A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 14 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo treze

 

Era empolgante ficar acordada até meia-noite esperando o trem da madrugada.

Jim ressaltara várias e várias vezes, por e-mail, que o que estavam fazendo ia contra o regulamento, de modo que Nina não podia dizer nada a ninguém, e ela cumprira a promessa com zelo, sentindo-se como uma personagem de um romance de espionagem.

Teria que estar no cruzamento exatamente à 0h12. Na primeira parte da viagem, Jim conduziria o trem rápido demais (o que jurava que nunca fazia) e então diria ao controle que teriam que parar um pouco para não saírem do horário marcado. Mas ela teria que ser muito rápida.

Para encarnar o papel, Nina se vestira toda de preto, incluindo um cachecol para cobrir a cabeça, e chegara até a tuitar uma selfie para Surinder, um tanto melancólica porque a amiga não estava ali para viver aquela aventura com ela. Mas Surinder nem chegou a responder, e Nina ficou um pouco magoada. Além do mais, o Facebook de Griffin era uma sucessão infinita de publicações mostrando como estava se divertindo na nova sede da biblioteca, um impressionante centro multimídia. Nina não sabia se era mesmo verdade ou se os novos chefes monitoravam todas as redes sociais, então era difícil saber o que o colega estava tentando mostrar. Seus outros amigos mandavam um oi de vez em quando, é claro, mas só. Consolou a si mesma dizendo que todos estavam muito ocupados, seguindo suas vidas. Ela é que estava fazendo algo totalmente novo.

Seguiu resoluta até a porta e apagou as luzes. Dava para ver que na casa de Lennox ainda havia uma luz acesa. Nina achava que, no geral, fazendeiros iam dormir cedo. Talvez Lennox fosse uma exceção. Talvez esse fosse o motivo para ele ser sempre tão rabugento. Talvez estivesse olhando o álbum de casamento, afogando as mágoas em um copo de uísque. Sentiu uma pontada de pena. Não queria pensar nele daquela maneira; em ninguém, na verdade. Era difícil. Passou pela casa principal em silêncio, mas não valeu de muita coisa, porque, assim que ligou a van, o motor fez um estrondo capaz de despertar os mortos.

Ao parar no cruzamento já tão familiar, desligou os faróis, sentindo como se fosse o único ser humano em um raio de quilômetros. Então, percebendo que devia mesmo ser o único ser humano em um raio de quilômetros, cobriu a cabeça com o cachecol e saiu da van.

Fazia frio. As corujas chiavam nas árvores, e o som de asas batendo se misturava ao farfalhar das árvores ao sabor do vento. Embora fosse madrugada, Nina não se via cercada de breu. A lua e as estrelas derramavam seu brilho na colcha de retalhos das plantações com uma intensidade que nunca seria possível na cidade, com suas fortes luzes halógenas. O frio lhe arranhava a garganta, e o mundo parecia muito estranho.

De repente, ao longe, escutou um tremor, seguido de um leve chacoalhar de rodas nos trilhos, diminuindo a velocidade. Logo depois, fazendo a curva, avistou uma luz atordoante. Foi como um rápido flashback, como se voltasse ao momento em que ficara presa nos trilhos, não conseguiu conter uma olhadela para trás, a fim de verificar que a van ainda estava a salvo do outro lado da cancela.

No vazio da noite, o trem era gigantesco e escuro, um grandioso dragão de metal. Não era de surpreender que tivesse havido um tempo em que as pessoas tinham medo deles. A locomotiva foi perdendo velocidade, mas ainda compunha uma silhueta obscura e soturna em contraste com os campos cinzentos ao fundo, até que a luz na cabine se acendeu e Nina viu o rosto alegre de Jim, com alguém ao lado.

Ouviu passos acompanhando os trilhos e ficou se perguntando quem seria a segunda pessoa na cabine. De repente, lá estava Marek, radiante à luz dos faróis do trem, os dentes brancos brilhando em contraste com a barba por fazer. Nina ruborizou ao vê-lo, como sempre fazia quando a mente lançava mão da literatura para construir a imagem de uma pessoa, alguém que estivesse à altura de suas fantasias românticas – que não eram raras. Sentiu-se tola no mesmo instante. Contudo, o sorriso dele era verdadeiro, e dava para notar que estava feliz em vê-la. Seus cachos pretos ainda caíam por cima dos simpáticos olhos caídos.

