A história de Eva: Como a meia-irmã de Anne Frank sobreviveu ao Holocausto
13 A história de Mutti
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A HISTÓRIA DE MUTTI
Começo de outubro de 1944
Minha últim a im agem de Eva, enquanto eu era levada em bora com as outras m ulheres selecionadas, foi dela parada ali, nua, em lágrim as, com os braços de Franzi ao seu redor. Quando os guardas arm ados nos conduziram , senti que acabara de abandonar m inha filha no m om ento em que ela m ais precisava de m im . Jam ais m e senti tão desesperada.
Fom os levadas para um barracão no m eio de um pátio cercado por m uros. Eu sabia que o prédio fora usado para m anter prisioneiras acom etidas de
“kraetze”,3 um a doença cutânea altam ente infecciosa. Tam bém vi que agora era usado para abrigar as prisioneiras selecionadas para as câm aras de gás. Os guardas bateram as portas e as trancaram ao partir.
Estávam os agora nas m ãos de várias kappos j ovens, que nos entregaram cobertores para cobrirm os os corpos nus e trêm ulos. Ninguém falava e, apesar de perceber a m isericórdia que as j ovens sentiam por nós, todas sabíam os que não adiantava nada consolar um as às outras. Éram os cerca de trinta trancadas j untas. Não recebem os nada para com er ou beber. A única am enidade eram os dois baldes em cada extrem idade do barracão.
Estávam os com pletam ente exaustas e caím os nos colchões de palha com partilhados por todas. À noite, tive um sono interm itente, pensando na m inha vida até esse ponto e desej ando estar j unta de Erich e das crianças. Desej ei desesperadam ente que eles pudessem viver para desfrutar tudo o que a vida tem a oferecer, e que Eva tivesse perm issão para experim entar as alegrias do am or e da m aternidade. Se eu pensasse nisso quando m orresse, m inha força poderia ir para ela e seria m ais fácil aceitar a m orte.
Querido Deus, rezei, dê a ela essa oportunidade.
Durante a noite, algum as m ulheres choraram baixinho, outras gritaram , histéricas, por horas, perdendo com pletam ente a cabeça, batendo os punhos contras as portas até caírem de exaustão. Não tínham os água, com ida, roupas, nada. Pensei que deviam ter se esquecido por com pleto de nós. Havíam os sido trancadas para m orrer devagar, e algum as de nós ficavam deitadas im óveis, com o se j á estivessem m ortas.
Na m anhã seguinte, um a kappo apareceu e nos disse que podíam os sair para o pátio se quiséssem os, m as a m aioria preferiu continuar lá dentro.
Reconheci um a m ulher do grupo holandês que eu sabia ser m uito religiosa. Ela tentou reunir algum as das criaturas infelizes ao seu redor para rezar, m as só um as poucas aceitaram . Saí para o pátio e escutei vozes e gente m archando do outro lado do m uro, m as fiquei com a sensação de que esses barulhos faziam parte de um outro m undo. Quando entrei de novo, tentei conversar com algum as com panheiras, m as nenhum a respondeu. As horas se passavam m uito lentam ente, e quando escureceu tentam os de novo dorm ir e esquecer a sede, a fom e e a m iséria. À noite, ganham os a com panhia de aproxim adam ente m ais cem m ulheres, destinadas a com partilhar nosso destino.
Por volta do m eio-dia do segundo dia, as portas foram destrancadas e nos conduziram para o pátio, onde nos ofereceram um pouco de sopa aguada.
Por que eles estão fazendo isso?, lem bro-m e de ter pensado. Estamos prestes a morrer. Por que se incomodam em nos alimentar?
Algum as m ulheres acharam que a sopa poderia estar envenenada e, então, com eçaram a chorar.
— Bem , vou tom ar de qualquer j eito — eu lhes disse. — Que diferença fará? — E dei um passo adiante para pegar m inha cota.
Outras com eçaram a seguir o m eu exem plo e entraram na fila para a sopa. Não parecia haver nada de errado com ela, e nós bebem os com avidez, passando as canecas de m ão em m ão.
Im ediatam ente após a sopa, trouxeram e distribuíram roupas. Ninguém ligou para o que vestia, e eu encontrei um vestido de flanela escura com bolinhas brancas largo que descia até os m eus pés.
Um a Appel foi ordenada e esperam os para ser contadas. Algum as m ulheres estavam tão fracas que caíram de j oelhos, fazendo um a kappo gritar para se levantarem . Esperam os em silêncio, algum as m al conseguindo respirar.
Por fim , dois oficiais das SS entraram apressados no pátio e falaram com a kappo. Um deles tirou um a folha pequena de papel do bolso superior e entregou a ela. A kappo cam inhou pelas fileiras de m ulheres em aciadas e piolhentas, gritando dois núm eros do papel. Para m inha surpresa, vi que um deles era o m eu. Dei um passo adiante e estendi o braço tatuado. O m esm o fez outra m ulher.
— Venham conosco até o Dr. Mengele — ordenou um dos hom ens das SS.
A reputação de Mengele era bastante conhecida no cam po. As kappos, ansiosas para não poupar os sentim entos de ninguém , haviam contado todas as coisas m alignas que ele fazia. Disseram isso principalm ente para nos aterrorizar e intim idar, m as tam bém , suspeito, para se livrarem dos próprios sentim entos de cum plicidade e culpa.
Eu sabia que Mengele conduzia experim entos abom ináveis sem anestesia em m ulheres e que tinha particular interesse em usar gêm eos nas suas pesquisas pseudocientíficas.
