A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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CAPTURA
11 de maio de 1944
Era o m eu 15º aniversário, que, nesse ano, caiu num a terça-feira. Acordei cedo, confortável no m eu quartinho na casa dos Reitsm a. Eu podia ouvir os pássaros cantando. O sol entrava pela j anela, e fiquei um bom tem po deitada, com as m ãos em baixo da cabeça, observando as árvores do lado de fora e sentindo-m e bem por estar viva. Saber que Pappy e Heinz estavam seguros em seu novo aloj am ento nas proxim idades aum entava a felicidade. Nós os havíam os visitado no dom ingo, e eu esperava, por se tratar de um dia especial, poder revê-los novam ente.
Às oito e m eia da m anhã, os Reitsm a sentaram -se conosco na sala de j antar para tom arm os um café da m anhã de celebração. A Sra. Reitsm a havia colocado um vaso de j acintos e tulipas no centro da m esa, e Floris, o filho de 20 anos do casal, solenem ente entregou-m e um em brulho quando m e sentei.
— Mantenha a surpresa — ele disse —, abra após o café.
Com o ele era cativante, pensei, ficando ruborizada. Coloquei o presente na m esa com todo o cuidado. O papel de em brulho tinha, num dos lados, delicadas rosas pintadas pela talentosa Sra. Reitsm a. Fiquei encantada por isso. Mal podia esperar para abrir, e a expectativa só aum entava a m inha excitação.
De repente, a cam painha tocou e ficam os todos alarm ados. Não esperávam os ninguém . Quem poderia bater àquela hora da m anhã? O Sr. Reitsm a levantou-se da m esa e desceu para abrir a porta. Para nosso im enso horror, ouvim os a Gestapo invadindo a casa. Floris im ediatam ente deu um salto, passou pela m esa, saiu pela j anela e sum iu no telhado. Em segundos, os oficiais da Gestapo subiram a escada e entraram na sala, encarando-nos. Petrificadas de m edo, olham os para eles e os guardas, que estavam atrás apontando arm as.
— Verfluchte Juden! São elas! — gritaram .
Estávam os sem reação pelo choque. Sem dar tem po de levar nada conosco, eles nos em purraram bruscam ente, escada abaixo, para a rua, de onde m archaríam os para o quartel-general da Gestapo, a algum as ruas de distância.
Enquanto nós quatro m archávam os, Mutti, em seu desespero para m e salvar, agarrou o braço do nazista holandês ao seu lado e tentou convencê-lo de que eu não era totalm ente j udia. Ele a em purrou para o lado, m as ela continuou falando qualquer coisa que pensasse que poderia m e libertar.
— Minha filha não é j udia — disse. — Eu tive um caso com um não j udeu, m eu dentista... ela é dele... ela não é realm ente j udia...
Mas de nada adiantou. Os rostos de nossos captores continuavam im óveis e im placáveis. Tinham conseguido o que vieram buscar e finalm ente haviam triunfado.
Quando chegam os à escola secundária de tij olos verm elhos transform ada no quartel-general da Gestapo, fom os em purradas para dentro de um a sala de detenção em que j á havia algum as outras pessoas presas na operação.
Guardas arm ados vigiavam a porta, as j anelas estavam fechadas e cadeiras de m adeira tinham sido colocadas perto das paredes, onde prisioneiros, sentados com ar m iserável, olhavam para o chão ou para cim a. Nossos corações se apertaram quando nos j untam os a eles. Ninguém olhou para nós ou tentou conversar. Eu m e sentia tensa dem ais para chorar. Sentei num canto ao lado de Mutti, que sussurrou para m im : “Com o?” Sim plesm ente não conseguíam os entender com o acontecera. Não esperávam os, pois nos sentíam os razoavelm ente seguras. Apesar do ódio nazista aos j udeus, confiávam os na eficiência do m ovim ento clandestino holandês. Ficam os sentadas por horas, esperando.
