A pequena livraria dos sonhos
Capítulo dezenove
– Você está com a cabeça nas nuvens – falou Surinder.
Nina a olhou de cara feia.
– Bem, considerando que a sua bunda está na minha cama, eu tenho que olhar para outro lugar.
Em algum momento, as miniférias de Surinder viraram uma licença prolongada. Era uma temporada de clima bom (o que, a julgar pelos casacos que as pessoas carregavam nervosamente para todo lado, era bastante atípico para a Escócia): dias lindíssimos, céu azul límpido com esporádicas nuvens brancas e altas que cortavam o céu como cordeiros a galope.
Nina vinha mantendo sua palavra: não entrara em contato com Marek nem lhe pedira nenhum favor.
Mas os livros chegaram.
Griffin tinha agido por conta própria e combinado com Marek o transporte do estoque da livraria que estava para fechar, acrescentando uma fatura de valor baixo e um bilhete mordaz que dizia para Nina falar com ele caso precisasse de um funcionário, porque estava ficando maluco com as crianças crescidas com quem era obrigado a trabalhar. Ele queria muito voltar a trabalhar com livros em vez de passar o dia tentando impedir os jovens de driblar o sistema de segurança dos computadores para ver pornografia, o que parecia ser um trabalho que demandava bastante tempo.
Nina recebera um e-mail de Jim avisando que Marek deixara os livros junto à linha do trem, e ela foi buscá-los pela manhã.
– Você é uma contrabandista de livros – acusou Surinder. – Isso não está certo. Se a polícia descobrir... E o que acha que vai acontecer quando descobrirem, na empresa do Marek, que ele está parando o trem o tempo todo naquele cruzamento? E se ele perder o emprego? Vai continuar achando graça da situação?
Marek deixara alguma coisa dentro de cada caixa: uma piada, um poema, até mesmo o lindo desenho de um cachorro. E assim Nina passava os dias atendendo os ratos de biblioteca de Lanchish Down ou Felbright Water, Louwithness ou Cardenbie, Braefoot ou Tewkes, Donibristle ou Balwearie – pequenas cidades onde estacionava a van e vendia os romances mais picantes, os policiais mais soturnos e as séries de serial killer japonesas mais recentes e mais horripilantes. Estas, como sempre, iam para as pessoas de aparência mais inofensiva. Nina já tinha aprendido que, quanto mais conservadoras as roupas da pessoa, mais depravada era a ficção de que gostava, e sempre pensava que isso devia ajudar a manter o equilíbrio cósmico. No fim do expediente, desempacotava novos livros.
Também tinha vendido muitos exemplares de Receitas do vilarejo, escrito por uma mulher que tinha se mudado para uma ilha minúscula nas Hébridas e não comia nada além das gramíneas locais que conseguisse digerir. Havia muita fervura envolvida, mas, de fato, era possível emagrecer bem rápido. Surinder podia resmungar o quanto quisesse, mas não podia negar que a livraria de Nina estava começando a fazer sucesso.
Ainslee, tímida como sempre, estava abrindo a última caixa quando, de repente, soltou uma exclamação maravilhada.
– O que foi? – quis saber Nina, inclinando-se para ver.
– É uma caixa inteira de Entre os telhados – falou Ainslee. – Inteira! Isso vale ouro!
– Não o clássico, imagino...
– Eu nunca... quer dizer, tinha um exemplar na minha antiga escola, mas não deixavam nem encostar nele.
– Ah, meu Deus! Ai, meu Deus, eles com certeza não sabiam o que tinham nas mãos! Se soubessem, teriam vendido.
– Mas não venderam para você? – perguntou Ainslee.
– Eu comprei cem caixas, sem nem olhar, em uma liquidação de estoque de uma biblioteca que estava fechando – explicou Nina. – Nunca sei o que vou encontrar. Mas isso... isso é um tesouro.
Era uma pilha de exemplares de capa dura, primeira edição, do famoso livro sobre três crianças que precisavam atravessar toda a cidade de Londres sem nunca encostar no chão. Tinham capa de couro, dourada e com detalhes em alto-relevo, além de ilustrações lindíssimas.
– Minha nossa! – exclamou Nina, abaixando-se para ver os livros. – E se a gente fechasse as portas e passasse a tarde inteira sentadas aqui dentro, lendo uma para a outra nossos trechos preferidos?
– AINSLEE! – chamou uma voz lá fora.
Ambas se viraram para olhar.
– Quem é?
– Ninguém – respondeu Ainslee, fechando a cara. – Você estava falando em fechar as portas... vamos?
– Não... – respondeu Nina, se adiantando.
– AINSLEE!
– AGORA NÃO, BEN – gritou ela de volta, mais alto do que Nina esperava. – ESTOU OCUPADA. VÁ EMBORA!
Nina desceu a escadinha às pressas. Ali fora estava o menininho mais sujo que já vira na vida. Tinha o cabelo mal cortado, talvez com uma tesoura de cozinha, as bochechas imundas e as unhas pretas.
– Olá – cumprimentou Nina.
O menino, que devia ter uns 8 anos, respondeu apenas com uma cara feia.
– AINSLEE! QUERO CAFÉ DA MANHÃ!
Ainslee também saiu da van, olhando de cara feia para o menino.
– Eu já falei pra você não vir aqui.
– Não tem café da manhã.
– Deixei uns biscoitos pra você no armário da cozinha.
– Eu comi ontem.
– Bom, então a culpa não é minha, não é mesmo?
O menino fechou a cara como se fosse começar a chorar.
– Ele é... seu irmão? – perguntou Nina, sem querer parecer intrometida.
