A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 25 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo vinte e quatro

 

– Está pronta? – indagou Lesley, a mulher da mercearia local.

Desde o início, ela sempre fizera pouco caso da livraria e desgostara das recomendações de Nina, além de nunca poupar comentários duvidosos sobre a empreitada. Embora estivesse muito claro que a profecia de catástrofe não se concretizaria, ela gostava de ir lá e remexer nas pilhas de livros, soltando muxoxos desapontados o tempo todo. Nina, por sua vez, estava determinada a encontrar alguma coisa de que Lesley gostasse.

Até o momento, romance histórico, comédia e um desses autores especializados em sequestro de crianças tinham falhado em agradar a difícil cliente. Crimes verdadeiros tinham provocado uma faísca de interesse, mas nada fizera com que Lesley exclamasse: “Isso! Esse é o livro que eu sempre procurei e que vai mudar minha vida.” Parecia que nada a deixava feliz.

– Pronta para o quê? – perguntou Nina.

Estava embalando livros. Ainda no leilão em Birmingham, haviam encontrado um imenso rolo de papel pardo no lugar onde os volumes estavam armazenados. Ela perguntara ao homem, mas ele respondeu que não tinha nada a ver com o papel, então Nina resolveu levar o rolo também. Assim, estava virando especialista em fazer embrulhos – para presente ou mesmo só para levar para casa, amarrando o papel com o barbante barato de fazendeiro, que se encontrava aos montes pela cidade.

Lesley estreitou os olhos.

– Pra domingo, é claro!

– Hã? Ainda não faço ideia do que você está falando.

– Aff. Já tem quanto tempo que você está morando aqui?

– Uns dez minutos?

– Estou falando do festival de verão, sua sassenach. O solstício de verão. Midsummer.

– Vocês não param de falar desse festival!

– Que heresia! No dia mais longo do ano sempre tem um festival, como todo mundo sabe muito bem. Se não cair um toró, vai ter muita dança, festa e celebração. E se cair, ainda vai ter tudo isso, só que no celeiro do Lennox.

– Bom, nesse caso é melhor eu ir. Já que eu moro no celeiro do Lennox.

– Ah, sim, eu sei – retrucou Lesley, com certo desdém. – Todo mundo sabe. Aliás, como vai o Lennox, coitadinho?

– Coitadinho? – exasperou-se Nina. – Ele... bom, ele é bem grosso e um tanto desagradável, se quer mesmo saber.

– Ah, sim, mas ele passou por maus bocados com aquelazinha. A Kate.

– Como ela era?

– Toda metidona – falou a mulher. – Chique. Bem diferente de você.

– Nossa, muito obrigada.

– Nada aqui era bom o suficiente pra ela. Vivia reclamando do pub e dos velhos que praticamente moram lá.

Nina não pôde deixar de pensar que Kate tinha certa razão.

– Vivia reclamando da cidade, dizendo que nunca tinha nada pra fazer aqui – prosseguiu Lesley.

– Mas tem tanta coisa para fazer! – exclamou Nina.

De fato, mal se podia andar pela rua sem ir parar no meio de um evento. Havia festivais, corais, feiras na escola, partidas de shinty… Para uma cidade tão pequena, Kirrinfief tinha uma agenda surpreendentemente cheia. Com o tempo, Nina começara a perceber que, como estavam tão longe das atrações da cidade grande e como o clima era hostil durante boa parte do ano, os habitantes da cidade tinham aprendido a contar uns com os outros para atravessar as longas noites de inverno e os dias difíceis. Eram uma comunidade de verdade, não um quarteirão de casas geminadas com vizinhos que não compartilhavam nada além de uma parede. A diferença era gritante, e ela nunca se dera conta até se mudar para lá.

– Bem, enfim – falou Lesley. – Você não ia gostar da festa, de qualquer forma. E acho que não tem nada pra mim aqui.

Nina pegou um livro que conhecia muito bem e se empertigou. Olhou para Lesley, que estava sempre trabalhando, morava em cima da mercearia, aparentemente sozinha, e parecia viver com raiva do rumo que sua vida tomara. Parou e ficou pensando.

