A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
2 Amsterdã
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AMSTERDÃ
Alugam os um apartam ento m obiliado no prim eiro andar de um a praça de Am sterdã isolada e nova, Niew Zuid, 46 Merwedeplein. Em bora a vida estivesse cercada de incerteza e tem or devido à guerra, eu m e sentia m uito m ais contente e segura, porque estávam os novam ente j untos com o um a fam ília. Isso, para m im , era a única coisa que im portava.
Eu crescia rápido. Assim que chegam os à Holanda, Pappy colocou nós dois, Heinz e eu, encostados na parede do quarto e fez m arcas de lápis indicando nossas alturas.
— Vocês fizeram suas m arcas aqui agora — ele disse —, então este quarto é seu.
Quando ele m e m ediu, um m ês m ais tarde, fiquei contente ao descobrir que havia crescido um centím etro, e o m esm o acontecera com Heinz.
Meu irm ão e eu dividíam os o quarto dos fundos, que levava a um a pequena sacada com um a geladeira no canto. Um a vez por sem ana, o vendedor de gelo vinha e Heinz tinha de carregar um a enorm e pedra ensacada para colocar no chão da geladeira em que Mutti guardava leite, m anteiga, queij o e carne. Às vezes, saíam os escondidos no m eio da noite e pegávam os um a salsicha para um lanche noturno. Sentávam o-nos nas cam as m astigando, sussurrando e nos divertindo. Depois da form alidade da pensão, era m aravilhoso ter a própria casa.
Os m oradores da praça tinham de participar de exercícios antiaéreos e de com bate a incêndio; assim , Mutti e Pappy logo travaram am izade com outras fam ílias j udias. Havia um espírito de cam aradagem entre elas, com os vizinhos aj udando a m anter o ânim o alegre de todos. Pappy ficou bastante am igo de um vizinho, Martin Rosenbaum . Ele era um hom em bondoso, casado com um a cristã austríaca, Rosi. Os dois não tinham filhos, m as ele frequentem ente nos elogiava para Pappy.
— Que crianças adoráveis você tem , Erich — dizia —, e tão talentosas.
Isso certam ente era verdade quanto a Heinz. Mutti ficara contente ao encontrar um piano na sala do apartam ento. Ela e Heinz tocavam bem e, logo, Heinz com eçou a ter novam ente aulas de piano. Ele praticava exercícios de Chopin e depois tocava j azz, que tirava de ouvido. “Bei mir bist du sheyn, de novo e de novo, bei mir bist du sheyn significa que você é ótim o.” Eu adorava dançar pela sala enquanto ele tocava, fazendo de conta que estava num palco, enquanto Mutti ou Pappy m e aplaudiam .
Mutti descobriu um violoncelista e um violinista entre os novos conhecidos. Eles vinham ao apartam ento um a vez por sem ana para praticar m úsica de câm ara. Era dem ais para Pappy. Quando o violino estridente com eçava, ele dizia que ia “tom ar um pouco de ar fresco” e escapava para o apartam ento de Martin. Eu costum ava ver os dois saindo para passear.
Mais um a vez, fui m andada para a escola prim ária local e m e conform ei em ter de aprender outra língua. Era holandês, m as dessa vez foi m ais fácil, porque o flam engo que eu ouvia na Bélgica um a vez por sem ana era sim ilar. Pelo m enos eu podia entender um pouco: a m aioria das escolas prim árias holandesas ensinava francês e, a essa altura, m eu francês era quase fluente.
Tinha um lado ruim , porque eu pensava que era m elhor que a professora. Quando ela errava a pronúncia de um a palavra em francês — o que era frequente —, eu a corrigia. Sentia-m e m uito im portante, m as ela ficava furiosa e descontava em m im no resto das aulas. Ela era realm ente desagradável com igo, m as eu não ligava, porque isso m e dava bastante prestígio com o resto da classe.
A rotina diária em casa m e deu a segurança que não experim entava havia m uito tem po. Nas prim eiras noites da prim avera, eu podia ouvir o barulho das crianças brincando na praça lá em baixo. Parecia um lugar perfeito para brincadeiras — um a rua sem passagem no form ato de um triângulo, com um gram ado num a ponta e arbustos e árvores recém -plantados. Todas as crianças das redondezas se j untavam ali para se m edirem e brincar j untas.