— Se você é gêm ea, fique alerta, Mengele virá atrás de você! — as kappos falavam com desdém , acrescentando: — São eles que estão fazendo isso a vocês, não nós. Apenas obedecem os ordens.
Eu fiquei bastante perplexa. Não sou gêmea, pensei. Por que ele iria me querer?
A kappo m e em purrou para a frente com rudeza, bem com o a outra prisioneira, e fom os conduzidas pelas SS para um prédio vizinho. Fui de im ediato levada a um a sala, onde reconheci o Dr. Mengele sentado a um a escrivaninha. Ele ergueu os olhos para m im .
— Você. Tire a roupa! — ordenou.
Obediente, tirei o vestido e fiquei nua na sua frente.
Ele levantou-se e passou algum tem po inspecionando m eu corpo, andando devagar ao redor e olhando-m e de todos os lados.
— Você tem parentes neste cam po? — perguntou, sem pressa.
— Sim , m eu m arido e m eus filhos — respondi.
— Mais ninguém ? — tornou a indagar.
Eu, de súbito, m e dei conta de que deveria ter sido cham ada graças à intervenção de Minni, e que ele se referia a ela.
— Ah, sim ! Minha prim a Minni tam bém está aqui! — exclam ei.
Ele assentiu.
— Vista-se — falou secam ente, e m e m andou sair.
Fiquei esperando incrédula até a outra prisioneira — um a m ulher m agra e pequena com m ais ou m enos a m inha idade, que m ais tarde contou-m e ser francesa — sair. Juntas, fom os levadas, tropegam ente, a outro barracão e entregues à kappo no com ando.
A kappo deu-nos pão e café artificial, e depois tivem os perm issão para nos deitar num treliche, que estava vazio porque todas as m ulheres haviam saído para trabalhar. Minha com panheira, Loretta, e eu ficam os j untas, falando sobre nossa sorte e tentando adivinhar o que nos aconteceria em seguida. Minha esperança era que Minni viesse e m e levasse para o hospital.
Mas nessa m esm a noite, durante a Appel, a kappo do Bloco da Morte surgiu, gritando que precisava de duas para o seu “carregam ento”. Talvez por eu ser alguns centím etros m ais alta que as outras, a kappo m e avistou.
— Você! — a kappo se aproxim ou e encostou o dedo em m im . — Sua cavalona! Venha, e essa do seu lado. Vou levar vocês duas!
Não conseguia acreditar. Havia acabado de escapar, e agora, m ais um a vez, estava sendo sentenciada à m orte. Era o pior tipo de crueldade.
Loretta e eu logo estávam os de volta ao Bloco da Morte. Deitam os j untas num canto, esperando com as dem ais condenadas, subj ugadas pela fom e e exaustão.
Por volta da m eia-noite, ouvim os cam inhões encostando do lado de fora. Em seguida, o som de botas e cães latindo.
— Sau Juden, levantem -se e saiam ! — as kappos ordenaram , e todas soubem os que isso era o fim para nós.
As portas se abriram e vários soldados j ovens, alguns com fuzis apontados, form aram um corredor até o fim da fila de cam inhões.
Quando saím os do barracão, fiquei im pressionada pela lum inosidade da lua cheia. Ela brilhava através de um vasto céu lim po e banhava nossas peles pálidas com um a pura luz branca. A beleza noturna contrastava terrivelm ente com a cena horrenda à frente. Eu m e m ovia em silêncio na fila, sem protestar, na direção de um a oficial das SS sentada diante de um a m esinha com um a lista. Atrás dela, os cam inhões esperavam para nos levar às câm aras de gás. Prim eiro, contudo, era necessário conferir se a carga estava correta. Na alocação da m orte, com o em todas as coisas, os alem ães eram m uito precisos.
Resignadas com o destino, as m ulheres m oviam -se na fila com dignidade rum o aos cam inhões até que, subitam ente, um a prisioneira falou, com voz débil:
— Frau Obersturmführerin, sou filha de um oficial alem ão que caiu na Prim eira Guerra Mundial.
A oficial deu de om bros.
— Eu só tenho 16 anos — im plorou outra. — Por favor, m e poupe. Por favor, m e deixe viver.
Mas não havia nenhum a em oção na face da oficial, que continuava a checar as listas.
Esse é realm ente o fim , pensei, e Minni nem sequer saberá o que aconteceu. Ninguém pode m e salvar agora!
Loretta estava na m inha frente e, ao chegar à m esa, disse com ousadia:
— Frau Obersturmführerin, nós duas não devíam os estar aqui. Fom os tiradas de um outro bloco.
— É m esm o? — a oficial olhou para cim a. — Quais são seus núm eros?
— A/6893.
— E eu sou A/5271 — disse-lhe.
— De fato? — O lápis corria pelo papel.
Mortificada pela apreensão, esperei enquanto a oficial checava os núm eros. Ela fez um a careta e virou-se para a kappo.
— Essas duas m ulheres foram trazidas aqui separadam ente? — perguntou, furiosa com a contravenção das ordens.
— Eu tinha de com pletar os m eus núm eros. Precisava ter um carregam ento com pleto — a kappo pôs-se a lam uriar.
A m ulher das SS ergueu-se de supetão e agarrou a kappo, acertando-a com tanta violência que ela caiu hum ilhada no chão. Então, Loretta e eu observando, as portas do cam inhão foram fechadas e o m otorista recebeu ordem para ir em bora. Depois que o cam inhão partiu, fom os conduzidas para outro barracão.
Durante a m adrugada, o crem atório ardeu por m uitas horas, e cham as lançaram -se das cham inés para o claro céu noturno.
Nota
3 Sarna. (N. do T.)