A pequena livraria dos sonhos
Capítulo vinte e oito
Nina passava cada vez menos tempo na fazenda conforme a Pequena Livraria dos Sonhos ficava mais e mais movimentada. Os escoteiros locais mantinham um clube de leitura muito popular, apesar do primeiro encontro desastroso, que acabara em briga. O clubinho do livro infantil era sucesso garantido, e outros grupos foram surgindo. Nina sempre tentava fazer uma curadoria para indicar o melhor livro possível para os grupos, em vez de apenas sugerir um título novo e caro, embora os pequenos só quisessem ler os de Maurice Sendak.
Certa noite, ela escreveu uma mensagem para Griffin:
Imagine só, nos dias de hoje, alguém chegando para uma editora e dizendo: “Estou desenhando um livro infantil que é sobre um menininho que vive correndo por aí com o pintinho de fora e que vai parar na massa de um bolo, assado por quatro confeiteiros gorduchos.”
Você está meio estranha, respondeu Griffin.
Estou trabalhando muito, escreveu ela de volta. Parece que a minha vida não tem nada além de livros. No trabalho é tipo Tempos difíceis, depois vou pra casa e é tipo Fazenda maldita.
Quisera eu que a minha vida girasse em torno de livros, dizia a mensagem rancorosa de Griffin. Aqui a gente é proibido de pensar em livros. Só em presença em mídias sociais.
Microservos?, digitou Nina.
Nossa, não, eles são todos jovens demais para sequer terem ouvido falar desse livro. Ninguém tem mais de 23 e todo mundo vive tentando me levar para a night.
Achei que você estivesse adorando sua nova vida.
Estou EXAUSTO, isso sim, respondeu ele. E correndo um sério risco de contrair cirrose. Essas crianças só vivem dizendo GRATIDÃO para tudo. Só espero conseguir aguentar até a minha avaliação. É claro que você não precisa mais se preocupar com nada disso.
De fato, escreveu Nina. E também não tenho que me preocupar em receber hora extra. Nem licença médica paga. Nem em tirar dias de folga.
O choro é livre, James Herriot. Agora eu vou lá porque tenho que fazer um relatório de programação de confluência de dez páginas. E nem sei o que isso quer dizer!!!
Os dois se despediram, e Nina suspirou, tentando encontrar um livro para ler e se sentir melhor, mas só conseguia encontrar mocinhos românticos que lembravam Lennox, quando eram mais rudes e fechados, ou Marek, quando eram gentis e alegres, a tal ponto que começara a pensar que estava enlouquecendo. Estava inquieta, não conseguia dormir, e decidiu que era aceitável – perfeitamente aceitável – ir dar uma caminhada pela trilha já tão conhecida sem fazer muito alarde. Marek não estaria lá, ele não iria parar, e mesmo se isso acontecesse, não havia mais nada a dizer. Mas o exercício poderia ajudá-la a dormir. Talvez até ajudasse a restabelecer a esperança de encontrar outra pessoa, de viver um romance e de perceber que, quem sabe, só tinha conhecido a pessoa certa na hora errada.
Quando saiu, Salsinha começou a latir, tentando ganhar um carinho, mas Nina passou direto por ele e espantou as galinhas do pátio, rumando sozinha para os campos. Os espinheiros estavam em flor, desprendendo o perfume intenso no ar fresco da noite. Nina apertou o casaco contra o corpo e continuou caminhando. Pensou que era muito melhor dar uma volta por aí e pensar no futuro do que ficar sentada dentro daquela linda casa que não era sua e que em breve também não seria mais de Lennox. A casa que seria arrancada dele por uma mulher que não a queria, que não queria a fazenda e não dava o menor valor à adorável Kirrinfief, ao coreto no centro nem às bandeirinhas de solstício que enfeitavam a praça. Uma mulher que não almejava ter aquela vida, que só queria transformar tudo em dinheiro para torrar.
Irritada, Nina enfiou as mãos nos bolsos. Pensou que até poderia procurar outro lugar para morar nas redondezas. Mas não havia nada disponível, a não ser o quartinho no segundo andar do pub, e não queria morar lá. A Biblioteca das Ilhas Orkney, por outro lado, lhe indicara uma pitoresca casinha de fazenda já mobiliada, com aluguel superbarato, e, a propósito, se Nina optasse por ir, seria ótimo se arranjasse uma forma de trazer mais uns 20 ou 30 mil jovens para ajudar a repovoar a ilha, isso aí, obrigada.
Suspirou, irritada com o dilema, e continuou caminhando. Quando se deu conta, já se aproximava do cruzamento e seu coração estava cheio de arrependimento.
Ao avistar a árvore, parou na mesma hora, abismada.
Estava repleta de livros, amarrados com cadarço aos galhos, pendurados como se fossem frutas. Era uma visão estranha e curiosamente linda, uma árvore de livros em meio ao céu noturno azul-escuro de verão, bem no meio do nada.
Nina ficou encarando aquilo, boquiaberta. “Ah, Marek, o que você aprontou agora?”, pensou. Havia livros de história, ficção, poesia, vários em russo ou letão e outros em inglês. Muitos deles estavam danificados pela água, o que indicava que já fazia algum tempo que estavam ali, e algumas páginas tinham se desprendido e se colado ao tronco, o que ajudava a dar a impressão de que a árvore inteira era um imenso livro de papel machê.
Enquanto Nina assimilava tudo aquilo, hipnotizada, uma leve brisa soprou, e os livros começaram a girar e dançar ao sabor do vento – do papel à polpa, de volta à floresta, onde tudo começara.
– Ah, céus!
Suspirando, pegou o celular. Então tornou a guardar. Não. Não, não ia fazer isso. Não deveria.
Olhou o relógio. Não faltava muito. Logo o trem iria passar. Talvez não houvesse mal em vê-lo uma última vez antes de partir. Talvez para agradecer? Tinha acabado de compreender que os sentimentos dele eram muito mais fortes do que imaginara.
Mas será que não passavam de anseios de um coração romântico que estava solitário? E será que dois corações rômanticos solitários não deveriam ficar juntos?
Não, de jeito nenhum. Marek tinha um filho pequeno. Uma família. Nina não poderia prejudicar uma família, nem pensar.
Engoliu em seco. Então... Decidiu dar meia-volta. Se afastar dali.
Bem ao longe, ouviu, baixinho, o soar de um apito grave, o leve chacoalhar que já conhecia tão bem, e seu coração começou a bater no compasso da locomotiva.