– Vem – chamou ele. – Vem pegar as caixas!

Nina abriu um sorriso tão grande que seu rosto quase se partiu em dois.

– Estou indo!

– E tem mais! – gritou ele, animado, apertando o passo. – Vem ver!

Jim pulou para fora do trem.

– Corre, corre! – falou. – Não podemos demorar, senão o trem noturno come nosso fígado.

– O trem noturno chega cedo demais – resmungou Marek. – Eles deviam era ficar felizes de ter mais uns minutinhos na cama. E tem mais! Olha!

Então, desceu do trem a outra pessoa que Nina vira de relance na cabine, atrás de Jim. Para sua surpresa, era ninguém menos do que Surinder.

– Suri! – gritou ela, correndo para abraçar a amiga. – Você está aqui! Por que veio? Estava morrendo de saudade.

Surinder deu um sorriso.

– Foi ideia do Marek. Quando os dois foram pegar os livros. Aliás, pode me explicar como conseguiu convencer esses dois homões a fazer todo o trabalho pesado para você?

– Fui contaminada pela confiança recém-adquirida do orgulho escocês – respondeu Nina.

Estava impressionada com a própria alegria por ver um rosto amigo (na verdade, três rostos amigos, ao que parecia) depois de apenas uma semana. Apesar de todas as novas sensações empolgantes que vinha experimentando – independência, liberdade –, Nina notou de repente que, desde que chegara, estava sentindo falta da familiaridade de estar com... bem, de estar com alguém que entendia e conhecia bem.

– Vamos! – falou Marek. – Vamos logo!

Todos correram para o primeiro vagão, e Jim soltou a trava da porta, olhando furtivamente ao redor. Por sorte, não havia ninguém à vista. Embaixo da lona, Nina sabia que devia haver umas setenta caixas de livros. Ela olhou para eles, sentindo-se culpada.

– Não fazia ideia de que era tanta coisa – mentiu.

– Ah, é? – indagou Surinder, erguendo duas de uma vez só. – Tem razão, como poderia saber? Eu só dei um milhão de avisos para você tirar toda essa tralha lá de casa.

Nina se sentiu péssima.

– Devo ter sido a pior colega de apartamento do mundo.

Surinder revirou os olhos.

– Na verdade, arranjei outra pessoa para ficar no seu lugar, mas fui meio precipitada. Ela chora no banho o tempo todo. E aí quando eu pergunto se está tudo bem, ela responde: “Estou bem, mas por que tem tanto livro aqui?”

Nina franziu o cenho.

– Que horror – falou. – Eu diria que ela está deprimida. Tenho alguns livros excelentes para recomendar.

Surinder enfiou as caixas na mala da van.

– Ótimo. Eu te pago quando a gente terminar.

– De jeito nenhum – contestou Nina, enquanto os dois homens tiravam caixas maiores do vagão. – Ah, estou tão feliz de ver você! Como se encontrou com eles?

– Fui de avião até Inverness e depois peguei uma carona. Na verdade, foi tudo bem emocionante. E ainda tenho alguns dias de férias. O escritório que desmorone sem mim. E eu já sei que isso vai mesmo acontecer. Preciso de uns dias de folga daquele lugar. – Surinder ficou olhando Marek abaixar, pegando uma pilha alta de caixas sem o menor esforço e colocando-as na van. – Mas a vista aqui é ótima, hein? – comentou de forma sugestiva.

– Surinder! – repreendeu Nina, chocada.

Ela própria tivera pensamentos mais românticos. Surinder olhou para a amiga por um instante.

– Ah, qual é, vai me dizer que não reparou? – rebateu, com malícia.

De repente Nina pensou no poema e, quando deu por si, estava ruborizando.

– Não seja ridícula – falou Nina. – Marek é só um cara muito legal que está fazendo um grande favor a nós duas.

