A pequena livraria dos sonhos
Capítulo oito
Fez-se um silêncio sombrio e mortal. Parecia que o rádio tinha desligado – ela não sabia como. Os faróis também haviam se apagado. Nina piscou, confusa. Será que estava no além? Não tinha sentido nada: nenhum impacto, nenhuma dor. Talvez aquele fosse o fim. Uma escuridão onipresente.
Mas não: ainda estava na van. Viu a maçaneta da porta, esticou o braço e puxou. Estava destrancada. Estivera destrancada o tempo todo. O que tinha acontecido?
Com cuidado, pôs o pé no chão. Então desceu, cambaleante, para o trilho do trem. Suas pernas não queriam obedecer, e, no mesmo instante, vomitou em uma moita.
Encontrou na bolsa uma garrafa de água pela metade e bebeu um pouco, mas logo parou, com medo de vomitar de novo. Não parava de tremer. Aos poucos, depois de tentar recobrar o fôlego, Nina se atreveu a olhar ao redor.
A meros centímetros da van, intacta em cima dos trilhos, estava a locomotiva de um imenso trem de carga, bufando como se fosse um animal monstruoso. Nina achou que ia vomitar outra vez.
Havia um homem apoiado na lateral da locomotiva, também sem fôlego. Ao notá-la, ele se adiantou em sua direção.
– O que... – começou o homem, com uma voz tão trêmula que mal conseguia falar. – Mas que mer... – Fez um esforço tremendo para não xingar. – Que... que diabo... – A garganta dele soltou um chiado. – MAS O QUE DIABO ACONTECEU AQUI?
– Eu... – A voz de Nina falhou. – Apareceu um cervo... e eu freei...
– UM CERVO? Você quase matou a gente por causa de um CERVO? Sua DESGRAÇADA, SUA.... Onde você tava com a cabeça?
– Eu não estava... Não estava conseguindo pensar...
–Ah, mas é claro. É CLARO que não pensou! OLHA AÍ, tem uns dez metros...
De repente, ouviram-se passos correndo ao largo dos trilhos. Surgiu outro homem resfolegante, e a fumaça da locomotiva o envolvia como uma névoa.
– O que aconteceu? – indagou ele.
Tinha um sotaque. “De algum lugar da Europa”, pensou Nina.
– O que aconteceu foi que essa IDIOTA quase causou um baita acidente que teria matado eu, você, ela e metade da população dessa área se o combustível tivesse explodido! – gritou o primeiro homem, lívido de fúria.
O segundo homem olhou para Nina.
– Tá tudo bem com você? – perguntou.
– Se está tudo bem com ela? Ela quase matou...
– Sim, Jim. Já entendi.
Jim balançou a cabeça, ainda trêmulo.
– Isso não vai acabar bem. Não vai acabar nada bem.
As luzes do cruzamento voltaram a piscar, e as cancelas começaram a subir.
– As cancelas não podem subir desse jeito – falou o segundo homem. – Ainda não passamos. Você está bem? – perguntou outra vez.
Nina então percebeu que não conseguia se levantar e de repente apoiou com tudo o corpo na van.
– Vou avisar ao controlador – falou o primeiro homem.
Quando o segundo chegou até Nina, ela reparou que ele tinha cabelos escuros cacheados, um pouco longos demais, e olhos negros de cílios longos com ares de cansaço. A pele era morena, os malares altos e bem-definidos. Tinha altura mediana e era um pouco corpulento.
– Tá tudo bem, não tá?
Nina encarou o homem, confusa. Estava chocada demais para conseguir falar.
– Respira – orientou ele. – Bebe mais água, tá?
Ela tentou tomar um pouco mais, mas acabou engasgando. Pôs as mãos nos joelhos até conseguir respirar direito outra vez.
– Eu achei... – começou Nina, batendo o queixo de forma descontrolada. – Achei que eu tinha morrido.
– Ninguém morreu – disse o homem. – Ninguém morreu. Eu tô bem e o Jim tá bem e a lã, o uísque, o combustível e o gim tá tudo bem também. Ninguém vai morrer. – Ele olhou outra vez para Nina. – Você tá congelando. Vem, vem.
