A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
8 Minni
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MINNI
Logo cedo no segundo dia, com ecei a ter cólicas terríveis no estôm ago. Estava com um a diarreia m uito forte e precisava m e aliviar quase que im ediatam ente. Mal podendo m e segurar, fui até a kappo, no fundo do barracão, perguntar se podia ir às latrinas.
— Verfluchte Mistbiene, 2 não é sua vez — ela latiu para m im .
— Mas preciso ir! — Eu estava bastante desesperada.
— Você tem de esperar pela sua vez, com o todo m undo! — ela disse.
Não conseguia acreditar que ela se recusara a m e autorizar, e não sabia o que fazer. Tinha cólicas terríveis que m e faziam dobrar de dor e era im possível segurar por dois m inutos que fosse. Saí do barracão bem a tem po de m e agachar num canto do pátio.
Mas a kappo havia m e seguido e veio correndo para cim a de m im , levantando-m e e m e am aldiçoando.
— Sua j udia im unda! — Estapeou-m e na cabeça com toda a força, gritando: — É assim que vocês todas vão m orrer! Infectadas com disenteria e tifo, porque vocês, anim ais, não conseguem se controlar!
Ela agarrava m eu vestido com firm eza. A m ulher m e arrastou, batendo com força no m eu rosto, prim eiro no lado direito e depois no esquerdo, até os tím panos doerem e eu m e sentir ainda m ais doente.
— Aqui está um m au exem plo para vocês — ela gritava para as dem ais. — A ação im pensada dela vai transm itir doenças contagiosas a todas. Ela é um a típica espécie de vocês, porcas, e vam os puni-la!
Todas foram cham adas para fora para testem unhar m inha hum ilhação. Fui obrigada a pegar um banquinho de m adeira pesado, aj oelhar-m e e segurá-lo acim a da cabeça. Todas as integrantes do barracão tiveram de form ar um círculo ao redor. Quando eu abaixei para m e aj oelhar na terra, novam ente tive cólicas estom acais terríveis.
O calor ficou insuportável, com o sol batendo na m inha cabeça rapada, queim ando a nuca e as orelhas. Eu estava m orrendo de sede. Os braços doíam enquanto tentava m anter o banquinho acim a da cabeça. Quando eu cansava e tentava descansar um pouco, pousando o banco na cabeça para dim inuir a tensão nos braços, a kappo vinha e m e chutava. A agonia m e dom inava.
Mutti ficou bem na m inha frente, chorando. A face m ostrava que o seu coração estava quase se partindo de angústia com a visão do m eu sofrim ento. Mas, com igo aj oelhada ali no m eio da m ultidão, elas com eçaram a sussurrar palavras de encoraj am ento.
— Vam os, Eva!
— Não vai dem orar m uito!
— Não desista, Eva!
Mas nenhum a kappo ia ter a satisfação de m e ver desistir! De algum a m aneira, atravessei as duas horas seguintes até ouvir a voz da kappo:
— Isso vai te ensinar a obedecer as ordens no futuro!
O suplício acabara. Todas se reuniram ao redor e fizeram um grande alarido por eu ter sido tão coraj osa e forte — apesar de ser, segundo elas, tão j ovem . As m ulheres m e sustentaram , quase desm aiando, de volta ao barracão, e m e deixaram deitada no treliche o resto do dia. À noite, as cólicas estom acais haviam sum ido e eu m e sentia bem m elhor.
De início, pareceu que eu m e recuperara porque, durante algum tem po, m e tornei um a pequena heroína e isso serviu com o um a inj eção de ânim o. Muitas m ulheres sentiam um a falta tão desesperada de suas crianças que destinaram todo o seu am or m aternal para m im , e m e tornei um a m ascote.
Contudo, a doença tom ou conta do m eu corpo. Alguns dias depois, acordei trem endo de febre e com um a tem peratura tão alta que m al podia m e levantar. Mas sabia de tinha que sair para a Appel porque, de outro m odo, a contagem não bateria; se arrastaria por horas e seria m inha culpa.
Meus dentes batiam tanto que m al podia falar.
— Aj ude-m e, Mutti — gem i.
Ela m e ergueu, apoiando o m eu corpo no seu até sairm os. Franzi ficou por perto para aj udar a m e segurar e conseguim os nos posicionar na últim a fileira, para que, quando nenhum a m ulher das SS ou kappo estivesse por perto para ver, eu pudesse m e encostar na parede. Era o princípio da alvorada novam ente. A essa altura, eu estava apenas sem iconsciente. Um a ou duas vezes, aj oelhei-m e após Mutti ou Franzi avisarem que a m inha cabeça j á tinha sido contada. Durante o dia, fiquei pelo com plexo quase sem consciência do que se passava ao redor. No dia seguinte, ainda não m elhorara.