Muitas fam ílias j udias viviam nessa área desde 1933, de form a que, a essa altura, as crianças j udias form avam panelinhas fechadas que tendiam a m anter afastadas as que chegavam . Eu ficava por ali, esperando que alguém viesse falar com igo, ansiosa para m e j untar, m as elas não m e queriam . Fiquei contente quando alguns dos m eus colegas da escola vieram à praça e perguntaram se podiam ser m eus am igos. Suponho que eu era um a novidade, m as em pouco tem po estava j ogando bolinha de gude com eles, riscando o chão para am arelinha ou pulando corda. Então Pappy com prou um a bicicleta de segunda m ão para que eu brincasse com o todas as outras crianças. Nos prim eiros m eses de 1940, enquanto circulava com as am igas usando o indispensável uniform e de capa azul e botas de borracha, por fim senti que realm ente fazia parte de algo. Com frequência, quando não estava chovendo, havia um núm ero suficiente de
crianças para form ar tim es para j ogar rounders.1 Era a m elhor parte, porque exigia a seleção de j ogadores e, com o eu era um a boa rebatedora e corredora, de repente todos queriam m e escolher, o que restaurou a m inha autoestim a.
Gradualm ente com ecei a recuperar m inha anim ação natural. A vida parecia estar m elhorando ao redor. Os pássaros cantavam nas prolongadas tardes de abril e, após voltar para casa quando as aulas acabavam , eu corria para a praça para brincar e entrar para a gangue. Às seis, m inha m ãe m e cham ava para j antar, m as eu sem pre relutava em ir em bora e protestava vigorosam ente — afinal de contas, algum as crianças continuavam na rua depois das oito! —, m as Pappy insistia para que eu estivesse em casa na hora da ceia. Ao contrário de Mutti, eu não era gentil e dócil: herdara o tem peram ento forte de Pappy e ele m e deixava m uitas vezes de castigo em casa por causa da m inha teim osia. Eu tinha tanto entusiasm o e energia que sem pre queria estar na rua, onde as coisas aconteciam .
Com o tem po, com ecei a construir am izades especiais. Desenvolvi um a sim patia por Suzanne Lederm an. Ela tinha lum inosos olhos violeta, pele de pêssego e grossas tranças escuras que chegavam ao m eio das costas. Eu m e m antinha ao lado dela o tem po inteiro, m as Suzanne queria ficar com duas m eninas anim adas cham adas Anne e Hanne. Esse seletivo grupo de três fazia tudo j unto. Nós as batizam os de Anne, Hanne e Sanne, porque form avam um trio inseparável, cada um a delas era um pouco m ais sofisticada que o resto de nós — estavam m ais para adolescentes. Elas não queriam participar dos nossos j ogos infantis e sentavam j untas nos observando e dando risadinhas dos m eninos, o que eu achava um a bobagem . Elas viviam folheando revistas de m oda e colecionando fotos de astros do cinem a.
Do m eu quarto, eu podia ver a j anela do quarto de Suzanne, e às vezes trocávam os m ensagens. Num a tarde quente de dom ingo, quando estava sentada com Suzanne na escada do m eu apartam ento, ela m e disse o quanto adm irava a am iga Anne Frank por ter tanto estilo.
Era verdade. Um a vez, quando Mutti m e levara para a costureira local para fazer um a m odificação num casaco, estávam os sentadas esperando nossa vez quando ouvim os a conversa dentro do provador. A cliente estava bastante determ inada a ter as coisas benfeitas.
— Ficaria m elhor com om breiras m aiores — podíam os ouvi-la falando num tom de voz assertivo —, e a barra devia ser um pouquinho m ais alta, você não acha?
Então a costureira concordou, e eu, sentada ali, desej ei poder escolher exatam ente o que queria vestir. Fiquei boquiaberta quando as cortinas se abriram e lá estava Anne, sozinha, tom ando decisões sobre a sua própria roupa. Era cor de pêssego, com ornam entos verdes.
Ela sorriu para m im .