Ele a ajudou a chegar até a locomotiva. O primeiro homem estava na cabine falando no rádio. Enfiou a cabeça para fora.
– Não sei o que dizer a eles.
– Não tem nada pra dizer! Está tudo bem. O gim, o uísque, o combustível, a lã, tá tudo bem. Ninguém se machucou.
– Se eu contar a eles, vai ter uma investigação daquelas. Polícia e tudo. Vai levar meses. – Ele lançou um olhar severo a Nina. – Ela vai se encrencar feio.
– Hum. Isso é. Não fala nada não – pediu o segundo homem.
– Eu não... eu não... – Nina mal conseguia falar.
O rosto de Jim ficou menos sisudo, e ele disse:
– Eu preciso contar, eles já acionaram aqui. Ninguém vai embora agora. – Olhou outra vez para Nina. – Ah, pelo amor de Deus. Agora já foi. Vem, entra aí, vamos tomar um chá.
– Isso, chá – disse o outro homem, conduzindo-a com delicadeza para a frente. – Chá resolve todos os problemas. Sobe aí na cabine. Depressinha! Quentinho, chega desse frio aqui fora.
Sem saber o que fazer, Nina cambaleou em direção à cabine e então percebeu que não tinha forças para subir. Seus braços estavam moles como gelatina.
O homem subiu com destreza e então se voltou para puxá-la.
– Vem – disse ele.
Sua barba por fazer era escura e espessa, e o braço peludo e musculoso estava sujo de óleo. Pegou a mão pequenina de Nina e a puxou para dentro da cabine como se ela fosse uma pluma.
O espaço apertado era quentinho e aconchegante. Jim estava sentado ao lado de um painel de controle de plástico, e o segundo homem indicou que Nina também deveria se sentar ali, mas ela caiu no chão e começou a chorar.
Os dois homens trocaram olhares.
– Chá? – sugeriu o segundo, por fim.
Jim se esticou e pegou uma garrafa térmica. Serviu uma caneca e a entregou a Nina, que aceitou de muito bom grado.
– Não chora, moça – pediu. – Toma, bebe isso.
O chá estava quente e muito doce, e Nina começou a se sentir melhor.
– Desculpa. – Nina soluçou. – Mil desculpas, de verdade.
– Ah, Deus – falou Jim. – A papelada. A polícia já deve estar a caminho. Vai ter burocracia e investigação, uma trabalheira danada.
– Mas ninguém se machucou – falou o segundo homem. – Jim, você é um herói.
Fez-se uma longa pausa. O condutor não disse nada. Então falou, enfim:
– Sabe que eu não tinha pensado nisso?
– É mesmo – concordou Nina, sentindo-se melhor. – É um herói de verdade. Achei que fosse morrer. Eu devo minha vida a você. O que fez foi incrível, conseguiu parar bem a tempo.
A raiva do condutor já estava quase sumindo, e ele também tomava chá.
– Na verdade foi só instinto – disse Jim, com modéstia.
– Você vai sair no jornal – comentou o segundo, sorrindo e dando uma piscadela para Nina. – Vai fazer foto no jornal.
– Acha mesmo?
– Você salvou a minha vida – insistiu Nina, feliz e aliviada por Jim não estar mais irritado. – Você me salvou.
Jim tomou mais um gole de chá e sorriu.
– Ora... – disse ele. – Ora. Acidentes acontecem.
A polícia veio mesmo, e colheu longos depoimentos de todos: do condutor, Jim, que já tinha se recuperado quase totalmente e estava em polvorosa com o incidente, descrevendo para quem quisesse ouvir seu uso rápido do freio, salvando vidas; do segundo homem, que se chamava Marek, era o maquinista, e só queria que a vida continuasse; e de Nina, que ficou horrorizada ao saber que podia acabar sendo indiciada criminalmente pelo ocorrido.