– Tente este aqui – indicou Nina com delicadeza, entregando o exemplar de Coração de vidro.

A mulher olhou com suspeita para a capa.

– Não sei, não.

– Por que não dá uma chance? Depois venha me dizer o que achou. – Em seguida Nina falou baixinho, para que ninguém ouvisse: – Se não gostar, devolvo o seu dinheiro.

Encontrar um livro de que Lesley gostasse estava virando uma questão de honra para Nina. A mulher parecia estar precisando demais do livro que mudaria sua vida. Nina acreditava de coração que havia um livro perfeito para cada pessoa. Pena que isso não valia para todas as outras coisas da vida.

 

– Odeio o dia mais longo do ano – reclamou Ainslee.

A garota havia atacado com avidez as caixas novas de livros e os desempacotava com reverência, suspirando a cada capa dura novinha, cada primeira edição preciosa e cada lombada bem preservada. Era uma coleção maravilhosa. Nina prometera que ela poderia pegar alguns livros emprestados, desde que os tratasse muito bem.

– Por quê? O que acontece nesse dia?

Ainslee suspirou.

– Ah, todo mundo se arruma, veste umas roupas ridículas e sai por aí cantando e dançando e agindo que nem uns idiotas a noite toda – explicou ela. – É um saco.

– É mesmo? Pela sua descrição até que parece bem legal.

– Mas não é. Não sei o que tem de errado em preferir ficar sozinha em casa ouvindo as próprias músicas em vez de sair para ouvir uma barulheira irritante e beber de chifres.

– Chifres?

– É, uns cantis enormes em formato de chifre. E tem tambores e tal. E fazem uma fogueira imensa. É muito idiota.

– Você deveria ir também – falou o Dr. MacFarlane, o médico local, que estava acompanhando Ainslee enquanto ela abria as caixas grandes na expectativa de encontrar algum thriller de gângster americano na década de 1920 que ainda não tivesse lido. – Todo mundo vai.

– Nossa, que ótimo motivo para se fazer qualquer coisa – comentou Ainslee, revirando os olhos.

Nina notou, de soslaio, que Ben tinha entrado de fininho na livraria. Ela estava guardando o último exemplar de Entre os telhados na mesinha do caixa, para que ele pudesse mexer à vontade, e notou o menino pegando o livro e se sentando com cuidado para ler as palavras na quarta capa, mexendo os lábios enquanto acompanhava a leitura com o dedo. Nina sorriu e achou melhor não falar com ele; ainda não.

– Qual o traje? – perguntou Nina.

– Os rapazes vão de kilt, né? Você sabe. Mas as moças também capricham – explicou o Dr. MacFarlane.

Nina já estava na Escócia havia tempo suficiente para entender que aquele era um ponto importante.

Desde que começara a trabalhar na livraria, seu jeito de se vestir havia mudado. Olhou para Ainslee, que usava um delineador roxo vivo contrastando com o cabelo verde. Ela parecia o logo de Wimbledon. Nina preferia não dizer nada, pois achava que era um bom sinal que a garota estivesse se expressando. Tinha tentado falar com Ainslee outra vez sobre as provas de conclusão do ensino médio, mas ela se fechara na mesma hora e a tentativa fora malsucedida.

– Vai ser uma beleza – falou o Dr. MacFarlane, que, para surpresa de Nina, conseguira desencavar um livro com uma ilustração na capa de uma moça dos anos 1920 sendo erguida por um alienígena espacial com uma pistola de laser. – E gostei deste aqui, vou levar.

– Uau, mas eu nem pus preço nesses aí ainda – comentou Nina. – O senhor é rápido.

Ele entregou o dinheiro a ela assim mesmo e disse:

– Espero vê-la na festa hoje à noite.

– Posso ir também? – choramingou Ben, enquanto a irmã o levava embora.

– Não – respondeu Ainslee.

 

Lidar com o trabalho era fácil, mas voltar para a casa vazia, sem Surinder para animá-la, sem poder sonhar com uma caminhada noturna ao cruzamento, sem ter motivo para pensar em poemas ou piadinhas ou desenhos para pôr no papel e levar até a árvore... isso era difícil.