— Você gosta? — perguntou, dando um giro.
— Oh, sim ! — disse, m al respirando de tanta invej a.
Eu não estava nesse nível! Anne parecia m uito m ais crescida do que eu, apesar de eu ser um m ês m ais velha. Ela estudava na escola Montessori local e estava um ano inteiro na m inha frente.
O apartam ento de Anne ficava em frente ao m eu, do outro lado da praça. Eu ia com frequência lá porque queria estar perto de Suzanne. Os Frank tam bém tinham um grande gato listrado que ronronava de satisfação quando eu o pegava no colo. Queria m uito ter um anim al de estim ação m eu, m as Mutti recusava com firm eza. Eu entrava na sala para acariciar o gato e encontrava o Sr. Frank m e observando com olhos curiosos. Ele era bem m ais velho que Pappy e m uito bondoso. Depois que percebeu que eu não falava m uito bem holandês, fez questão de conversar com igo em alem ão. A Sra. Frank fazia lim onada para as crianças, e nos sentávam os na cozinha, bebendo j untas.
Heinz havia desenvolvido um a atração por duas m eninas que viviam na m esm a praça. Um a, Ellen, era um a im igrante j udia com o nós, m as a outra, Jopie, era um a loira holandesa bonita. Eu ficava ressentida da atenção que ele dava às duas — na verdade, não gostava da ideia de o m eu irm ão dar atenção a outra garota qualquer. Fiquei bastante cium enta. Afinal de contas, eu era a irm ãzinha dele e tinha grande orgulho de Heinz, de seus dons m usicais e m ente brilhante. Exceto por isso, não havia m uita coisa m e incom odando. Era prim avera e eu adorava Am sterdã, onde finalm ente a m inha vida estava retornando à norm alidade.
10 de maio de 1940 — Invasão alemã na Holanda e na Bélgica Pensáram os estar em segurança vivendo na Holanda, e nos acom odam os desfrutando a nova vida. Então, para horror de todos, os nazistas invadiram o país.
Em 13 de m aio, m inha fam ília, com outros m ilhares de pessoas, foi para o porto tentar em barcar num navio para fugir para a Inglaterra. Ficam os na fila durante horas, m as em vão. Todos os navios ou j á tinham partido ou estavam lotados e, por fim , nos com unicaram que era tarde dem ais.
14 de maio de 1940 — A Luftwaffe alemã bombardeia Roterdã para forçar a capitulação da Holanda. Após cinco dias, a Holanda se rende
O país agora estava sob total controle dos nazistas. Havia soldados alem ães por todas as partes. Apesar de os alem ães anunciarem inicialm ente que nada m udaria, a cada sem ana eram divulgadas no rádio e em pôsteres novas regulam entações para nos restringir.
Hitler decretou que crianças j udias tinham de frequentar escolas j udaicas, a serem especialm ente abertas para elas. Não haveria perm issão para que se m isturassem com outras crianças em escolas holandesas e seria preciso encontrar professores j udeus, j á que os cristãos não tinham autorização para nos ensinar.
Até então, Heinz frequentara o liceu (escola secundária). Ele, então, teve de ir para a Escola Judaica, onde conheceu Margot Frank, irm ã m ais velha de Anne. Os dois ficaram bastante am igos e costum avam fazer j untos a lição de casa. Tinham m uito em com um — am bos eram academ icam ente dotados e am bicionavam ir bem nos estudos. Meus pais conseguiram arrum ar um professor particular para m im e eu frequentava a sua casa, com outras crianças, para continuar estudando.
Todos os j udeus agora tinham de estar dentro de casa antes das oito da noite e não podiam ir a cinem as, concertos ou teatros. Não tínham os perm issão para utilizar bondes ou trens. Só podíam os fazer com pras entre três e cinco da tarde, e som ente em loj as j udaicas. Todos os j udeus eram obrigados a usar um a Estrela de Davi (Magen David) am arelo-clara na roupa, para que fossem instantaneam ente reconhecidos.