Marek interveio e explicou com calma que, se havia alguém que deveria ser indiciado, era o cervo. Após fazerem o exame do bafômetro e chamarem paramédicos para examinar Nina e Jim, os policiais concordaram que o procedimento a adotar seria apenas tirar a van do caminho e deixar tudo seguir seu curso, graças a Deus.
O trem noturno que vinha de Inverness também havia parado, e o condutor estava ficando ranzinza com a demora. Não havia outro para substituir Jim até Darlington, então Marek se ofereceu para assumir a direção.
Mas havia um grande problema. Nina não estava em condições de dirigir a van, e o seguro não cobria mais ninguém. Um dos policiais tinha feito a gentileza de levar o veículo para um acostamento perto de um campo aberto e colara um adesivo que indicava que a polícia estava ciente da localização da van e que ninguém deveria encostar nela, mas a situação ainda não estava resolvida.
O policial se ofereceu para levar Nina de volta ao pub, que era para onde iam levar Jim, ainda meio aturdido. Mas eram duas da manhã, e ela não tinha um empregador bacana para cobrir seus custos de acomodação, nem sequer dinheiro para o pernoite. Piscava com força, torcendo para não cair no choro outra vez, desejando desesperadamente saber o que fazer. Por fim, Marek se adiantou:
– A gente vai passar em Birmingham, sabia? – indagou, baixinho.
Nina olhou para ele. Os policiais se entreolharam, sem saber se aquilo era permitido ou não, mas conscientes de que a sugestão tiraria um baita problema da mão deles. Jim já estava se despedindo do grupo.
– Está bem – falou um dos policiais, enfim, entregando a ela um registro de ocorrência. – Tome mais cuidado com os cruzamentos ferroviários de agora em diante, está bem?
Nina assentiu.
– Com certeza, senhor – respondeu.
E então todos foram embora, as luzes azuis desapareceram e logo Marek e Nina estavam sozinhos na cabine. Ele se comunicou com o controlador e as cancelas desceram de novo, sem ninguém no caminho dessa vez, e o trem seguiu tranquilamente.
Marek insistiu para que Nina se enrolasse em um cobertor e se sentasse. Depois de tudo o que acontecera, ela estava quase com sono, mas não conseguiria dormir. Nunca havia entrado na cabine de uma locomotiva, a não ser uma vez no trem metropolitano, quando criança. As janelas da frente eram imensas. Nina ficou surpresa ao ver que eram limpadores de para-brisa normais, embora isso não fosse nada surpreendente. A grande composição começou a avançar e foi ganhando velocidade. Ela se inclinou para a frente, interessada. Assim que passaram pelas árvores e chegaram ao campo aberto, o céu noturno não estava tão escuro. O negrume se concentrava na grande curva dos campos e das colinas, mas o próprio céu estava mais próximo de uma paleta escura e aveludada, cravejada de estrelas, a lua quase cheia. Os bustos ladeando a linha do trem se acenderam com pequenos olhos atentos. Havia vultos de movimento saindo da folhagem, e então um bando de coelhinhos começou a atravessar o trilho na frente do trem, tão rápido que Nina ficou assustada, mas eles sempre conseguiam fugir.
– Que nem você, hein? – comentou Marek com sua voz grave, parado diante das alavancas, conduzindo com atenção o trem noite adentro.
– Eles me deram um susto – falou Nina.
– Acho que você quase matou o Jim – disse Marek. – De susto.
– Foi sem querer.
– Eu sei, eu sei – respondeu Marek.
A cabine estava às escuras para melhorar a visibilidade do caminho. Nina só conseguia ver o perfil dele, o queixo coberto com a barba por fazer, delineado pelo luar que entrava pela janela enquanto o trem passava a toda a velocidade pelas cidadezinhas e pelos vilarejos fechados em direção à madrugada.
– Então, o que estava fazendo aqui tão tarde da noite? – questionou Marek. – Você não é escocesa, certo?
– Não, sou de Birmingham. Quer dizer, nasci em Chester, mas moro em Birmingham. E você, de onde é? – perguntou ela, curiosa.
– Letônia – grunhiu ele.
