A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 24 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo vinte e três

 

As férias de verão significavam grandes volumes de livros infantis, calhamaços de romances de verão e também uma boa quantidade de ficção mais séria, pois as pessoas sempre tentavam arranjar tempo para leituras que vinham adiando por anos. Nina se viu envolvida com uma pilha de clássicos.

Enquanto percorria as cidadezinhas, todos vinham contar a ela para onde iam viajar nas férias e o que estavam pensando em ler, e Nina sempre tinha uma recomendação. Tanta gente perguntou se ela ia ao festival de verão que Nina quase cogitou ir. Também tinha ligado para o serviço social para falar de Ainslee e Ben – sentindo-se culpada e péssima –, e eles só haviam lamentado e dito que colocariam as crianças na lista, mas que estavam tão sobrecarregados que ainda levaria um tempo para avaliarem o caso dos dois. Nina tentara perguntar a Ainslee sobre as provas, de forma discreta, mas a expressão de adolescente emburrada voltou na mesma hora, e a menina passou os quatro dias seguintes sem aparecer. Nina não queria nem pensar no risco de Ainslee perder também a livraria, então decidiu não dizer mais nada, só dava à garota o máximo de dinheiro possível.

A própria Nina também tinha outras coisas em que pensar. Mais especificamente, um bilhetinho deixado em uma linda caixa de madeira entalhada que encontrara em um dos galhos da velha árvore e que dizia apenas “Venha, por favor”.

Estava dividida. Não queria deixar de ver os clientes regulares e perder os dias com mais movimento. Por outro lado, queria mesmo visitar sua antiga casa, ver se algo tinha mudado e descobrir se por acaso se sentiria diferente, e é claro que também queria ver Surinder. No vilarejo, todos sempre perguntavam por ela. Estava claro que a amiga tinha causado uma impressão e tanto. O cara do nome que terminava em “gus” vivia saudoso e amuado pelos cantos, comprando uma tonelada de livros sobre lobos solitários que afogavam as mágoas resolvendo crimes pelas estradas da vida. Além disso, Griffin avisara de um leilão que ia acontecer em Birmingham para vender o estoque de uma biblioteca, e Nina enfim se sentia corajosa o suficiente para fazer uma viagem longa com a van.

No entanto, mais do que qualquer outra coisa, queria ver Marek de novo. Queria tanto! Não conseguia pensar em nada além disso.

Então, se forçou a ir fundo. Pensou em avisar Lennox que passaria alguns dias fora, mas fazia um tempo que não o via, então decidiu que não tinha muita necessidade disso – não que ele fosse dar a mínima, aliás. Mas deu um osso para Salsinha, para que o cão soubesse que ela ia sentir saudade.

 

Voltar à cidade grande era muito estranho. Nina percebeu que tinha se habituado ao fato de que todos no vilarejo a conheciam pelo nome e sabiam tudo sobre sua vida e a livraria. A velocidade com que isso ocorrera fora, ao mesmo tempo, surpreendente e comovente. Era muito agradável ser cumprimentada com familiaridade no correio e no banco, além de poder ajudar as pessoas um pouquinho aqui, um pouquinho ali.

Logo depois de dar um abraço forte em Nina, Surinder franziu o cenho e começou a reclamar:

– É horrível aqui. Está quente demais, e úmido demais, e qualquer quadradinho de grama está sempre ocupado por homens gordos expondo os braços gordos em camisetas regatas e vestidos como bebezões. Calças corsário! Sandálias! Dedões do pé cabeludos! É nojento. Estou MORRENDO de saudade da Escócia. Pelo menos lá se dorme bem à noite.

– Aqui tem um cheiro esquisito – comentou Nina. – Será que eu nunca tinha percebido isso?

– Ah, sim, também reparei – respondeu Surinder. – Assim que voltei. É cheiro de lixeira, comida podre e ar parado.

As duas caminhavam pela rua. O asfalto estava grudento e brilhava ao sol. Fazia muito calor e o ar estava abafado. Havia várias pessoas sentadas nos degraus na frente de casa, sem muito propósito. O bar da esquina estava apinhado de gente bebendo nas mesas externas, gritando e falando muito alto. Tudo parecia entupido, quente e cheio demais. Nina fez uma careta.

– Acho que não estou mais acostumada a ver tanta gente. Há pessoas demais aqui.

– É, eu sei, eu sei – falou Surinder. – Será que você pode ir lá na minha empresa e mandar eles abrirem uma filial em Kirrinfief, por favor? Acho que é meio longe para eu continuar trabalhando aqui e ir morar lá.

