A pequena livraria dos sonhos
Capítulo dois
Nina estava nervosa ao chegar para o workshop. Não sabia bem o que esperar. Além disso, ainda estava com o carro cheio de livros. Griffin já estava lá, com a perna apoiada no joelho oposto de modo casual, tentando passar a impressão de ser a pessoa mais descontraída de todos os tempos. Não estava dando certo. Seu rabo de cavalo pendia meio frouxo pelas costas da camiseta cinza e as lentes dos óculos estavam sujas.
– Esses estagiários aqui não têm a menor chance – sussurrou ele para Nina, tentando fazer com que ela se sentisse melhor.
Não deu certo. Na verdade, Nina se sentiu pior, e começou a mexer nervosamente na camisa florida. Lá fora, o clima primaveril adejava de um lado para outro como um barquinho no mar, sem se decidir se fazia chuva ou sol.
Surinder estava certa: era hora de ser forte.
Mas às vezes Nina achava que o mundo não era feito para pessoas como ela. Pessoas confiantes e de personalidade forte, como Surinder, nunca entenderiam. Se você não era uma pessoa extrovertida, se não passava o tempo inteiro se colocando sob os holofotes, postando selfies, exigindo atenção, falando sem parar... bem, então as pessoas simplesmente não viam você. E aí você era negligenciada. No geral, Nina não se incomodava em ser essa pessoa.
Porém, tinha acabado de entender que corria o risco de negligenciar a si mesma. A biblioteca pública ia fechar, não importando quantos livros tentasse salvar, e não havia o que fazer. A vaga de trabalho dela ia desaparecer, e não era só uma questão de procurar outra. Havia uma infinidade de bibliotecários desempregados. Para cada vaga, haveria uns trinta candidatos. Ela era que nem um técnico para consertar máquina de escrever ou um funcionário de fábrica de fax. Aos 29 anos, Nina se sentia como se já estivesse ultrapassada demais para preencher os requisitos básicos da vida.
Um rapaz bem jovem subiu no pequeno estrado na frente da sala, nos fundos da biblioteca, e todos se juntaram à equipe das outras duas bibliotecas da região que estavam fechando as portas. Quando os funcionários se conheceram, houvera muito resmungo e reclamação sobre o maldito governo e sobre como aquela situação era terrível, e será que eles não entendiam – como não entendiam? – a importância das bibliotecas para as comunidades?
Nina achava que eles entendiam muito bem: o problema era que não se importavam.
– Olá! – cumprimentou o jovem, que estava de calça jeans e uma camisa rosa com a gola desabotoada.
– Quanto será que ele está ganhando para fazer isso? – sussurrou Griffin. – Aposto que é muito mais do que a gente ganha.
Nina ficou chocada. Não estava naquela profissão por dinheiro.
– Oi, pessoal?! – A voz do jovem tinha aquela entonação que subia no fim, fazendo com que tudo parecesse uma pergunta. – Então, eu sei que a situação não é das melhores?
– É mesmo? – zombou Griffin.
– Mas eu tenho certeza de que, até o fim do dia, vamos nos dar muito bem... vamos nos conectar, construir essa confiança, certo?
Griffin bufou outra vez. Mas Nina se inclinou um pouquinho para a frente. Construir confiança? Mal não faria.
Aconteceu quando já tinha pouco mais de uma hora de workshop. O grupo estava fazendo “jogos de confiança” para restaurar a fé que tinham nas coisas e uns nos outros, a despeito do fato de que logo todos ali estariam competindo entre si pelas pouquíssimas vagas restantes. Nina tinha caminhado pela sala de olhos vendados, guiada apenas pela voz dos demais. E naquele momento estava com os olhos tapados outra vez, em cima de uma mesa, esperando o momento de se deixar cair para trás. Sentia-se nervosa e irritada, tudo ao mesmo tempo. Aquilo não era para ela, toda aquela gritaria e encenação.
Mas Mungo, o jovem, era sempre muito motivador.
– Não existe nada que vocês não possam fazer! – gritara ele. – Certo?
Griffin suspirara. Nina, por outro lado, encarara o rapaz. Será que tinha algum fundo de verdade naquilo?
– Tudo pode ser, só basta acreditar.
– Ah, que bom, então eu acho que vou entrar para a equipe olímpica de mergulho – comentou Griffin.
Mungo não deixou de sorrir nem por um único momento. Então, levantou a barra da calça, e a sala arquejou em uníssono. A perna dele era de plástico.
– Isso não me impediria de tentar entrar para o time – rebateu ele. – Vamos lá. Lá no fundo, o que é que você quer fazer?
– Quero ser chefe de departamento da Mediatech.
Griffin foi certeiro. Nina sabia que ele acreditava piamente que Mungo era um espião corporativo. Mungo apenas assentiu.
– Quero saber o que o resto da sala acha – falou Mungo. – Sejam honestos. Não há nenhum espião aqui.
Nina afundou na cadeira. Odiava falar em público.
