A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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A JORNADA DE MUTTI
Pude ouvir os gritos de pânico de Eva por um bom tem po, até serem abafados pelo barulho do trem acelerando e desaparecendo na distância. Parada sozinha nos trilhos, fiquei olhando, sentindo-m e em choque e furiosa com igo m esm a. Por que tinha sido tão covarde? Por que não pulara para as m ãos estendidas? Senti-m e profundam ente m iserável por estar m ais um a vez separada de Eva.
Devagar, cam inhei sobre os dorm entes até um a estação bom bardeada com o nom e de Lem berg. Era bem grande e havia sido reparada em alguns pontos. Sabia que j á tinha feito parte da Áustria, de form a que deveriam falar um pouco de alem ão ali.
O saguão da estação estava cheio de gente, a m aioria cam poneses. Muitos estavam deitados, dorm indo e roncando entre suas cestas e pertences. Atrás do balcão do bar da estação, um a m ulher de aparência cansada bebericava café.
— Perdi m inha filha — falei em alem ão. — Ela estava naquele trem . Você pode m e aj udar?
A m ulher olhou para m im surpresa, m as deve ter percebido a m inha perturbação e saiu de trás do balcão, fazendo com que eu m e sentasse e ouvindo toda a m inha história.
— Para onde você ia? — perguntou.
— Ouvi alguém dizer Chernivtsi — disse —, m as não tenho certeza.
— Espere aqui, enquanto vou ver o que consigo descobrir. — E desapareceu em busca do chefe da estação, m as m inhas esperanças definharam quando voltou, balançando a cabeça. — A ferrovia inteira está em confusão. Ninguém sabe quando será o próxim o trem ou para onde vai. Trens m ilitares estão passando o tem po inteiro pela linha carregando russos, prisioneiros de guerra libertados, gente dos cam pos de concentração ou de trabalho. Você vai ter de esperar e ver o que acontece.
Bem, vou voltar para a minha Eva de um jeito ou outro, pensei. Estava determ inada que seria assim .
O chefe da estação veio e m e aconselhou a esperar na plataform a e em barcar no prim eiro trem indo na direção de Chernivtsi. Enquanto isso, ofereceu um pouco de com ida e café para m e sustentar. Foi o início da m inha experiência com a notável generosidade de pessoas que haviam sofrido todas as privações e dificuldades da guerra. Fui receptora de m uitos atos sim ples de hum anidade que m e tocaram profundam ente e restauraram m inha fé e coragem . Eu não podia dar nada em troca, exceto agradecer, e é algo que j am ais esquecerei.
Sentei na plataform a, sentindo o ar fresco da tarde, e esperei. Estava m uito quieto, e os m eus pensam entos voaram para o leste, para Eva. Graças a Deus ela estava em segurança. Pelo m enos m inha filha teria a com panhia de Rootj e e Kea. Na pior das hipóteses, nos reencontraríam os em Am sterdã. E, então, m eus pensam entos voltaram -se para o oeste, para Erich e Heinz. Se a guerra term inasse rápido, eles retornariam para casa e esperariam por m im .
Dei-m e conta de quanta sorte eu tinha, lem brando-m e de Rootj e, que estava im ersa em preocupações pela filha, Judy, no cam po de trabalho, e da pobre Sra. Frank, que m orrera de desespero nos braços de Rootj e quando as duas filhas foram transportadas para fora de Birkenau. Quando com ecei a ouvir o ruído da locom otiva chegando, sentia-m e bem calm a e quase pronta para a aventura.
Era um trem de transporte russo cheio de cam inhões e j ipes presos em vagões abertos. Soldados russos saltaram para o chão quando ele se aproxim ou da estação. Eu falava fluentem ente alem ão, francês e holandês. Tam bém sabia um pouco de inglês, m as nada de russo, de m odo que a senhora do bar veio e serviu de intérprete. Um oficial confirm ou que, durante parte do cam inho, iriam na direção de Chernivtsi, e m e aj udou a subir e entrar num dos j ipes. Sentei-m e no lugar do m otorista, fingindo dirigir, e todos nós rim os j untos. Ele disse algo, subiu e sentou-se ao lado. Im aginei que queria saber de onde eu vinha, então disse:
— Auschwitz, m as antes disso Holanda.
