A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto

PARTE I De Viena a Amsterdã

PARTE I

 

De Viena a Amsterdã

1

REFUGIADOS

 

Durante vários anos após o horror, tive um pesadelo recorrente... Estou caminhando sozinha por uma rua ensolarada que subitamente torna-se sinistra. Estou prestes a cair num buraco negro... Eu acordava suando e trem endo. Ele vinha m e assom brar nas noites em que m enos esperava, m as eu m e livrava repetindo para m im m esm a “tudo já acabou, graças a Deus. Estou viva”.

Assim , seguia com a m inha vida cotidiana na Inglaterra sem falar m uito sobre o passado porque havia reprim ido as m em órias por bastante tem po.

Agora, quero reconhecer o m ilagre e lem brar-m e claram ente daqueles que m e aj udaram a sobreviver a Birkenau. Devo m uito a eles e não quero esquecê-los.

 

Nasci em Viena, em 11 de m aio de 1929. Minha m ãe, Elfriede Markovits — apelidada Fritzi — vinha de um a fam ília j udia de classe m édia. Era cheia de vida e bela, e com 18 anos casou-se com Erich Geiringer, um atraente e em preendedor hom em de negócios austríaco de 21 anos.

Foi am or à prim eira vista, eles sem pre m e disseram . Minha m ãe era alta e loira, e m eu pai tinha cabelos escuros, olhos azuis penetrantes e um sorriso lum inoso que encantava as m ulheres. Juntos, form avam um casal m aravilhoso.

Fritzi e Erich — Mutti e Pappy para m im — adoravam -se e, nos dias despreocupados do início do casam ento, faziam parte de um grande círculo de recém -casados que se encontravam aos fins de sem ana para cam inhadas nas m ontanhas da Áustria. Meu pai era cheio de energia, um fanático pela boa form a que gostava de todos os esportes e atividades ao ar livre.

Em 1926, eles foram abençoados com um filho que cham aram de Heinz Felix e, quando eu cheguei, três anos depois, ficaram extasiados em ter um a filha para com pletar a fam ília.

Os pais e a irm ã da m inha m ãe viviam perto, de m odo que Mutti nos levava para visitá-los todos os dias. Meus pais não eram religiosos no sentido estritam ente j udeu ortodoxo. Gostavam de sentir-se com o um a parte integral da com unidade austríaca, m as tinham am igos j udeus íntim os, cuj as crianças foram m eus am igos de infância. Quando entrei na escola, com ecei a entender o que significava ser j udia, porque todas as crianças j udias eram separadas do resto da classe durante o evangelho. Tínham os nossas próprias aulas de religião, nas quais aprendíam os orações em hebraico, um pouco da história j udaica e ritos. Heinz e eu apreciávam os nosso legado e, quando pedim os a Mutti para acender velas nas noites de sexta-feira para receber o sabá, ela o fez para nos agradar, m as éram os levados à sinagoga som ente nos Grandes Feriados.

À m edida que Heinz e eu crescíam os, Pappy encoraj ava um sentim ento de resiliência e autoconfiança em nós.

— Você nunca deve ter m edo — ele dizia, j ogando-m e na extrem idade profunda da piscina quando eu era m uito pequena, com Mutti apavorada ao lado.

Quando eu tinha 3 anos, às vezes ele m e punha sentada no alto de um grande arm ário e falava para eu pular para os seus braços ou ficar lá em cim a. Apesar do m edo, eu confiava nele e, naturalm ente, Pappy sem pre m e pegava. Eu gostava desses desafios, m as Heinz era bem m ais sensível e, em bora fosse três anos m ais velho do que eu, frequentem ente se assustava.

Nos feriados, Pappy nos levava para escaladas nas m ontanhas tirolesas e nos Alpes austríacos. Sem pre era um a aventura excitante para m im . Um a vez, quando eu tinha 4 anos, ficam os perdidos por várias horas, e as m inhas botas passaram a incom odar tanto que as tirei e alegrem ente escalei as rochas descalça.