– Então estamos os dois bem longe de casa, hein? – falou Nina.
Marek não respondeu.
– Eu... eu estava levando a van para casa – continuou ela. – Para o meu trabalho.
– Em que você trabalha? Dirigindo a van?
– Não exatamente – respondeu Nina. – Eu estava... eu queria abrir uma livraria.
Marek se virou para ela por um instante.
– Ah! – exclamou ele. – Livraria. Muito bom. As pessoas gostam de livrarias.
Nina assentiu.
– Espero que sim. Eu queria... sabe, queria levar os livros às pessoas. Encontrar o livro certo para cada um.
Marek sorriu.
– E onde fica sua loja? Em Birmingham?
– Não – disse Nina, balançando a cabeça. – Era para isso que eu queria…
– Ah, é? Uma livraria dentro da van?
– É, eu sei. Talvez seja uma ideia bem ruim. Até agora eu não tenho dado sorte.
– Então você sai dirigindo atrás de gente que precise de livro?
– Isso.
– De qual livro eu preciso, hein? Nada em russo.
Nina olhou para ele e sorriu.
– Bem, para você eu recomendaria algo com pessoas que trabalhem à noite. Algo como Noite nas trincheiras. É sobre um homem na guerra que fica de guarda a noite inteira esperando que soe o sinal de avançar pela manhã, e fala sobre o que se passa na mente dele antes de todos terem que sair das trincheiras e lutar. Ele pensa na família e se lembra da infância, e a história é divertida e meio triste, e tem um atirador do outro lado que o protagonista acha que está tentando matá-lo. E o atirador está mesmo tentando matá-lo. O livro é muito bom, meio triste e empolgante, e parece que se vive uma vida inteira em uma noite.
– Eu entendo. Às vezes é assim pra mim também – respondeu Marek. – Só que o tempo é o atirador. Não tem um atirador de verdade. Me pareceu um bom livro. Vou comprar. Muito bom.
Nina sorriu.
– Sério?
– Sério. Acho que vou. Você me convenceu. A gente podia pegar esse trem e transformar em livraria, não? Um trem da leitura.
– Amei a ideia! – exclamou Nina. – Mas, hã, talvez seja melhor começar com algo pequeno.
– Mas você mora em Birmingham e a sua van está na Escócia.
– É, eu sei. Vou pensar em uma maneira de resolver isso em breve.
– Não parece uma maneira muito boa de ter uma livraria.
Nina o olhou, tentando entender se Marek estava implicando com ela, mas a expressão dele era insondável.
– Não. Não mesmo. – Suspirou. – Mas não consegui a licença para estacionar a van em Birmingham. E agora eu não sei mais o que fazer nem para onde ir. Minha vida é só problema.
Marek deu um sorriso triste na escuridão, e ela viu os dentes dele brilharem.
– Ah, então você acha que tem muito problema, é? – indagou ele.
– Bom, eu estou desempregada, todos os meus recursos estão estacionados em um acostamento que eu nem sei bem onde fica, a amiga com quem eu divido o apartamento vai me botar para fora se o teto desabar por minha causa, e eu quase fui atropelada por um trem. Então sim, acho que tenho muitos problemas.
Ele deu de ombros.
– Acha que foi por diversão que torrei todas as minhas economias em uma van? – continuou Nina, e enrolou-se ainda mais no cobertor. – Como pode achar que eu não tenho problemas?
Marek deu de ombros de novo.
– Você é jovem. Saudável. Tem uma van. De onde eu venho, as pessoas chamam isso de sorte.
– É, talvez – admitiu Nina, baixinho.
Passaram por uma ponte e o estrépito assustou um bando de garças que lotava um lago. Elas ergueram voo na noite, desenhando silhuetas entrecortadas contra a lua.
– Uau! – exclamou Nina. – Olha só aquilo.
– A gente vê muita coisa no trem noturno – falou Marek. – Olha ali.
Ele indicou um pequeno vilarejo, todo tomado pela escuridão exceto por uma única luz em um quarto.
