A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
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MUTTI
[Continuação da história de Eva]
Fiquei estupefata quando soube que Mutti continuava viva. Nos últim os dois m eses eu acreditara que ela havia m orrido. Com ecei a chorar. Franzi veio correndo e colocou os braços ao m eu redor, e todas na cabana olhavam para m im — até m esm o as kappos estavam sorrindo. Foi o único dia em que não atingi a m inha cota de cordas, m as ninguém falou nada.
Na sem ana seguinte, fiquei do lado de fora sem pre que possível, esperando ver Pappy e dar-lhe a notícia. Ele prom etera voltar logo e eu sabia que viria. Mal podia esperar para testem unhar a felicidade em seu rosto quando eu sussurrasse no seu ouvido: “Mutti está viva, Mutti está bem !”
Mas ele j am ais veio.
Com ecei a m e dar conta de que eu havia encontrado m inha m ãe, m as perdido m eu pai.
As geladuras nos pés pioravam . Os buracos nos dedos ficavam cheios de pus am arelo, e eu só conseguia andar m ancando. Franzi não parava de insistir para que eu fosse ao hospital. Eu sabia do risco, m as agora que recebera a m aravilhosa notícia de que Mutti estava lá senti-m e m ais inclinada a ir. Acim a de tudo, tinha a esperança de que poderia vê-la. Coloquei m eu nom e da lista para tratam ento m édico, sabendo que teria de esperar pelo m enos um a sem ana até chegar a m inha vez, j á que apenas dez ou doze pessoas eram vistas por dia. Exatam ente um a sem ana depois, na Appel m atinal, m eu núm ero foi cham ado, eu m e j untei ao grupo diário de doentes e m archei para o hospital.
Rezei para encontrar Minni quando chegasse e, para m inha felicidade, ela ainda era assistente do m édico. Eu a vi quando saiu para buscar a próxim a paciente.
— Minni! — cham ei-a com discrição.
Ela olhou, m as não m e reconheceu.
— Sou Eva! — disse-lhe.
Minni deu um grito e correu im ediatam ente para m e abraçar. Ela m e afastou um pouco para dar um a boa olhada em m im . Eu devia oferecer um a vista e tanto: a cabeça rapada, as bochechas rubras devido ao grande frio externo e dois sapatos esquerdos aparecendo em baixo do sobretudo m asculino que ia até os m eus tornozelos.
Minni ficou bastante feliz.
— Ela é m inha prim a. E não parece bem ! — disse ao m édico j udeu.
Minni perguntou se podia m e levar para ver m inha m ãe, e ele autorizou.
Ela pegou-m e pela m ão e conduziu-m e até o fundo do barracão hospitalar. O fedor — urina, carne decom posta e m orte — atingiu em cheio m inhas narinas. Vi fileiras e fileiras de treliches estreitos, com duas m ulheres em cada cam a. Minni levou-m e pelas fileiras e, de repente, apontou para o nível superior de um treliche. Ela m e deixou ali e voltou para a frente.
Pisei na cam a de baixo e m e ergui até a do alto.
— Mutti, Mutti! — cham ei.
Um a figura deplorável, com a cabeça rapada, ergueu-se e m e fitou, incrédula. Seu rosto encovado m urm urou “Evertj e”, e ela agarrou m inha m ão.
Lentam ente, e com m uita dor, m inha m ãe desceu da cam a do alto, e então m ais um a vez estávam os nos braços um a da outra. Ela estava quase m orrendo de fom e. As faces estavam secas, os olhos azuis haviam desbotado e afundado nas órbitas do crânio. Os braços e as m ãos pareciam finos com o papel e Mutti m al podia ficar de pé. Apesar de tudo, continuava viva.
Minha m ãe m e exam inou, m aravilhada.
— Querida, você continua forte! — sussurrou. — Graças a Deus parece um a m açã com essas bochechas verm elhas adoráveis.
Mas, quando abriu o sobretudo para ver m elhor, percebeu que tam bém não restava m uita coisa de m im .
Sentam os na ponta da cam a do nível inferior e ela contou com o Minni a estava protegendo ao m antê-la no hospital. Minha m ãe tinha um a febre constante e nenhum a força para o trabalho. Passava a m aior parte do tem po deitada. Contei todas as novidades; onde trabalhava, que vira Pappy novam ente e que ele m e contara que Heinz estava vivo. Era m aravilhoso saber que a fam ília se achava intacta nessas circunstâncias. Quando Minni voltou para m e buscar, nossos ânim os e fé em Deus haviam sido restaurados.
O m édico olhou para os m eus pés e diagnosticou geladura em estado avançado. Disse que eu deveria ser hospitalizada para tratam ento.
— Mas você terá de esperar sua vez.
Na saída, Minni colocou os braços nos m eus om bros.
— Prom eto fazer tudo para colocá-la aqui. Não vai dem orar. Então você estará em segurança com igo.
O tem po era um fator im portante. Dezem bro chegara, e com ele as piores nevascas e tem peraturas do ano. Finalm ente, os russos tinham posto os pés na Polônia e avançavam . A cada dia, os sons dos canhões ficavam um pouco m ais próxim os e, entre as nevascas, aviões alem ães e russos sobrevoavam a todo instante. A atm osfera no cam po tornara-se bastante instável, e o m oral da adm inistração se deteriorava. Os guardas estavam nervosos e o com portam ento em relação a nós vacilava entre a afabilidade e a fúria.
