A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 13 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo doze

 

Após desfazer as malas, Nina não sabia bem qual seria o passo seguinte. Então olhou para a van e percebeu que o veículo precisava de uma boa limpeza. O problema era que estava acostumada a andar por aí em um Mini Metro – que, como dizia o nome, era mini –, mas agora, se quisesse ir a qualquer lugar, a van tinha que ir junto, como se fosse um elefante grande demais para passar em metade das ruazinhas da cidade. Olhou-a de cara feia e considerou a ideia de ficar mais um tempo com a bicicleta de Edwin...

Contudo, tomou coragem e dirigiu até o vilarejo, a 20 quilômetros por hora – depois de tudo o que acontecera, sentia que ela e a van não tinham uma boa relação de confiança. Enquanto dirigia, ficou se perguntando como resolver o problema de buscar o restante dos livros em Birmingham. Na verdade, bastaria dirigir até a antiga casa para pegá-los, mas o caminho era muito longo, e ela não sabia muito bem se tinha coragem, ainda mais considerando a experiência quase fatal da vez que tentara levar o furgão para Birmingham.

O vilarejo tinha um pequeno mercadinho, com paredes em um tom bonito de azul-claro. Quando Nina entrou, o sino da porta anunciou sua chegada e uma mulher a cumprimentou. Apesar de minúscula, a loja parecia vender de tudo.

Nina viu costeletas de cordeiro embaladas em papel com a etiqueta “Fazenda Lennox”. Em Birmingham, a carne vinha do supermercado, embalada em plástico: aquilo era novo. Também havia frango. Pensou na galinha feliz que vivia ciscando perto de sua nova janela. É claro que a vida dela era muito melhor do que a de todas as galinhas que Nina costumava comprar, mas mesmo assim, quando deu por si, estava comprando uma couve-flor para fazer gratinada, em vez de carne. Havia uma imensa variedade de queijos locais que nunca experimentara. A mulher percebeu a hesitação de Nina.

– Precisa de ajuda? – perguntou. – Sei que é um pouco confuso.

– É que eu sou nova aqui – respondeu Nina, e abriu um sorriso.

– Ah, eu sei! Meu nome é Lesley. Você comprou a van do Wullie por algum motivo que ninguém entende e não consegue dirigir, e se mudou para o palácio misterioso do Lennox.

A mulher abriu um sorriso, muito satisfeita. Era baixinha e arrumadinha, com o rosto bronzeado e um ar de severidade.

– Palácio misterioso? – estranhou Nina.

– Sim! Ninguém viu aquele lugar desde que a Kate foi embora. Como é lá? Ouvi dizer que ela gastou uma fortuna, chamou gente de Edimburgo e tudo, parece que até Inverness não era bom o bastante para a Kate!

– Sei – falou Nina.

– Mas e aí? – quis saber Lesley, cruzando os braços.

Já havia ficado claro que, para comprar ali, Nina teria que pagar um adicional em fofoca.

– É um lugar muito agradável – respondeu. – Tem uma janela bem grande na frente, um pequeno mezanino para a cama e uma vista bonita.

Lesley suspirou.

– Parece ótimo. E tem isolamento térmico?

– Não perguntei.

A mulher a encarou, atônita.

– Alugou uma casa sem saber se tem isolamento térmico? Dá para ver que você é estrangeira.

Nina nunca pensara em si mesma como uma estrangeira.

– Tem um fogão a lenha – disse, esperançosa.

Lesley a olhou por um instante.

– Então tá bom – respondeu, rindo de uma maneira que fez com que Nina se sentisse um pouco desconfortável.

Nina pegou o máximo de produtos e acessórios de limpeza que conseguia carregar.

– Pra que tudo isso?

Nina tinha jurado comprar do comércio local para contribuir com a economia e com as pessoas que trabalhavam por ali, mas aquela mulher estava quase fazendo com que mudasse de ideia.

– É para a van.

– Afinal, o que vai fazer com ela? Você não parece do tipo que poderia trabalhar com mudanças.

– Na verdade... – começou Nina, encabulada, forçando-se a falar mais alto.

Mas aquela seria sua vida dali em diante. Teria que se acostumar, embora estivesse bastante irritada, como uma criança mal-humorada, por ter que fazer absolutamente tudo sozinha. Respirou fundo e tentou de novo:

– Na verdade, vou abrir uma livraria itinerante. Vou até as cidades que não têm livrarias, como esta aqui.

Lesley ergueu a sobrancelha.

– Ah, é mesmo?

– Hã… é.

