ais integrantes do grupo. Prom etem os a Rootj e e Kea que m anteríam os contato, m as naquele m om ento só conseguíam os pensar em descobrir o que havia acontecido com nossas próprias fam ílias.