Com eçaram a circular entre os prisioneiros boatos de que os alem ães haviam tentado esconder as evidências dos cam pos de exterm ínio destruindo os crem atórios. Foi um trem endo alívio, em bora m al ousássem os acreditar que fosse verdade. De todo m odo, não nos iludim os. Sabíam os que ainda nos encontrávam os à m ercê dos nazistas, e havia m uitas outras m aneiras com as quais eles podiam nos m atar.
A fom e fazia vítim as todos os dias. Mulheres, exaustas em corpo e espírito, trabalhavam por todo o seu dia final, iam dorm ir e j am ais acordavam . Essa estava se tornando a form a m ais com um de m orte.
Ansiávam os pela libertação, m as o fim da guerra parecia longe dem ais para nós. Cada novo dia podia trazer a nossa m orte. Calor era um conforto esquecido. Não existiam provisões para calor ou roupas extras — exceto aquelas que se pegava das m ortas — e não havia com ida para nos aquecer. Até m esm o a sopa j á estava tépida na hora em que era distribuída. Tentávam os aguentar, m as não ousávam os ter esperança. Tínham os m edo de que, se os russos chegassem perto dem ais e os alem ães dispusessem de tem po suficiente antes de recuar, eles nos trancariam nos barracões e nos queim ariam vivas.
Enquanto isso, os alem ães com eçaram um a lenta evacuação do cam po. A cada poucos dias, hom ens e m ulheres das SS andavam ao redor dos barracões com kappos, pegando pessoas para serem evacuadas para outros cam pos. Não sabíam os se era um a coisa boa ou m á deixar Birkenau. Algum as m ulheres tentaram se m ostrar fortes e cheias de ânim o, a fim de serem escolhidas. Outras tentaram parecer pequenas e insignificantes, para não serem notadas. Agora que sabia que Mutti esperava por m im para j untar-m e a ela no hospital, a últim a coisa que queria era ser escolhida e transferida.
A redução dos nossos núm eros com eçou a ficar evidente. Dia sim dia não, outras trinta ou quarenta m ulheres eram tiradas do nosso barracão para serem transportadas de volta ao coração da Alem anha. A seleção ficava cada vez m ais restrita. Eu m antinha a cabeça abaixada, trabalhando e rezando, sem pre que as SS chegavam .
Até que um dia eles pararam atrás de m im .
— Vam os ficar com esta — disse um oficial das SS.
— Esta é um a criança protegida — advertiu a kappo. — Pode ser m ais sensato deixá-la em paz.
— Bem , então deixe-a — ele rosnou. — Levarem os a do lado, então. — Apontou para Franzi.
Ela foi rudem ente puxada pela kappo e ouviu a ordem para sair.
Franzi levantou os om bros e inclinou-se para m e dar um beij o de despedida. Eu a abracei com força. Ela fora um a com panhia constante e um a am iga querida. Fiquei olhando im potente Franzi se j untar ao grupo para ser transportada para um destino desconhecido. Tínham os sido reunidas por um cruel destino e não havia com o saber se algum dia nos veríam os de novo. Senti um a enorm e gratidão por tê-la conhecido. Ela m e inspirou conforto e coragem quando estive no fundo do poço, e agora partira em m eu lugar. Eu precisava ficar por causa de Mutti.
Nesse m om ento, sentada sozinha no banco com o lugar ao lado vazio, sabia que as orações de Pappy haviam sido m ais um a vez respondidas, e senti a m ão de Deus verdadeiram ente m e protegendo.
16 de dezembro de 1944 — Contraofensiva alemã, Batalha do Bolsão
Na terceira sem ana de dezem bro, na Appel, várias m ulheres foram cham adas por seus núm eros para ficarem de um lado. Ninguém sabia para o que seria. Cada vez que éram os separadas do grupo principal, esperávam os que algo pavoroso nos acontecesse, o sofrim ento de algum a punição insuportável por algum erro m enor. O últim o núm ero cham ado foi o m eu.
Fui para a frente e fiquei na linha com outras nove, observando, apreensiva enquanto as dem ais iam para o trabalho. Então, para m inha alegria, fom os conduzidas para o centro hospitalar.
Sabia que era crucial contatar Minni assim que possível, para que ela pudesse usar sua influência e m e reunir com Mutti. Ao chegarm os, ficam os de pé num corredor, esperando pela vaga em algum a cam a em que um a das ocupantes houvesse m orrido. Não tivem os perm issão para sair do lugar e esperam os por horas, sentadas no chão. As aj udantes andavam livres, e finalm ente j untei suficiente coragem para pedir a um a se ela podia encontrar m inha prim a, Minni.
— Minni? — exclam ou. — Que m ulher m aravilhosa! Ela era m inha am iga em Praga e aqui tam bém . Vou buscá-la para você.
Minni esperava por m im havia dias, m as estivera ocupada dem ais naquela m anhã para checar a lista de entradas. Ela, então, m e conduziu à seção da m inha m ãe, onde providenciou para que Mutti fosse colocada num a cam a vazia, e ali m e j untei a ela. Enfim estávam os j untas de novo.
Ficam os deitadas durante dias trocando carinhos. Com os sons de interm itentes canhões e sirenes antiaéreas com o pano de fundo, conversávam os em sussurros dia e noite sobre tudo o que nos acontecera nos m eses em que estivéram os separadas, os quais pareciam anos de tortura. Ao conversarm os, ficou claro que Minni, com a aj uda de Deus, salvara nossas vidas.