– Aquela luz está sempre acesa, não toda noite, mas quase. Quem fica ali? Uma pessoa que não consegue dormir? Que tem um bebê? Eu me pergunto isso todo dia. Quem são essas vidas todas, passando uma depois da outra? E como são gentis por deixar a gente dar uma olhada lá dentro, como são generosas.
– Na verdade, acho que as pessoas não gostam muito de morar perto da linha do trem – opinou Nina, sorrindo.
– Ah, então elas são ainda mais gentis – falou Marek, e os dois ficaram em silêncio.
Quando chegaram a Newcastle, Marek pediu que Nina se sentasse no chão para que ninguém a visse, pois não deveria estar ali. Ouvia-se um grande estrondo na plataforma de descarregamento, que estava tão iluminada quanto uma árvore de Natal no meio do dia. Havia homens gritando e acoplando polias e guindastes aos contêineres do trem: lã para a Holanda e a Bélgica, explicou Marek; uísque, é claro; petróleo, gim. Por outro lado, carregavam o trem com produtos vindos da China para lojas de 1,99 e de artigos de cozinha e decoração: brinquedos, saleiros, porta-retratos; além de banana, iogurte, encomendas dos correios, e toda a sorte de coisas que chegavam pelas docas movimentadas de Gateshead e eram carregadas em caminhões e trens que as distribuíam pelo país inteiro durante a noite, como um sistema circulatório. Um mundo misterioso da madrugada no qual Nina nunca pensava ao pegar um palitinho de mexer café, um pote de mel ou uma lixa de unha. O estrépito e a gritaria continuaram, e ela acabou dormindo no cantinho da cabine. O dia e a noite tinham sido absurdamente longos.
Acordou com um susto, desorientada e com sede, quando passavam por Peak District. Marek sorriu.
– Ah, achei que ia ficar o caminho todo apagada – falou ele. – Acho que trabalho noturno não serve pra você, viu? A biblioteca não pode ser noturna.
– Sim, mas até que era uma boa ideia – comentou Nina, em um tom sonhador. Não tinha dormido pesado, fora um sono tranquilo, como se os trilhos do trem estivessem deslizando pelo céu. – Poderíamos trocar os livros das crianças todas as noites enquanto elas dormem. Assim todo dia ao acordar, elas encontrariam uma história nova. – Esfregou os olhos para espantar o sono e olhou ao redor. – Desculpa. Estou falando besteira.
O chá na garrafa térmica já estava frio, mas Marek o ofereceu mesmo assim e Nina aceitou.
– Qual o seu sonho? – perguntou Marek, por cima do ruído do motor e dos ocasionais barulhos do rádio.
– Ah, eu não dormi tão pesado assim, não sonhei – respondeu ela.
– Não, estou falando da sua vida. O que quer fazer? Para sempre. Qual é o seu sonho?
Nina endireitou o corpo.
– Bom… Eu acho... Eu quero estar entre livros, tê-los à minha volta. E recomendá-los a outras pessoas: livros para quem está feliz e para quem está triste, para quem está animado para sair de férias, para quem precisa saber que não está sozinho no mundo, livros para crianças que gostam de macacos, enfim, para todas as pessoas. E quero ir aos lugares onde as pessoas precisem de mim.
– E não precisam de você onde estava? Onde a gente estava mesmo? Escócia?
– É, bem, sim, talvez, mas eu nunca morei lá, então...
– Vai ser melhor em Birmingham?
– Hum, acho que não. Quer dizer, eu sei que não vai. É uma cidade muito engarrafada e não tem onde parar, e lá meio que já tem livrarias e bibliotecas e tudo mais... Não tantas quanto antes, mas ainda tem bastante.
– Hum – falou Marek. – E você não gosta da Escócia?
A mente de Nina voltou ao dia em que estava no alto da colina admirando os campos, os antigos muros de pedra, os raios de sol surgindo e se escondendo por trás das nuvens escuras e desenhando listras imensas pelos campos ermos.
– Gosto, sim – respondeu ela. – Gosto muito. Mas não conheço ninguém lá.
