A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 27 de 40

Páginas do PDF

A pequena livraria dos sonhos

Capítulo vinte e seis

 

Durante um bom tempo, não se ouviu nenhum barulho. Não tinha nenhuma luz acesa. Se Nina não tivesse visto os dois entrando na casa, poderia até ter achado que estava vazia. Então enfim ouviu um grito na voz de Ainslee, mas ela parecia ter dito “Não atenda!”

Contudo já era tarde demais, pois mãozinhas imundas já estavam abrindo uma série de trancas, a julgar pelo barulho que vinha do outro lado da porta.

– Nina!

O rosto grudento de Ben não conseguiu esconder a alegria ao vê-la, e o sorriso que ele abriu o deixou irreconhecível, totalmente diferente do menininho emburrado que conhecera naquele primeiro dia, nos degraus da van.

– Oi, Ben.

– Trouxe algum livro pra mim?

Nina se xingou por não ter pensado nisso.

– Não, desculpe, eu não... eu devia ter trazido alguma coisa. Na verdade, eu até trouxe, mas está lá na van. – Nina conseguiu improvisar. – Sua mãe está?

Ben ficou evasivo na mesma hora. O menino desviou o olhar para a esquerda. Atrás dele, Nina viu uma cozinha absurdamente bagunçada, coberta de lixo e garrafas vazias de leite. A casa cheirava a poeira, abandono e, por trás disso tudo, algum outro odor que não conseguiu identificar.

– Ben! Quem é? – indagou Ainslee, e apareceu atrás do irmão, estreitando os olhos para enxergar ao sol. – O que você quer?

O respeito tranquilo que sempre havia na voz da garota tinha desaparecido por completo. Ela parecia beligerante, irritada e pronta para botar Nina para correr. De repente, Nina notou que Ainslee era muito maior que ela e bem capaz de levar isso a cabo, se assim desejasse.

– Hã... Eu estava pensando... sua mãe está?

Ainslee e Ben se entreolharam.

– Nossa mãe não é da sua conta – rebateu Ainslee, com grosseria.

– Eu só... só queria dizer a ela como você está se saindo bem no trabalho, só isso. Além disso, você esqueceu seu pagamento, e eu vim entregar.

– Então não veio aqui pra bisbilhotar?

Nina não sabia como responder, por isso olhou para baixo.

– Ela está?

– Estamos bem – insistiu Ainslee. – Não precisamos da sua esmola.

– Não é esmola – retorquiu Nina. – É o seu pagamento. Você trabalhou e mereceu.

Ainslee pareceu dividida.

– Por favor – pediu Nina. – Por favor, Ainslee. Não quero fazer mal algum, juro. Não quero causar confusão. Só quero ter certeza... de que está tudo bem com vocês.

De repente, algo atrás das crianças chamou a atenção dela. Era um rato, dos grandes. Um rato ou uma ratazana. E soube na mesma hora que não arredaria o pé dali. Ela olhou para Ainslee, que tinha chegado à mesma conclusão. A menina suspirou profundamente, os ombros curvados.

– Você não pode contar a ninguém que veio aqui – pediu ela.

– Está bem – concordou Nina, sem nem se incomodar em cruzar os dedos. Havia algo muito errado ali, e estava determinada a descobrir o que era. – Só vou entrar por um minutinho...

– Não vai, não.

– Ainslee, sua mãe está em casa ou não?

De repente, ouviram um barulho bem baixo. Era o som de um sininho. Todos se entreolharam. Ben saltitava no lugar, sem conseguir se controlar.

– Ainslee – dizia ele, puxando o casaco da irmã. – Deixa ela entrar! Ela é legaaaal!

Ainslee encarou Nina como se ela fosse uma estranha.

– Não vou demorar – afirmou Nina, com calma. Precisava entrar. Cruzou o umbral da porta. – Sra. Clark? – chamou, baixinho. – Sra. Clark?

Em resposta, o sino tiniu outra vez.

 

A sala tinha um cheiro estranho de poeira, velhice e cansaço. Para todo lado havia pilhas de papéis e livros. Nina os examinou.

– Se não me engano, isso parece material de estudo para provas de conclusão do colégio – disse ela.

Ainslee deu de ombros, taciturna. Nina não via nenhum sinal da menina que ia ajudá-la na livraria, ansiosa, que gostava de agradar. Fora substituída por uma jovem muito mais truculenta e intransigente, que não respondia nada. Nina olhou ao redor e pigarreou.

– Hum. Onde está a sua mãe?

 

A porta estava muito emperrada, e Nina precisou empurrar com força para abrir. O quarto ficava nos fundos da casa e era decorado com papel de parede rosa, criando uma textura pesada. O ar recendia a talco e, mais intensamente, ao cheiro que Nina detectara antes e que havia acabado de reconhecer: fedor de doença.

