A pequena livraria dos sonhos
Capítulo vinte e dois
O livro dos furiosos. Nina quase riu ao ver o título, porque era exatamente daquilo que estava precisando: um tomo imenso cheio de histórias de vingança, desde a aplicação de prata derretida nos olhos de um ladrão até a criação de uma frota pirata.
“Não estou nem aí”, pensou. “Não estou nem aí para ele.” Mas queria ver Marek de novo, beijá-lo ao luar mais uma vez.
Suspirou e olhou o relógio. Edwin e Hugh estavam atravessando a praça e logo se sentaram para tomar uma cerveja ao sol. Nina acenou, e os dois acenaram de volta, alegres, perguntando se ela não queria se juntar a eles. Nina não sabia como explicar que não podia beber porque a) teria que dirigir a van, b) ainda eram oito e pouca da manhã. No entanto, sabia o que os dois queriam de verdade, e pegou a mais recente e labiríntica saga indiana. Hugh tinha tomado gosto por aqueles livros. Na verdade, era a forma que ela encontrava de agradecer por tudo o que Edwin e Hugh tinham feito, pela ajuda na compra da van. Hugh sempre insistia em pagar, e Nina, que sempre tirava de antemão a etiqueta de preço, comprimia os lábios e dizia: “Olha, Hugh, esse aqui custa 1,50.” Ele fazia cara de desgosto, e ela oferecia um desconto ainda maior, que Hugh sempre recusava de forma galante. Então os dois sempre pagavam uma pechincha pelos livros, e Nina sempre agradecia. Logo, todos saíam felizes.
Àquela hora do dia, Ainslee costumava chegar de fininho. Todo santo dia, Nina a recebia com satisfação e um sorriso amistoso, mas a garota ainda agia como se fosse indesejada, e se esgueirava pelos cantos até chegar à van, quase como se estivesse tentando se esconder. Mas, naquela manhã, ainda não havia chegado.
Outra pessoa apareceu. Uma pessoinha ensebada e malcriada, de short, camiseta surrada e joelhos cheios de casca de ferida. O irmão mais novo de Ainslee.
– Ben?
O menino fungou. Havia catarro seco ao redor do seu nariz e escorrido na camiseta imunda. Ele foi na direção de Nina de forma desafiadora.
– Ainslee não vai vim hoje.
– Por que não?
– Ela... sei lá.
Nina franziu o cenho.
– Tem a ver com a escola?
– Aham.
– Ela está nervosa com as provas de conclusão do ensino médio?
Ben balançou a cabeça.
– Não. Disseram que ela não vai poder fazer as provas. Então ela tá toda triste e tal. Não sei por quê. Prova é uma droga.
Nina olhou ao redor. O mercado ainda não estava muito cheio. Por causa de seu mau humor, acabara levantando cedo demais depois da noite mal-dormida. Bocejou. Só havia uns senhores passeando com o cachorro e umas mulheres examinando as hortaliças.
– Por que Ainslee não vai poder fazer as provas? Isso é terrível. Ela é uma menina tão inteligente.
Ben deu de ombros.
– Sei lá.
Nina hesitou, indecisa.
– Está bem – falou, por fim, lembrando-se da reação apavorada de Ainslee quando ela tentara descobrir alguma coisa sobre sua vida. – Está bem. Muito obrigada por ter vindo me avisar.
Ben foi ficando por ali. Nina notou que o menino olhava para dentro da van, para os pufes vermelhos e amarelos. Ela esperou um pouco.
– Quer entrar?
– Nem.
Silêncio.
– Ok – disse Nina.
Mesmo assim, Ben não parecia muito inclinado a ir embora.
– Acho que vou sentar aqui fora, nesse degrau – comentou Nina, com delicadeza. – Aproveitar o sol. E talvez ler um pouco.
Ben fungou.
– Hum – fez ele.
Nina estava prestes a perguntar se o menino não tinha que ir para a escola, mas depois imaginou que ele devia ouvir essa cobrança o tempo inteiro, então não falou nada. Em vez disso, pegou um exemplar de Entre os telhados – tinha vendido todos, menos dois, incluindo aquele, que ficaria para ela – e foi se sentar no degrau, lembrando a sensação que sempre tinha ao ler aquele livro quando criança: a certeza absoluta de que era só encontrar o pombo mágico, usar a Catedral de St. Paul como referencial e não esquecer que “Sorte no norte, teste no oeste, azul no sul e sempre teremos o leste”, e tudo sempre acabaria bem no final.