Nina sorriu.

– Sim, é exatamente disso que a gente precisa lá, mais coisas com cara de cidade grande – brincou ela. – Por que não se muda para Perth?

– Ah, não rola – respondeu Surinder, suspirando, e seu tom de voz mudou. – Não tenho a sua coragem, Nina. Não conseguiria jogar tudo para o alto e recomeçar a vida em outro lugar, como você fez. E a minha mãe?

– Mas eu fiz o que fiz porque você me encorajou.

– É, mas eu não achei que você ia mesmo fazer isso! Era só um artifício para conseguir ter o meu corredor livre de novo.

Do outro lado do bar apinhado, Griffin acenava para elas. Estava estranho sem a barba e vestia uma camiseta ridícula com a foto de um guaxinim. Para piorar, usava uma touca frouxa muito esquisita.

– Griffin?

Ele veio até as duas com três garrafas de sidra na mão e deu um abraço em cada uma.

– Ai, graças a Deus. Duas adultas. Graças a meu bom Deus.

– E aí, o que conta de novo?

Ainda segurando os cotovelos de Nina, Griffin se afastou para poder observá-la.

– Não, eu quero saber o que você conta de novo. Está tão diferente!

– Não estou, não. Quer dizer, tirando o fato de que agora quase não pego sol.

Griffin balançou a cabeça.

– Não, não é isso. Você... você está com o rosto mais viçoso.

– Está dizendo que eu engordei?

– Não! Mas é que está parecendo mais... robusta.

– Vai à merda, Griffin.

– Não, não foi o que eu quis dizer. Acho que você está mais... forte. Mais substancial. Menos diáfana.

– Pare de falar de mim como se eu fosse uma foto em De volta para o futuro!

– Não sei o que estou dizendo. Apenas me ignore. O trabalho está acabando com a minha mente. Só o que eu quero dizer, de coração, é que você está muito bem. Melhor do que muito bem.

E, pelo jeito como a olhava, Nina soube que era sincero.

– Você também – disse ela, embora Griffin estivesse com uma aparência meio boba.

Era óbvio que ele estava tentando se enturmar com a equipe jovem e descolada. Tinha até furado as orelhas.

– Como está o trabalho?

Griffin franziu o nariz e tomou um longo gole da bebida.

– Ah, não quero nem falar nisso. Estou muito feliz em te ver, mas se começar a falar sobre a sua vida maravilhosa com horário de trabalho flexível e sobre viver passeando pelos lindos campos em sua livraria fofa, aí eu vou ter que cometer suicídio.

– Está bem – falou Nina. – Minha vida é horrível.

– Não é, não – contestou Griffin. – Surinder já me falou tudo. Ela disse que é lindo e maravilhoso tudo lá e que pretende voltar assim que tiver uns dias de férias.

– Ou se eu conseguir arrumar uma licença médica – acrescentou Surinder.

– Por que você não vai me visitar também? – Nina sugeriu a ele.

– Ah, não. Eu não suportaria se o lugar for legal. Não mesmo. Pego no trabalho todo dia às sete da manhã e já começo a atacar a papelada que o RH me manda, depois preciso ir às reuniões sobre controle de desenvolvimento, em seguida volto para consertar os computadores que quebraram porque eles quebram todos os dias, depois tenho que ensinar velhinhos de 90 anos a usar esses computadores porque todas as agências bancárias da região fecharam e eles não têm mais onde pagar as contas. Parece que toda uma geração foi lançada em um mundo incompreensível onde nada faz sentido para eles, então ou aprendem a usar o teclado ou vão morrer de fome.

Ele bebeu mais um grande gole de sidra e prosseguiu:

– Lembra como era ótimo quando as crianças iam à biblioteca?

– Você odiava quando tinha criança! – protestou Nina. – Ficava reclamando que elas deixavam seus preciosos volumes do Frank Miller cheios de marcas de dedo.

– É, eu dizia mesmo que odiava – concordou ele.

– Não, você odiava de verdade!

– Bom, comparado ao que eu vivo hoje, era um paraíso. Era ótimo. As pessoas sempre vinham porque queriam trocar livros ou contar histórias ou mostrar alguma coisa de que gostavam. Agora elas só vêm porque estão desesperadas. São pessoas isoladas do mundo porque não têm internet ou porque perderam os benefícios e não estão conseguindo pôr comida na mesa, e não tem mais ninguém que se importe com elas. Só o que o mundo faz é mais e mais feridas na carne dessas pessoas. Além de bibliotecário, agora sou suporte de TI com pitadas de psicólogo, terapeuta contra vício e assistente social. Para piorar, todo dia um funcionário de 19 anos da minha equipe se tranca no banheiro para chorar porque não atingiu a autorrealização.