Ele sorriu e ficou bastante excitado.
— Ahh, da, Ollandia! — exclam ou, segurando um pincel im aginário no ar. — Rem brandt, Franz Hals, Verm eer! — E então apertou a m inha m ão em êxtase.
Pouco antes de o trem partir, ele trouxe um pão rústico, alguns ovos cozidos e — o m aior luxo de todos — um pedaço de carne cozida. Com i avidam ente, e ele pareceu contente. Quando tirei o lenço da cabeça para em brulhar a com ida para m ais tarde e revelei o cabelo cortado rente dos prisioneiros dos cam pos, ele deu um tapinha no m eu braço e indicou que eu devia deitar no banco e dorm ir um pouco. Então, m e deixou. Não dorm i m uito bem , preocupada com a possibilidade de ser esquecida e perder m inha parada.
O trem viaj ou por toda a noite. Ao am anhecer, quando parou, um j ovem soldado abriu a porta do j ipe e gesticulou para eu sair. Quando o trem foi em bora, fiquei novam ente sozinha na plataform a, sem saber onde estava ou o que fazer. Não havia ninguém por perto, e tudo era silêncio. Na distância, ouvi um galo cantando, seguido, quase im ediatam ente, pelo longínquo barulho de outro trem chegando à estação.
O ruído do m otor a vapor foi crescendo até o trem chegar e parar na estação. Era um trem de viagens longas, com com partim entos e um corredor cheio de soldados, que desceram para esticar as pernas, rindo e fazendo piadas. Mal pude acreditar nos m eus ouvidos. Eles falavam inglês!
Perguntei para onde iam . Responderam que eram prisioneiros de guerra ingleses libertados pelos russos e a cam inho de um navio que os levaria de volta para casa. Eu disse que tam bém havia sido libertada pelos russos e eles ouviram a m inha história com assom bro. Não tinham a m enor ideia sobre cam pos de concentração ou câm aras de gás. Quando acabei de contar tudo, estava chorando e insistindo que tinha de encontrar Eva. Um deles possuía um m apa e, j untos, procuraram Chernivtsi para m im . Não iam para lá, m as sugeriram que eu viaj asse j unto parte do cam inho, até encontrar outra conexão. Dois deles m e aj udaram a em barcar e sentei-m e, agradecida, na poltrona.
— Eu m e sinto tão suj a — desculpei-m e. — Estou viaj ando há dias. Existe algum lugar no trem em que eu possa m e lavar?
— Espere aqui, m inha querida — disse um soldado, m andando um outro sair e voltar com um a vasilha de água quente, sabão e um a toalha.
Com o trem com eçando a se m over, todos os soldados cavalheirescam ente saíram da cabine para esperar no corredor enquanto eu m e lim pava. Fiquei m uito em ocionada com a cortesia deles em m e tratar novam ente com o um a dam a.
Mais tarde, contei-lhes que m eus pais, m inha irm ã e sua fam ília m oravam em Darwen, perto de Manchester, e perguntei se era possível escrever um a carta para ser postada na Inglaterra. Alguém deu-m e um lápis e um bloco de notas e, ali, no com partim ento balançante, escrevi a prim eira carta para a fam ília em quase três anos — cerca de dois anos escondida e nove m eses em Auschwitz —, contando que Eva e eu havíam os sobrevivido. Entreguei a carta a um soldado, que a dobrou e guardou cuidadosam ente no bolso do uniform e, prom etendo postar no m inuto em que chegasse em casa. Soube alguns m eses depois que a carta, de fato, fora enviada. Pouco depois, nossas rotas se dividiram e eles m e deixaram num a estação pequena cham ada Kolom ea, que tam bém fizera parte da Áustria. Fiquei triste por m e separar desses gentlemen ingleses.
Era por volta do m eio-dia, m as tudo parecia deserto. A área ao redor estava devastada: todos os prédios encontravam -se danificados, e m uitos, abandonados. Saí da estação e peram bulei pelas ruas procurando alguém para m e aj udar. Som ente um as poucas idosas passaram , m as, então, vi um hom em barbudo, levem ente curvado, cam inhando na direção de um a casa fortem ente bom bardeada, com apenas o andar térreo e o porão intactos. Decidi abordá-lo.
