A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
9 "Canadá"
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“CANADÁ”
Perto do térm ino da quarentena, as kappos disseram que as SS viriam nos selecionar para diferentes unidades de trabalho. Todo m undo ficou bastante nervoso, j á que entendem os que nosso destino estava prestes a ser decidido.
Durante a próxim a Appel m atinal, um grupo de cinco oficiais elegantem ente uniform izados chegou ao cam po. Eles foram bastante educados conosco ao cam inharem diante das fileiras de m ulheres, e ditavam a unidade de trabalho definida a um a kappo, que anotava o núm ero tatuado de cada prisioneira e a respectiva destinação a ela alocada. Tudo foi organizado de m aneira m uito eficiente. Infelizm ente, não tínham os ideia do que representavam os códigos ou do tipo de trabalho para o qual estávam os sendo m andadas. Apenas sabíam os que algum as unidades eram m ais desej adas que outras.
Fiquei parada olhando fixam ente para a frente, procurando parecer o m ais inteligente possível, sentindo a aproxim ação dos SS até que estivessem diante de m im , m e exam inando. De súbito, não m e senti m ais am edrontada. Olhei direto nos olhos deles, e o oficial m ais graduado falou “Canadá”.
Sabia que se tratava de um a unidade de trabalho de elite porque todas no nosso com plexo disseram desej ar ir para lá. Com pletam ente ingênua a respeito dos protocolos do cam po, balbuciei:
— A m inha m ãe pode vir j unto?
A kappo m e fitou incrédula, m as o oficial alem ão pareceu achar curioso.
— Qual é a sua m ãe? — ele perguntou num tom bastante razoável.
Virei-m e e apontei para Mutti. Observei-o cam inhar até ela e, da m esm a m aneira que um com prador de um cavalo exam inaria o anim al, girá-la, m exer sua cabeça de um lado para o outro e avaliá-la de todos os ângulos. Então, fez um aceno com a cabeça e disse:
— Sim ! Por que não?
Mutti e eu trocam os olhares de alívio. Sentim os que estávam os com eçando a aprender a m anipular nosso destino de um a m aneira m elhor do que achávam os possível.
Nesse m om ento, houve um a agitação fora do cam po. Podíam os ouvir cachorros latindo selvagem ente e sons de tiros. Alguém tentara escapar. Dava para escutar SS correndo para lá e para cá, gritando instruções uns para os outros. As kappos foram convocadas e nós fom os deixadas ali paradas nas fileiras. Em m enos de um a hora, ergueram um a forca e todas as presas foram convocadas para testem unhar a execução. Era para ser um exem plo para nós. A fugitiva, um a m ulher um tanto robusta com a cabeça rapada, foi arrastada para a frente. Estava toda desarrum ada e descalça. As m ãos estavam am arradas nas costas e havia m anchas de sangue no vestido. Mutti tentou ficar na m inha frente para que eu não visse o que se passava. Mas, apesar de estar acontecendo diante de m im e de eu ser forçada a olhar, não vi de fato. Nenhum a de nós viu o enforcam ento. Fom os forçadas a olhar — m as não vim os.
Mesm o depois disso, sem pre havia alguém tentando escapar. Toda m anhã, após a Appel, quando as prisioneiras eram tiradas do cam po para irem a diversos locais de trabalho, o desej o de fugir era m uito forte. Guardas arm ados patrulhavam com cães prontos para perseguir e derrubar qualquer um a que saísse da linha. Eu acreditava piam ente que ninguém j am ais poderia escapar.
Na m aior parte do tem po, eu tinha m edo, m as vez ou outra a esperança crescia dentro de m im , apesar da situação terrível. Após serm os alocadas em unidades de trabalho, seis de nós fom os levadas a um canto e ganham os o privilégio de vestir um vestido listrado de prisioneira. Então, fom os alinhadas com aproxim adam ente quatrocentas trabalhadoras escolhidas para o “Canadá”. Ao atravessarm os o portão, anim ei-m e com a sensação de liberdade.
