A pequena livraria dos sonhos
Capítulo sete
Até a empolgação de Surinder em relação ao plano havia começado a evaporar, uma vez que Nina tinha consultado as autoridades e descoberto que era quase impossível conseguir uma licença para vender livros numa van. Parecia que seria muito mais fácil se quisesse vender hambúrguer, chá ou cachorro-quente.
Ela dissera ao homem da prefeitura que um hambúrguer meio suspeito representava uma ameaça muito maior à saúde pública do que um livro, ao que ele respondera, muito sério, que ela claramente nunca tinha lido O capital. Nina fora obrigada a admitir que de fato nunca tinha lido, e a conversa morreu ali.
Ainda assim, lá estava ela no ônibus outra vez, munida da trilogia Lark Rise to Candleford e da série inteirinha de Outlander para entrar no clima.
Quanto mais seguia para o norte, mais frio ficava, porém o céu continuava limpo. Ao passar por Edimburgo, a impressionante luz do leste fazia a cidade brilhar como Moscou. Mais uma vez, a grande ponte parecia um portal rumo ao desconhecido. Quanto mais seguia para o norte, mais as cidades grandes e o trânsito e as pessoas ficavam para trás, dando lugar a trens compridos e vermelhos serpenteando pelas vias sinuosas, a vilarejos minúsculos onde uma infinidade de pássaros sobrevoava os vales, a vistosas pradarias verdejantes com ovelhas para todos os lados, tudo sob os raios do sol que se punha já tarde da noite.
Nina fez uma refeição em uma das paradas do ônibus enquanto se perdia nas páginas do livro, e ao descer, enfim, em Kirrinfief, sentiu-se como se tivesse acabado de chegar em casa, uma sensação que foi reforçada assim que entrou no pub e foi recebida com sorrisos por Edwin e Alasdair.
– A garota do livro! – exclamaram eles, contentes.
Alasdair já foi lhe servindo um half pint de lager sem esperar que Nina pedisse. Devia ter percebido que ela se enrolara um pouco com a seleção de cervejas locais da última vez.
– O que trouxe para nós?
Nina, é claro, viera bem preparada. Abriu a mala e mostrou aos dois uma seleção de thrillers e romances policiais, para a felicidade dos homens.
– Então – falou Edwin, por fim –, vai mesmo seguir com a ideia de encher a van de livros?
Alasdair procurava alegremente as chaves do carro. Nina tinha acabado de lhe entregar o cheque no valor que era mais ou menos toda a rescisão que recebera da biblioteca.
– Esse é o plano.
Ir ao trabalho já não era mais tão penoso agora que tinha um novo projeto. Ainda precisava cumprir algumas semanas de aviso prévio, mas ninguém se importaria se ela demorasse no almoço, chegasse atrasada ou fosse para casa todas as noites com a mala do carro abarrotada de livros, que era o que estava fazendo. Sentia como se estivesse salvando órfãos do abandono.
Griffin começara a trabalhar de camisa de botão e gravata. Também tinha feito a barba. Chegava cedo todos os dias e passava um tempão em reuniões, e sua expressão entediada e irritada começava a dar lugar a um semblante atribulado. Certo dia ele abordara Nina na saída e dissera que ela precisava entregar um formulário de requisição para cada um dos livros que estava levando embora. Nina apenas respondera: “Sério mesmo, Griffin?” Ele só fizera uma cara aborrecida, e ela se sentiu mais satisfeita do que nunca por estar indo embora.
– Ah, vai ser ótimo – falou Edwin. – Você tem que ir lá no vilarejo de Carnie. E Bonnie Banks. Ah, e Windygates. É onde a minha irmã mora. Tinha um ônibus-biblioteca por lá, mas agora não tem mais. Você vai ser melhor do que nada. Será que não dá para ser uma biblioteca em vez de loja?
– Receio que não – falou Nina. – Eu preciso pagar minhas contas. – Então ela os encarou. – Mas vocês sabem que a van não vai ficar aqui, não é? Vou levá-la para Birmingham.
Os homens fizeram uma cara confusa.