Em 19 de fevereiro de 1941, quatrocentos j ovens j udeus de Am sterdam Zuid, com idades entre 20 e 35 anos, foram detidos. Em 25 de fevereiro, os sindicatos holandeses organizaram um a greve geral em solidariedade, e todos os transportes e serviços em Am sterdã foram paralisados por dois dias. Os alem ães am eaçaram fazer reféns e m atá-los se a vida norm al não fosse im ediatam ente retom ada. Mesm o assim , alguns bravos cristãos holandeses com eçaram a usar a estrela am arela em solidariedade a nós e para confundir os alem ães.
Mutti teve de com prar as estrelas para nossas roupas. Todas as peças externas deviam exibir um a estrela am arela.
— Jam ais tire o casaco se o vestido não tiver um a estrela — Mutti alertou-m e enquanto eu a observava costurá-las no casaco azul-m arinho e no vestido. — Se qualquer j udeu for parado e não estiver m ostrando a estrela, os alem ães o prenderão.
Com o passar do tem po, durante 1941 e 1942, com eçam os a nos sentir cada vez m ais am edrontados. Pappy agora estava em casa conosco porque fora im pedido de viaj ar até a fábrica em Brabant. Ele teve a ideia de produzir pequenas bolsas redondas de couro de cobra, e logo o negócio se transform ou num a florescente indústria caseira, em pregando outros que haviam perdido suas ocupações em função dos decretos nazistas. Com isso, obteve os m eios para nos sustentar e econom izar para um a época em que não m ais tivesse condições de trabalhar.
Pappy ia a m uitos encontros para discutir a deteriorante situação com outros j udeus. Um a noite, nos reuniu e avisou que poderíam os ter de ir para a clandestinidade. Ele achava que teríam os m ais chances se nos separássem os e fôssem os para dois esconderij os. Quando com ecei a chorar, Pappy explicou que era im portante para ele continuar com a linhagem da fam ília, que as pessoas atingiam um a espécie de im ortalidade por m eio das m em órias de filhos e netos, e que iríam os dobrar nossas chances de sobrevivência se nos separássem os. No m eio-tem po, ele iria adquirir docum entos falsos para quando fôssem os forçados a esconder a identidade j udaica.
Os holandeses haviam se organizado a fim de form ar grupos clandestinos de resistência para com bater os odiados alem ães. Pappy fez contato com eles e obteve docum entos falsos que nos identificavam com o verdadeiros cidadãos holandeses, e não j udeus, com nom es e background diferentes.
Mutti iria ser Mefrouw Bep Ackerm an, m as, apesar de m e lem brar do m eu novo nom e, Jopie Ackerm an, eu vivia esquecendo o local e a data de nascim ento falsos, e Mutti precisou ficar m e treinando.
Heinz, é claro, sabia de cor a sua parte. Nessa época, ele j á estava com 15 anos, era alto e tinha um a aparência um tanto j udia, o que o preocupava. Eu não precisava m e preocupar, porque nasci com olhos azul-claros, pele e cabelos claros, e assim eu parecia com qualquer outra m enina holandesa. Mutti era alta, com a postura elegante, de um a escandinava, e sua aparência tam bém não a com prom etia. Ela vendeu algum as j oias para ter um pouco de dinheiro im ediatam ente disponível.
Outra preocupação era a nossa saúde. Mutti e Pappy sabiam que, se fôssem os para um esconderij o, seria m uito difícil conseguir assistência m édica caso ficássem os doentes. Eu estava com um a forte dor de garganta havia várias sem anas, e foi decidido que seria preciso extrair as tonsilas.
Já era, então, perigoso dem ais para um j udeu ir ao hospital, j á que m uitos que deram entrada foram presos e tirados de lá. Um m édico local concordou em m e operar na sua clínica, onde fui am arrada a um a cadeira e inalei gás hilariante. O gás provocou um estranho efeito em m im . Quando com ecei a recuperar a consciência, sonhei que a sala estava em cham as e tudo ao redor queim ava. Acordei apavorada. Meus pais m e levaram para casa e fiquei de cam a por um a sem ana, sem conseguir falar e capaz de com er apenas sorvete. Mutti e Heinz foram m uito atenciosos, e Pappy falou que eu havia sido m uito coraj osa. Quando a garganta sarou e pude com er norm alm ente de novo, com ecei a m e desenvolver rápido e cresci, m ental e fisicam ente. Nenhum a das crianças na praça falava sobre os segredos das suas fam ílias. Nós confiávam os na capacidade de nossos pais de lidar com qualquer situação que surgisse. De todo m odo, eu não queria pensar m uito no futuro porque estava feliz do j eito que era. Não conseguia enfrentar o pensam ento de que poderia haver um a separação de Heinz. Eu o adorava e queria ficar com ele. Na verdade, queria que tudo continuasse igual, m as Mutti e Pappy sabiam que isso não era possível, e fizeram planos cuidadosos para o que sentiam que seria o desfecho inevitável da perseguição nazista aos j udeus.
