A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 28 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo vinte e sete

 

O verão parecia estar se prolongando. Havia dias de muita tempestade, quando as nuvens chegavam quase a roçar no teto da van e chovia a cântaros, dobrando o capim das pradarias sob o peso das gotas. Mas também havia dias gloriosos, luminosos, quando o sol se erguia dourado e se punha rosado, o vento não passava de uma brisa cálida e as poucas nuvens eram pequenos tufos de algodão a passear pelo céu. Havia coelhos por todo lado, e o cheiro pungente de feno se desprendia dos campos e vinha perfumar o ar, deixando o mundo inteiro com um cheiro de puro frescor. E o mais importante de tudo era que não havia um único dia em que Nina conseguia se imaginar estando em qualquer outro lugar.

O desastre ainda não tinha acontecido. O que parecera tão fácil de dizer – “É claro que posso seguir em frente, é claro que vou para as Ilhas Orkney” – estava se mostrando muito difícil de fazer. Nina continuava tentando trazer os livros preferidos dos habitantes locais, atendia a multidão que sempre lotava as sessões de contação de histórias – poderia fazer umas dez por semana, se quisesse, e teria público – e tinha que encarar o fato de que só de andar na rua umas sessenta pessoas vinham cumprimentá-la, de tal forma que chegava a se perguntar se era assim que as celebridades se sentiam. Com tudo isso, se deu conta de que seria muito difícil ir embora.

Porque, apesar dos pesares, não tinha como negar: estava feliz.

Ainslee nunca faltava ao trabalho e continuava impressionada com a gentileza dos assistentes sociais, que haviam sido muito compreensivos e prestativos. Tinham até mandado alguém para ajudá-los na limpeza da casa. A garota logo completaria 16 anos e a mãe estava fazendo um tremendo esforço para estar presente e mandar Ben para a escola. A mulher tinha prometido fervorosamente parar de pedir que os filhos ficassem em casa com ela, no entanto, Nina não pôde deixar de notar que todo aquele tempo fazendo companhia para a mãe conferira a Ben um conhecimento profundo dos filmes de adolescente dos anos 1980. Assim, embora a data de análise do caso deles estivesse se aproximando, era muito provável que o serviço social permitisse que a família continuasse unida.

Quase todos os dias, Ben frequentava a colônia de férias infantil local. De vez em quando, se o dia estava muito bonito, Nina flagrava o menino se encaminhando para o rio à la Tom Sawyer e o delatava para Ainslee, lamentando um pouquinho ter que cortar a liberdade dele.

Ben também tinha feito com que ela quebrasse sua regra de ouro, aquela que jurara nunca quebrar: não emprestar livros em hipótese alguma. Quando aparecia alguém querendo devolver alguma edição particularmente bonita, e se estivesse em ótimas condições, até concordava em comprar o livro de volta, mas fazia questão de lembrar a si mesma que não era uma biblioteca. Precisava se sustentar e pagar Ainslee. Edwin e Hugh ganhavam preços especiais e Ainslee tinha o desconto de funcionária, mas, para a conta bater, todas as outras pessoas tinham que pagar.

Exceto Ben. Depois que o menino pegou o gosto, não parou de ler por nada. Devorou os livros de Enid Blyton, incluindo a longa Coleção Aventura, leu toda a série de Harry Potter e Andorinhas e amazonas. O garoto lia com tanta voracidade que Nina não tinha coragem de negar nada a ele. Quando não tinha colônia de férias, Ben era figurinha fácil na livraria. Após cuidar de algumas tarefas para a mãe, ele se acomodava no degrau da van para lagartear ao sol.

Com a ajuda da diretora da escola – que passava o ano inteiro soterrada de trabalho e estava aproveitando as férias para ler livros como Minha vida de astronauta e Como abandonar a docência –, Nina estava dando várias indiretas aqui e ali sobre como o terceiro ano era legal e como várias pessoas tinham se mudado para o vilarejo, de modo que haveria um monte de crianças novas que ainda não conheciam ninguém ali. Contou ao garoto sobre todas as excursões e todos os experimentos fantásticos que fariam, como observar um girino se transformar em sapo. E então, quando o movimento na livraria diminuía – o que, naquele verão, não era muito frequente, já que a cidade vivia apinhada de pessoas que vinham fazer trilha e escalada e visitavam a van à procura de mapas da área e livros de história da região, além daqueles que vinham comprar um bom livro para ler ao sol enquanto bebiam um pint de cerveja ou para lhes fazer companhia nas noites de tempestade em que a chuva fustigava as barracas de camping, durante as quais, inevitavelmente, os visitantes prometiam a si mesmos que passariam as férias seguintes acampando no deserto de Gobi –, Nina fazia Ainslee pegar os livros de história e geografia para estudar um pouquinho no cantinho silencioso da van.

Nina sabia que todos os seus esforços eram pelo bem da família, mas que, lá no fundo, era também por si mesma que fazia tudo aquilo. Dessa forma, mesmo que sua vida amorosa fosse uma tragédia, mesmo que a esperança de permanecer na cidade fosse em vão e mesmo que se visse forçada a se mudar para as ilhas... mesmo com tudo isso, ainda teria conseguido fazer alguma coisa boa.