Qualquer prisioneira com febre alta era um a colega de cam a perigosa. As dem ais j á com eçavam a reclam ar que eu não deveria estar ali. “Leve-a para o bloco do hospital”, ficavam im portunando Mutti, m as eu m e recusava a ir. Apesar de ainda não ter m e defrontado com a realidade das câm aras de gás, j á percebera que o hospital abrigava as presas m ais vulneráveis para tortura e m orte. Havia m uitos rum ores circulando de que eram feitos experim entos com as pacientes, frequentem ente com os m ais dolorosos e nauseantes procedim entos.
— Não quero m orrer! — solucei. — Quero ficar com você, Mutti.
Enquanto estivesse ali, ela m e protegeria. Eu não parava de chorar pela doença e pelo m edo, m as as dem ais prisioneiras insistiam im placavelm ente e, sob certos aspectos, estavam certas.
— Você pode ganhar rem édios lá — falavam —, isso pode salvar sua vida, e não pôr fim nela!
Elas m antiveram a persuasão, porque eu tinha a aparência m uito doente, e tam bém m e sentia assim .
— Se não por você, faça isso por nós — disse Franzi, para colocar m ais pressão na argum entação.
Assim , no fim eu cedi e concordei em ir para o hospital. Todas suspeitávam os de que eu tinha tifo.
Mutti fez o pedido à kappo, dando-lhe o m eu núm ero e o seu próprio, para que pudesse m e acom panhar. Pelo sistem a, se alguém precisasse ir para o hospital, apresentaria o núm ero de m anhã e esperaria ser cham ada, bloco por bloco. Eu continuava trem endo e suando quando vieram m e buscar, m as consegui fazer a cam inhada de dez m inutos até o centro hospitalar m e apoiando no braço de Mutti. Pensei que iria desm aiar, m as perm aneci consciente o suficiente para fazer fila com as outras m ulheres que apareceram para receber “tratam ento”. Éram os um m iserável grupo de seres hum anos im undos e esfarrapados.
Em bora fosse sim plesm ente outro barracão, esse “hospital” parecia m uito m ais lim po que os dem ais. Tinha um certo ar de eficiência profissional. Enferm eiras em aventais brancos circulavam apressadas, e havia m édicos j udeus em j alecos brancos. Aj udantes m édicos vestiam os uniform es de listras cinza e azuis dos prisioneiros e pareciam lim pos e alim entados. A atm osfera era tranquilizante.
Enfim , surgiu um a enferm eira para encam inhar o próxim o paciente para o hospital. Ela era razoavelm ente alta, com um a com pleição robusta e cabelos longos. Pensei que tinha a face de um anj o. Era um a figura im provável naquele lugar e, em m eio às form as em aciadas ao redor, parecia um a am azona. Ela se m ovia com senso de propósito e, sem dúvida, estava no com ando.
Quando Mutti a viu, subitam ente deu um grito. Mesm o no m eu estado debilitado pude sentir a sua excitação.
— Minni! — ela gritou a plenos pulm ões.
A sólida figura da enferm eira virou-se para encarar a m inha m ãe.
— Fritzi! — ela gritou de volta, correndo na nossa direção e atirando-se nos braços da m inha m ãe.
Elas se abraçaram com força, rindo e chorando de alegria. Era Minni, nossa am ada prim a de Praga. Era um a sorte fantástica encontrá-la j ustam ente ali.
Mutti e Minni eram com o irm ãs, haviam passado m uitas férias j untas na infância. Minni casara-se com um fam oso derm atologista e, em bora estivesse em Birkenau havia vários m eses, conseguira obter um a razoável proteção devido à reputação do m arido por tratar alem ães com doenças cutâneas — e ela com frequência o auxiliara no trabalho.
Minni levou-m e para ver o m édico, ficando ali para se assegurar de que eu recebesse os rem édios certos. Ela concordou com ele que devia ser um ataque de tifo. Eu estava extrem am ente doente, m as m esm o assim Minni não queria que fosse internada no hospital.
Mutti am parou-m e de volta ao barracão. Nessa noite, quando nos alinham os para a Appel, houve trovoadas e chuva torrencial. Mutti m ais tarde confessou estar certa de que eu não sobreviveria à noite. Eu ardia de febre e delirava. Franzi aj udou a m e puxar e colocar no treliche, onde fiquei num sono induzido pelas drogas, com todas as hum ilhações e torturas das últim as sem anas apagadas da m ente.