Às vezes, Pappy am arrava um a escada de corda num a árvore ou pedra no alto de um precipício, e nós dois descíam os com o se fôssem os Tarzan, enquanto Mutti e Heinz esperavam por nosso retorno. Eu idolatrava Pappy e adorava im itá-lo. Ao contrário de Heinz, eu com partilhava do seu am or por esportes físicos e estava determ inada a ser forte para agradar-lhe.

— É ruim para a postura dorm ir em travesseiros e colchão m oles — Pappy nos disse certa vez.

Assim , no próxim o dom ingo em que saím os, trouxe para casa um a pedra grande e chata para usar com o travesseiro. Heinz e eu dividíam os um quarto e, para m inha irritação, ele riu de m im .

Eu era bastante im plicante com com ida e, em bora fosse perfeitam ente saudável, tinha m uito pouco peso. Mutti m e obrigava a engolir um a colher de óleo de fígado de bacalhau todo dia, o que m e deixava nauseada. Preferia pratos de espaguete e salsichas, m as em vez disso tinha de m e contentar com repolho roxo e espinafre, os quais odiava. Mutti insistia para que eu com esse tudo. Se eu m e recusava a com er bastante, ou fazer o que m andavam , ficava de castigo num canto. Eu tinha um a tendência desafiadora, rebelde, e m e recusava a pedir desculpas m esm o quando sabia que havia errado.

Heinz era diferente, m ais obediente e com m ais talento criativo que eu.

— Você é a prática, Evi — Mutti dizia com carinho —, m as Heinz é o inteligente.

Ele lia vorazm ente e tinha um a im aginação vívida. Heinz m e deixava fascinada com histórias do seu escritor favorito de westerns, Karl May. Ele brincava de ser Winnetou, um pele-verm elha, enquanto eu im aginava ser o velho parceiro, Shatterhand. Às vezes, quando estávam os sozinhos no quarto, m eu irm ão inventava histórias de fantasm as e as sussurrava em voz baixa e m isteriosa, m e aterrorizando e excitando ao m esm o tem po. Ele brincava com as luzes da lanterna no teto: verm elho, verde, am arelo — dançando em padrões que faziam com que eu pensasse que realm ente havia um fantasm a ali.

Heinz descobriu um j eito de m e fazer chorar sim plesm ente contando um a história em que ele era um idoso solitário, abandonado e prestes a m orrer, sem ninguém no m undo para lam entar por sua alm a. Sua voz ficava entrecortada e rouca, e eu acabava tão envolvida que chorava sem parar. Fizem os um pacto para usar esse truque quando houvesse visitas em casa. Heinz dizia “aposto que posso fazer Eva chorar em três m inutos sem tocar nela!”.

Dito e feito, quando ele com eçava a contar a história, as lágrim as saltavam dos m eus olhos. Eu não conseguia aguentar o pensam ento de ele m orrer.

Aos 7 anos, Heinz teve um a infecção ocular que não foi corretam ente diagnosticada e, com o resultado, tornou-se crônica. Meus pais se preocupavam bastante com ele. Quando tinha 9 anos, apesar de incontáveis visitas a especialistas e hospitais, acabou perdendo um a das vistas. Heinz aceitou isso estoicam ente e não perm itiu que o fato estragasse sua infância.

Meu irm ão e eu éram os parte de um a fam ília feliz e unida, com avós, tias, tios e prim os que gostavam de ficar j untos. Naqueles prim eiros anos, m al desconfiávam os de que j udeus em Viena, religiosos ou não, estavam prestes a se ver sob um a am eaça m aligna. Hitler e os nazistas chegaram ao poder na Alem anha em 1933, quando eu tinha 4 anos, desencadeando ondas de m anifestações antissem itas.