Um a a um a, as pessoas eram cham adas e levadas. Algum as voltavam à sala para continuar a espera, outras não. Ninguém dizia um a palavra. Vez ou outra, um a ou duas m ulheres choravam , discretas, m as ninguém as confortava ou perguntava aos que retornavam o que acontecera... não ousávam os.
Às vezes, podíam os escutar gritos vindo da sala ao lado. Ouvim os o barulho de espancam entos, de pessoas soluçando e chorando de dor e de vozes alem ãs gritando com raiva. Perm anecem os congeladas nas cadeiras e nauseadas pelo terror.
Por fim , chegou a vez de Mutti. Ela apertou o m eu braço antes de a levarem . Fiquei atenta para ouvir quaisquer sons da sala ao lado, à espera de escutar seus gritos, m as não ouvi nada. Fiquei sentada sozinha por cerca de m eia hora.
Então eles vieram m e buscar.
Um policial de uniform e verde (Grune Polizei) m e levou para um a sala com pouca m obília e um a foto de Hitler pendurada na parede. Mandaram -m e ficar de pé em frente a dois oficiais da Gestapo sentados diante de um a grande escrivaninha. Am bos olharam atentam ente para m im durante vários segundos, até que um deles falou em alem ão polido:
— Conte-nos tudo o que querem os saber e você verá a sua m ãe — disse.
— Você poderá ver seu pai e seu irm ão tam bém — disse o outro.
Fiquei boquiaberta. Não m e dera conta de que Heinz e Pappy tam bém tinham sido capturados.
— Meu pai e m eu irm ão? — exclam ei, e então fiquei irritada com igo m esm a por falar. Lágrim as queim avam por trás dos m eus olhos, m as, se conseguisse m e controlar, não iria deixá-los m e ver reagir novam ente. Estava determ inada a não contar nada.
— É claro, estam os com todos eles — o oficial sorriu com frieza para m im .
De repente, com ecei a trem er violentam ente. Não conseguia parar, enquanto eles passavam a m e interrogar em alem ão, disparando perguntas em rápida sucessão. Estava absolutam ente aterrorizada por eles.
— Há quanto tem po você está com os Reitsm a?
— Estávam os apenas visitando — eu disse.
— Onde vocês estavam se escondendo? — Eles trocaram folhas de papel entre si.
— Não sei — m enti. — Chegam os no escuro. Era um a casa em Am sterdã, m as não sei onde.
— Onde conseguiu o seu cartão de racionam ento?
— Onde a sua m ãe conseguiu dinheiro?
— Quem aj udou vocês a encontrar esconderij os?
Fingi não saber de nada. De algum m odo, consegui atravessar o interrogatório sem entregar coisa algum a. Adm iti que vivera em Merwedeplein, m as eles sabiam que tínham os ido para a clandestinidade. Descrevi nossa senhoria com o alguém diferente da Sra. Klom pe o m ais que pude. Disse que era baixa, gorda e velha e que não sabia o seu nom e.
Depois de algum tem po, eles desistiram de tentar tirar m ais coisas de m im e m e m andaram de volta para a sala de espera. Mutti não estava lá, m as ao m e sentar m e sentia bastante orgulhosa. Pensava que realizara um a bela perform ance, quando, da sala de interrogatório, vieram vozes que reconheci, prim eiro de Pappy e depois de Heinz. Suas vozes se elevaram e logo se transform aram em gritos, seguidos por um terrível silêncio.
Minha reação im ediata foi de que im aginava tudo aquilo; que não estava realm ente ouvindo. Não conseguia acreditar no que acontecia. Pensei que a Gestapo de algum m odo blefava para m e assustar e fazer com que eu contasse tudo. Ouvi com atenção, m as não escutei m ais nenhum som . Com ecei a passar m al de m edo.
Após um período de silêncio, eles tornaram a m e cham ar. Mais um a vez, fiquei de pé na frente da Gestapo. Agora, o oficial m ais graduado lançou um olhar feroz para m im e disse:
— Nós vam os torturar o seu irm ão até a m orte se você não cooperar conosco.
