A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 7 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo seis

 

Nina olhou de relance para Cathy Neeson, que estava sentada na ponta da banca de entrevistadores com os braços cruzados e o rosto impassível. “Puxa vida, sorrir não tira pedaço”, pensou Nina. Estava dando o seu melhor, tentando deixar as mãos calmas e relaxadas em vez de ceder ao impulso de retorcê-las de nervosismo. Tinha até feito uma extravagância: comprado uma calça preta nova. Será que não receberia nem um pingo de incentivo? Embora não tivesse se matado de estudar para a entrevista, ninguém conhecia os livros tão bem quanto ela, a aquisição de novas obras, o sistema de arquivamento e todos os aspectos para manter uma biblioteca funcionando de forma apropriada...

(O que Nina não tinha como saber era que Cathy Neeson tinha 46 entrevistas naquela semana para apenas duas vagas que, segundo ordens superiores, deveriam ser preenchidas por pessoas jovens e animadas que sabiam falar bem alto, tivessem boa aparência e estivessem dispostas a trabalhar por uma miséria, e não havia nada que Cathy Neeson pudesse fazer a respeito, apesar de ter manifestado sua discordância inúmeras vezes. Os escalões mais altos da administração estavam seguros disso. Também não faltavam jovens dispostos a fazer qualquer trabalho. O problema eram os mais seniores, profissionais do livro inteligentes e capazes, que simplesmente não eram mais necessários.)

– Assim, posso dizer que a minha maior prioridade é fazer com que a biblioteca consiga prever a necessidade dos leitores através de reuniões presenciais – prosseguiu Nina.

Sentia que suas palavras estavam flutuando sozinhas no ar, sem que ninguém prestasse muita atenção. Teve uma vontade ridícula e enervante de dizer algo que não fazia o menor sentido, só para ver se os entrevistadores continuariam assentindo daquele jeito.

– Certo – disse outra mulher com cara de poucos amigos, que usava um tailleur e um batom muito rosa, inclinando-se para a frente. – Mas e quanto às necessidades dos nossos não leitores?

– Hã… perdão? – falou Nina, achando que não tinha entendido muito bem. – Como assim?

– Bem, você tem planos para atender às necessidades de toda a nossa base de consumidores, não é?

– Hã… sim? – disse Nina, sabendo muito bem que estava em um terreno instável.

– Então qual é a sua proposta para os não leitores?

– Bom, já temos contação de histórias duas vezes por semana... eu proponho aumentar para três, porque as mães gostam de ter um lugar para se reunir e conversar um pouco. E eu conheço a seção de literatura infantojuvenil de trás para a frente, então sempre tenho algo para recomendar aos mais relutantes. Há muitos outros livros excelentes para os meninos, que são, é claro, um pouco mais difíceis de convencer... Além disso, a prefeitura oferece aulas de letramento para adultos e nós sempre indicamos isso às pessoas. Melhorar o nível de leitura da população é a melhor coisa que podemos fazer.

– Não, não, você não entendeu. O que propõe para os não leitores? Não as pessoas que não sabem ler, mas a clientela adulta que apenas não gosta de ler?

Nina hesitou. Era possível ouvir os sons do trânsito intenso na rotatória lá fora. O escandaloso alarme de ré de um caminhão de lixo. Fez-se um estrondo quando o caminhão esvaziou uma das lixeiras de reciclagem de garrafas nos fundos da biblioteca.

– Hã... – Nina corou de forma abrupta sob o olhar dos quatro entrevistadores, um dos quais (Cathy Neeson, é claro) já estava vendo no celular o nome do candidato seguinte. – Eu poderia recomendar um livro MUITO bom...

A mulher de batom rosa pareceu mais desapontada do que irritada.

– Acho que você não entendeu o que estamos procurando aqui.

Nina não tinha como discordar. Não entendia mesmo.

 

– Você devia ter falado de interfaces! – sibilou Griffin.

Estavam no café da esquina tomando frappuccinos de consolação, uma extravagância justificável, considerando-se as circunstâncias.

