A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 10 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo nove

 

Surinder não estava com a cara mais amigável quando foi abrir a porta, morrendo de sono...

– Fez boa viagem? – perguntou. – Por que voltou tão cedo?

Nina pensou em contar tudo, mas logo desistiu.

– É uma longa história – respondeu.

– Então vamos lá – falou Surinder. – Reservei o dia para ajudar você a tirar esses malditos livros daqui. Podemos começar?

– Bem – falou Nina, perguntando-se se daria tempo de fazer um bom café antes de encarar aquela confusão. – Tem um problema. É que... Bem. A questão é a seguinte: não posso estacionar a van aqui.

– Como assim?

– O pedido de licença foi negado. Aparentemente, a van é alta demais para Edgbaston.

– Ah, então foi por isso que você voltou tão rápido. Veio de avião.

– Não foi bem assim.

– Bem, pelo menos você não chegou a comprar a van. Mas, Nina! – Surinder pôs a xícara de café vazia em cima de uma pilha instável de romances de época, que ruiu no mesmo instante. – O que vai fazer com isso tudo?

No mesmo momento, com uma clareza ofuscante, Nina rebateu:

– Mas eu comprei a van, sim.

– Você não... O quê? – Confusa, Surinder olhou ao redor, derrubando uma coleção de George Orwell novinha em folha.

Nina estremeceu.

– Cuidado, olha o George!

– “Olha o George”? Nina, onde você estava com a cabeça? POR QUE fez isso? Por que não esperou conseguir a permissão de estacionamento antes de comprar a maldita van?

– Não sei. Só achei que fosse dar tudo certo.

– Por que deu o dinheiro sem saber direito o que estava fazendo?

– Já disse que não sei. Mas é que... eu achei que, se esperasse demais, ia perder a coragem.

– Nina...

Ela nunca vira a amiga tão furiosa. Lamentou estar tão exausta, pois já sentia as lágrimas nos olhos.

– Nina, eu tentei ser paciente. Tentei te ajudar quando algo dava errado e você comprava um livro, e algo ia bem e você comprava um livro, e chovia e você trazia alguns livros para casa, e quando fazia sol e aí você ia comprar mais livros. Mas...

Mais tarde, Nina concluiria (baseada mais na esperança do que na expectativa) que o tom esganiçado na voz de Surinder fora o que desencadeara toda a tragédia. Talvez não tivesse sido tudo culpa de Nina.

Porém, não era assim que se sentia no momento em que Surinder fez outro gesto exasperado e acertou o corrimão, que estava meio frouxo e ondulou ainda mais, deslocando uma pilha de livros no topo da escada. E assim, inevitavelmente, como um horrendo filme em câmera lenta, os livros derrubaram a pilha de baixo, que acertou a pilha seguinte, e a avalanche de exemplares veio rolando escada abaixo, atingindo, por sua vez, um grande vaso ornamental que tombou no chão com tanta força que chegou a causar uma pequena rachadura no teto do corredor, da qual se desprendeu uma nuvenzinha de poeira.

Tudo pareceu acontecer muito devagar. Nina ficou olhando o redemoinho de poeira descendo da rachadura no teto, dançando em um raio de luz, apenas uma minúscula nuvem branca. Mas, apesar do tamanho diminuto, ela sabia que aquilo fora a gota d’água. Olhou para Surinder.

E então o copo enfim transbordou. Ambas sabiam que aquele momento estava para chegar.

– Está bem – falou Nina. – Está bem. Eu vou embora.

 

Uma vez tomada a decisão – ou melhor, uma vez que Nina anunciou que iria se mudar e as duas amigas se acalmaram –, Surinder ficou triste de verdade. Já fazia quatro anos que elas dividiam aquela casa, e foram quatro anos bem felizes, no geral. Surinder aceitou o pagamento pelo aluguel do restante do mês para custear o conserto do teto, mas torrou parte dele em duas garrafas de espumante e um saco imenso de doce, e as duas passaram a noite sentadas na sala conversando.

– Onde você vai morar? – perguntou Surinder.

– Não sei – respondeu Nina. – Acho que não é muito caro por lá. Com certeza é mais barato do que aqui, o que é ótimo, já que eu não vou ter dinheiro.

– Quanto vai cobrar pelos livros?

– Depende. Acho que vou dar o preço de acordo com a pessoa que for comprar.

– Acho que isso não é permitido – comentou Surinder. – Será que você não vai esquecer que é bibliotecária? Acho que corre o risco de sair distribuindo os livros de graça...

– Acho que isso vai passar assim que eu me vir sem dinheiro para comer – falou Nina, enchendo a mão de ursinhos de gelatina.

– Já contou para a sua mãe?

Nina fez uma careta. A mãe vivia preocupada por besteira. Em geral, o alvo da preocupação era o irmão mais novo de Nina, Ant, o que era conveniente.

– Assim que estiver no endereço novo, eu mando um e-mail para ela.

– Vai se mudar para outro país sem contar para a sua mãe?

– Com você falando desse jeito, parece uma coisa horrível.

– Eu sei.

Surinder via a mãe quase todo dia e era raro chegar em casa sem uma marmita com alguma comida muito deliciosa, e achava que Nina tinha um relacionamento muito suspeito com a mãe.

– Está bem, está bem, vou falar com ela – cedeu Nina. – Mas preciso de um tempinho para me situar. Tudo está acontecendo rápido demais.

Surinder se inclinou para a frente e completou as taças.

– Você já pensou – disse, em um tom conspiratório – no tipo de pessoa que tem lá?

– Gente velha – respondeu Nina na mesma hora. – Eu sei, já os conheci.

– Não! – falou Surinder. – Não, não é disso que estou falando. Lá só vai ter homem!

– Ah, é?

– É claro! Fica no meio do nada. Quem vive lá? Fazendeiros. Veterinários. Talvez tenha uma base militar por perto. Aventureiros. Praticantes de mountain bike.

– Acho que eu não me daria bem com alguém que faça mountain bike. Não sou muito fã de atividades ao ar livre. Além do mais, ciclistas sempre se vestem de maneira meio estranha.

– É só um exemplo. Geólogos. Estudantes de agronomia. Arboristas. Homem homem homem! Você vai estar em total desvantagem numérica.

– Acha mesmo?

Na biblioteca só havia dois homens – Griffin e o velho Mo Singh – para oito mulheres. E na nova sede havia umas quarenta mulheres, jovens em sua maioria. Nina sabia disso por causa do e-mail muito animado que recebera de Griffin.

– É claro! E aqui quase não tem homens!

– Isso nunca prejudicou você.

Surinder revirou os olhos. Sempre havia vários homens interessados nela, e era ela quem não via graça neles, reclamando que eram todos urbanos demais e que não gostava de barba.

– Não estamos falando de mim – retorquiu a amiga, fazendo um gesto. – Você vai ver. Vai ter homem para todo lado.

– Não estou indo para lá por causa dos homens – argumentou Nina –, e sim por causa dos livros.

– Mas você bem que não vai achar ruim se aparecer um ou outro carinha no seu caminho, não é?

– Eu já disse, todos os caras lá têm uns 102 anos e moram no pub. E pare de assobiar a música de Outlander para mim!