Nos fundos, um homem de voz grossa que ela não conhecia se manifestou:
– Sempre quis trabalhar com animais. Animais selvagens. Achar os bichos, rastrear o chip deles, sabe?
– Maravilhoso – comentou Mungo, e parecia sincero. – Maravilha! Venham todos aqui para a frente!
Todos tiveram que ficar em volta da mesa, e o estômago de Nina se revirou quando o homem subiu e se deixou cair de costas, para que as pessoas o pegassem.
– Sempre quis ser maquiadora de cinema – disse a jovem que era recepcionista dos serviços centrais. – Cuidar das grandes estrelas e tudo mais.
Mungo aquiesceu, então ela subiu na mesa e também caiu de costas. Nina não conseguia acreditar na facilidade com que todos entraram no jogo.
– Eu só quero trabalhar com livros – falou Rita. – Isso é tudo o que eu sempre quis fazer.
A ideias foram pipocando pela sala, provocando muitas afirmações positivas e uma salva de palmas aqui e ali. Só que, no caso de Rita, eles não pediram que ela subisse na mesa e se atirasse de costas, por causa do seu problema no quadril. Griffin até mudou sua primeira resposta, murmurando que o que queria mesmo era ser quadrinista. Nina não disse nada. Sua mente estava em disparada. Por fim, notou que Mungo a encarava.
– O que foi?
– Vamos lá. Só falta você. Tem que falar o que quer fazer. E seja sincera.
Com muita relutância, Nina foi se aproximando da mesa.
– Eu nunca pensei muito no assunto.
– É claro que pensou – rebateu Mungo. – Todo mundo já pensou no assunto.
– Bom, é que é uma coisa meio boba. Ainda mais na conjuntura atual.
– Aqui nada é bobo – respondeu ele. – Afinal, passamos esse tempo todo caindo de costas.
Nina subiu na mesa. O resto do grupo a encarava, cheio de expectativa. Sua garganta ficou seca e deu branco em sua mente.
– Bem... – começou ela, sentindo o rosto ruborizar daquele jeito horroroso e engolindo em seco com dificuldade. – Bem... é que… Hum. Eu sempre... eu sempre sonhei que um dia, quem sabe, eu teria a minha própria livraria. Uma bem pequenininha.
Silêncio. E então a sala irrompeu em frases como “Ah, eu também!”, “Isso aí!” e “Que lindo!”.
– Feche os olhos – falou Mungo, de forma delicada.
E assim, Nina fechou os olhos com força, inclinou-se para trás e caiu nos braços que já estavam a postos para aparar sua queda e devolvê-la ao chão.
Quando abriu os olhos de novo, chegou a imaginar...
– Uma LIVRARIA? – Griffin, é claro, tinha que fazer uma crítica. – Uma livraria que vende LIVROS? Você PIROU?
Nina deu de ombros.
– Sei lá, sabe? – respondeu ela. – Eu poderia vender os seus quadrinhos.
Sentia-se curiosamente inspirada. Durante o intervalo, Mungo a chamara de lado e os dois haviam discutido o assunto. Nina manifestara sua falta de habilidade para lidar com as despesas e com o estoque e com os funcionários e com todas as paralisantes tomadas de decisão que ser dona de loja implicaria e com as quais achava que não seria capaz de lidar. Ele assentiu com empatia. Por fim, ela acabou confessando que já estava com o acervo de uma loja inteira enfiado no carro, e Mungo riu e ergueu a mão.
– Sabe, existem versões móveis desse tipo de comércio – comentou ele.
– Como assim?
– Bem, em vez de ter uma loja, com todos os custos fixos e tudo o mais, você poderia fazer algo diferente.
Então Mungo abriu um site e mostrou a Nina a foto de uma mulher que tinha uma livraria em uma barca. Ela já conhecia a história da tal mulher, e deu um suspiro de inveja.
– Não precisa ser uma barca – disse ele, procurando outras histórias na internet. – Uma vez conheci uma mulher na Cornualha que tinha uma padaria dentro de uma van.
– Uma padaria completa?
– Completa. As pessoas vinham de longe para conhecê-la.
Nina ficou atônita.
– Uma van, é?
– Por que não? Você sabe dirigir?
– Sei.
– Acho que você poderia se virar muito bem, não?
Nina preferiu não comentar que tinha levado um tempo absurdo para aprender a dar ré em curva. O entusiasmo efervescente de Mungo era tão contagiante que parecia mais fácil apenas concordar com ele.
Nina mostrou a Griffin um anúncio no jornal que tinha encontrado durante o intervalo do workshop, encorajada pela admiração de Mungo.
– Olha só.
– O que é isso?
– Uma van.
– Uma van velha e fedida de vender comida na rua?
– É, uma van velha e fedida – concordou Nina, com relutância. – Tá, acho que essa não ia servir. Mas olha aqui, tem essa outra.
– Tá achando que uma van vai ser a resposta para todos os seus problemas? – resmungou Griffin. – Imagina só os insetos!
– Já falei que uma van de comida não vai servir!