Nina se calou. Não sabia o que dizer.

– Você devia ir para a Escócia – sugeriu Surinder.

– Você também! – devolveu Griffin. – Mas nós dois não somos tão descolados quanto a Nina.

Nina não era nada descolada, mas achou que não seria de bom tom fazer essa observação. Foram para a área externa do pub. Perto do muro, uma briga estava prestes a estourar, e no meio da comoção havia uma garota com apliques muito loiros no cabelo, animadíssima por fazer parte daquilo tudo.

Em um dos cantos havia um grupinho escandaloso de adolescentes que não paravam de falar ao mesmo tempo, sem nunca ouvir uns aos outros. Todos pareciam hostis e ansiosos. As pessoas se empurravam e se acotovelavam para chegar ao balcão do bar. Nina percebeu que se sentia tensa. Sua frequência cardíaca estava elevada e se sentia assoberbada pela enorme quantidade de gente à sua volta, pelo cheiro de escapamento de carro, pelas buzinas altas, pelo bater dos copos e pelos gritos estridentes. Enfim, por tudo o que envolvia uma movimentada noite de sexta-feira na cidade em pleno verão.

Pensou em como a noite terminaria – mulheres carregando os saltos na mão, muitos gritos nas ruas, sirenes de ambulância para todo lado – e se perguntou, de maneira bastante egoísta, quando Surinder iria querer ir embora.

No fim das contas, nem precisou esperar muito. Griffin ficou bêbado e emotivo e parecia prestes a irromper em lágrimas quando, de repente, um grupinho de jovens barulhentos e risonhos entrou no bar. Por acaso, um deles trabalhava com Griffin e gritou o nome dele.

Griffin se transformou no mesmo instante. Ficou todo alegre e faceiro e começou a falar expressões como “isso é top” e “sextou”. Surinder e Nina se entreolharam e, em acordo tático, saíram à francesa.

Voltaram para casa juntas, caminhando devagar pela noite abafada que já estava bastante escura.

– A essa hora, ainda estaria claro lá... – Nina percebeu que estava prestes a dizer “lá em casa”. – Lá no norte – apressou-se em corrigir.

Passaram por dois gatos brigando, e alguém em um andar alto de um prédio mandou, aos berros, que os bichos calassem a boca. No prédio ao lado, alguém ouvia música eletrônica muito alto. Alguém também mandou, aos berros, que todos calassem a boca. Um carro com a capota arriada e música altíssima passou a toda pela rua. As duas garotas apenas olharam. Os ocupantes do carro gargalhavam alto e gritaram provocações para as moças de uma despedida de solteira que vinham pela calçada na direção oposta.

Surinder suspirou.

– E aí? Está morrendo de vontade de voltar para cá?

Nina balançou a cabeça.

– Vou encher a van com tudo o que ainda resta e acabou para mim. Eu acho... acho que não tenho mais o que fazer aqui. Comprei uma boa quantidade de exemplares no leilão.

Surinder assentiu.

– Eu não... não sei por quê, quando fui lá te visitar, achei que fosse encontrar uma congelante terra de ninguém. Achei que fosse chegar lá e nós duas ficaríamos rindo juntas dos homens de saia, perguntando o que são haggis e cantando músicas dos Proclaimers.

– Ah, eu adoro os Proclaimers! – protestou Nina.

– Meu Deus, você virou mesmo nativa! Que absurdo!

– Mas é uma banda ótima, de verdade.

Mas estava claro que Surinder ainda não tinha terminado.

– Só que não... Lá não tem nada a ver com isso – falou ela, devagar, enquanto um helicóptero da polícia sobrevoava baixo, enchendo a noite de luz e barulho. – Lá no norte... lá é muito especial. É um lugar bom para o coração. Quer dizer, não tem como não ficar tocada. Todos aqueles campos, e o sol que nunca se põe, as pessoas cuidando umas das outras.

– Bom, não temos escolha – observou Nina. – O pronto-socorro mais próximo fica a uns 100 quilômetros.

