A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 32 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo trinta e um

 

O chá da tarde foi um martírio. Mas em outras circunstâncias teria sido maravilhoso.

O sol se pôs devagar em uma explosão de tons de rosa e dourado, e o grupo recebeu a visita das esposas de vários dos peões, trazendo mais comida: belas tortas imensas e peças de presunto. Logo outros homens e mulheres das redondezas começaram a chegar, famintos, para a festa. Apesar de estarem cheios até a borda, os imensos jarros de sidra se esvaziavam a uma velocidade impressionante, acompanhados de pão caseiro com manteiga e queijo da fazenda. Ben e um grupo grande de crianças corriam pela casa, caçando o indiferente gato da fazenda, dando comida para Salsinha – que estava se divertindo como nunca – e roubando golinhos de sidra.

Alguém arranjou um violino e logo o pátio estava cheio de casais dançando. As pessoas cantavam e contavam piadas. Nina e Lennox não conseguiam tirar os olhos um do outro, completamente alheios a tudo à sua volta, distraídos e meio atrapalhados. Nina tinha certeza de que todo mundo conseguia perceber o que ela estava pensando. Não parava de ruborizar e não conseguia se concentrar em nada, mas sempre sabia muito bem onde ele estava e para onde estava virado. Só queria saber quanto tempo ainda teria que esperar até o momento em que, enfim, conseguiriam ficar a sós.

Por fim, os pratos começaram a ser recolhidos. Nina e Lennox concluíram, em acordo mútuo, que já era minimamente educado se retirar, deixando para trás os convivas e rumando para o celeiro de Nina, com as janelas que davam para o campo, longe da fazenda e dos olhares curiosos.

Nina chegou a se perguntar, por um segundo, se Lennox ficaria amuado e triste ao ver as cortinas esvoaçantes, a cozinha cara e a cama escandinava imaculada. Porém, ele continuou calado. No instante em que entraram, Lennox a agarrou outra vez e a beijou com tamanha voracidade que ela ficou sem ar. Então, levou Nina ao mezanino, arrancando as roupas dela com habilidade e rapidez. Quando ambos estavam despidos, Lennox a deitou na cama.

– Você – falou ela, admirando-o, em tom de surpresa. – É você.

Ele retribuiu o olhar penetrante, acariciando o corpo dela.

– Acho que sim – disse Lennox, quase com o mesmo espanto que ela. – Eu não... eu não esperava que isso fosse acontecer. Mas é que... eu não consigo parar de pensar em você. Tudo em você me fascina.

Ele se deteve, as mãos no rosto de Nina. Então prosseguiu:

– A sua expressão quando está lendo na van, quase sem se mexer, com os pés para cima e o rosto pleno de felicidade, e eu não sei para onde você voa, mas sei que é para muito longe, para uma parte da sua mente que eu nunca vou conseguir alcançar... Isso me deixa louco. E a maneira como você surgiu aqui, do nada, e mudou a sua vida inteira... Quer dizer, já faz quatro gerações que a minha família vive nessas terras. Eu nunca nem sequer teria tido a ideia de fazer o que você fez, de recomeçar, de fazer algo completamente diferente. É impressionante. Você é tão pequenininha... e eu nunca imaginaria que tem tanta força dentro de você. E aí teve aquele maquinista... Achei que eu fosse enlouquecer. Desculpa. Mas fiquei com ciúme.

Parecia que o coração de Nina ia explodir.

– Eu pensei... Eu não conseguia... Não seria capaz de suportar mais uma maldita paixonite, mais uma perda de tempo que não levaria a lugar nenhum e só faria com que eu me sentisse a pessoa mais idiota do mundo... e, para ser sincera, você me tratou mesmo como idiota...

– Porque o idiota sou eu – afirmou ele.

Nina fechou os olhos.

– Lennox, me beija. Por favor. Agora. Como só você sabe fazer.

O rosto dele se anuviou de repente.

– Kate – começou ele, e Nina estremeceu. – Kate... não gostava do meu jeito na cama. Dizia que a minha pegada era forte demais.

O rosto de Lennox foi tomado por uma expressão vulnerável que não lhe era nem um pouco familiar. Nina olhou nos olhos dele, emocionada ao notar uma abertura ínfima em sua tez fechada.

– As pessoas são diferentes – declarou ela em voz baixa, porém decidida. – Todo mundo tem o seu gosto único. E tudo bem. E o que eu gosto, eu acho... é de você. E gosto muito.

– Não parece muito o seu feitio – murmurou Lennox, um pouco encabulado.

– As aparências enganam – rebateu Nina, ousada.

Ela fez uma careta, o que enfim arrancou um sorriso dele.

– É. Acho que enganam mesmo. Será que agora a gente pode parar com esse falatório?

E foi o que aconteceu. Depois que terminaram, não houve risada, nem piada, nem conversa fiada. Os dois apenas ficaram em silêncio, ofegantes, com os corpos colados; a cabeça dele enterrada no pescoço dela, a barba por fazer roçando a pele macia. Estavam embevecidos, quase assustados com o que tinham feito. O coração de Nina ainda estava acelerado; e seu peito, ruborizado; a despeito do alívio momentâneo, a tensão entre eles começava a crescer outra vez.

O que se deu entre os dois foi um acontecimento e tanto; uma surpresa, algo que Nina nem sabia que carregava dentro de si.

– Posso ficar? – sussurrou Lennox, por fim.

– Pode – respondeu Nina, na mesma hora.

Não agradeceu nem pediu por favor, porque ela era uma Nina muito diferente em uma situação muito diferente, e não sabia quanto tempo isso duraria.

 

Durante um breve interlúdio, ele adormeceu. Nina notou que, ao contrário da maioria das pessoas, o rosto de Lennox não relaxava durante o sono. Não havia como admirar a beleza serena de seu rosto adormecido ou vislumbrar o menino que ele fora quando criança, muito menos descobrir a fragilidade que corria por baixo da fachada austera, como poderia acontecer com outro amante.

Não. Aquele era o verdadeiro Lennox: o maxilar de aço, o olhar firme de concentração absoluta, fosse na fazenda ou nela. Fascinada, Nina continuou admirando-o até ele enfim acordar, sem um único segundo de confusão e já a pegando pelos pulsos.

– Nina – grunhiu Lennox.

Parecia que tinha sede dela. E tinha mesmo, concluiu Nina, coberta de certeza. Lá fora, os violinos e a festa seguiram sem descanso madrugada adentro, e eles também.