– “Sempre teremos o leste” – narrou ela, em voz alta, olhando com atenção para Ben.
O menino ainda estava com um olhar de indiferença, mas não tinha se afastado.
Hattie, uma mulher do vilarejo que tinha quatro filhos com menos de 5 anos e que fazia, de vez em quando, uma convincente cara de “me mate, por favor” se aproximou.
– Céus! Hoje você chegou cedo! – comentou Hattie, alegre.
– Você também – observou Nina.
– Está brincando? São quase oito e meia, já faz quatro horas que estou de pé. Para mim, já é quase hora do almoço... Euan! Para com isso! Deixa o cachorro em paz! Tildie! Tildie!
No carrinho, os gêmeos soltaram um urro cacofônico. Hattie estava sempre coberta por uma camada de farelos, e aquele dia não era exceção.
– Vai ter contação de história agora?
Hattie estava sempre tentando convencer Nina a fazer uma sessão de contação de história que envolvesse deixar as crianças ali sozinhas, mas Nina se recusava terminantemente, murmurando “Segurança em primeiro lugar” como se fosse um feitiço de proteção, até que um dia Hattie respondera, triste: “Bom, eu não me incomodaria se você perdesse um deles, sabe? Tenho filhos de sobra”, e rira com certo tom de desespero na voz.
Nina olhou para ela e afirmou:
– Posso contar uma história, mas você precisa ficar aqui.
– Me dá só um descansinho? É só o que eu peço. Só um descansinho de nada, umas férias de míseras 48 horas em Nova York?
– Queria muito que isso estivesse ao alcance dos poderes mágicos literários – falou Nina. – Na verdade, o que eu posso fazer é recomendar um romance água com açúcar bem opulento, se quiser. Pode ajudar.
– Sim! – exclamou Hattie. – Lerei durante o meu tempo livre, uns dois segundos por dia. Que costuma ser só o tempo que eles levam para descobrir que me tranquei no banheiro.
Nina voltou a se sentar e começou a ler Entre os telhados em voz alta. Os gêmeos se aquietaram no mesmo instante – não por serem capazes de acompanhar a história, mas porque a cadência tranquila de alguém lendo uma história sempre exercia um efeito transformador em bebês. Griffin tinha uma teoria de que as crianças haviam sido moldadas pela seleção natural a ouvir histórias, porque isso impedia que saíssem vagando pelas florestas, onde seriam comidas por mamutes cabeludos.
E assim, enquanto as três crianças da história se viam trancadas no alto do prédio em que moravam, após subir os mil degraus, Nina notou que o mal-ajambrado Ben vinha se aproximando cada vez mais, até que estava sentado bem na frente dela, de pernas cruzadas.
Ao fim do capítulo, Nina fechou o livro, para lamento de todos, sobretudo de Hattie.
– Eu amo esse livro – comentou ela. – Obrigada. Dez minutos de paz e tranquilidade. Acho que foi o meu recorde da década.
Nina sorriu. As crianças começaram a pedir mais.
– Ah, ótimo! – exclamou Hattie. – A padaria abriu. Vou lá arranjar uns doces para essas crianças. Quando elas estiverem todas lambuzadas, vai ser hora do banho. Isso vai me levar até nove e meia da manhã. Só para saber, a título de curiosidade, que horas já é aceitável abrir o vinho do jantar? Não, melhor: e o vinho do almoço?
– Até mais tarde – falou Nina, sorrindo enquanto tirava o livro, com muita paciência, das mãozinhas grudentas das crianças.
– Eu quero um. Vou levar – pediu Hattie.
Depois disso, só restaria um único exemplar. Nina olhou bem para Hattie.
– Eu preciso desse livro – acrescentou a mulher.
– Está bem – cedeu Nina, vendendo o exemplar já com certo arrependimento.
Ficou observando a família se afastar fazendo barulho, algum bebê chorando.
– Mas o que acontece depois? – perguntou uma voz fininha aos pés dela. – O que mais?
Nina olhou para baixo.
– Ah, várias coisas acontecem – respondeu.
Ben fez bico.
– Eu quero saber. Tem filme?
– Tem, sim. Mas é muito ruim.
– Por que é muito ruim?
– Na verdade, a culpa nem é do filme – explicou Nina. – Mas quando a gente assiste a um filme, sente que está vendo o que acontece. Sabe como é?
Ben assentiu.
– Isso é uma coisa. Mas ao ler um livro, a gente sente que está vivendo dentro dele.