– Lá no norte parece que dá para respirar fundo de verdade, e parece que os problemas e as preocupações do dia a dia já não importam tanto. Parece que dá tempo de pensar de verdade na vida e o que se quer fazer dela, em vez de só passar o tempo todo correndo de casa para o trabalho, para os pubs, para os encontros, para a academia, para fazer coisas irrelevantes.

– Não esqueça os homens gatos – disse Nina, sorrindo.

– Tem isso também – falou Surinder, sorrindo. – Mas só se você gosta de pessoas com sardas. O que é o meu caso.

– Volte comigo. Tenho espaço de sobra em casa.

Surinder fez que “não” com a cabeça, e as duas chegaram ao portão da casinha geminada. Alguém tinha deixado em cima do muro baixo um saco de cocô amarrado com muito cuidado. As amigas só olharam, suspirando.

– Falando nisso, já marcou um encontro com o seu moreno dos olhos misteriosos?

Nina deu de ombros, mas ficou ansiosa ao pensar nisso.

– Deixei um bilhete para ele. Espero conseguir vê-lo amanhã à noite. – Tirou o celular da bolsa. – Estou esperando que Marek entre em contato comigo usando meios mais modernos.

Surinder deu um sorriso brincalhão.

– Rá! Isso é a sua cara. Você desaprendeu a lidar com coisas mais modernas que um papiro.

– Não é bem isso – retrucou Nina, embora tivesse sido bem difícil se desvencilhar da troca de mensagens no lugar secreto e do recanto romântico e idílico da árvore. – Além do mais, ele não me mandou nenhuma mensagem.

– Acho bem possível que ele tenha mandado e que você é que não saiba mais mexer com essas novas tecnologias.

Nina fez uma careta e pediu:

– Venha morar comigo, vai...

– Não dá. Sou covarde. Não posso abandonar meu trabalho, não posso largar o financiamento da casa e tudo mais. Além disso, o que eu ia fazer lá? Não basta ser um gênio da administração, sabe?

– Tenho certeza que você vai achar alguma coisa.

– E se eu não achar? Aí eu ficaria presa a um trabalho horrível e ganharia uma mixaria. Eu já odeio meu trabalho atual, mas pelo menos ganho bem. Quanto você está ganhando?

Nina estremeceu.

– É, eu sei, não muito...

– Não mesmo – afirmou Surinder. – Desse jeito, nunca vai conseguir comprar uma casa, nem viajar, nem trocar de carro.

– Eu tenho a van!

– Tá, pode ser. Mas você ama o que faz. E é boa nisso. Eu não teria o mesmo privilégio.

Surinder encarou o quadradinho coberto de ervas daninhas que fazia as vezes de quintal, com os escapamentos de carro rugindo na rua.

– Quer um chá?

 

Nina havia implorado pela ajuda dos amigos fiéis e, mais uma vez, eles se dispuseram a atender seu pedido com muita boa vontade. Na manhã seguinte, Griffin apareceu com uma cara de quem estava com uma ressaca terrível. Parecia um pouco envergonhado e, como as duas repararam, vestia a mesma camiseta da noite anterior. O que acontecera fora que ele dormira com uma das jovens que estavam com o grupo, e se sentia meio constrangido, meio inacreditavelmente orgulhoso de si mesmo. Nina ficou em parte repreensiva, em parte contente pelo amigo, por ele estar parecendo mais animado.

– Mas agora eu não sei mais como entrar em contato com ela – falou Griffin, fingindo certo constrangimento enquanto Nina pedia um café da manhã reforçado para todos. – Tipo, é no Tinder, é mensagem de texto, é o quê?

Nina se lembrou de que ainda não tinha recebido nenhuma mensagem de Marek. Talvez ele tivesse mudado de ideia. Talvez já a tivesse esquecido. Ou pensasse que a coisa já fora longe demais. Tentou conter os dedos nervosos, que ficavam voltando ao celular a cada dois segundos.

– Tira uma foto da sua xícara de café e manda por direct para ela no Instagram – sugeriu Surinder. – Até a garota vai conseguir interpretar essa mensagem.

Griffin pareceu convencido.

– Vou fazer isso.

 

A casa de leilões era um lugar velho e úmido, nos arcos que ficavam abaixo de uma estação de trem abandonada.