— É um a aventura e tanto! — sussurrei para Mutti.
Antes de sair, fom os precedidas por um a pequena banda tocando m úsica m ilitar. Estávam os todas vestidas do m esm o j eito, m as apresentáveis, para que os fazendeiros no cam po não pensassem que éram os m altratadas. No entanto, deviam notar os guardas arm ados e cães que nos acom panhavam , as cabeças rapadas e os rostos secos e exaustos das prisioneiras m ais velhas. Muitas de nós pareciam quase fam élicas para que eles não soubessem que algo horrível acontecia conosco. Mas, com o a m aioria das pessoas fazem quando são confrontadas por coisas das quais não querem saber, elas desviavam o olhar.
O sol castigava nossas carecas ao m archarm os na direção do cam po de triagem conhecido com o “Canadá” — um apelido dado porque era a terra da fartura. Era um com plexo im enso, aberto, que abrangia m uitas cabanas e galpões erguidos para abrigar os bens trazidos dos trens que m andavam prisioneiros para a m orte. Toda m anhã, cam inhões eram carregados com as últim as posses pessoais dos condenados, deixadas na plataform a do trem , e as j ogavam ali para serem filtradas por pessoas com o nós.
Vim os enorm es pilhas de roupas, m ontanhas de sapatos esperando para ser separados e um m onte, m ais alto do que a m inha cabeça, de vidro e m etal. Ao m e aproxim ar, vi que eram m ilhares de pares de óculos. Ainda não m e dera conta de que seus donos não m ais precisariam deles.
Mutti e eu, com dezenas de outras, fom os colocadas num enorm e galpão, onde cada um a recebeu um par de tesouras. Tínham os de soltar as linhas de casacos de peles — centenas deles — em busca de j oias escondidas, ouro, dinheiro ou qualquer coisa que pudesse estar ali. Encontrávam os tantas coisas escondidas que, a princípio, parecia um pouco com o abrir um a pilha de presentes.
Nós exclam ávam os em voz alta ao encontrar algo, especialm ente se detectávam os biscoitos ou doces. Nós os agarrávam os e com íam os quase tudo o que quiséssem os, e ninguém nos detinha.
Trabalhávam os num a atm osfera relaxada, porque todas estavam ansiosas procurando, e encontrando, m uitos itens de valor. Algum as prisioneiras m ais antigas guardavam j oias pequenas, com o anéis de diam antes, os quais enterravam no chão em baixo dos pés, na esperança de poder pegá-las m ais tarde. Tudo parecia m uito agradável, até eu de repente pensar nas pessoas que haviam guardado essas coisas preciosas em seus casacos de pele, particularm ente quando encontrava fotos de bebês e seus pais sorridentes. Às vezes, esses eram os únicos itens “preciosos” escondidos, o que m e entristecia m uito.
Ao olhar para a fotografia de um m enino em seu bar-m itzvá, cercado pela fam ília sorridente, o galpão pareceu girar ao m eu redor e fui atingida pela enorm idade do que estava fazendo. Num instante, dei-m e conta de que essas pessoas j am ais voltariam a se ver, som ente no céu. Fiquei paralisada pelo horror e ao m esm o tem po furiosa por ter m e perm itido desfrutar de algo tão hediondo e horripilante.
Toda noite, as trabalhadoras retornavam aos barracões e esperavam de pé por horas na Appel para que tivessem certeza de que ninguém tivera sucesso em escapar durante o dia. Inevitavelm ente, a separação dos entes am ados, a fom e e a desum anização eram insuportáveis para algum as m ulheres. Sem dúvida elas sabiam em seus corações que fugir era inútil, m as fizeram um últim o esforço para se libertar antes de sacrificar as próprias vidas. Às vezes, elas saíam correndo da fila de m archa fora do cam po e eram ou fuziladas pelas costas ou derrubadas pelos cães e feitas em pedaços. Ou, quando voltavam para dentro do cam po, atiravam -se contra o aram e farpado, que tinha um a alta carga elétrica. Elas soltavam gritos horríveis enquanto queim avam até m orrer na cerca.