Na Alem anha, ataques a j udeus e suas propriedades eram fortem ente encoraj ados. Em 12 de m arço de 1938, em m eio a grande alegria dos austríacos, os alem ães m archaram Áustria adentro e a atm osfera m udou da noite para o dia em Viena. Conhecidos não j udeus subitam ente tornaram -se abertam ente hostis. Muitos j udeus perceberam o perigo que corriam e partiram às pressas para Holanda, Grã-Bretanha ou Estados Unidos.

Das pessoas da nossa fam ília, a irm ã m ais j ovem de Mutti, Sy lvia, com o m arido, Otto Grunwald, e o filhinho, Tom , partiram para a Inglaterra em agosto de 1938. Eles foram para Darwen, Lancashire, onde havia grande desem prego. Com o especialista no processo de baquelite (um precursor do plástico m oderno), Otto recebera do governo britânico perm issão para se estabelecer com o consultor de um fabricante de cabos de guarda-chuva. Um ano depois, ele m andou buscar os pais de Mutti, que chegaram pouco antes da eclosão da guerra.

A irm ã de Pappy, Blanca, casara-se com um historiador da arte, Ludwig Goldscheider. A filha do casal, Gaby, era um m ês m ais velha do que eu e m inha m elhor am iga. Eles fugiram im ediatam ente para Londres. A Phaedon Press, a editora de arte em que tio Ludwig trabalhava, m ais tarde transferiu os negócios de Viena para a Inglaterra e continuou publicando com sucesso livros de arte.

Meu pai tam bém decidiu fazer planos de em igração para um país seguro. Ele pensou em levar o seu negócio de sapatos para o sul da Holanda, onde havia um a concentração dessa indústria. Assim , teríam os a escolha de viver em Bruxelas ou Am sterdã. Mutti queria restabelecer a fam ília num a cidade cosm opolita que, sob m uitos aspectos, fosse sem elhante a Viena e preferia Bruxelas, principalm ente devido à língua. Toda a fam ília falava bem francês, exceto eu, que era j ovem dem ais para ter aprendido quaisquer línguas além do alem ão nativo.

Pappy sem pre fabricara sapatos. Herdara a prim eira fábrica do pai, m as esta fracassou na depressão econôm ica de 1933. Depois disso, teve a ideia de criar um a m anufatura caseira de m ocassins. Ele em pregou m ulheres que ficavam em suas casas tricotando as coloridas partes superiores, que eram costuradas em solas de couro por um grupo de sapateiros da sua velha fábrica. Esse em preendim ento foi tão bem -sucedido que Pappy logo passou a exportar para Estados Unidos e Holanda e a planej ar m ontar um a reserva de capital num banco holandês. Em m aio de 1938, ele nos deixou em Viena, levando sua técnica m anufatureira para a Holanda, onde fez sociedade com o proprietário de um a fábrica de sapatos em dificuldades. Logo, com sua capacidade, as perdas se transform aram em lucro.

Sua determ inação de nos buscar assim que possível se fortaleceu no dia em que Heinz voltou da escola com sangue escorrendo de um corte no olho. Ele havia sido intim idado e agredido por colegas da classe sim plesm ente por ser j udeu. O banditism o estava com eçando a dom inar, e não tínham os defesa contra ele.

Após esse ataque, m eus pais decidiram que, pelo m om ento, Heinz viaj aria sozinho para viver com Pappy em Brabant. Mutti ficou com igo para tentar vender o m áxim o possível de nossas posses. Ela sabia que não teríam os perm issão para tirar m uito dinheiro da Áustria e, assim , decidiu m e abastecer pelos próxim os dois anos. Fom os fazer com pras na Bitm an, um a grande loj a infantil no centro de Viena, onde ela gastou um a vultosa som a de dinheiro com prando roupas para m im , de cuj a m aioria eu gostei. Ela entrou com grande alarido na seção de capas.