O homenzarrão encarregado dos negócios deu uma grunhida e assentiu quando Nina lhe mostrou a papelada. Lá dentro havia grandes pilhas de livros que vieram da liquidação total de uma casa. Eram caixas e mais caixas. Nina teria preferido parar ali mesmo e avaliar o estoque, mas não tinha tempo. Precisava voltar logo ao trabalho. Contudo, depois de Griffin ter comentado, chegara a dar uma olhada na lista de itens pela internet antes mesmo de dar o lance, e o lote atendia perfeitamente às necessidades dela. Muitos compradores de livros usados procuravam primeiras edições raras, mas Nina queria exemplares em boas condições de livros contemporâneos, e aquela coleção em específico não desapontava: toneladas de ficção e não ficção que haviam pertencido a um leitor cuidadoso, que não era de esgarçar a lombada. Tinha dado sorte, sem dúvida.

Continuava fazendo um calor úmido, e o asfalto quase derretia nas avenidas. Era estranho sair sem casaco. Já fazia tanto tempo que isso não acontecia que sentia como se estivesse faltando alguma coisa.

Antes mesmo de vê-lo, Nina sentiu a presença atrás de si, como se fosse um arrepio na nuca. Enquanto Surinder e Griffin implicavam um com o outro alegremente na escuridão dos arcos, Nina virou a cabeça. Primeiro ele era só uma silhueta escura se aproximando devagar pela rua, mas foi ganhando definição aos poucos, e ela se empertigou.

– Marek?

Ele abriu aquele sorriso fácil de filhote de cachorro e abriu os braços.

– Estou aqui.

– Mas como você...?

– Sua amiga Surinder. Ela disse que você vai precisar de ajuda hoje. Ela me achou. – A voz dele ficou mais suave. – Sempre que Nina precisa de ajuda, eu estou lá.

Nina olhou para ele por um instante. Lembrou-se de beijá-lo, da maciez de seus lábios fartos, do desejo de chegar ainda mais perto de seu corpo robusto de urso. Percebeu que estava ruborizando.

– É tão bom ver você...

Marek se inclinou para beijá-la, mas os dois se desencontraram, e ele acabou dando um beijo suave na orelha dela, o que não foi muito ideal. E então Griffin e Surinder vieram se juntar a eles, ao sol. Surinder cumprimentou Marek com um tapinha nas costas e Griffin falou com ele com certa suspeita na voz. Se Nina estivesse prestando atenção, isso a teria ajudado a perceber que, a despeito de qualquer mocinha que estivesse conhecendo nos bares, Griffin continuava bastante interessado em saber com quem ela estava saindo.

– Como vai o Jim? – perguntou Nina.

Marek apenas deu de ombros e sorriu enquanto os quatro carregavam grandes caixas cheias de livros para a van, que já estava cheia dos livros que haviam tirado da casa de Surinder mais cedo.

Nina ficou muito entusiasmada ao ver o que havia dentro das caixas, notando por alto vários volumes de histórias infantis com papel de seda protegendo as páginas e detalhes em dourado na capa, além de todos aqueles livros de capa dura novos em folha. Pela condição dos exemplares, parecia que o dono ou a dona, quem quer que fosse, apenas comprava tudo o que queria e depois pensava se leria ou não. Nina ficou imaginando como seria ter tanto dinheiro assim, poder comprar todos os livros que quisesse sem se preocupar.

De vez em quando, ficava com vontade de largar o que estava fazendo para começar a ler um ou outro exemplar sem mais delongas, mas conseguiu se controlar até que a maior parte do trabalho tivesse terminado. A viagem de volta para a Escócia, carregada de tantos livros, seria como um trabalho de caminhoneiro de longas distâncias, mas, quando chegasse, ficaria bem abastecida por meses.

Em seguida, foram a um pequeno parque e encontraram, com certa dificuldade, um lugar livre para sentar – após limpar o lixo e as bitucas de cigarro deixados por outras pessoas – e comer o sorvete comprado em um trailer parado à entrada, que tinha o volume do rádio altíssimo para chamar atenção. Havia homens sem camisa para todo lado, e o espaço estava tão disputado que Nina chegou a sentir o cheiro da loção pós-barba deles. O sol castigava a cabeça, e ela ficou torcendo para que começasse a soprar pelo menos uma brisa leve.

Griffin estava deitado de bruços, trocando mensagens com a menina nova e rindo histericamente, mais alto do que o necessário, na opinião de Nina. Pouco depois, levantou-se de um salto, fingindo aborrecimento.

– Desculpe, pessoal, mas tenho que ir. O dever chama, sabe como é... – disse ele, de forma sugestiva.

Os três responderam com um sorriso amarelo. Então Surinder se virou para Nina e perguntou:

– Ainda tem sua chave? – Quando Nina assentiu, ela continuou: – Então eu não vou ficar aqui segurando vela. Até mais tarde. MAS NÃO MUITO TARDE.