– Um favor imenso, na verdade, já que está colocando o emprego em risco. – Surinder olhou para Marek de novo. – Você não acha que ele é um pouco parecido com o Mark Ruffalo?

– Já chega.

– Foi só uma pergunta.

– Se eu acho que um condutor de trem letão parece o Mark Ruffalo?

– Um pouquinho, vai...

– Ei, vocês duas, vamos logo, sim? Não quero ser demitido por fazer uma atividade extremamente ilegal em uma ferrovia federal.

As garotas se endireitaram, dando risinhos.

– Além disso, tem chá – acrescentou Jim, animado, mostrando a garrafa térmica. – Então vamos acabar logo de descarregar essas caixas antes que esfrie.

Voltaram ao trem para pegar mais caixas.

– Coisas assim devem acontecer o tempo todo, não? – O pensamento tinha acabado de ocorrer a Nina. – Tipo, artigos ilegais viajando de um lado para outro nos trens de carga? Tráfico, contrabando?

Jim e Marek sorriram.

– Não com a gente – respondeu Jim. – No lugar onde eu cresci, o que não faltavam eram exemplos do que as drogas são capazes de fazer com uma pessoa. Nunca quero ter nada a ver com essas coisas. De jeito nenhum. Já isso aqui... Isso é diferente.

Marek franziu o cenho.

– Sabe, quando meus pais eram pequenos, os livros na minha língua natal eram proibidos. Foi por isso que, infelizmente, aprendi a ler em russo primeiro e só depois na minha melodiosa língua. Enfim. É por isso que tudo que espalha livros, que ajuda a disseminar os livros, é algo que eu considero bom. Um bom remédio, não ruim.

Os quatro ficaram sentados durante um tempo sob o luar, conversando sobre livros e passando a garrafa térmica com chá quente e muito doce, e Nina poderia ter ficado ali até o dia raiar. Contudo, um telefone tocou dentro da cabine e ao mesmo tempo ouviu-se um apito bem alto em algum lugar – Nina presumiu que era o impaciente trem da madrugada. Hora da despedida.

Jim saltou para dentro da cabine e ligou o motor, provocando um rugido tão grave que fez o chão tremer. Surinder declarou que estava morrendo de frio e foi para dentro da van. Então Marek saltou de volta para dentro do trem, e Nina sorriu para ele.

– Nem sei como agradecer por tudo.

– Sabe, sim – afirmou ele, com delicadeza. – É só deixar um livro para mim de vez em quando. Sempre que pensar em nós.

– Vou pensar todos os dias – disse Nina, corando um pouco.

– Por mim está ótimo – respondeu Marek, também ruborizando de leve.

– Gostei muito do seu livro de poesia – comentou Nina. – Muito mesmo.

– Poesia é bom para quem está em terra estranha.

– Sim. É verdade.

O trem deu um longo apito e começou a andar, lenta e graciosamente, sob o céu estrelado.

Nina deu meia-volta e viu que Surinder, que devia estar exausta depois daquele dia cheio que tivera, dormia encolhida no banco do carona. Nina ainda ficou mais um tempo ao lado dos trilhos enquanto os sons do trem iam se afastando. Em seguida, passou o elegante trem da madrugada, comprido e pintado de belos tons de bordô e azul-marinho, com seu bar movimentado e cheio de estranhos conversando e se conhecendo, seus assentos reclináveis duros onde os viajantes menos afluentes e os trabalhadores tentavam descansar um pouco, e as janelas misteriosas e mal iluminadas das cabines de primeira classe. O trem reduziu a velocidade e passou suavemente pelo cruzamento, sem que ninguém a bordo notasse a garota ali sozinha no escuro, olhando para a frente.

E então, quando os trilhos pararam de trepidar, o silêncio reinou outra vez no vale amplo e escuro, e as Terras Altas voltaram a pertencer às corujas e aos esquilos de pés ligeiros e aos cervos delicados e ao vento que fazia farfalhar as folhas das árvores e à lua que brilhava lá no alto, restaurando a sensação de um mundo pleno de paz. Apesar do frio, Nina se sentia bastante tocada e grata ao universo pela sorte que tinha, e não se lembrava da última vez que se sentira assim.