— Preciso de aj uda — falei. — Você pode m e aj udar?
Ele olhou para m im , e seus olhos penetrantes e gentis reluziram com piedade.
— Shalom. Vou aj udá-la se puder — respondeu.
O hom em m e conduziu até o porão do que havia sido sua casa. No centro, havia um a m esa velha e cadeiras, utensílios de cozinha estavam em pilhados no chão, com lençóis e cobertores guardados num lado. A j ovem m ulher parecia exaurida, m as conseguira cozinhar um a refeição m odesta num fogo num canto. Ela m e cum prim entou com um a surpresa afável, insistindo para que eu com esse com eles. Durante a refeição, trocam os nossas histórias. Eles tam bém eram j udeus que haviam acabado de regressar da Rússia, para onde fugiram dos alem ães. Ficaram chocados quando contei m inha história dos torm entos e horrores dos cam pos de concentração.
Não haveria trens no dia seguinte e, assim , insistiram para que eu ficasse com eles, com partilhando das suas pobres acom odações até que descobrissem exatam ente quando chegaria um trem para a Rússia. Num a cam a im provisada de cobertores e trapos, caí num sono exausto.
Na m anhã seguinte, fui levada para um a casa em m elhores condições, onde fam ílias j udias viviam j untas provisoriam ente até que pudessem recuperar suas casas e posses. A notícia de m inha chegada espalhara-se, e m uitos vieram m e conhecer e ouvir a m inha história. Em bora circulassem rum ores, ninguém sabia exatam ente o que acontecera em Auschwitz e m uita gente não conteve o choro quando contei sobre as câm aras de gás e os fornos.
Fiquei em ocionada com o respeito com que fui tratada. Não apenas m e ofereceram com ida — tudo o que eu conseguisse com er —, m as tam bém fizeram um a coleta para m e aj udar no cam inho. Sentada ali com o dinheiro nas m ãos, fui tom ada pela em oção.
Passei todo o dia com essas pessoas boas e voltei para a cam a no porão para dorm ir. De m anhã, fui acordada pelo m eu anfitrião, que m e levou à estação para m e j untar a um a m ultidão vinda das cercanias que esperava para em barcar. Quando agradeci, ele m eneou a cabeça e apertou m inhas m ãos.
— Que Deus a acom panhe — disse.
Ele partiu e pus-m e a lutar para atravessar a m ontanha de passageiros que em barcavam nos vagões. Consegui subir os degraus altos e entrar num com partim ento com bancos de m adeira em que todos se apertavam . Pareciam fazendeiros ou lavradores, anim ados e espirituosos, carregando garrafas de vodca, das quais tom avam goles regulares. Alguém ofereceu-m e a bebida, m as agradeci polidam ente, balançando a cabeça. Na verdade, o odor era tão forte que eu estava m e sentindo tonta.
O trem sacolej ou por m uitas estações, em que passageiros desciam ou em barcavam , sem que ninguém prestasse m uita atenção a m im , de m odo que passei a m e sentir m ais sozinha do que nunca. Não tinha ideia de para onde ia e j á estava escuro quando o trem parou e todos desceram . Mais um a vez, fiquei parada num a plataform a de estação sem saber o que fazer em seguida.
Um soldado russo saiu das som bras com um cigarro nas m ãos. Ele olhou para m im e o encarei, ansiosa. Apontei para o m eu cabelo curto e acenei. Ele se aproxim ou e disse algo em russo, m as não conseguíam os nos com unicar — O russo é uma língua tão incompreensível, pensei.
De repente, a fadiga e a tensão da j ornada m e deixaram tonta e com ecei a perder o equilíbrio. Num segundo, ele estava ao lado para m e apoiar. Com o braço ao m eu redor, conduziu-m e da estação para um a casa nas proxim idades evidentem ente usada com o aloj am ento m ilitar. Entram os num escritório, e vários oficiais m eneavam a cabeça enquanto ele falava. Os russos tentaram m e interrogar, um interrom pendo o outro quando achava que tinha entendido o que eu queria. Mas era inútil, nenhum deles era capaz de com preender o que eu dizia.