E então, de m aneira surpreendente, quando acordei ao alvorecer para a próxim a Appel, m inha febre tinha desaparecido com pletam ente. Ainda m e sentia m uito fraca e instável, m as sabia que conseguiria sobreviver.
Todas ficaram contentes. Mutti exultou. Disse a m im m esm a que, se soubesse da m inha recuperação, Pappy iria se orgulhar. Ele era fanático por boa saúde. Não tinha paciência para quem fazia m uito barulho por causa de pequenas enferm idades. Pappy sem pre m e ensinara a ter coragem .
A doença fez com que eu apreciasse a sabedoria do m eu pai na m inha criação para ser forte e destem ida, porque após o episódio percebi que o m eu corpo era capaz de se recuperar, m esm o nas m ais adversas condições. A partir daí, tentei não fazer barulho por coisas desim portantes.
A recuperação m e deu um a nova visão da vida e aj udou a tornar suportável o insuportável. Disse a m im m esm a que dali em diante tudo dependia de m im . Estava determ inada a sobreviver à guerra, pouco im portando o que eles m e fizessem .
A essa altura, todas nós com eçávam os a perceber a verdade acerca do program a de exterm ínio e a nos dar conta de que a m orte esperava por nós no fim da linha. Ficam os face a face com a realidade da elim inação nos prim eiros dias da quarentena de três sem anas, na hora da Appel. Certa noite, um a guarda alem ã das SS aparecera segurando pela m ão um a angelical m enininha, cuj os longos cabelos loiros cacheados desciam até o m eio das costas. Sua j ovem m ãe, de cabeça rapada e com uniform e de prisioneira, ia atrás enquanto cam inhavam ao longo das fileiras de m ulheres em pé. A guarda estava bastante alegre encoraj ando a criança a contar as fileiras.
— Um a, duas, três, quatro e cinco em fila — a guarda repetia num a voz cantarolante.
A criança saltitava feliz, esforçando-se ao m áxim o para acom panhar a contagem , com todas nós paradas, com as cabeças voltadas para a frente e m al ousando um m ovim ento, com m edo de espancam ento.
Durante os próxim os dias, as duas apareceram constantem ente na Appel. Especulam os entre nós que a m ãe devia ser nam orada de um oficial das SS, o que explicaria o tratam ento preferencial. Jam ais descobrim os exatam ente o que aconteceu, m as, certa m anhã, ela e a filha não apareceram . Nunca m ais foram vistas no barracão, e logo espalhou-se o boato de que haviam sido “selecionadas” — o assustador eufem ism o para “m ortas”. Com eçam os, então, a perceber o quão vulneráveis todas nós éram os.
Agora que Mutti havia feito contato com Minni, sentia-m e m ais segura. De tem pos em tem pos, durante a quarentena, ela nos visitava com um pouco de com ida extra — um pedaço de pão preto, um a tigela de sopa aguada, às vezes até m esm o um a porção de queij o. Quando vinha nos ver, estávam os sem pre tão esfom eadas que com íam os na hora o que quer que ela trouxesse, ocasionalm ente guardando um pedacinho para darm os a Franzi. Havíam os descoberto que era inútil econom izar com ida para depois, porque invariavelm ente era roubada durante o sono ou num m om ento de desatenção. Todas viviam com fom e. Nem a im itação de café nem a sopa aguada tinham m uito valor nutritivo, ainda m ais quando divididas entre cinco. Mutti e eu concordam os que iríam os trocar parte da com ida dada por Minni pelas nossas próprias canecas.
Várias prisioneiras notavam Minni dando-nos com ida extra e ficavam ao redor, na esperança de ganhar um pouco. Na verdade, havia um a boa quantidade de com ida extra circulando, m as não para j udias. As prisioneiras polonesas podiam receber pacotes com alim entos de parentes ou da Cruz Verm elha. Às vezes, elas ganhavam algum bacon, queij o ou saco de açúcar. Eu ficava desesperada por algo doce para com er.
Certa m anhã, voltando das latrinas, vi algo branco e reluzente no chão.
É açúcar, pensei, abaixando-m e e colocando o dedo nas m inúsculas partículas brancas. Molhei o dedo para garantir que pegasse todos os m icroscópicos grãos. Foi a prim eira coisa doce que saboreei em sem anas.
Nota
2 Literalmente, maldita abelha de merda.