Lá fora caía uma chuva pesada e deprimente de primavera que apagava as cores da cidade e fazia com que os carros que passavam pelas ruas atirassem água das poças nos pedestres. Todo mundo estava irritado, com expressões tão carregadas quanto as nuvens no céu. Birmingham não estava em seu melhor momento.

O café estava entupido de sacolas de compras, casacos molhados, carrinhos de bebê, pessoas com fones de ouvido gigantes olhando feio para outras que tentavam compartilhar a mesa ou paravam no meio do caminho, crianças dividindo muffins e dando risadinhas e implicando umas com as outras. Nina e Griffin estavam sentados à mesa coberta de farelos de pão perto dos banheiros, ao lado de um advogado e sua cliente, absortos nas minúcias do divórcio iminente da moça. Era difícil não prestar atenção na conversa alheia, mas Nina sentia que os próprios problemas já eram suficientes.

– Que tipo de interface? – perguntou ela.

Depois daquela última pergunta, a entrevista de Nina não durara muito.

– Não importa: computadores, peer-to-peer, confluência integrada – falou Griffin. – Eles não estão nem aí, desde que você use uma das palavras-chave que estão procurando. Eles vão ticando essas palavras da lista até você completar bingo e pronto, consegue voltar para seu antigo trabalho, só que com um salário reduzido. – Ele bebeu um gole do frappuccino com uma expressão amarga no rosto e acrescentou: – O que eu devia fazer mesmo é mandar esse pessoal ir se ferrar. Burocratas ignorantes e iletrados.

– E por que não faz isso? – indagou Nina, interessada. Ela tinha recebido tantos conselhos das pessoas que não custava nada repassar. – Você é inteligente. Capacitado. Não tem nada que o prenda. Poder fazer qualquer coisa. Viajar pelo mundo, escrever um livro, dar aula de inglês na China, surfar na Califórnia. Quer dizer, você é jovem, é solteiro. O mundo é seu. Por que não manda esses caras para o inferno se odeia tanto essa situação?

– É bem possível que eu faça todas essas coisas – respondeu Griffin, emburrado. – Não vou ficar preso aqui para sempre. A propósito, quem está solta por aí viajando quilômetros para comprar uma van doida é você. Acho que está mais perto de alcançar isso tudo do que eu.

Nina já sabia que, no fundo, Griffin ficara satisfeito ao vê-la voltar de mãos abanando da Escócia. Ressentia-se por saber o que o colega pensava de verdade: se a medíocre Nina conseguisse encontrar uma saída, o que isso diria sobre ele mesmo?

– Eu sei – disse ela, suspirando. – Foi um sonho absurdo. – Olhou ao redor. – Sei lá... Quer dizer, depois de tudo isso...

Estremeceu, lembrando-se do sorriso de Cathy Neeson quando se levantara para ir embora, um sorriso que nem chegara perto dos olhos. O tempo reservado para a entrevista ainda não tinha terminado, mas já havia ficado claro que não daria em nada.

Desde que voltara da Escócia, Nina vinha dormindo mal. Sentia-se oprimida pela inclemente atmosfera abafada e cinzenta. Tudo aquilo que sempre gostara na cidade, todo o barulho e o agito, estava começando a se tornar claustrofóbico. Já tinha lido uma infinidade de livros sobre pessoas que reinventavam a própria vida, mas não ajudava em nada o seu humor. Nina só se sentia mais e mais aprisionada à própria condição, como se todo mundo menos ela estivesse fazendo coisas interessantes.

Tinha vasculhado os sites de ofertas de emprego, mas parecia que não havia mais espaço para bibliotecários. Profissionais de TI, sim. Consultores e assessores de imprensa e analistas de marketing, sim. Mas não havia nada que sequer chegasse perto do que ela fizera a vida inteira, o único trabalho que queria ter: o de encontrar o livro certo para a pessoa certa.

Nina se pegou sentindo saudade do ar fresco, da paisagem desimpedida, dos raios límpidos de sol que banhavam os campos amarelos, do verde exuberante das colinas e do cintilante, lépido e sedutor Mar do Norte. Era muito estranho que um lugar em que passara tão pouco tempo – uma jornada que terminara tão mal – a tivesse impactado de maneira tão profunda.