Ainslee tinha passado a vir ajudá-la na livraria toda manhã, antes de ir à escola, e Nina lhe pagava um pequeno valor por dia.
– É, sim – falou Ainslee, pegando com relutância o dinheiro que Nina lhe dera no dia anterior.
– Posso ir na padaria? – perguntou o menino.
– Pode, mas não volte mais aqui.
Nina não falou nada, com medo de dizer a coisa errada, mas não gostava nada daquilo.
– Onde está a sua mãe? – perguntou, com delicadeza.
Ben lançou-lhe um olhar grosseiro.
– Cala a boca – respondeu, e tomou o dinheiro da mão da irmã.
Ainslee voltou a desempacotar livros, a expressão inescrutável e inacessível, como se desafiasse Nina a dizer alguma coisa. Por isso, Nina ficou quieta e se concentrou em atender um de seus clientes habituais, que só lia histórias com cenários pós-apocalípticos. Não interessavam as circunstâncias: apocalipse zumbi, doença ou bomba nuclear; só o que importava para ele era que não restasse quase mais ninguém para atrapalhar a vida dos protagonistas.
Nina deixou o olhar se deter fora da van. O menino ainda estava lá, vagando pela praça de Kirrinfief, que era onde Ainslee morava, comendo um enroladinho de salsicha e olhando para elas. Nina deu um sorriso encorajador. Quando o cliente foi embora, ela voltou a ajudar Ainslee com os lindos exemplares dourados de Entre os telhados.
De repente, lá estava o menino outra vez, olhando por cima do ombro da irmã.
– O que é isso?
– Vá embora – sibilou Ainslee. – Já falei pra você não vir aqui.
– Não, pode vir aqui, sim – afirmou Nina, apesar do olhar de repreensão de Ainslee.
– Isso parece chato – declarou Ben.
Mesmo assim, ele não tirava os olhos da capa do livro: as três crianças e Roberto Carta, o pombo de cartola, emoldurados pela abóbada da Catedral de St. Paul.
– Eles estão indo rumo ao Estreito do Galeão... para conhecer a Rainha do Mundo Inferior – comentou Ainslee, em tom sonhador. – Ah, como eu queria desler esse livro para poder ler de novo pela primeira vez...
Nina assentiu enfaticamente.
– Sempre que eu parava de ler, precisava me lembrar que eu não sabia voar.
Ainslee concordou.
– Agora você vai ter um vilarejo inteiro cheio de crianças que ainda não leram o livro.
– Mas todo mundo ainda lê esse livro, não é? – perguntou Nina. – Afinal, de que outra forma eles aprenderiam como é a sensação de voar?
– Gente não voa – debochou Ben.
O menino tinha acabado de tirar do bolso um pacote de batatas chips e estava fazendo uma sujeira danada, largando um monte de farelo no piso da van. Ainslee o olhou de cara feia.
– Nesse livro, as pessoas voam, sim. E é isso que você não entende a respeito da leitura, seu idiota.
– O que é que eu não entendo? Que livro é só um monte de besteiras inventadas?
– Pode pensar desse jeito, se quiser – falou Nina.
Ainda estava tensa com os dedos sujos do menino. Afinal, aqueles livros eram muito valiosos. Ben deu de ombros e desviou o rosto.
– Aposto que é um lixo.
– E que diferença isso faz para você? Ele não quer mais ir para a escola – Ainslee contou a Nina.
– E você não pode obrigá-lo a ir? Nem a sua mãe?
– Rá! Ele nunca nos obedece!
– Ler é pra criancinhas – vociferou Ben, de repente, com as orelhas muito vermelhas. – É tudo bobagem. Não tô nem aí.
Do nada, ele jogou o pacote no chão e foi embora, correndo pela praça. Ainslee suspirou, dando de ombros.
– Ele sempre se comporta assim. Não tem nada que eu possa fazer.
Nina continuou olhando o garoto se afastar.
– Mas por que a escola não ajuda? Isso não está certo.
– A escola já largou de mão – respondeu Ainslee. – Ele não quer ir, e não vai. Minha mãe não liga. A escola também não. Dizem que Ben é uma “má influência”. – Sua cabeça pendeu para a frente. Fora um longo discurso para os padrões da garota. – E não tem nenhuma outra escola num raio de uns 10 quilômetros. Acho que ninguém se importa.
– Quer que eu ligue para o serviço social?
Ainslee ficou sobressaltada, com uma expressão horrorizada.
– Não! Não, por favor! Não faça isso! Eles vão nos separar!
– Sabe, hoje em dia os assistentes sociais fazem um trabalho muito bom – afirmou Nina, que já tivera que lidar com alguns deles muitas vezes quando trabalhava na biblioteca. – São gentis e realmente fazem tudo para ajudar. De verdade.
Ainslee balançou a cabeça, lágrimas brotando no canto dos seus olhos.
– Por favor, por favor, não faça isso. Por favor. Está tudo bem com a gente. De verdade. Estamos bem mesmo.
Parecia tão arrasada que Nina nem soube o que fazer.
Então, outra criança entrou na van, mas estava bem-vestida e bem-cuidada, acompanhada da mãe.
– Nossa, olha só! – exclamou a mãe. – Faz anos que eu não vejo esse livro! Entre os telhados! Uau! – De repente, o rosto severo da mulher se suavizou. – Eu amava tanto esse livro. Quando lia, sempre achava que podia voar.
A menininha ergueu os olhos para a mãe, curiosa.
– Compra pra mim?
– É claro, fofinha. Vamos ler juntas. Acho que você vai amar!
Ainslee estava com uma expressão empedernida enquanto Nina recebia o pagamento, o máximo que já tinha ganhado por uma única venda.