– Você tem os seus livros – retorquiu Marek. – E tem a mim. Quer dizer, eu passo um tempinho na Escócia. Não toda noite, mas quase.
Conforme o trem descia cada vez mais para o sul, começavam a surgir os primeiros traços da aurora: estrelas se apagando, uma fina linha dourada no horizonte. As cidades iam ficando maiores e mais compridas, e a passagem por elas parecia interminável, ainda mais considerando que, tirando o nome das estações, não havia mais nada que as distinguisse umas das outras. O trânsito também começou a aumentar conforme o mundo ia despertando.
– Onde você mora, Marek? – indagou Nina.
– Ah, no mesmo lugar que você – respondeu ele. – Birmingham.
Marek disse o nome da cidade de uma maneira tão britânica que ela não conseguiu deixar de sorrir.
– Dá para notar – brincou Nina, surpresa com a coincidência de que ambos moravam na mesma cidade.
– Eu não gosto, não – confessou ele. – É cara demais pra mim, muito tumulto e muita correria. Eu gosto mais de lugar quieto e calmo e aberto e que dá pra pensar com calma e respirar ar de verdade, como a Letônia. Eu gosto da Escócia. A Escócia me lembra a Letônia. É lindo, e nunca fica quente demais.
– Então por que não se muda para lá?
– Eu também não conheço ninguém lá – respondeu Marek, e sorriu.
Em Birmingham, ele a ajudou a descer e apontou a direção da saída. Eram cinco da manhã, mas já estava bem claro e fazia um frio de rachar.
– Muito obrigada, de verdade.
– Agradece o Jim – respondeu, apenas. – Ele que não te atropelou. Por causa dele você não virou mingau nos trilhos. E toma cuidado. Se virar mingau nos trilhos aqui, bom, tudo vai ter sido em vão.
Nina sorriu.
– Prometo que vou tomar cuidado.
Os dois se entreolharam.
– Bem... – começou Nina.
À luz da manhã, a barba dele parecia mais pronunciada, e Marek passou a mão pelo queixo com cuidado, como se estivesse lendo os pensamentos de Nina. Seus olhos escuros brilhavam no rosto de malares definidos.
– Boa sorte, garota dos livros – disse ele.
Nina precisava muito de um banho quente e uma longa noite de sono. O aço do trem cintilava ao sol. Percebeu que a locomotiva tinha nome: Senhora de Argyll. Virou-se para contornar o final do trilho: era repentino, só uma barreira de madeira como sinal para não prosseguir.
– Garota dos livros! Espera! – gritou uma voz atrás dela.
Nina se virou. Era Marek, acenando com um papel na mão. Ela franziu o cenho. Ele estava meio corado, como um grande urso desengonçado. Marek baixou os olhos timidamente.
– Olha – disse ele –, se quiser... Posso levar você de volta até sua van. Uma noite dessas. Não é sempre que a viagem é com dois maquinistas. Costuma ser um só. E eu sei onde tá sua van.
Nina arregalou os olhos
– Mas isso é permitido?
– De jeito nenhum – respondeu Marek.
– Ah. Bom, então, eu acho... Quer dizer, obrigada pela oferta generosa, mas eu acho que eu não... bem, você vai... não quero que se prejudique por minha causa.
– Não se preocupa – falou Marek, ruborizando ainda mais enquanto lhe entregava o papel com um e-mail indecifrável. – Leva mesmo assim.
Nina sorriu e aceitou.
– Obrigada.
Ouviu-se uma buzina alta vinda de outro trem, e Nina contornou depressa o fim da linha – “o próprio fim da linha”, pensou. Então passou por uma abertura na cerca de arame. Saiu em uma rua qualquer em uma parte de Birmingham que não conhecia. Para sua alegria, já ali na esquina havia um pequeno café, com janelas embaçadas pela condensação, e gastou suas últimas 5 libras em um sanduíche de bacon e uma caneca bem quente de chá. Comeu olhando para a Senhora de Argyll, agora bem menos carregada, saindo do armazém e seguindo sua grande jornada em direção a Londres.