– Olá?

Assim que entrou no quarto, a pessoa deitada na cama virou o rosto para ela, com lentidão sofrida. Nina teve que conter uma exclamação. Era uma senhora, muito velha e encarquilhada. Então Nina olhou com mais atenção e percebeu que a mulher não era tão velha assim, mas seu rosto vincado trazia rugas profundas de dor e o pescoço se torcia em um ângulo estranho.

– Olá – disse ela, com uma voz muito suave e grave. Apesar de ainda reter a melodia das Terras Altas, parecia que não conseguia reunir muito fôlego para falar. – Peço desculpa, mas não posso me levantar para cumprimentar você.

– Sra. Clark?

– Você é do serviço social?

– Não – respondeu Nina.

– É da escola? Eu já dei uma palavrinha com a escola antes.

– Não, não, eu não sou da escola. Sou da livraria.

– Ah, aquela van? – Quando a mulher falava, sua voz estremecia e falhava. Ela parecia estar muito mal. – Fiquei sabendo. Parece ótimo.

– Eu... eu posso trazer uns livros para a senhora – sugeriu Nina, dando um passo à frente. – Eu vim aqui porque... porque estou um pouco preocupada com o Ben.

– Ah, ele é um pestinha, esse menino – falou a Sra. Clark, bem devagar.

Parecia que ela tinha que arrancar à força cada palavra que saía de sua boca. A atmosfera no quarto era opressiva, e Nina sentiu a pele arrepiar. Forçou-se a se aproximar um pouco mais da cama.

– Desculpe perguntar, mas o que a senhora tem?

– Esclerose – respondeu a mulher. – Tenho uns dias melhores e outros piores, sabe...

Não parecia nem um pouco que ela chegava a ter dias melhores. Nina se aproximou ainda mais.

– Mas... com esclerose, imagino que a senhora poderia usar uma cadeira de rodas para se movimentar – disse ela. – Alguém vem aqui ajudar?

– Não – veio uma voz ríspida atrás de Nina.

Ela se virou. Era Ainslee, com os olhos em brasa.

– Não. A gente não precisa dessas coisas – prosseguiu a menina.

Nina ficou atônita.

– Mas se vocês procurassem o serviço social... alguém viria ajudar vocês três...

Ainslee balançou a cabeça, austera.

– Sei. E aí viria um monte de gente intrometida me dizer que eu não sou capaz de cuidar da minha própria mãe. Nem pensar.

– Não é assim que funciona – contestou Nina. – Eles ajudam com a limpeza e...

– Eu não tenho 16 anos – interrompeu Ainslee, agressiva. – Sabe o que eles vão fazer? Vão mandar nós dois para um orfanato. Eu e Ben. Para lugares diferentes. Já ouviu as histórias sobre o que acontece nesses lugares?

Nina assentiu.

– Mas não... não é assim que funciona. Tenho certeza de que fariam de tudo para que vocês pudessem ficar aqui com a sua mãe, ou então, pelo menos, para que ficassem juntos.

– Lógico que não – rebateu Ainslee. – Eu posso cuidar dela. Eu dou conta. – Sua voz estava tensa.

– Ela é uma menina maravilhosa – observou a mulher na cama.

– É mesmo – falou Nina. – Sei disso por experiência, já que ela trabalha para mim. Mas, sinceramente, Ainslee não deveria deixar de fazer as provas de conclusão do ensino médio. E assim que as férias acabarem, Ben deveria voltar para a escola.

– EU NÃO QUERO IR – veio um grito do lado de fora.

– Eu sei, eu sei. – A Sra. Clark tossiu forte, quase engasgando. – Mas preciso muito deles aqui. Quando estamos todos juntos, ficamos aninhados na cama, e aí não precisamos de mais ninguém. Não temos que fazer nada, nem ir a lugar algum. Sem contar que as pessoas não são legais na escola.

Ainslee concordou.

– Estamos bem.

Nina continuou avançando.

– Eu sei que, com certeza, há coisas que podem ser feitas. Prometo que a vida pode ser muito melhor.

– Mas eu preciso deles – insistiu a mulher.

Nina balançou a cabeça, dizendo:

– A senhora precisa de ajuda. Mas não deles dois.

– Eles são a minha família.

– Eu sei. Mas eles também precisam ter as próprias vidas.

Um silêncio tomou o quarto, e Nina ficou mortificada ao ver uma lágrima escorrendo pelo rosto macilento da Sra. Clark.

– Sinto muito, muito mesmo – continuou Nina. – Não tive a intenção de chateá-la.