O cativeiro era um fardo que se carregava sozinho. Se recebêssem os um a chance de sobreviver àquelas condições, eu encararia com o um desafio excitante, m as com preendi que, assim com o um touro num a tourada, não tínham os um a chance j usta. O sistem a era planej ado para nos m atar. Mas a m inha determ inação de viver era forte, e eu fizera um pacto com igo m esm a de que tentaria superar cada desafio.
Ao retornar do “Canadá” para o cam po, sofríam os a indignidade de um a revista, para o caso de term os tentado contrabandear qualquer coisa. Tínham os de abrir as bocas, tirar os sapatos e às vezes nos despir com pletam ente. Apesar disso, as pessoas no cam po im ploravam para que levássem os com ida para elas. Mutti e eu costum ávam os correr o risco de serm os descobertas, m as de algum m odo conseguíam os esconder um biscoito ou doce para Franzi e um a ou duas am igas.
Minni tam bém fez um pedido.
— Fritzi querida — ela suspirou —, tenho tanto desej o de ter um a colher de prata. Você pode tentar trazer um a para m im ?
Minni vinha de um a fam ília rica de Praga e detestava usar as colheres enferruj adas e as canecas lascadas consideradas boas o bastante para as prisioneiras de Auschwitz.
Mutti ergueu as sobrancelhas e contraiu os lábios.
— É arriscado — disse, porém acrescentando: — Mas tenho um a ideia que pode dar certo.
Passaram -se alguns dias antes de eu encontrar um a colher de prata com lindos ornam entos que tinha certeza agradaria Minni. Instruída por Mutti, coloquei dentro do sapato — exatam ente com o fazia com m eus suportes de aço! Sentim o-nos tão audazes. Meu pulso estava acelerado quando entram os no cam po. Estava confiante de que, de algum m odo, conseguiria. A sorte estava do nosso lado. Nessa noite, a busca foi superficial e rápida, e pude entrar no cam po sem ser descoberta. Quando entregam os a colher a Minni, nessa m esm a noite, ela ficou contentíssim a, e nos sentim os m uito bem por term os sido espertas. Por m ais subj ugadas que fôssem os pelo regim e, havíam os provado que não desistíram os. Foi um a im portante vitória.
Mais tarde, refleti que fora a coisa m ais estúpida de se fazer, porque nós três tínham os posições privilegiadas. Se tivéssem os sido descobertas, com o acontecia com algum as, receberíam os um a severa punição. Poderia até m esm o custar nossas vidas.
6 de junho de 1944 — Dia D
As kappos devem ter suspeitado de m im , porque logo após o incidente da colher fui separada de Mutti e transferida para outra cabana de triagem . Dessa vez, era o departam ento de roupas de cam a, onde pilhas de m aravilhosos edredons de retalhos costurados a m ão ficavam am ontoados num canto. Fom os instruídas a vasculhar cada centím etro quadrado das peças com os dedos e, se sentíssem os algum a coisa diferente, deveríam os rasgá-los e pegar os itens escondidos dentro. Encontrávam os inúm eros cigarros cuidadosam ente costurados em partes diferentes do edredom . Havia relógios de ouro, bolsas com m oedas de ouro, j oias preciosas e rem édios caros indispensáveis que tinham sido escondidos dentro das cobertas.
Na m etade do dia, tínham os autorização para parar por m eia hora e com er pão preto com queij o ou geleia confiscada do últim o grupo de prisioneiros recém -chegados. Se quiséssem os, podíam os com er do lado de fora, tom ando sol. Num alm oço, eu estava agachada sozinha, com as costas encostadas no barracão, com endo m inha ração e preguiçosam ente observando um grupo de prisioneiros passar do outro lado do aram e farpado quando, de repente, reconheci um a figura fam iliar. Era m eu pai!