Nina deu uma olhada em volta, ansiosa, com medo de descobrir que Lesley já tinha uma pequena livraria nos fundos da lojinha azul e se ressentiria em ter qualquer tipo de concorrência.

– Tem o novo da E L James?

– Infelizmente não, mas posso arranjar! Na verdade, tenho algo que eu acho que você pode gostar ainda mais.

Lesley fez uma cara desconfiada.

– Duvido muito.

– Pode confiar em mim.

– Eu sei do que eu gosto – rebateu a mulher.

Nina baixou os olhos para a carteira.

– Bem, hum, em todo caso, espero vê-la na minha livraria um dia.

Ao sair, deparou com um amontoado de gente cercando a van, e as pessoas ficaram espiando quando Nina abriu a mala. Os livros ainda estavam dentro das caixas, mas as pessoas enfiaram a mão e os pegaram mesmo assim, para dar uma olhada.

 

– Hã, oi, pessoal – cumprimentou Nina, tímida, com as mãos cheias de produtos de limpeza.

– Essa é a nova biblioteca? – perguntou uma senhora com um carrinho de feira. – Precisamos de uma biblioteca nova.

As outras senhorinhas assentiram com entusiasmo.

– Infelizmente, não – respondeu Nina. – Será uma livraria.

– Mas é uma van.

– Eu sei. Uma van-livraria.

– Ah, eu sinto tanta saudade da biblioteca!

– Eu também.

Nina estremeceu.

– Bem, assim que eu estiver pronta para abrir as portas, terei muitos livros empolgantes para todas vocês.

Uma jovem com um carrinho de bebê parou ao lado do veículo.

– Olá! É você que vende livros? – indagou, animada. – Tem para crianças?

– É claro! – respondeu Nina, inclinando-se para olhar dentro do carrinho. – Olá, pequenino!

– O nome dele é Aonghus – explicou a mulher, estreitando os olhos. – Sei que o objetivo é ler os livros, mas ele logo fica entediado e sai engatinhando para longe, ou tenta morder alguma coisa. Na verdade, ele morde bastante.

Aonghus abriu um sorriso, mostrando uma gengiva cravejada de dentinhos.

– Todos os nossos livros estão rasgados e mordidos – prosseguiu a mãe. – Um dia me perguntaram se a gente tinha cachorro em casa e eu quase disse que sim.

– Já tentou livros de pano?

– Já – respondeu a mãe, desanimada. – Esses ele mastigava e engolia. Então voltamos aos de papel mesmo. Pelo menos têm um pouco de fibra.

Nina sorriu.

– Só um minuto. Conheci uma pessoa com o mesmíssimo problema.

Ela entrou na van e voltou com um exemplar quase novo de Não me morda!, um livro que tinha feito muito sucesso, pois seus vários animais de dentes grandes encorajavam as crianças a apontar para os próprios dentes em vez de usá-los para morder.

– Sobre o que é?

– Bom, o livro manda a criança apontar bastante para os próprios dentinhos. Se estiver apontando, talvez ele não sinta tanta necessidade de morder.

– Ou vai morder o próprio dedo – falou a mulher, esperançosa. – O que é melhor do que nada. Obrigada! Vou levar. Meu nome é Moira, a propósito.

– Muito prazer, Moira e Aonghus – disse Nina, percebendo que deveria colocar etiquetas com o preço nos livros. – E dê um afago no seu cachorro invisível por mim.

Moira pagou e estava com uma cara ótima ao entregar o livro a Aonghus, que logo o enfiou na boca.

– Talvez seja melhor deixar o livro na bolsa até que vocês tenham a chance de praticar a coisa de apontar em vez de morder – sugeriu Nina.

Ela ficou olhando Moira ir embora, sorrindo. E foi como se as comportas tivessem se aberto, pois vendeu todo o estoque de Georgette Heyer e Norah Loft para o bando de velhinhas que não paravam de tagarelar à sua volta, reclamando do fechamento da antiga biblioteca. Nina voltou para casa e foi preparar a couve-flor gratinada – fez uma nota mental para nunca mais cozinhar couve-flor enquanto não tivesse uma cozinha separada ou não estivesse quente o bastante lá fora para abrir todas as portas e janelas. Enquanto lavava a van, disse a si mesma que teria que arranjar uma forma de trazer o restante dos livros o mais rápido possível. Aquela ideia maluca até que poderia dar certo.