Nina deu um beijinho na bochecha dela e ficou olhando a amiga se afastar, caminhando de forma graciosa pela multidão e pelas grandes pilhas de lixo que enchiam qualquer parque em um dia agradável de verão, enquanto o sol começava a se pôr no céu. Sentiu o coração batendo mais forte e se voltou para Marek, que estava com a cabeça baixa, sem olhar para ela. A nuca dele estava ruborizada. O silêncio reinava.

– Hã – começou Nina, enfim, sentindo a necessidade de quebrar o silêncio. – Como... como você está?

Marek se virou para ela, com certa profundidade nos olhos escuros.

– Nina, venha andar comigo.

Nina se levantou. Dava para notar que Marek estava tão nervoso quanto ela, mas isso não a deixava mais tranquila, nem um pouco. Caminharam pelo parque, cujas sombras já se alongavam ao sol poente, saíram pelo portão e seguiram na direção do canal. Os barcos estreitos típicos da região flutuavam de um lado para outro sob os últimos raios de sol do dia. Havia várias pessoas passeando com cachorros, a área externa dos bares e restaurantes estava apinhada de clientes falando alto e os pedestres pareciam mais preocupados em gritar ao celular do que prestar atenção aonde iam – ou seja, era uma típica tardinha de um dia quente de verão na cidade.

Mas Nina estava muito concentrada na mão de Marek, que pendia ao lado do corpo, com vontade de segurá-la. Parecia estranho que os dois estivessem ali, juntos, à luz do dia, como um homem e uma mulher em um encontro normal. Nina deu uma olhadinha para ele de soslaio. Marek fez o mesmo, e ela sorriu de volta.

– Por aqui – sussurrou ele.

Seguiu-o, surpresa. Saíram da rua principal e continuaram por uma ruazinha. Nina começou a ficar um pouco nervosa, mas Marek estava sorrindo, e ela se sentiu mais tranquila. E depois ofegou quando descobriu que a rua terminava em uma graciosa pracinha quadrada com um belo jardim. Ela nunca tinha passado por ali. Na verdade, não haveria nenhum jeito de encontrar aquele lugar por acaso, a não ser que você já soubesse de sua existência. Tinha uma cerca baixa e, sob um caramanchão, um pequeno portão com uma placa que dizia “Jardim Comunitário de Craighart” na caligrafia de várias crianças diferentes, decorada com borboletas e flores.

Dentro do cercado havia uma horta com repolhos e cenouras. Uma avó e seus dois netos cavavam novos canteiros na terra, e o ar da tarde carregava o som doce de suas vozes, mas, além deles, havia poucas pessoas por ali. Abelhinhas sobrevoavam lá e cá, e era possível sentir o cheiro de madressilva madura de um arbusto que alguém plantara em um jardim nas laterais.

– Ah! – exclamou Nina, surpresa. – Nem sabia que isso existia! Que lugar incrível! Tão lindo!

– Assim como você.

Marek a puxou para um canto mais reservado, longe de onde a família estava trabalhando. Nina olhou no fundo de seus olhos escuros. Aquela estava sendo a tarde mais agradável de todas.

– Ah, Nina... – disse ele, pegando a mão dela. – Desde que eu vim para esse país... era tão longe e tudo era tão estranho… E aí eu conheci você, e você é tão meiga e doce e inteligente, minha Nina. E eu adoro receber suas mensagens e mandar coisas pra você.

Ela foi se aproximando. Marek prosseguiu:

– Eu quase... Eu divido um quarto com muitos outros homens. É muito ruim. Trabalho a noite toda e não consigo dormir de dia porque não tem calma, e eu vivo triste e sinto tanta, mas tanta saudade do meu país, e morro de saudade do meu garotinho. A vida aqui é muito dura, ninguém é legal comigo, e tudo é tão caro, e, Nina, você não imagina como me ajudou... Você fez tanto por mim...

Marek a puxou para mais perto. Nina, no entanto, estava petrificada. Puxou a mão de volta, como se tivesse levado uma mordida.

– Você tem um filho? – perguntou ela, pensando, no mesmo momento, na cara arrogante do desgraçado do Lennox quando sugerira essa possibilidade.

– Ah, sim – confirmou Marek, suspirando, claramente alheio ao tom de alerta na voz dela. – Eu mostro foto.

– E ele mora com a mãe?