— Vam os viver em Bruxelas — Mutti disse para a ansiosa vendedora —, e quero um casaco e um chapéu m uito elegantes para a m inha filha.

— Eu tenho o que você precisa — disse a vendedora e, para m eu horror, ressurgiu segurando um casaco de lã laranj a e um chapéu xadrez escocês para com binar com a gola.

Eu achei horroroso.

— Não vou usar isso! — exclam ei.

— Claro que vai — disse Mutti —, todas as m eninas belgas estão usando casacos elegantes com o esse.

Ela olhou para a vendedora, que balançou a cabeça em aprovação. Torci para que não servisse em m im .

— Um pouquinho grande — disse Mutti. — Muito bom , tem espaço suficiente para você crescer.

Apesar dos m eus protestos, ela com prou o casaco. Teim osam ente, eu pensava que nem m esm o Mutti poderia m e obrigar a vesti-lo.

Quando chegam os em casa à noite, havia um a carta de Pappy m andando-nos ir encontrá-lo em Breda, Brabant. Um a sem ana depois, em j unho de 1938, deixam os a Áustria de vez para ficar com Pappy e Heinz num a casa particular, pagando pela hospedagem .

Breda era um a pequena cidade provincial holandesa no sul, perto da fronteira belga. Era totalm ente diferente da m etropolitana Viena e, para m im , a vida ali parecia um feriado no cam po. As últim as sem anas haviam sido extrem am ente estressantes para todos. Pelo m om ento, ao m enos estávam os reunidos novam ente e longe da atm osfera am eaçadora de Viena. Em contraste com os austríacos, os holandeses eram pessoas hospitaleiras e am igáveis, e faziam com que nos sentíssem os m uito bem recebidos.

Todos na Holanda pareciam ter um a bicicleta, e num dom ingo ensolarado, com o um a celebração especial, alugam os quatro bicicletas. Fizem os um piquenique tranquilo e agradável no cam po, e enquanto olhava para as nuvens, deitada na gram a, eu pensava em com o tinha sorte por não precisar ir para a escola no dia seguinte. Sabia que, quando entrasse num a escola em Bruxelas, as aulas seriam em francês, e não tinha ideia de com o conseguiria lidar com isso.

Foi um a curta trégua antes do caos que viria. No final de j ulho, providências haviam sido tom adas para que Heinz e eu fôssem os para escolas na Bélgica. Mutti, Heinz e eu m udam os para um a pensão na periferia de Bruxelas, e Pappy prom eteu nos visitar todos os fins de sem ana. Quase da noite para o dia, tornam o-nos refugiados.

O proprietário da pensão era belga, um certo Monsieur LeBlanc, que se casara com um a viúva francesa que tinha um filho cham ado Jacky. Ele tinha 9 anos, a m esm a idade que eu, e ficam os am igos. Jacky m e ensinou que as pessoas podem se tornar am igas sem falar a m esm a língua. Nós brincávam os j untos, fazendo com panhia um para o outro e, sem perceber, eu estava aprendendo francês o tem po todo.

Nossa fam ília dorm ia em dois quartos. Eu dividia um com Heinz, e Mutti dorm ia no seu pequeno aposento com Pappy nos fins de sem ana. Fazíam os as refeições num a grande sala com unal com outras fam ílias, de j udeus alem ães e tchecos, que estavam na m esm a situação difícil que nós. Um a viúva idosa francesa ficava num canto e, no outro, um solteirão de m eia-idade, aposentado do serviço público no Congo Belga. Era um hom em sinistro, que m e deixava bastante assustada.

Um dia, Jacky e eu fom os ao seu quarto, quando ele não estava, e vim os um a coleção de arm as, arpões e lanças de aparência perigosa, pendurados na parede. Estávam os exam inando-os com grande curiosidade, quando o ouvim os entrando. Com o piada, só para assustá-lo, dem os um pulo e gritam os. Sem hesitar, ele pegou um a lança congolesa da parede e veio em nossa direção. Nós correm os em pânico para fora do quarto e, depois disso, nos m antivem os bem longe dele!