Olhou de novo para o próprio café. Uma mulher grandona passou colada nela e por pouco não acertou a cara de Nina com sua gigantesca bolsa de grife.

– Sei lá – repetiu Nina.

– Olha, tenho certeza que você conseguiu a vaga – comentou Griffin, sem um pingo de sinceridade.

Nina percebeu, pela primeira vez, que ele tinha cortado o rabo de cavalo.

O celular dela tocou. Os dois se entreolharam, paralisados.

– Eles vão ligar primeiro para quem passou na entrevista – falou Griffin na mesma hora. – Parabéns. É mesmo você. Mandou bem. Parece que, no fim das contas, queriam alguém mais tradicional, das antigas.

– Não estou reconhecendo o número – respondeu Nina, olhando o aparelho como se fosse uma cobra pronta para dar o bote. – Mas não é de Birmingham.

– Faz sentido – disse Griffin. – A sede deve ficar em Swindon ou algo assim.

Nina pegou o celular com desconfiança.

– Alô?

 

A ligação estava ruim e distante. A princípio, ela não conseguia ouvir nada naquele café barulhento.

– Alô? Alô?

– Oi, alô – disse a voz. – É Nina quem tá falando?

– Sim, sou eu.

– Oi, Nina. Aqui é o Alasdair McRae.

Não conhecia aquele nome, mas o sotaque escocês era familiar. Nina franziu o cenho.

– Sim...?

– O dono do pub, sabe? O Rob Roy.

Nina não conseguiu conter um sorriso.

– Ah, oi! Eu esqueci alguma coisa aí? O livro é para ficar com vocês mesmo.

No fim das contas, ficara com dó de levá-lo embora.

– Ah, sim, e que livro maravilhoso. Quando o Edwin terminou, ele passou pra mim.

– Que bom. Fico feliz.

– Então eu passei pro Wullie.

– Ah, é?

– Sim. Bom, ele estava sentado aqui com uma cara de poucos amigos.

– Bem, livros servem para todo mundo – falou Nina, tentando ser altruísta.

– Enfim, escuta, moça. Eu e os meninos ficamos pensando numa coisa depois que você foi embora.

Nina levou um instante para entender que “os meninos” eram os dois velhos que pareciam morar no bar.

– Hum, sim...

– Bem, o Wullie... sabe como é, às vezes ele não bate muito bem. Teve uma vida difícil pra burro.

“Que pena, porque a minha também não está nada fácil”, pensou ela, escandalizada por ter sequer pensado algo tão mesquinho.

– Hum – fez Nina.

– Bem, a gente tava pensando... se juntarmos nós três, podemos comprar a van do Wullie e depois vender para você. Quer dizer, se você quiser.

Houve uma pausa. Nina ficou sem palavras. Que inesperado.

– Mas não para ganhar nenhum lucro nem nada. Quer dizer, acho que a gente deve até conseguir um preço melhor do que você conseguiria. Só pra ele mudar de ideia em relação a vender pra uma mocinha.

– Hum, isso é... – Nina ainda estava sem palavras.

– Nós três ficamos com a impressão de que você era uma boa garota que estava precisando de uma ajudinha. E a gente gostou muito do livro que você deixou. E, para falar a verdade, a gente bem que gostaria de ter mais livros por aqui. – Nina contara seu plano a Alasdair e ele nunca mais desapegara da ideia. – E ninguém aguenta mais ver essa van velha parada no meio da cidade. E, sabe, foi errado do Wullie não querer vender pra você.

Tinha ficado bem claro que Alasdair não estava acostumado a fazer discursos tão longos, e começava a parecer meio encabulado. Nina se apressou em responder:

– Mas tem certeza? Isso seria muito...

– Quer dizer, só se você ainda não tiver encontrado nenhuma outra...

– Não, não encontrei não.