Então, tive um a ideia. Havia um grande m apa na parede atrás da escrivaninha m aior, e, assim , procurei por Chernivtsi. Apontei para m im m esm a, então para o local e, por fim , para o núm ero no m eu braço. Eles enfim pareceram com preender e concordar entre si.
— Ah, Chernivtsi, Da!
Um soldado foi encarregado de m e levar a um a cantina cheia de hom ens conversando e fum ando. Despertando o interesse dos colegas, ele m e sentou e colocou chá e um ovo m exido na m inha frente. Eu nunca vira nada parecido antes, m as o gosto era bom . Mais tarde, soube que era ovo em pó, um novo tipo de produto que os am ericanos haviam m andado em grandes quantidades para a Rússia. A sala estava cheia de fum aça. Fiquei observando os soldados rasgarem pequenas tiras de j ornal, nas quais enrolavam tabaco, e as acendiam com grande prazer, inalando profundam ente e soltando grandes nuvens de fum aça.
Não pode ser muito saudável, pensei, m as eles pareciam um quadro de saúde perfeita, com suas com pleições robustas e róseas.
O m eu am igo sentou-se e esperou-m e com er e beber avidam ente. Depois, gesticulou para que o seguisse por um a viela escura. Não tinha ideia do que esperar.
Fui levada a um a casinha. Ele bateu e esperou até a porta ser aberta por um a m ulher cuj os olhos brilharam quando explicou a situação e indicou o que ela devia fazer por m im . Um a criança com cerca de 3 anos agarrava-se à sua saia, e atrás dela, em frente à lareira, havia um a carcom ida m ãe num a cadeira de balanço. A m ulher m eneou a cabeça e sorriu ao m e receber em sua casa.
Olhei ao redor, espantada. Era a sala m ais lim pa e arrum ada em que j á estivera, com o se fosse um a casa de boneca. Toda a bela m obília reluzia de lim pa. Em todas as partes, nas duas cam as nos cantos e nas cadeiras e nos bancos, havia alm ofadas bordadas em cores vivas. A toalha da m esa tam bém era bordada, havia tapetes feitos à m ão no chão de m adeira, quadros de santos nas paredes brancas e plantas nas j anelas. Um a porta conduzia a um a pequena e arrum ada cozinha, onde panelas e potes lustrosos pendiam de ganchos. Parecia-se tanto com um a casa de conto de fadas que pensei estar sonhando.
A m ulher logo rearranj ou as cam as. A senhora idosa foi colocada num a, e ela m e ofereceu a outra, instalando-se com a m enininha no chão. Fiquei deitada olhando o brilho da lareira, pensando em Eva e em quando nos reuniríam os de novo, até que finalm ente adorm eci. Acordei no m eio da noite, com o soldado batendo na porta e gesticulando para eu segui-lo até a estação.
O trem j á estava ali, cheio de cam poneses e m ulheres segurando grandes cestos de com ida, alguns com galinhas vivas, a cam inho do m ercado. O soldado falou de m im para eles e esperei que tivesse dito que eu deveria desem barcar em Chernivtsi. Ele ficou parado, sorrindo e dando adeus para m im enquanto o trem saía da estação. O trem andou até o am anhecer, quando enfim chegou a um a estação com o sinal chernivtsi, que felizm ente consegui ler, j á que não estava escrito em russo. Eu chegara.
O funcionário da bilheteria entendia alem ão e disse que havia gente de um cam po de concentração hospedada num a escola perto.
Andei pela rua principal quando com eçava a clarear. Um grupo de pessoas se dirigia à estação, e perguntei-lhes, em alem ão, onde ficava a escola. Um a m ulher m e acom panhou pela rua e apontou para um prédio grande. Quase corri para lá, tom ada pela alegria.
Porém , não estava preparada para a recepção que tive de Eva. Ela dorm ia num colchão e, quando a acordei, estava bastante furiosa com igo.
— Onde você estava? — gritou. — Eu nunca m ais deveria deixar você sair do trem .
Fiquei profundam ente aturdida e senti lágrim as escorrendo pelo rosto. Quando Eva finalm ente parou de gritar com igo, entrei em baixo da colcha com ela e prom eti:
— Nunca m ais vam os nos separar. — Estivéram os afastadas por toda um a sem ana.