Fiquei horrorizada. Olhei sem reação para eles sem saber o que deveria dizer.
— Vam os m ostrar a você o que farem os com ele — o oficial prosseguiu e acenou para alguém atrás de m im .
Eu estava paralisada de terror, quando o prim eiro golpe de cassetete atingiu m eus om bros. De súbito, percebi que isso realm ente estava acontecendo com igo, que não era um pesadelo, que era tudo verdade. O im pacto dos golpes corria pelo corpo enquanto eles batiam nas costas e nos om bros. Eram bastante im piedosos. Tentei afastá-los com os braços, m as não consegui. Sabia que queriam que eu gritasse, para que pudessem am eaçar m eu pai e fazê-lo falar. Tentei m uito, m as por fim com ecei a gritar. Eu podia ouvir gritos vindo de dentro de m im que não conseguia controlar.
Assim que acharam que haviam extraído suficiente barulho de m im , eles pararam . Fui em purrada com violência para outra sala, com outros hom ens e m ulheres que haviam recebido tratam ento sem elhante. Alguns tinham m achucados nos rostos, um ou dois tinham sangue nas roupas. Todos estavam perturbados e som brios.
Durante todo o dia, m eu aniversário de 15 anos, fui m antida presa num a sala sem com ida ou água, tendo de ouvir através das paredes pessoas sendo interrogadas, intim idadas e espancadas. Durou até a noite.
Enfim , fui levada por um corredor para outra sala. Quando a porta se abriu, vi m eus pais de pé olhando para m im . Heinz estava com eles, e tam bém os Reitsm a. Não havia m ais ninguém ali. Abraçam o-nos, todos chorando e soluçando, e a porta fechava atrás de nós. Ficam os a sós. Pappy contou que a enferm eira e seus aparentem ente gentis anfitriões trabalhavam para os dois lados. Quando fizem os nossa visita a Pappy e Heinz no dom ingo à tarde no novo refúgio, eles devem ter providenciado para que fôssem os seguidas para descobrir nosso esconderij o e, tendo nos traído, decerto receberam um a substancial aj uda financeira.
Quando nos acalm am os um pouco, Pappy disse:
— Mutti fez um acordo com a Gestapo. Ela vai dar-lhes nossa caixa de talco e eles soltarão os Reitsm a.
Ele parecia exausto, m as continuava com posto, calm o e digno.
— Por que eles não podem deixar todos nós irm os? — perguntei, afundando o rosto no seu peito enquanto ele m e confortava.
Pappy olhou para baixo e balançou a cabeça.
— Suponho que sej a porque acham que som os o inim igo — afirm ou, secam ente.
Nesse m om ento, um dos oficiais da Gestapo que m e interrogara entrou na sala para levar Mutti e os Reitsm a. Mutti m ais tarde contou que foram para casa e que ela levou o oficial da Gestapo até o banheiro e m ostrou-lhe a grande caixa de talco que estava na prateleira. Ele abriu o fundo do recipiente, e caiu tanto o talco com o todas as j oias que Mutti escondera ali — um relógio de platina, anéis de diam ante e braceletes e broches de prata e ouro. Não era pouca coisa, e o oficial pareceu satisfeito.
Por fim , a Gestapo trouxe Mutti de volta para a sala onde Pappy, Heinz e eu havíam os ficado esperando abraçados. Eles nos disseram que os Reitsm a poderiam ir, m as que nós seríam os transferidos para a prisão holandesa local.
Os alem ães não precisavam ter m antido a palavra em relação ao acordo que fizeram com m eus pais, m as m antiveram . Os Reitsm a foram deixados em paz depois e, com a aj uda do nosso estoque secreto de com ida, os três conseguiram sobreviver à guerra. Em alguns aspectos, por m ais surpreendente que pareça, os alem ães se com portaram de m aneira honrada.