– Não, mas tem que ficar aqui! – protestou Edwin. – Foi por isso que a gente comprou!
– Não, eu vou levá-la para a Inglaterra – explicou Nina, pacientemente. – É lá que eu moro.
– Mas a Inglaterra está cheia de cidades que não precisam de livros – reclamou Alasdair. – Eles têm um monte de livrarias e bibliotecas e universidades! Livro não falta por lá! Nós é que precisamos deles.
– Eu entendo, mas a minha casa é lá – insistiu Nina. – Birmingham é o meu lar. Eu preciso voltar.
Fez-se silêncio.
– Você bem que podia se mudar para cá – comentou Alasdair. – Seria bom ter uma cara nova por aqui.
– Eu não posso me mudar para cá! – exclamou Nina. – Nunca morei no campo.
– Tá, mas você também nunca teve uma livraria numa van – argumentou Edwin.
– Puxa, e eu que achei que a gente estava ajudando para que você pudesse ficar por aqui... – disse Alasdair. – Já tinha contado a novidade para toda a minha clientela.
– Achei que só o Edwin e o Hugh fossem a sua clientela – falou Nina.
– Pois é. Então. Como eu disse, todos eles adoraram a ideia.
– Eu adoraria – comentou Nina. – Mas não posso, de verdade. Preciso voltar, organizar tudo e começar a ganhar o meu sustento de novo.
O silêncio tomou o pub. Nina se sentiu péssima pelo mal-entendido, realmente não fora sua intenção.
– Mas... – insistiu Edwin.
– Sinto muito – falou Nina, com firmeza.
O plano era buscar a van e levá-la de volta para Birmingham no mesmo dia. Não tinha dinheiro para passar a noite, mesmo em um lugar barato e alegre como o pub. Além do mais, Surinder tinha sido muito clara: se não encontrasse logo uma nova casa para os livros, o teto ou a amizade delas ruiria. Então, estava decidido.
– Preciso ir agora – disse Nina, com tristeza.
Todos olharam as chaves no balcão.
– Vocês fizeram uma boa ação – repetiu ela. – Muito obrigada.
Os dois homens grunhiram e se afastaram.
Enfim havia escurecido lá fora, e os últimos raios rosados estavam se dissipando por cima das montanhas a oeste. Esfriou assim que o sol se pôs, e Nina estremeceu de frio no caminho até a van. Apertou o casaco contra o corpo e olhou para aquele colosso estacionado na silenciosa pracinha de pedras. Respirou bem fundo. Nunca se sentira tão sozinha. Ainda assim, estava fazendo o que deveria ser feito. Havia se comprometido. Teria que dar um jeito.
Olhou o celular. Enquanto ainda estava no pub, o aparelho devia ter achado sinal, porque a caixa de e-mail dela atualizou. O primeiro era um aviso da prefeitura.
Prezada Srta. Redmond,
Informamos que sua solicitação de permissão de
estacionamento Classe 2b (Vendas e Comércio, Gêneros Não Alimentícios) foi negada devido a restrições de altura de veículo que se aplicam à área. A decisão é final, sem direito a apelação.
Nina soltou um palavrão. Bem alto.
A mensagem ainda tinha mais informações, mas ela já não conseguia terminar de ler, pois estava com os olhos cheios d’água. Sentiu que, não importava o que fizesse, não tinha como vencer. Estacionar a van na calçada de casa era a única coisa que esperara conseguir sem maiores incidentes. Agora, olhando o veículo sob o restinho da luz do dia, percebeu como era, de fato, enorme. Bloquearia toda a luz que entrava no primeiro andar da casa delas – e também na dos vizinhos. Onde estava com a cabeça?
Havia acabado de gastar todo o dinheiro da rescisão e não conseguia imaginar, nem por um segundo, voltar para o pub e dizer àqueles homens que mudara de ideia. Não tinha mais emprego e sabia que não havia se preparado para a entrevista tão bem quanto deveria só porque estava distraída demais pensando em outras possibilidades. E agora tinha acabado de tropeçar no obstáculo mais básico e óbvio.