Em algum as tardes, eu acom panhava Mutti ao centro de refugiados, onde as pessoas tinham oportunidade de fazer contato entre si, obtendo conselhos e assistência para todo tipo de problem as práticos: onde adultos podiam conseguir aulas de francês; com o se apresentar à polícia; com o conseguir algum auxílio financeiro. Havia infindáveis form ulários para preencher. Era um centro de trânsito para m uitos que estavam a cam inho da Grã-Bretanha e da Am érica, e então m eus avós chegaram para ficar na nossa pensão por alguns dias antes de seguirem para a Inglaterra.

À noite, não tínham os nenhum lugar para sentar, exceto em nossos quartos. Eu deitava na cam a com olhar desconsolado enquanto Heinz aplicadam ente fazia as lições de latim e francês. Ele não tinha tem po para m im e então eu acabava descendo ao pátio para brincar com Jacky. Havia um a caixa cheia com as roupas velhas da m ãe dele, e nós nos vestíam os e fingíam os ser adultos até Mutti m e m andar para a cam a.

Mesm o num a rotina de aloj am ento, Mutti tentava m anter a m inha vida o m ais norm al possível, m atriculando-m e na escola local. Com o poderia ser norm al para m im ? Durante oito anos eu ouvira e falara som ente alem ão e, de repente, todas as aulas eram em francês. Eu estava desesperada. Não conseguia entender as m ais sim ples instruções. As outras crianças tentavam m e aj udar, m as logo desistiam quando percebiam que eu não entendera nenhum a palavra. As aulas eram bastante diferentes da m inha antiga escola, onde fazíam os som as sim ples no caderno. Ali, as crianças pareciam fazer de cabeça e quando a professora perguntava o que soava com o tabelas de m ultiplicação elas im ediatam ente gritavam as respostas. A m im restava m e m anter m uda e m iserável.

A professora j ovem e bonita se esforçava ao m áxim o para m e encoraj ar, m as eu estava desesperadam ente infeliz. Depois de um m ês, ela tentou m e envolver nas aulas. Um dia, fez um ditado com um a pequena história em francês e todas as crianças, inclusive eu, tiveram que escrevê-la nos cadernos com a grafia correta. No dia seguinte, quando as folhas foram devolvidas com as correções, todos tiveram de falar o núm ero de erros m arcados. Minha página estava toda verm elha; m eus erros som avam o m esm o núm ero de palavras na história. Senti-m e tão hum ilhada que corri chorando para Mutti em casa.

Mutti decidiu que eu deveria aprender vinte palavras por dia: ela m e ensinava as palavras francesas para obj etos fam iliares e m e fazia repeti-las depois dela. Em seguida, eu as escrevia e tentava aprendê-las. Eram tantas palavras novas que na sexta-feira eu j á esquecera o que havia aprendido na segunda, o que deixava Mutti tão frustrada com igo (além de todas as suas outras preocupações) que ela m e dava palm adas fortes. Assim , havia ainda m ais lágrim as no fim dessas aulas.

— Você é tão teim osa — Mutti dizia, exasperada, o que era verdade, j á que àquela altura eu havia m e recusado a usar o casaco laranj a, e Mutti teve de tingi-lo de azul-m arinho.

 

9 de novembro de 1938 — Kristallnacht, o incêndio de 7.500 lojas judaicas e sinagogas na Alemanha

 

Gradualm ente, a densa névoa de um a nova língua com eçou a desaparecer. Perto do Natal, houve um a noite especial para toda a classe. Todos os pais, incluindo Mutti e Pappy, sentaram -se na sala, enquanto cada um de nós recitava um a poesia. A professora nos apresentava e, um a um , íam os até a frente da sala para recitar. Ela havia m e dado um a fábula de La Fontaine — era bem longa, m as eu estava determ inada a aprender de cor em francês fluente. Na m inha vez, ela m e introduziu com as palavras “um a m ocinha austríaca j udia que se aplicou m uito”. Era verdade, m as ao cam inhar até a frente, o poem a sum iu da m inha cabeça. Fiquei ali, olhando calada para as fileiras de rostos.