– Que nem em jogo de computador?
– Não, não é que nem em jogo de computador. Jogos são legais, mas, no fim das contas, você continua vendo coisas na tela e apertando botões. Ler é existir na história.
Ben franziu os olhos, pensando.
– É como estar lá de verdade?
– É como estar lá de verdade. Você se conecta direto ao cérebro do escritor. Só você e ele. Você vivencia o que ele vivencia.
Ben ficou apenas olhando para Nina durante um tempo, depois arrastou os pés no calçamento. Fez-se uma longa pausa.
– Parece que nem é ruim.
Sentindo que precisava de mais café, Nina foi buscar a garrafa térmica. Na volta, trouxe Vamos caçar urso e perguntou a Ben:
– Quer dar uma olhadinha?
Ben olhou de esguelha para a praça, para conferir se ninguém estava olhando para ele e se não havia nenhum menino por ali, e depois deu de ombros.
– Tá bem.
– Ora, então venha se sentar aqui.
O dois ficaram sentados nos degraus, aproveitando o sol da manhã. Aos poucos, com muito esforço e muita reclamação de Ben, leram o livro até o fim.
Ao terminar, os dois se levantaram. Parecia que Ben estava prestes a agradecer.
– Aonde você vai agora? – perguntou Nina, com muito cuidado. – Vai voltar para casa?
Ben deu de ombros.
– Talvez.
Ah, céus. Nina pensou mais uma vez que o melhor a fazer seria chamar o serviço social. Ou falar com alguém. Mas Ainslee tinha implorado...
– Sabe, você podia ir para a escola – falou ela, da maneira mais delicada que pôde, como se Ben fosse um bichinho tímido capaz de fugir a qualquer momento. – Sabe... pode ser legal.
– As crianças são más comigo – confessou Ben. – Elas me chamam de sujismundo.
Não dava para negar que o menino estava sempre imundo. Nina suspirou. Daria um dinheirinho extra a Ainslee, sugerindo que ela comprasse uma camiseta nova para o irmão.
– Você poderia se limpar ali no café – sugeriu. – Sei que eles deixariam. E depois poderia ir para a escola. É só ignorar as outras crianças. Quem liga para elas?
– Eu odeio a escola – reclamou Ben. – É só um lugar idiota com gente dizendo coisas idiotas e mandando você comer verduras.
– É, eu sei.
Ficou olhando enquanto o menino atravessava a praça – ele entrou mesmo no café –, e logo outro freguês apareceu. O fazendeiro McNab vinha uma vez por semana para comprar uns quatro faroestes espaciais – ainda bem que havia muitos nas caixas de Nina, porque era um subgênero bem limitado, sem muita previsão de novos lançamentos. Tentou indicar livros de faroeste de verdade ou óperas espaciais, mas ele não queria saber de nada daquilo. Por isso, tinha mandado um e-mail para Griffin e estava varrendo a internet desesperadamente em busca de qualquer livro que tivesse um caubói de capacete espacial na capa. Quando terminou de conversar com o Sr. McNab sobre como se domava um cavalo marciano (resposta: usando rédeas de nêutrons), tinha perdido Ben de vista.
Ficou preocupada a manhã inteira, enquanto atendia uma longa fila de clientes, muitos dos quais já haviam se tornado habitués, para a felicidade de Nina.
– Isso tudo é culpa sua – acusou a Sra. Gardiner, brandindo um calhamaço de livro, uma saga sobre uma mulher nativo-americana que voltava no tempo magicamente e ia parar na corte do rei Henrique VIII, que logo tentava transformá-la em sua sétima esposa; era uma trama arrebatadora. – Você me viciou nesses troços!
– Que ótimo – respondeu Nina, mas ainda estava pensando em Ben quando Surinder apareceu para irem almoçar.
– A sua sorte... – começou Surinder, vendo Nina lutar contra as pálpebras pesadas.
Estavam no pequeno jardim do pub, comendo cullen skink, uma sopa cremosa feita de peixe que tinha virado a obsessão das duas, acompanhada de pão rústico. O salmão defumado da região era tão diferente da coisa oleosa, borrachuda e cara que Nina costumava comprar muito de vez em quando em Birmingham que quase chegava a ser uma comida completamente diferente.
Pegando sol e com meio copo de michelada na sua frente, Nina sentia o mau humor começando a se dissipar.
– Qual é a minha sorte? – perguntou. – Porque não estou me sentindo muito sortuda hoje.