No dia seguinte, Nina se virou na cama e olhou os campos pela janela. Galinhas-d’água e até mesmo eventuais aves de rapina davam rasantes aqui e ali. Tinha pássaro para todo lado. E o céu era tão imenso! Uma grande massa de nuvens negras vinha do mar, apostando corrida umas com as outras. Um penetrante raio de sol conseguiu passar entre elas. Ao longe, via-se a chuva caindo, regando a plantação de outro fazendeiro e trazendo consigo a névoa. Mais à tardinha, uma linha cor-de-rosa bem clara se formou no horizonte, tingindo os campos de tons multicoloridos. Sempre que ia até o topo da colina Kirrin, parecia que as plantações de canola saltavam aos olhos, um tom de amarelo vivo demais para ser real, contrastando com o céu azul. Era como se o clima estivesse se reinventando diante de seus olhos e o céu servisse como uma imensa tela para todo aquele movimento fluido e rodopiante.

 

Isso significava que era prudente sempre levar uma blusa de manga comprida na bolsa. E um casaco. Mas valia a pena.

Chegara a hora de enfrentar o cruzamento ferroviário outra vez. Durante a última conversa que tivera com Surinder, regada a bastante vinho, a amiga deixara bem claro que Nina precisava enfrentar seus medos e encarar o recomeço. Ela sofrera um susto, mas não podia se deixar abater. Além disso, Nina estava curiosa – e disse a si mesma que era apenas uma mera curiosidade – para saber se Marek e Jim tinham pegado a sacola que deixara na árvore.

Fora uma ideia bem besta, e Nina não deveria ficar pensando tanto nisso. Qualquer um podia ter pegado a bolsa. Além do mais, não era nada aconselhável que os dois se arriscassem daquele jeito, debruçando-se para fora do trem. Ela já tinha causado problemas suficientes. Ainda assim, Nina diminuiu a velocidade e estacionou com cuidado no acostamento logo antes do cruzamento. A sacola de plástico não estava mais lá. Mas isso não significava nada. Porém, logo notou outra sacola, de um amarelo bem forte, pendurada bem alto em um galho.

Sorrindo sozinha, trepou na árvore, lembrando-se dos dias em que subia na macieira para ler em paz. Tateou o tronco bem devagarinho até conseguir pegar um galho mais baixo, suspendendo o corpo e seguindo com cuidado até onde a sacola estava pendurada. Ao se aproximar, viu claramente que dizia “Nina” em letras garrafais. Inclinou-se para a frente, sentindo a animação palpitar no peito, e pegou a sacola.

Nela havia um livrinho de poesia, em russo e em inglês, de um autor chamado Fiódor Tiútchev, de quem Nina nunca ouvira falar. Abriu um imenso sorriso, eufórica. Era uma edição antiga em capa dura revestida com tecido, muito usada. Não havia nada na capa.

Na primeira página havia um pequeno bilhete de Jim que dizia: Espero que esteja bem depois de tudo. Desculpa de novo por ter gritado. É que você me deu um baita susto. Como pedido de desculpa, o Marek sugeriu a gente te ajudar a trazer os livros para a Escócia. É só falar. Abaixo, havia um e-mail.

De repente, o sol saiu de trás de uma nuvem que corria pelo céu e atingiu em cheio o tronco da árvore. O calor que se espalhou pelas costas de Nina foi maravilhoso. Ela pegou o livro e voltou para perto do tronco da árvore, então se acomodou ali – era mestre em achar uma posição confortável em árvores – e começou a ler.

 

Ao silêncio te abalança,

guarda anseios e esperanças

em teu abismo de estrelas,

lá, onde brilham qual velas,

contempla na alma sagrada,

contempla sem dizer nada!

 

Ficou um tempão olhando para o primeiro poema, brincando com uma folha entre os dedos. Como era estranho que uma pessoa com quem se encontrara tão rápido e sob circunstâncias tão extraordinárias tivesse sido capaz de expressar exatamente como e o que Nina estava sentindo. Ou melhor: que tivesse pegado o que ela estava sentindo e transformado em algo menos angustiante.

A poesia em russo parecia encantadora, embora fosse completamente incompreensível.

 

Молчи, скрывайся и таи

И чувства и мечты свои –

Пускай в душевной глубине

Встают и заходят оне

Безмолвно, как звезды в ночи –

Любуйся ими – и молчи.

 

Leu o poema outra vez, refestelando-se na calidez deliciosa daquele confortável cantinho no grande carvalho. Sabia que corria o risco de adormecer e cair da árvore, mas estava tudo tão quieto em volta que se ouvia apenas o zumbido das abelhas nas flores e o canto de uma gaivota lá no alto, e Nina sentia uma paz interior inigualável.