— Vam os, Eva, é a sua vez agora — ela disse.

Eu abri a boca e, para m inha surpresa, todas as palavras j orraram com o se eu as tivesse conhecido por toda a m inha vida. Quando term inei, todos aplaudiram . Ao olhar para m eus pais e Heinz, que sorriam orgulhosam ente, m e senti bastante feliz com igo m esm a.

 

15 de março de 1939 — A Alemanha invade a Boêmia e a Morávia (Tchecoslováquia)

 

Após o sucesso com a declam ação, senti-m e com o parte da classe e passei a gostar da escola. Eu voltava para Mutti depois das aulas para contar as novidades, m as, para ela, a vida era m uito m enos sim ples e tranquila. Mutti sentia falta de estar no com ando da própria casa e tinha m aior consciência do perigo da nossa posição de refugiados apátridas. Ela sentia m uita saudade da vovó, com todos os seus dom inadores conselhos de com o nos educar, e da com panhia das tias Sy lvia e Blanka. Em bora houvesse um a ou duas am igas que encontrara no centro de refugiados, não havia m ais as reuniões e conversas despreocupadas. Pappy tentava vir da fábrica em Brabant na m aioria dos fins de sem ana, m as todos nós sentíam os falta da segurança da nossa própria casa.

No com eço de m aio, perto do m eu nono aniversário, eu queria m uito ter um a festa com as am igas da escola.

— Ah, por favor, Mutti! — eu apoquentava. — Quero m uito um a festa e assoprar velas num bolo!

— Bom , está bem , Eva — ela por fim disse, em bora relutante. — Mas antes tem os de perguntar a Madam e LeBlanc.

Para m inha alegria, ela concordou.

— Vej a, apenas um pequeno grupo de seis na m inha sala de j antar — ela disse. — Mas eu farei um bolo especialm ente para você.

Fiquei tão feliz! Cheia de entusiasm o, escrevi os convites para as m inhas três am igas especiais na classe. No intervalo, elas perguntaram o que eu gostaria de ganhar de presente e, m uito anim adas, decidim os j untas que j ogos brincaríam os. Mas, na m anhã seguinte, todas as três disseram que os pais não perm itiriam que fossem . Eu não conseguia acreditar. Por quê? Fiquei confusa e m agoada. Acho que foi aí que com ecei a m e dar conta do que significava ser j udia na época. Foi bastante doloroso e m e senti com o um a pária.

 

23 de agosto de 1939 — Pacto Nazi-Soviético de Não Agressão

 

Em agosto, Pappy nos levou para um a pequena pensão em Zandvoort, na Holanda, para férias à beira-m ar. O tem po estava perfeito. Passam os duas sem anas despreocupadas correndo pelas dunas, nadando no m ar e j ogando água uns nos outros. Tudo parecia glorioso. Estava explodindo de alegria até retornarm os para Bruxelas e a escola no fim do m ês.

 

1º de setembro de 1939 — A Alemanha invade a Polônia 3 de setembro — A Grã-Bretanha declara guerra à Alemanha 4 de setembro — A França declara guerra à Alemanha

 

No com eço de setem bro, m uita coisa aconteceu rápido dem ais. Quando eclodiu a guerra entre Inglaterra e Alem anha, Pappy se deu conta de que as fronteiras entre Holanda e Bélgica provavelm ente seriam fechadas e, então, tom ou providências im ediatas para que fôssem os viver com ele na Holanda. Com o refugiados estrangeiros, contudo, tivem os de esperar até fevereiro de 1940 pelos papéis apropriados e som ente aí pudem os nos j untar a ele.