A resposta levemente exasperada fez com que Griffin erguesse os olhos de sua cerveja, surpreso, como se tivesse acabado de ouvir um ratinho rugir.
– Anda, responde direito. Olha.
– É uma van – respondeu Griffin, exagerando no sarcasmo. – Não sei o que quer que eu diga.
– Quero que diga “Uau, Nina, que incrível, imagina só como seria legal se você tomasse as rédeas da sua própria vida e fizesse isso acontecer”.
– O que foi? Ficou a fim do Mungo?
– Não, Griffin, ele é quase um bebê. Mas gostei da postura dele.
– Não estou entendendo nada – falou Griffin. – Uma van? Achei que seu sonho fosse ter uma livraria.
– Isso mesmo! – disse Nina. – Mas não tenho como arcar com os custos do aluguel, não é?
– Realmente – concordou Griffin. – Nenhum banco ia querer correr o risco de te dar um empréstimo. Você não entende nada sobre administração de lojas.
– Não – respondeu Nina. – Mas eu entendo tudo sobre livros, não é?
Griffin olhou para ela por um instante.
– É verdade – admitiu ele, a contragosto. – Você entende muito de livros.
– E vou receber a indenização pela demissão – acrescentou Nina. – E poderia vender o Mini Metro. Então, eu acho... acho que consigo comprar uma van... por pouco, mas dá. E ainda tenho todo o acervo da biblioteca. E da minha vida. E tenho todo o tempo do mundo, no fim das contas. Quer dizer, eu poderia começar por aí: encher a van de livros e ver o que acontece.
– É verdade que você tem livros demais – falou Griffin. – E olha que eu nunca achei que diria isso a alguém.
– Bem, se eu já tenho o acervo... e se dá para comprar a van...
– Hum.
– Então não vejo o que me impede de viajar por aí vendendo livros.
A empolgação estava tomando conta de Nina, e seu peito palpitava. Por que não? Por que todas as outras pessoas do mundo podiam correr atrás de seus sonhos e ela não?
– Em Edgbaston?
– Não – respondeu Nina. – Teria que ser em algum lugar sem restrições para estacionar.
– Ah, tá, um lugar que não existe, então...
– Tem que ser um lugar em que as pessoas não se incomodem. Onde eu possa apenas vender meus livros.
– Acho que a coisa não funciona assim.
– Bom, então tipo uma feira, aonde você vai um dia por semana para vender suas coisas.
– Então seu objetivo é trabalhar um dia na semana e passar o resto do tempo cuidando da plantação de livros?
– Para de jogar areia em tudo que eu digo.
– Não é isso, só estou sendo realista. Eu seria um péssimo amigo se só ficasse aqui dizendo: “Isso aí, Nina, larga a sua vida inteira antes de saber se está mesmo desempregada, joga tudo pro ar e, quase aos 30, vai atrás de um sonho alucinado.”
– Hum.
Nina estava ficando desmotivada.
– O que eu quero dizer – prosseguiu Griffin – é que não é muito da sua natureza se arriscar desse jeito. Nesses seis anos em que eu te conheço, nunca vi você voltar atrasada do almoço, nem uma única vez. Você nunca fez uma sugestão de mudança na biblioteca, nunca reclamou de nada, nunca ficou mais tempo na rua durante um treinamento de incêndio para tomar um cafezinho... nada. Sempre foi a Rainha da Perfeição Corporativa, Miss Bibliotecária Exemplar... e agora quer comprar uma van e sair por aí vendendo livros? Para se sustentar?
– Parece tão louco assim?
– Parece – respondeu Griffin.
– Sei... E o que você vai fazer? Vai tentar arrumar um emprego numa loja de quadrinhos, ou numa editora pequena ou algo do gênero?
Por um momento, Griffin ficou um pouco constrangido.
– Ah – falou. – Ah, não, de jeito nenhum. Acho que vou só me candidatar a uma das vagas novas. Sabe? Só por via das dúvidas. Uma das vagas de facilitador de conhecimento.
Nina assentiu, com tristeza.
– É, eu também.
– Se você vai se candidatar, eu não tenho a menor chance – falou Griffin.
– Deixa de ser bobo, é claro que tem – respondeu ela, voltando a olhar para o papel e sendo tomada por uma estranha onda de calor. Concentrou-se no anúncio e acrescentou: – De qualquer forma, a van deve estar a milhares de quilômetros daqui.
Griffin olhou o anúncio por cima do ombro de Nina e começou a gargalhar.
– Ah, Nina, você não pode comprar essa van!
– Por que não? É essa que eu quero! – Então se corrigiu: – É essa que eu iria querer.
O veículo era branco, grandalhão e meio antigo, com faróis imensos. Em um dos lados havia uma porta de correr, com uma escadinha de metal que dobrava para fora. Era uma graça, com um aspecto meio retrô, e a melhor parte era que o interior tinha espaço de sobra para as prateleiras, já que antes funcionava como um carro de pão. Era lindo.
– Boa sorte, então – falou Griffin, apontando para as letras miúdas. – Olhe aqui. O vendedor é da Escócia.