– Sei – retrucou a mulher. – Está tudo ótimo para você. Não está doente. Não tem dois filhos que te amam. Não sabe como é a minha vida.

– Não sei mesmo – concordou Nina. – Mas tem que haver uma alternativa melhor. Você merece ter gente que venha cuidar de você da maneira apropriada.

Dava para sentir Ainslee se remexendo, contrariada, atrás dela. A Sra. Clark suspirou.

– Ainslee fazia tudo tão direitinho, não é, querida? Ficava satisfeita em fazer tudo. Limpar, trocar a roupa de cama e fazer o jantar. Não sei por que você parou. – Ela olhou ao redor, como se estivesse notando, pela primeira vez, as condições em que se encontrava. – Nem sei como a coisa chegou a esse ponto.

Ainslee deu um suspiro profundo. A mãe prosseguiu:

– Você não tem levado o Ben pra escola? Ele tem que ir pra escola, Ainslee. Antes você sempre conseguia fazer seu irmão ir pra escola.

– É – falou Ainslee. – É. Mas aí... aí eu nunca conseguia fazer mais nada. Só conseguia fazer isso. Ser sua escrava. Ficar presa aqui pra sempre. Só limpando, lavando e esfregando. Eu não... eu não quero mais. Quero fazer outras coisas. – Olhou para Nina, os olhos cheios de raiva. – Eu gosto de trabalhar para ela.

As lágrimas escorriam livremente pelo rosto da Sra. Clark.

– Mas eu pensei... você sempre disse que não se incomodava.

– É, mas era porque eu não queria que me levassem embora. Ou que levassem o Benny. Eu pensava... quando eu era criança, achava que você ia melhorar. Não tinha entendido que você continuaria desse jeito. Para sempre. Eu não sabia. Que eu ia ter que ficar aqui para sempre.

Mãe e filha estavam chorando, e a Sra. Clark estendeu a mão. Ainslee a pegou, apertando-a com força.

– Vamos conseguir resolver isso – disse a mulher, olhando para Nina. – Não vamos?

Nina olhou em volta.

– Bem, acho que já sei por onde podemos começar – respondeu.

 

Por mais que tentasse, Nina não conseguiu fazer com que Ben ficasse em casa com a mãe e a irmã. O menino saiu correndo atrás dela, fazendo mil perguntas com uma voz assustada. Nina fez o que pôde para tranquilizá-lo. Ben enfim se calou quando Nina deixou que o garoto se sentasse no banco do motorista da van, algo que ele amava. Melhorou ainda mais quando Ben avistou uns amiguinhos da escola que estavam brincando por ali, e Nina deixou que o menino tocasse a buzina. As crianças se viraram, e Ben acenou freneticamente para elas. Nina sorriu, pensando que não havia nada tão instável quanto o humor de uma criança de 8 anos.

De volta à fazenda, ela saltou do carro e correu para o celeiro, reunindo todos os produtos de limpeza pesada que comprara para fazer a primeira faxina na van, trazendo também uma porção de sacos de lixo pretos. Estava colocando tudo na parte de trás da van quando Lennox surgiu no pátio, com Salsinha em seu encalço. Ele estacou ao vê-la, ficou um pouco ruborizado e então pigarreou.

– Oi – disse ele ao se aproximar. – Pra que tudo isso? Atropelou alguém e agora está querendo se livrar das evidências?

Nina também corou, dizendo a si mesma para não olhar os dedos longos e fortes de trabalhador de Lennox. “Não pense neles, não imagine o que são capazes de fazer.” Não. Ela não ia ficar pensando nisso. E nem nos penetrantes olhos azuis que a encaravam.

– Não. – Nina não estava a fim de dar explicações.

– Esse aí não é o Ben Clark? – perguntou ele, apontando com o queixo. – E aí, Ben? Como vai a sua mãe? Peraí... – Lennox foi correndo em casa e voltou com um cesto de ovos. – Aqui, leva isso pra ela.

– Você sabia da mãe dele? – perguntou Nina, sentindo a raiva brotando dentro de si.

– Quem? A Sra. Clark? Fiquei sabendo que ela estava meio doente, mas não é nada sério, né?

– Ela está de cama há tempos! – exclamou Nina. – Ainslee e Ben estão escondendo isso há meses... talvez anos! Ainslee cuida de tudo na casa sozinha. Você não sabia?

Lennox olhou para ela por um instante.

– Prefiro não me meter na vida dos outros – respondeu ele. – Assim os outros também não se metem na minha.

– Hum – fez Nina.

– Desde quando você tá fazendo caridade?

– Desde que existe gente como você, que não faz nada.

Lennox se empertigou e foi embora pisando firme. Nina o observou. Queria não ter se descontrolado. Não conseguia entender por que raios aquele homem sempre a tirava do sério.

