A pequena livraria dos sonhos
Capítulo dezesseis
As garotas dormiram até bem tarde. Nina se sentou na cama umas onze da manhã, enquanto Surinder ia fazer café, e depois ambas olharam para um item que Nina comprara que se chamava “bolinho de batata”. Por fim, decidiram colocar o bolinho na torradeira e besuntá-lo de manteiga, resultando em algo mais delicioso do que as duas esperavam. Degustaram admirando a paisagem tomada pelo sol e pelo vento.
– Que dia lindo! – exclamou Nina.
– Está ventando muito.
– Sim – falou Nina, com paciência. – É para aliviar o calor.
– Ih, pronto. Já virou nativa.
– Não tanto quanto você. Não fui eu que saí trocando DNA por aí.
– Quando foi que você ficou tão atrevida? – perguntou a amiga, devorando mais um bolinho de batata. – Meu Deus, isso é mesmo uma delícia.
– Sei lá – respondeu Nina, pensando no assunto. Também já tinha notado que estava um pouco diferente. Abriu a porta e ficou ali parada um instante, aproveitando o calor do sol e o frescor da brisa. – Eu acho... acho que foi quando a gente tirou os livros de casa. Arrumou um novo lar para eles.
– Acho que você tem razão. Parece que aliviou um grande peso, figurativamente falando.
– E literalmente também – observou Nina. – Mas sim. Eu sinto que podemos voltar a ser amigas como antes, sem você me olhando feio o tempo inteiro.
– Se eu não fizesse isso, você ia acabar botando meu teto abaixo – respondeu Surinder.
– Sim. Exatamente. Peso. Aliviado.
– Também reparei outra coisa – falou a amiga.
– Diga.
– Você não está com um livro na mão.
– Bem... é que daqui a pouco eu vou para a minha van. Para ficar com todos os meus lindos livros. E depois vou sair para vender.
– Eu sei. Mas você não leu durante o café da manhã.
– Eu estava conversando com você.
– E não levou um livro para a cama.
– Estávamos bêbadas e eram quatro da manhã.
– Você parou de ficar o tempo todo agarrada a um livro, como se fosse um bebê agarrado ao seu cobertor.
– Eu não fazia isso!
– Hum.
– Além do mais, qual é o problema de ler, hein?
– Não tem problema algum – respondeu a amiga –, como eu já falei um milhão de vezes. Mas agora parece que você enfim está fazendo as duas coisas: lendo e vivendo, lendo e vivendo. E depois de novo, e de novo.
Nina olhou para as flores silvestres que cresciam no prado lá fora, à esquerda do campo inferior, tremulando à brisa suave. Dava para sentir um leve traço de jacinto-dos-campos no vento que vinha do bosque.
– Hummm. – Nina suspirou.
– Você sabe que eu estou certa – afirmou Surinder. – Está até mais feliz. Dá para perceber.
– Não é isso. Eu só quero mais um desses bolinhos de batata.
– E ainda por cima está sentindo mais fome – observou Surinder. – E eu posso afirmar que esse é um sinal muito, muito bom.
– Para com isso! Ai, ai... Vou trabalhar. Vou, sim. Você pode ficar aqui de bobeira.
– Era exatamente o que eu planejava fazer. Tem alguma coisa para ler?
– Ah, para com isso. De novo. E se o Fazendeiro Resmungão aparecer...
– Sim?
– Não, deixa pra lá. Não diga nada. Ele é um babaca.
– Positivo.