Nina ainda tentava se agarrar à possibilidade de que Marek fosse divorciado, separado ou algo do gênero. Isso era normal, não? Marek pegou uma carteira muito velha e gasta.

– Aqui – disse ele, tirando uma foto.

O menininho era a cara de Marek, sem tirar nem pôr, com grandes olhos doces emoldurados por longos cílios escuros. Ao lado dele estava uma bela garota esbelta e loira, com um sorriso tímido.

– Quem são eles? – Nina sentia o coração batendo forte no peito.

– Bom, esse é meu filho, Aras. – Marek estava à beira das lágrimas. – E essa é Bronia.

Nina franziu os olhos para a foto.

– Sua esposa?

– Não, não, não... namorada. É a mãe do Aras. Ela mora com a minha mãe.

Por um instante, o olhar de Marek foi tomado pela tristeza.

– Então vocês ainda estão juntos?

Ele pareceu confuso.

– Como assim?

– Vocês são um casal?

– Sim. Mas eu trabalho aqui por um ano. Tão longe de casa. E eu me sinto sozinho, Nina. Tão sozinho. E aí eu conheci você e de repente... é como o sol saindo! E eu tenho alguém pra conversar e trocar carta e pensar...

– Mas você fala sempre com a sua família?

– Sim. Ligo pra lá todo dia. Mas o que dizer? Eu ganho o dinheiro. Eu estou triste. Eles estão tristes. Minha mãe e minha namorada brigam muito. Aras vai fazendo as coisas e eu não estou lá. Ele aprende a falar e eu não estou lá. Eu ligo pra lá e todo mundo tá triste e com raiva de mim, e estou lá no meu quarto com todos aqueles homens e ouvindo a família dizer: “Ah, Marek, você vive saindo à noite”, “Você está sempre nos bares”, “Você só se diverte”, “Ah, Marek, estamos presos aqui e precisamos de mais dinheiro”... – A voz dele foi morrendo. – É muito difícil, Nina.

Nina engoliu em seco. Suas emoções tinham dado uma guinada de 180 graus. A raiva se transformara em perplexidade e depois em uma imensa piedade.

– Mas você não sabia... não pensou que talvez eu não quisesse me envolver com um homem que tivesse uma namorada e um filho? Você tem uma família, Marek. Como eu poderia entrar no meio disso tudo?

Marek deu de ombros.

– Sei lá. Aqui talvez é diferente? As coisas são diferentes aqui? – A voz dele estava repleta de esperança.

Nina balançou a cabeça, quase às lágrimas.

– Não. Não tão diferentes assim. Eu não poderia... Não sou esse tipo de...

– Mas eu não pensei isso de você! – argumentou ele. – Nunca pensei! Você sempre foi especial para mim, Nina! Muito especial! Não como as outras garotas!

Marek estava com o rosto vermelho, a carteira ainda aberta na mão. Sob a copa frondosa da árvore, Nina tocou o braço dele com delicadeza.

– Ah, Marek…

Ele passou um bom tempo olhando para ela, e a esperança em seus olhos foi se esvaindo aos poucos.

– Desculpa. Desculpa mesmo. Eu não devia ter pensado...

– Ah, não – falou Nina, tentando não chorar. – Não. Tudo bem. Está tudo bem, de verdade.

Marek olhava para ela.

– Quando você me beijou no trem... eu fiquei tão feliz!

Nina balançou a cabeça, dizendo:

– Acho que você precisa ir para casa, Marek. Vá tentar ser feliz. Em casa.

– Só quando eu tiver mais dinheiro. Quando puder cuidar da minha família direito, arranjar um bom emprego, ter mais qualificação... Eu tenho que fazer o que é certo. Tenho que ser um homem bom.

Nina o puxou e deu um abraço delicado nele.

– Eu acho que você já é um homem bom – afirmou ela. – E acho que vai dar tudo certo.

– Não sou homem bom – rebateu Marek, com tristeza.

– Mas pense no Aras. – Pense em como seu filho precisa de você, como precisa conviver com você.

– Eu sei. E logo eu vou poder conduzir trem na Letônia também, aí vou poder ir para casa...

Os dois recomeçaram a andar, sem rumo, passando pela senhora que brincava com os netos e voltando às ruas barulhentas e imundas.

– Mas vou sentir saudade – acrescentou ele. – Não daqui. Birmingham não vai dar saudade. Os homens no quarto e... não. Nada disso aqui. Mas vou sentir saudade da Escócia. Lá o cheiro é igual ao cheiro do meu país. A chuva no ar e o vento na grama e as estrelas no céu. Saudade. E vou sentir saudade de você.