 

Ainslee só fazia reclamar, não parando nem quando Nina mostrou o que havia na outra bolsa que trouxera: dois pacotes de chocolatinhos, bananas, chá, sorvete e uma garrafa grande de Irn-Bru.

– Se trabalhar duro, a recompensa será boa – disse ela, sorrindo.

– Eu não tenho mais 4 anos, sabia?

– Eu sei. Se quiser, eu te pago um dia de trabalho por isso.

Na mesma hora, Ainslee ficou mais animada. As duas arregaçaram as mangas e se puseram a trabalhar.

Ainslee levantou a mãe para que pudessem trocar o lençol. Nina pegou a roupa de cama, junto com tudo o que conseguiu encontrar, e enfiou na máquina de lavar. Havia muitas roupas em petição de miséria. O que não dava para salvar, Nina separou para descarte ou para virar pano de chão. Daria um jeito de arranjar outras roupas depois.

Só de tirar todo o lixo, a casa já ficou com uma aparência mil vezes melhor, e depois elas ainda lavaram, esfregaram e poliram tudo, enchendo inúmeros sacos e os levando para a lixeira. Benny, mais imundo do que nunca, ajudou a guardar as coisas e a limpar a casa, e até aceitou guardar os brinquedos quebrados em uma caixa quando Nina lhe prometeu brinquedos novos. Não sabia muito bem como arranjaria dinheiro para aquilo tudo, mas sabia que daria um jeito. Em seguida, mandou que o menino passasse o aspirador no chão e lavasse as janelas, já que não teria problema se o serviço não ficasse perfeito.

Enquanto isso, Nina se sentou com Ainslee para abrir os infinitos formulários e informes oficiais que estavam empilhados de qualquer jeito na mesa da cozinha.

– Ah, Ainslee… Não é à toa que as coisas estão tão difíceis para vocês. Olha só! Eles estão intimando vocês a provar um monte de coisa, e vão cortar o dinheiro de vocês. – Pegou uma das cartas, que dizia que Janine Clark precisava passar por uma perícia para averiguar se estava apta ao trabalho. – Ah, pelo amor de Deus! – exclamou Nina. – Que loucura.

– Fiquei sem saber o que fazer – explicou Ainslee. – Não consegui tirar minha mãe de casa por nada, e a gente tem que pegar dois ônibus pra chegar nesse lugar da perícia. Não daria para chegar lá às dez da manhã nem que a gente fosse andando, e ela nem sai da cama. Eu não sabia...

– Por que raios o serviço social não veio atrás de vocês? – perguntou-se Nina. – Vocês devem ter caído em uma fresta do sistema. Vocês não incomodam ninguém e eles não vêm incomodar vocês.

– Acho bom assim – grunhiu Ainslee.

– Mas não está bom de verdade, não é mesmo? Já faz um tempo que não está.

Ainslee concordou em silêncio.

– As coisas vão melhorar – prometeu Nina.

– Escuta... – Ainslee ruborizou, furiosa. – Você está ajudando muito, nós somos muito gratos e tal. Mas não quero que saia contando para as pessoas da cidade. Não quero caridade. Não quero ganhar roupas doadas por aí nem quero receber uniformes da escola que alguém jogou no lixo.

– Está bem.

– Não quero nada de graça. Por favor.

– Está bem – repetiu Nina. – Vou ver o que posso fazer. Mas, Ainslee, você precisa fazer as provas. Você é uma menina tão inteligente, aposto que ia se sair muito bem. Você tem potencial para chegar muito longe, e de quebra dar uma vida melhor para a sua mãe.

– Sem mim?

Nina tinha que admitir que a garota tinha certa razão.

– Bem, vamos ver, quando chegar a hora – disse Nina.

– É fácil falar. Você apareceu aqui do nada. Aposto que daqui a pouco vai se mandar para outro lugar de novo, não é?

Nina não tinha como responder.

 

Os assistentes sociais da equipe de emergência foram ótimos. Chegaram com muito cuidado e avaliaram a situação, fazendo questão de parabenizar Ainslee pelo trabalho incrível que fizera como cuidadora – enfatizando bem a palavra –, e ainda trouxeram uma grande caixa de Lego para Ben. O menino ficou sentado na cama da mãe montando as pecinhas alegremente, demonstrando tamanha habilidade e concentração que deixou Nina surpresa.

Ela torceu para não topar com Lennox quando chegou em casa, exausta, imunda dos pés à cabeça, mas satisfeita, sentindo que tinha merecido, e muito, aquele banho quentinho de banheira. Decidiu nem pensar nele. O sujeito tinha passado tanto tempo preocupado com os próprios problemas que nem notara outros que surgiram no próprio quintal.