– A sua sorte é que pode encerrar o expediente por hoje, não é? – falou Surinder. – Já vendeu bastante. Pode ir para casa tirar uma soneca.
Nina nem tinha pensado nisso. Trabalhava o dia inteiro, talvez por hábito – sem mencionar que não conseguia fechar a loja enquanto houvesse a mais remota chance de fazer uma última venda. Depois de tantos anos trabalhando na rede pública de bibliotecas, estava surpresa ao notar que tinha, afinal, muito interesse nos aspectos administrativos de seu pequeno negócio: tentar estratégias diferentes, fazer controle de estoque e, é claro, encontrar o livro certo para cada pessoa. Era a mesma alegria que sempre sentira como bibliotecária, mas, de certa forma, o sentimento se intensificava por saber que as pessoas poderiam ficar com os livros para sempre.
– Até parece – comentou Nina.
– Ué, e por que não? Já não fez o suficiente por hoje?
De cenho franzido, Nina explicou tudo sobre Ainslee e Ben.
– Ai, meu Deus. Se eu fosse você, denunciava.
– Mas Ainslee me implorou que não fizesse isso.
– É, mas você não sabe o que acontece naquela casa – rebateu Surinder. – Pode ser algo muito, muito horrível. Pode ter um padrasto perverso fazendo coisas impensáveis. Ela pode estar sofrendo de síndrome de Estocolmo ou algo assim. As crianças são esquisitas quando se trata dos pais. Elas os defendem a todo custo, mesmo que o lar seja completamente disfuncional.
– É verdade.
– Então, ontem à noite... – começou Surinder, e deixou a frase pairar no ar.
– Argh – gemeu Nina, deixando a cabeça pender para a frente. – Ai, meu DEUS.
E contou tudo a Surinder.
– Hum – fez a amiga. – Bem, o Lennox até pode estar certo. Quer dizer, é verdade. Por que Marek não convidou você para fazer um programa normal?
– Lennox é um babaca que gosta de julgar a vida alheia.
– Ou o Marek está mesmo enviando todo o dinheiro para a família. – Como Nina não respondeu, Surinder prosseguiu: – Ah, Nina, por favor, né? O que esperava que fosse acontecer? Achou que o Marek fosse apenas arrebatar você nos seus braços fortes e másculos?
Nina continuava sem querer responder.
– Achou que ele fosse pegar você de jeito ali mesmo, no chão da cabine do trem? – continuou Surinder.
– Qual é a necessidade de ser tão explícita?
– Ah, mas era isso mesmo que você estava pensando!
– Já faz séculos, Surinder! SÉCULOS!
A amiga riu, balançando a cabeça.
– Suas fantasias estão saindo do controle.
Nina sentiu o rosto ruborizar.
– Eu sei.
– Quer dizer, nada disso é de verdade, não é mesmo?
– Não – retrucou, lembrando-se dos lábios macios dele, do olhar de surpresa em seu rosto. – É de verdade, sim. Tudo o que eu quero é um pouco de romance na minha vida. Qual o problema?
Surinder deu de ombros.
– Tem romance de sobra aqui. Essa cidade tem cinco homens para cada mulher. Tem milhares de sujeitos para você escolher. Só você mesmo para se apaixonar pelo único que passa por aqui no meio da noite e não pode parar. Isso não tem nada a ver com Marek. A questão aqui é você.
Nina sentiu o rosto assumir uma expressão desafiadora.
– Rá! – exclamou Surinder. – Você gosta de bancar a fraquinha, mas por dentro é turrona como uma mula.
– Por dentro, todo mundo é diferente do que parece – argumentou Nina.
– Eu não sou – rebateu Surinder, e Nina foi obrigada a admitir que talvez a amiga estivesse certa.
– Escuta – falou Surinder, em um tom que fez com que Nina levantasse a cabeça. Já quase podia adivinhar as palavras seguintes. – Então. Eu preciso voltar. Dessa vez eles vão me demitir de verdade se eu ficar mais tempo aqui.
As duas tinham saído do pub e estavam voltando para a van. De repente, Nina se sentiu tomada pela exaustão e estacou no meio da rua.
– Não! – protestou. – Tem mesmo que ir?
– Hã, desde que cheguei aqui, só comi torrada e peguei no seu pé. – Essa observação tinha um grande fundo de verdade. – Preciso voltar ao trabalho. Além do mais, estou me sentindo culpada de ficar aqui de pernas para o ar enquanto você se empenha tanto na livraria.