O rosto dele estava tão tomado pela tristeza que Nina só queria abraçá-lo. Mas estavam chegando ao local onde ela estacionara a van cheia de livros.

– Tenho que ir – falou Nina.

Marek assentiu, o rosto pesaroso. Seu corpo todo parecia pesado e triste.

– Quer que eu leve mais livros pra você?

– Não. Eu tenho que... Você já me ajudou muito, e não quero correr o risco de lhe causar problemas. Você já se arriscou demais por mim. Fui egoísta e agi errado ao não perceber isso antes. E fui egoísta e agi errado ao não perguntar sobre a sua família. Disseram que eu devia perguntar, mas não quis ouvir. A culpa é minha.

Marek deu de ombros.

– A culpa não foi sua. E o privilégio foi meu.

 

Surinder estava deitada no sofá quando Nina voltou, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

– Eu avisei.

– Eu sei. Eu sei. Mas é que... eu imaginei tantas coisas.

– Você lê demais.

– Na minha cabeça, Marek era um herói romântico e perdido.

– Ele não tem como se perder, o homem conduz um trem.

– Você entendeu. Eu só... eu só queria… uma única vez… que alguma coisa boa acontecesse. Queria viver algo bonito.

Surinder se sentou.

– Eu sinto muito, sabe? De verdade. Sei que você gostava dele. Eu também gostava.

– Eu gostava da pessoa que achava que ele era.

– E ele também gostava de você. Com certeza. Só gostando muito mesmo para arriscar um trem de carga gigantesco por sua causa.

– Acho que ele teria se apegado a qualquer pessoa que o tratasse bem.

– Eu discordo. Ele é muito bonito. Poderia muito bem entrar em qualquer bar e as mulheres se jogariam em cima dele. Também acho que ele tem uma alma romântica. Acho que vocês são dois sonhadores.

Nina suspirou.

– Bom, agora é tarde demais. Marek tem um filho, uma namorada e tudo mais.

Surinder deu um forte abraço na amiga.

– Sinto muito. De verdade. Teria sido muito legal se tivesse dado certo.

– Eu sei – falou Nina. – Eu sei.

– Mas, olha, por outro lado, ele gostou de você! Primeiro foi o Griffin, e depois o Marek. Sua energia está brilhando no mundo!

– O Griffin só ficou interessado em mim porque não tinha mais ninguém disponível. Normal. E acho que o Marek pensou que eu seria fácil, que estava louca para dar para ele.

– É claro que ele não pensou isso. Muito embora fosse verdade.

– Ah, cala a boca.

Surinder olhou a hora.

– Você tem mesmo que voltar hoje? Qual é, você não tem chefe!

– Preciso ir, sim, porque a essa hora quase não vai ter trânsito e eu ainda tenho um bilhão de quilômetros pela frente. Além disso, tenho que voltar ao trabalho e ganhar algum dinheiro, para poder comprar gasolina e algumas garrafas ocasionais de Pinot Grigio. Ponto. – Surinder a encarou por um instante. – Não. Não tem sentido nenhum eu ficar aqui hoje morrendo de pena de mim mesma.

– Eu pago a comida! – exclamou Surinder.

Nina balançou a cabeça, repetindo:

– Não. Não quero mais pensar nisso. Quero ir para casa, ouvir rádio muito alto e nunca mais ver um trem pelo resto da minha vida.

Nina deu um beijo e um longo abraço em Surinder, pedindo que a amiga voltasse logo à Escócia, e Surinder a abraçou de volta e prometeu que voltaria assim que parasse de fazer calor em Birmingham, pois nesse caso sentiria frio nos dois lugares e não faria diferença, e ainda mandou que Nina deixasse de ser trouxa de uma vez por todas.

– Tente encontrar um amor de verdade – sussurrou ela. – Um amor de verdade.

Ao passar pela estação de trem, no meio do burburinho da noite movimentada de sábado, Nina olhou para os trens compridos parados ali. Incapaz de se conter, começou a chorar. Será que nunca chegaria sua vez? Todos sempre conheciam alguém, mas quando isso enfim acontecia com ela, o homem era namorado de outra pessoa, ou era mais uma ideia e um devaneio do que uma pessoa de verdade.

Surinder a aconselhara a procurar um amor verdadeiro, mas como Nina poderia encontrá-lo se nem sabia distinguir o que era de verdade?