FOM-FOM!

Uma buzina de carro soou tão alto que Nina se assustou e quase caiu de fato.

FOM-FOM!

Um Land Rover imensa e arrogante ocupava mais da metade da estrada. Nina tinha deixado espaço suficiente para que ele passasse, não tinha? Então qual era o problema?

– Pode passar! – gritou Nina lá para baixo.

Mas de nada adiantou, porque o Land Rover buzinou outra vez. Furiosa, Nina ficou tentada a atirar algo no capô do carro – talvez uma bolota, mas não estava na estação certa. Os pássaros se assustaram e voaram para longe, fugindo do som terrível, e o momento perfeito de calma e paz interior estava arruinado, tudo porque um motorista imbecil estava com medo de passar pela van e arranhar seu retrovisor caríssimo.

Ela desceu da árvore, irritada.

– Pode passar! – repetiu, bem alto, para a janela aberta. – Tem espaço! Não é tão grande assim!

O rosto que respondeu era severo.

– Bom, para começar, é bem grande, sim. É imensa.

Nina percebeu tarde demais que quem estava dentro do Land Rover era ninguém menos do que Lennox, o fazendeiro – seu novo senhorio –, o que só a deixou mais irritada por algum motivo. Afinal, aquela paisagem rural idílica era a terra dele. Por que estava tão determinado a arruiná-la?

– E, em segundo lugar, o galho que você escolheu para sua leitura relaxante está todo podre. Não percebeu?

Nina olhou para cima e viu que o tronco estava descascando e que esporos verdes já começavam a se espalhar pelo cerne sob o galho.

– Ele está morrendo – acrescentou Lennox, ainda sisudo.

– Ah. Não tinha reparado.

– Óbvio que não – respondeu Lennox, irônico. – Se o galho tivesse quebrado e você tivesse caído de novo na linha do trem, eu teria que tirar pontos de você por negligência. Mas, afinal, o que estava fazendo lá em cima?

Nina deu de ombros, apertando o livro junto ao corpo.

– Nada – respondeu.

– Quer dizer, o que não falta é árvore que não esteja podre.

– Ah, acho que eu fui com a cara dessa, só isso.

Fez-se um breve silêncio. Lennox parecia desconfortável. Ele coçou a nuca e perguntou:

– E então, está se adaptando bem?

Nina baixou os olhos para o livro e replicou, constrangida:

– Ah. Eu devia estar trabalhando mais... Quer dizer, não vou deixar de pagar o aluguel!

– Não era disso que eu estava falando – comentou Lennox, ruborizando na pontinha das orelhas. – Fiquei sabendo que as mulheres do vilarejo estão em polvorosa com a sua chegada. Parece que só eu acho sua ideia meio boba.

– Então acha que ler é coisa de mulher, é isso? – indagou Nina, ainda irritada. – Sabe, as mulheres acham muito atraente um homem que lê.

Assim que disse isso, ficou sentindo que tinha ido longe demais. Lennox desceu do carro e se colocou ao lado dela, sem encará-la. Então, suspirou e estalou os dedos. No mesmo instante, um cachorro preto e branco saltou da traseira do Land Rover e veio correndo até ele. Lennox começou a acariciar as orelhas do cão de modo automático. Nina pensou como seria útil ter uma fonte instantânea de consolo. O cachorro parecia bonzinho.

– Acham mesmo? – quis saber Lennox.

Ao mesmo tempo que ele perguntou isso, Nina disse:

– Gostei do seu cachorro. É muito fofo.

O cão veio até os pés dela e cheirou a mão de Nina.

– E esperto também – acrescentou ela. – Ah, mas que garoto lindão! Que cachorrinho fofo!

– Ele é um cão de serviço – rebateu Lennox. – Não é um cachorrinho fofo. E nós dois temos que voltar ao trabalho.

Nina ficou olhando o Land Rover partir e ganhar distância, os grandes pneus atirando lama para os lados. Suspirou. Irritar o senhorio não estava na sua lista de prioridades. Voltou a olhar o livro e o bilhete que ainda tinha em mãos. Bem, o dia não fora um desperdício total.

Enquanto dirigia de volta para a fazenda, deixou-se levar por um devaneio: um devaneio com o belo estrangeiro de olhos tristes, dono de um coração profundamente romântico, cruzando a noite em seu belo alazão – quer dizer, em seu trem gigantesco. Nina sabia que não deveria estar pensando dessa forma, mas não conseguia evitar. Ela era assim e ponto final. E agora tinha um e-mail legível.