Posso m e recordar de cam inhadas por ruas ensolaradas que com eçavam a parecer assustadoras. Lem bro-m e de Heinz voltando da escola um a tarde bastante agitado. Seu am igo Walter havia tirado a j aqueta porque era um dia quente e, com o não estava m ais usando a estrela am arela, hom ens das SS pararam os dois e prenderam Walter. Senti que um im enso m al estava prestes a nos engolfar.
1942 — Alemães avançam rumo a Stalingrado
Pappy alugou um a sala vazia num arm azém no Singel, ao longo do canal, onde colocou baús para serem enchidos com provisões para nosso esconderij o. A essa altura, a com ida j á era racionada, de m odo que tínham os de fazer os m aiores esforços para econom izar da nossa alocação sem anal.
Lem bro que eu tinha de carregar um pacote de papel m arrom . Heinz o colocara na m inha bolsa, aj udando-m e a prender a correia na cabeça, para que o volum e ficasse apoiado no m eu quadril direito. Era pesado para m im , com seis latas de leite condensado, seis latas de sardinhas, um pacote de arroz e um a lata de chocolate em pó. Observei Heinz encher sua m aleta escolar com latas de extrato de tom ate, um a garrafa de azeite, açúcar e algum as barras de chocolate. Mutti e Pappy tam bém preparavam pacotes de alim entos para pôr em suas sacolas.
Já estávam os na prim avera, abril de 1942, com botões am arelos e verde-claros cobrindo os galhos dos salgueiros e plátanos na beira dos canais. Mutti e Pappy andavam na frente, Pappy com sua pasta e Mutti carregando um a cesta; Heinz e eu íam os atrás, ao longo das ruas de paralelepípedos ao lado do canal, passando por pequenas pontes, na direção dos arm azéns. Minha bolsa era pesada, e o cadarço do sapato se desam arrou. Quando m e encostei num a parede de pedra para am arrar o sapato, as latas fizeram barulho e na m esm a hora fiquei terrivelm ente am edrontada. Mas Heinz estava ali para pôr a m ão em baixo da bolsa e estabilizá-la. Eu o adorei por isso. Era dom ingo, com poucas pessoas na rua, m as havia um m ercado m ais adiante, então fingim os que íam os para lá.
Assim que chegam os à porta de m adeira do arm azém , entram os rápido e subim os dois lances de escada até o nosso depósito. Pappy destrancou a porta e fom os descarregar os pacotes e as latas.
— Ponha os tom ates nesta m ala, com o azeite e o arroz — ele nos dava instruções com segurança —, e as sardinhas e o chocolate ali.
— Ponho o leite condensado com o chocolate em pó? — perguntei. Eram questões im portantes para m im , e eu queria aj udar de todas as m aneiras possíveis.
Após guardar as m ercadorias, nós as cobrim os com um pano e colocam os algum as bolas de naftalina por cim a. Iríam os retornar ali m uitas vezes. No fim , nossa reserva secreta de fato forneceu sustento para aj udar pessoas a sobreviver às terríveis privações da guerra — m as não nós.
Na m anhã de 6 de j ulho, o correio entregou um a carta para Heinz. Dava instruções para que se apresentasse com um a m ochila em três dias no velho teatro da vizinhança. Dali, seria enviado para um cam po de trabalho em algum lugar da Alem anha. Mutti ficou desesperada, m as Heinz tentou confortá-la.
