A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 35 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo trinta e quatro

 

Tarde da noite, Nina se encontrava na ponta dos pés espiando pela janela da cozinha para ver – só para ver – se a luz dele estava acesa. O caminho dos dois mal havia se cruzado. Parecia loucura que tivessem passado as três semanas anteriores juntos, pelados, completamente entregues, tão vulneráveis e tão próximos, e agora deveriam cruzar um com o outro na rua como se nada tivesse acontecido. Era loucura. Depois de ter a chance de pensar no ocorrido, Nina começou a se culpar por ter botado tanta pressão, e tão cedo, no relacionamento.

E ela o desejava tanto! Sentia uma saudade desesperada de Lennox. Não era só o sexo, embora isso fizesse uma falta tremenda. Era como se nunca tivesse comido chocolate, até provar e passar a desejar chocolate o tempo inteiro.

Ela percebeu que tudo o que vivera até aquele momento havia sido mera brincadeira – situações agradáveis, ansiosas, suaves, boazinhas, mas brincadeiras. Eram em preto e branco, enquanto o que tivera com Lennox fora uma explosão de cores. O sexo era tão intenso que chegava a dar dor de cabeça. Em uma ocasião, Nina de fato tinha caído no choro, e ele, sem dizer nada, apenas a abraçara com força e enxugara suas lágrimas. Nina nunca se sentira tão reconfortada na vida, mesmo que não fizesse a menor ideia do motivo pelo qual chorava. Céus, como sentia saudade de Lennox…

Sentia falta da meia dúzia de ovos que, de vez em quando, aparecia à porta dela, da sidra caseira que eles bebiam na cozinha. Sentia falta de ver Salsinha feliz quando ela chegava em casa. O cão estava passando quase todos os dias no campo com o dono e, nas raras ocasiões em que Nina o via, estava tão enfurnado em casa que só ficava olhando a van de longe quando ela passava. Sentia falta daquela sensação peculiar que Lennox transmitia: a certeza de que o que quer que acontecesse, fosse com uma ovelha, um cachorro ou com ela mesma, ele faria com que tudo acabasse bem. Nina nunca imaginara que poderia se sentir tão segura quanto se sentia com ele.

Deu mais uma espiadela pela janelinha da cozinha e já estava prestes a fechar a cortina quando, por um instante, vislumbrou um breve reflexo na janela do outro lado do pátio. E percebeu que Lennox também estava olhando para ela.

Paralisada na ponta do pé, sentiu um nó se formar na garganta enquanto continuava ali, encarando, sentindo uma imensa saudade, um desejo desesperado que perigava mandar às favas toda a razão e o juízo, uma vontade de atravessar o pátio correndo...

Ouviu um estrondo repentino. Aturdida, olhou para baixo e notou que havia derrubado um prato dentro da pia. Ao olhar de novo, Lennox tinha ido embora. E Nina ainda não sabia quanto tempo lhe restava.

 

Aquele negócio de autorrealização era difícil demais, pensou ela. Nina mal estava conseguindo ler uma única palavra, e isso foi a gota d’água. Lennox até podia ter arruinado a vida sexual dela, sua paz de espírito, suas esperanças de ser feliz algum dia, seu ganha-pão. Mas NINGUÉM iria arruinar sua leitura.

Era melhor ir embora, pensou, ousada. Era melhor se mudar para as Ilhas Orkney. Recomeçar. Já havia feito isso uma vez, poderia fazer de novo. Começar do começo, longe daquela cidade, das fofocas, dos olhares enxeridos e da grande dificuldade de ter que viver tão perto de uma pessoa que significara tanto para ela.

Disse a si mesma que iria embora, com certeza. E não seria questão de dar um ultimato – de fazer uma ameaça vazia – na esperança de que ele enxergasse a razão e implorasse para que ela não fosse, e então tudo ficaria bem. Nina faria o que era melhor para ela. Outra vez.

Colocou um vestido um pouco fresco demais para o clima, passou um batom com a mão trêmula e, fingindo uma confiança muito maior do que de fato sentia, abriu a porta da frente com vontade.

E lá estava Lennox, com as mãos gigantescas no batente da porta. Nina levou um susto.

– Ah!

– Nina – disse ele, com sofrimento estampado no rosto. – Não aguento mais. Não consigo viver sem você. Eu não... Me desculpa. Por favor. Sei que eu sou... difícil. Sei, sim. Me dá mais uma chance. Eu só preciso de mais uma chance. Por favor...

Ele não precisou dizer mais nada. Nina o agarrou com força e o puxou para si, sabendo muito bem que, independentemente do que fosse acontecer depois, não seria capaz de partir, não seria capaz de esquecê-lo. Ele era uma constante incontestável, a despeito da vontade dela, e Nina não tinha a menor escolha.

Colou o corpo ao dele, e Lennox a abraçou com tanta força que ela quase não conseguia respirar. O coração de Nina batia forte, e, de repente, algo nela se abriu de forma completamente inesperada; algo que não se comparava a nada que pudesse ter sonhado, fantasiado ou lido em um livro.

Ele foi se acercando dela de maneira dolorosamente lenta, e o corpo de Nina se esticou todo com anseio, prolongando o segundo delicioso antes que sentisse a presença dele, sentisse seu gosto outra vez. Lennox sorriu para ela, como se entendesse muito bem o que ela sentia e o significado por trás daquilo tudo.

E então, de repente, o corpo dele se retesou. Nina também escutou: o som de pneus percorrendo a estradinha que dava na fazenda. Ela ainda sorria, presumindo que se tratava de um fornecedor de ração ou o veterinário, mas Lennox balançou a cabeça. Estava muito claro que reconhecia o som do carro. Ele se afastou, com o rosto consternado.

– Ah, Nina, me desculpa – disse Lennox, embora ela não compreendesse por que ele se desculpava. – Sinto muito.

E foi então que um Range Rover Evoque branco atravessou o pátio da fazenda, enxotando as galinhas, e freou cantando pneu.