Nina ergueu o rosto. A chuva castigava as janelas do café. Toda vez que alguém abria a porta, o vento uivante entrava junto. O lugar estava apinhado de gente, havia uma fila barulhenta diante do balcão, criança chorando, gente irritada e pouco lugar para passar. Ela olhou para Griffin, que estava pegando o celular. De repente ele deu um salto na cadeira, felicíssimo, e deu um soco vitorioso no ar.

Nina ficou atônita.

– Então, Alasdair, obrigada. É muito gentil da sua parte. Preciso pensar um pouco. Eu ligo de volta em breve, pode ser?

– Ora, mas é claro.

Ele passou para ela o preço que achava que conseguiria pagar pela van, que era muito menos do que Nina esperava, e então ela desligou.

– Consegui o emprego! – exclamou Griffin, com o rosto corado de animação. – UHUL! – Ao ver o rosto de Nina, ele foi abaixando os braços bem devagar. – Hã, quer dizer... Quer dizer, sinto muito. Deve ter sido um erro deles, com certeza. Você teria sido muito melhor.

Nina olhou de soslaio para o celular. Um e-mail tinha acabado de chegar. Não precisava nem abrir. A primeira linha da notificação já dizia tudo: “Lamentamos informar que...”

– Parabéns – disse ela a Griffin, quase com sinceridade.

– Vou ser chefe de uma “equipe dinâmica e multifuncional” – comentou ele, animado. – Tudo bem que eu já sei que vai ser bem ruim... Sinto muito mesmo, Nina – disse Griffin.

– Está tudo bem – respondeu ela. – De verdade. A vaga tinha que ser de alguém. Que bom que você conseguiu. E eu não saberia nem por onde começar a chefiar uma equipe “multi” qualquer coisa.

– É – concordou Griffin. – Você teria odiado. Tenho certeza que vou odiar também.

Os dedos dele corriam pela tela furiosamente, e Nina percebeu que Griffin tinha acabado de postar a novidade no Facebook. Já dava para ouvir os alertas de “curtir” chegando.

– Olha, tenho que ir – falou Nina, baixinho.

– Não, não vá – pediu ele. – Por favor. Vamos para outro lugar, deixa eu te pagar uma cerveja.

– Não, obrigada – recusou Nina. – Eu estou bem, de verdade. Estou ótima.

Griffin olhou o celular outra vez.

– Ah, Nina, vamos lá, uns amigos meus estão em um bar aqui do lado. Venha tomar uma cerveja com a gente. Vamos pensar juntos no seu próximo passo. Eu devo conhecer alguém que pode ajudar você.

Fazia meses que Nina não o via tão disposto. E tudo o que ela mais queria era se sentar em um lugar silencioso com uma xícara de chá para pensar na vida.

– É sério, eu preciso ir. Mas parabéns, mais uma vez.

Griffin se levantou junto com ela, enquanto Nina vestia o casaco para ir embora. Ela lhe deu um breve sorriso enquanto os dois esperavam uma procissão de carrinhos de bebê acabar de passar.

– Nina – chamou Griffin, com uma coragem repentina, assim que ela se adiantou.

Ela se virou.

– Oi.

– Agora que não trabalhamos mais juntos... bom, não somos mais colegas de trabalho, e eu terminei com a minha namorada... quer sair comigo um dia desses? Sabe... para tomar um drinque. Por favor?

Nina olhou o rosto pálido e ansioso de Griffin, sentindo-se repentinamente desconfortável e um pouco mais determinada. Parou para pensar por um único segundo. Então tomou uma decisão.

– Desculpe, mas eu tenho que... tenho que ligar para um homem para tratar de um assunto.

Passou pelos carrinhos e pelas sacolas de compras e pelas janelas embaçadas e pelas criancinhas atirando coisas umas nas outras e pelos sachês de açúcar amassados e pelos pratos descartados e pelas canecas sujas, até enfim abrir a porta e sair para a rua encharcada. Vestiu o capuz do casaco e pegou o celular, sabendo muito bem que era agora ou nunca.

– Alasdair – disse quando ele atendeu –, obrigada pela sua oferta maravilhosa. Eu aceito.