— Eu vou, Mutti — ele disse com bravura. — Afinal de contas, m eus am igos tam bém vão estar lá. Henk, Marcel e Margot tam bém receberam as cartas, então nós estarem os j untos.
— Vai ser trabalho escravo — soluçou Mutti.
— Eles não vão m e m achucar se eu trabalhar duro — disse Heinz, olhando para Pappy em busca de apoio.
— Jovens serão úteis para eles — m urm urou Pappy —, m as acho que está na hora de sum irm os.
Em 24 horas, todas as providências necessárias foram finalizadas. Pappy e Heinz deveriam se encam inhar para um esconderij o separado. Tudo havia sido organizado pelo m ovim ento clandestino holandês. Mutti e eu iríam os para o endereço de um a professora, um a certa Sra. Klom pe, no lado da Am sterdam Zuid.
Passam os as últim as horas j untos com o um a fam ília. Quando chegou o m om ento da partida, m e agarrei ao m eu pai alto e belo.
— Pappy, não quero ir sem você — chorei. Não conseguia aceitar a ideia de m e separar dele novam ente.
— Evertj e, aj a com o um a m oça crescida agora — ele disse. — Você precisa cuidar de Mutti para m im .
Meus braços envolveram o seu pescoço e os m eus pés saíram do chão, enquanto ele m e beij ava. E então, quando m e pôs no chão, segurou os m eus om bros, olhou para m im com expressão séria e sussurrou, com o num a oração:
— Deus te abençoe e proteja. — De repente, senti um a grande força m e invadindo, parei de protestar e fiquei quieta.
Heinz ficou ao m eu lado, com lágrim as correndo pelo rosto. Ele as enxugou com as m ãos, m e abraçou e beij ou em adeus.
Lem bro-m e de ir em bora do apartam ento cam inhando com Mutti. Dessa vez, usávam os casacos sem estrelas am arelas, e eu nervosam ente segurava um a revista sobre o peito para esconder o fato de que não a estava portando. Dei um a olhada ao redor, na praça em que as crianças costum avam se reunir. Na luz m atinal, tudo parecia deserto e abandonado. Não pudem os dar adeus a ninguém , e estava preocupada com o fato de que as am igas sentiriam m inha falta à tarde porque não saberiam o que acontecera com igo. Nosso leiteiro afável estava parado com seu carro, m as virou a cabeça, fingindo não nos ver enquanto avançávam os apressadam ente pela praça.
Com pequenas sacolas nas m ãos, Mutti e eu cam inham os em silêncio por Am sterdã até a casa da Sra. Klom pe. Batem os na porta, que foi aberta por um a senhora de m eia-idade bem -vestida. Nunca a tínham os encontrado antes, m as ela disse em voz alta, para o caso de algum vizinho introm etido estar prestando atenção:
— Com o vão vocês? Que ótim o vê-las de novo. — E, sorrindo para nós, ficou repetindo: — Entrem ! Entrem !
Ela tentava não parecer conspiratória, m as assim que atravessam os a soleira fechou a porta rápido e nos levou para a sala da frente. Após servir chá, discutiu providências com Mutti e então fez um sinal para segui-la, subindo três andares até o sótão, que fora dividido em dois com partim entos. Um era um pequeno quarto, no qual eu iria dorm ir. O outro era um a sala, com arm ário, m esa e três cadeiras. Tam bém havia um sofá com desenhos floridos, onde Mutti dorm iria.
Descendo alguns degraus, havia um longo recinto, que era um banheiro, com um vaso sanitário na extrem idade. Nós não teríam os cozinha, usaríam os a dela, em baixo, e Mutti concordou em fazer j antar tam bém para ela.
— Vocês não podem usar o banheiro nem a cozinha quando eu estiver fora — ela alertou. — Se os vizinhos ouvirem qualquer barulho vão suspeitar. Tom em m uito cuidado para m anter sua presença aqui em segredo.
— Estam os seguras aqui? — Mutti perguntou.
— Os alem ães fazem buscas frequentes para encontrar j udeus escondidos — a Sra. Klom pe disse. — Eles são com o caçadores de rato determ inados a exterm inar parasitas — continuou, seca —, m as nós, do m ovim ento clandestino, estam os igualm ente determ inados a proteger os inocentes.