– Foi maravilhoso ter você aqui. Mas e o cara do nome que termina em “gus”?
Surinder abriu um sorrisinho.
– Bem, é bom saber que ele vai continuar aqui. Mas também é bom saber que eu fiz isso, sabe? Que eu consegui atrair um cara de quem eu realmente gostei, para variar um pouco.
Estavam chegando ao topo da colina, e avistaram a fazenda lá embaixo, com as antigas paredes de pedra pintadas de dourado pelo sol.
– Vou sentir saudade daqui, de verdade – acrescentou Surinder. – Sabe, você é muito sortuda.
– Acha mesmo?
– Acho, sim – respondeu Surinder. – Acho que você conseguiu descobrir o que fazer na vida e o lugar onde fazer. E a maior parte das pessoas não dá essa sorte. Nem de longe.
– Mas me sinto tão sozinha aqui…
– Todo dia você faz novos amigos – argumentou Surinder. – Mas vê se me faz o favor de não ficar apostando em homens fantasiosos, está bem? Vá conhecer uns de carne e osso. Não é como se isso estivesse em falta por aqui.
Nesse momento, viram Lennox atravessando o campo, não muito longe dali.
– Você até poderia tentar se entender com o seu senhorio gato – sugeriu Surinder.
– Ele não é gato! – protestou Nina.
– Vejamos: 1,90 metro, cabelos ondulados, um corpo fino e esguio do jeito que eu sei que você gosta, músculos definidos, olhos azuis, maxilar de Super-Homem... – Surinder ia ticando nos dedos enquanto enumerava as qualidades dele. – Salva filhotinhos, anda por aí com passos másculos, tem um celeiro chique. Não, é verdade, não tem nada de gato nesse cara.
– Ele não é gato porque é um babaca – explicou Nina.
– Bem, aquele menino de quem você gostava na escola também – lembrou Surinder.
– Em primeiro lugar, eu era muito nova, e em segundo lugar, ele está preso hoje em dia!
– Isso só mostra que estou certa.
De volta à casa, Nina ficou olhando Surinder fazer as malas. No fim das contas, não conseguiu se conter:
– Você... o Marek também vai te dar uma carona de volta?
– Vá tirar a sua soneca! E não, eu não vou pedir nada a ele, porque eu, ao contrário de certas pessoas, sei quando é melhor deixar um assunto de lado. Vou pegar um avião em Inverness.
– “Invernish” – disse Nina, distraída, corrigindo a amiga. Um grupo de habitantes daquela cidade tinha passado na livraria um dia e comprado toneladas de ficção comercial, e Nina havia aprendido a maneira certa de pronunciar. – Quer uma carona?
Ouviu-se uma buzina no pátio. Era o cara do nome que terminava em “gus”. Surinder saiu correndo e saltou no colo dele, envolvendo a cintura do rapaz com as pernas enquanto ele a beijava profundamente. Nina não conseguiu evitar um suspiro. Aquilo era tudo o que ela queria. Só um romance fofo. Alguém que ficasse feliz ao vê-la. Por que esse alguém não podia ser Marek?
– Não vá embora! – pedia o rapaz de nome que terminava em “gus”.
– Vá me visitar em Birmingham – sugeriu Surinder, jogando a mala no banco de trás do SUV dele.
– Ah, não sei, não... não me dou bem em cidades – respondeu ele. – Nunca posso levar o meu cachorro.
– Pela cidade inteira? – perguntou Surinder.
– Pela cidade inteira. E também mal dá para andar. Tem gente demais no caminho o tempo todo.
Os dois se beijaram outra vez, e Nina foi até os pombinhos para se despedir.
– Manda essa garota voltar – pediu ele a Nina, com as sardas mais vivas do que nunca depois de passar tanto tempo no sol. – Logo! E para ficar!
– Como se ela ouvisse algum dos meus conselhos – falou Nina, sorrindo.
– Hã, e como se você ouvisse os meus – retrucou Surinder, inclinando-se pela janela para fora do carro. Pegou no braço de Nina. – Seu lugar é aqui. De verdade. Acho que esse é mesmo o seu lar.
– Então isso quer dizer que é para eu nunca mais aparecer na sua porta? – brincou Nina, com um sorriso.
– Nossa, meu Deus, não, você precisa aparecer lá o mais rápido possível. Eu ainda não consegui me livrar de TODOS AQUELES MALDITOS LIVROS!