Teria que se mudar. Para algum lugar onde pudesse estacionar a van. Teria que dar a notícia a Surinder. Mas e se não tivesse dinheiro para isso? Quem alugaria um imóvel para uma pessoa desempregada? Céus, ela ia acabar tendo que morar na van.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto e Nina começou a entrar em pânico. Olhou ao redor. É claro que não havia ninguém. O vilarejo estava deserto, e fazia muito frio. Nina se sentiu completamente sozinha.
Tentou imaginar o que Nancy Drew faria. Ou Elizabeth Bennet, ou Moll Flanders. Mas achou que nenhuma delas estaria preparada para um momento como aquele. Não conseguiu pensar em nenhuma heroína que já tivesse enfrentado uma situação como aquela, agachada no meio do nada ao lado de uma van gigantesca que não podia ser revendida, sem saber se teria um lugar para morar e tremendo de frio.
Levantou-se com cuidado, sentindo dores no corpo todo. As mãos dela tremiam. Não sabia para onde ir. Tentou pensar em lugares onde poderia estacionar a van e então se perguntou se poderia ficar ali ou se deveria apenas abandonar aquela coisa.
Na falta de uma ideia melhor, entrou e girou a chave na ignição.
Todos sabem que não se deve dirigir quando se está cansado. Nina sabia muito bem disso e normalmente era uma motorista muito cuidadosa. Normalmente.
Mas naquele momento estava estupefata e preocupada, e ainda mais apavorada por estar dirigindo um veículo imenso ao qual não estava acostumada. Sabia que o melhor a fazer era parar o veículo, mas onde? Não podia gastar dinheiro com uma diária de hotel, isso se conseguisse encontrar algum lugar para passar a noite ali, no meio do nada.
Não tinha GPS, o celular estava sem sinal e, para piorar, a bateria estava acabando. Deixou o farol alto e prosseguiu pelas infindáveis estradas rurais, que pareciam não levar a lugar nenhum. Estava com o tanque cheio e, por ora, isso teria que bastar. Enxugou as lágrimas das bochechas e tentou não entrar em pânico. Precisava achar algum lugar. Tinha que achar.
Mais à frente, viu as luzes sinalizando um cruzamento ferroviário, mas seguiu adiante. As cancelas ainda não haviam descido, então teria tempo de sobra para atravessar. Só viu o cervo quando já era tarde demais. O animal se assustou com as luzes do cruzamento e correu direto para a frente da van. Nina viu os imensos olhos negros, lindos e apavorados. Sem nem pensar, meteu o pé no freio. A van travou as rodas e derrapou, parando bem em cima do trilho que cruzava a estrada.
O cervo saltou para longe do veículo, raspando as patas nas laterais, e desapareceu entre as árvores sem sofrer um arranhão. Enquanto tentava se acalmar, Nina ouviu o tilintar de um alarme. Ergueu o rosto e acompanhou, horrorizada, a cancela descendo na estrada adiante.
Apavorada, girou a chave na ignição sem se lembrar de pisar na embreagem. Em meio ao pânico, não conseguia entender por que o motor não pegava.
As luzes do trem já estavam visíveis, aproximando-se cada vez mais. Sabia que deveria sair dali, mas, por mais que tentasse, a porta parecia trancada. Com dedos desesperados, tentou a ignição de novo e mais uma vez o motor não ligou.
O rádio não calava a boca. As mãos não funcionavam direito. Seu mecanismo de luta ou fuga falhara: só conseguia olhar para o trem que se aproximava e, quando um barulho altíssimo de frenagem preencheu o ar, foi tomada pelo pensamento mais ridículo e bizarro: sua mãe, envergonhada, tendo que explicar às pessoas que sua filha, uma adulta diplomada, tinha realizado a façanha de ficar presa no meio de um cruzamento ferroviário e morrera atropelada por um trem.
Um trem.
Sua boca se abriu devagar e ela notou que estava gritando. O chão tremia sob seus pés e, conforme o trem se aproximava, rugindo e guinchando, Nina fechou os olhos e esperou o inevitável.