Ela sorriu para m im para m e tranquilizar, m as eu com ecei a sentir a nauseante contração do m edo no estôm ago.
Nessa m esm a noite, nosso contato na clandestinidade, um certo Sr. Broeksm a, nos visitou. Ele era um professor colega da Sra. Klom pe, os dois trabalhavam m uito próxim os. Sendo um frísio — um a dessas vigorosas pessoas am antes do ar livre, que participava de corridas de patins no auge do inverno por quilôm etros de canais congelados —, ele era um verdadeiro holandês com um forte antagonism o contra os invasores. Era inteligente, forte, confiável e, com o outros do m ovim ento clandestino, extrem am ente sagaz. Estávam os em suas m ãos e ele sabia do nosso perigo, m as confiávam os nele sem restrições.
Ele exam inou detalhadam ente nosso esconderij o e então deu o conselho de que ainda precisaríam os de outro lugar secreto dentro do local, onde pudéssem os nos esconder se houvesse buscas no quarteirão.
Naturalm ente, ele teve de organizar tudo. Encontrou um pedreiro e o trouxe na noite seguinte. Os dois foram até o nosso m inúsculo espaço para determ inar a m elhor m aneira de serm os escondidas. Eles enfim decidiram que o m ais seguro seria separar o vaso sanitário do resto do banheiro.
Os dois concordaram em fazer um a parede ladrilhada que teria um a espécie de alçapão, de m odo a poder ser fechado pelo lado da privada. Do lado de fora, sim plesm ente pareceria um a sólida parede ladrilhada. Isso significava que teríam os de passar por um buraco no alto toda vez que precisássem os usar o vaso, m as poderíam os nos esconder ali em casos de em ergência.
Todo o m aterial teve de ser encontrado e então levado para a casa à noite, pecinha por pecinha, m as os dois hom ens conseguiram com eçar o trabalho em duas sem anas.
No terceiro dom ingo de esconderij o, eles trabalharam o dia inteiro até quase ficar pronto. Só faltava ladrilhar o alçapão. Am bos estavam cansados, m as decidiram ficar até tarde para com pletar o trabalho. Quando pediram a Mutti para testar, ela escalou para dentro, sentou na privada e pôs o pesado alçapão ladrilhado no lugar, desaparecendo atrás de um a aparentem ente sólida parede.
Os dois se entreolharam satisfeitos e apertaram -se as m ãos. Quando Mutti reapareceu, os dois apertaram as nossas m ãos e partiram , contentes.
Eu estava dorm indo profundam ente à m eia-noite, e assim o barulho dos cam inhões na rua em baixo e das pesadas batidas na porta da frente penetraram m uito lentam ente no m eu sonho até eu retornar à realidade. Havia alem ães gritando lá em baixo “tem j udeus noj entos se escondendo aqui?”
— Mutti? — Aterrorizada, senti Mutti m e agarrando.
— Rápido, Eva, cubra a cam a com a colcha — ela sussurrou, tirando-m e da cam a e m e aj udando a alisar o pano o m ais rápido possível, para que não parecesse que a cam a tinha sido usada.
Correm os para o banheiro e nos apertam os no pequeno com partim ento da privada. Colocam os o pesado alçapão no lugar e esperam os na escuridão. Eu podia sentir Mutti sentada no vaso com as m ãos nos j oelhos, enquanto m e agachava ao seu lado.
Ouvim os o som das botas dos soldados batendo nas escadas estreitas ao lado do nosso com partim ento de m adeira. Eu m e encolhi, aterrorizada, o coração batendo tão alto que tinha certeza de que eles podiam ouvi-lo.
De repente, a porta do banheiro se abriu, e os alem ães entraram no recinto, gritando entre si. Houve um a pausa, e então escutam os passos pesados por toda a casa. Finalm ente, eles desistiram , e nós os ouvim os batendo a porta da frente.
Mutti puxou a m inha cabeça contra o rosto. Senti que ela chorava de alívio. Se tivessem vasculhado a casa duas horas antes, teriam nos encontrado. Deus no céu e nossos frísios haviam velado por nós.
Nota
1 Espécie de beisebol. (N. do T.)