Durante o dia, Nina via um monte de gente, mas as noites claras pareciam durar séculos e séculos. Tinha que se forçar a ir para a cama às dez e meia toda noite, mesmo que estivesse claro lá fora, e o arrastar das horas era pesado.

Nunca mais tivera notícias de Marek e tampouco fora ao cruzamento ferroviário. Não queria mais saber dele. Porém, sentia que Marek também sabia que os dois tinham ido longe demais e que quase haviam cometido um erro terrível.

Ou talvez não, pensou Nina certa noite em que estava sentindo bastante pena de si mesma, já na metade de um grande pote de sorvete. Talvez ele tivesse pensado que ela não passava de uma garota inglesa fácil que o rejeitara e já houvesse partido para outra. Talvez não estivesse nem pensando mais nela. Suspirou. Ficava ainda mais difícil sabendo que Griffin e Surinder achavam que ela estava se saindo tão bem, que sua vida era muito fácil. Sentia como se não houvesse mais volta. Não que quisesse voltar. Mas, ah, se sentia tão só!

Suspirando, entrou na internet de conexão lentíssima para acessar o Facebook. Surinder a incentivara a criar uma página para a livraria, o que parecera uma ideia ruim a princípio, mas que depois se mostrara bastante útil. Para início de conversa, era uma ótima maneira de informar aos clientes onde ela estaria a cada dia, permitindo que as pessoas sempre soubessem onde encontrá-la.

Além disso, tinha recebido uma mensagem de um perfil chamado Biblioteca das Ilhas Orkney sugerindo que se Nina quisesse expandir o negócio ou se mudar, os frequentadores da biblioteca que viviam em áreas mais rurais também apreciariam uma livraria móvel para complementar a adorável livraria independente que havia em Kirkwall. Ela lera a mensagem e sorrira. Já se sentia afastada o bastante do resto do mundo, e as Orkney, sem dúvida, eram o lugar mais isolado em que poderia pensar. Se o agito e o drama das Terras Altas se tornassem excessivos... pensou um pouco e guardou a mensagem, por via das dúvidas.

Alguém bateu à porta do celeiro. Ela se virou para olhar, surpresa. Não recebia muitas visitas, a não ser alguma criança da região desesperada para ter logo o próximo Harry Potter ou Malory Towers ou Nárnia, e Nina geralmente realizava esses desejos, lembrando-se muito bem da sensação.

Curiosa, foi abrir a porta. Para sua surpresa, era Lesley, a mulher da mercearia.

– Olá – disse Nina. – Hã… Oi. Tudo bem? A livraria não está aberta agora, mas se estiver precisando de alguma...

– Não – interrompeu a mulher. – Olha, eu só queria dizer... Eu terminei aquele livro que você me recomendou.

As lágrimas escorriam pelo rosto dela.

Nina olhou o relógio.

– Uau, que rápida!

Coração de vidro era um corajoso relato de uma mulher abandonada que passa quatro dias literalmente à beira do abismo atirando cada um de seus pertences no precipício, um a um, enquanto reflete sobre o significado de cada um deles. A sinceridade e a inteligência do livro tinham tomado o mundo de assalto, e a popularidade só aumentara devido ao fato de que a autora e sua editora haviam se apaixonado perdidamente e se casado. Ainda assim, o livro merecia muito a fama mundial.

– O livro é... Ela descreve exatamente. Exatamente como eu me sinto.

Nina olhou a mulher austera com quem tinha grande dificuldade de se conectar, admirando-se, mais uma vez, com a impressionante carga de emoção e intensidade que podia existir por baixo de uma aparência contida. Quem olhasse para Lesley poderia pensar que ela não passava de uma dona de loja de meia-idade que levava a vida de forma reservada.

Mas Lesley sentira uma empatia tremenda por uma mulher americana que, no auge de sua angústia, deixara o próprio sangue escorrer do topo de uma montanha, que mudara sua sexualidade e uivara para a lua com uma matilha de lobos. Isso tudo só servia para corroborar que dentro de cada ser humano havia um universo tão vasto quanto o universo à sua volta. Para Nina, livros – e, às vezes, a música – eram a melhor forma de cobrir essa distância, de ligar o universo interno ao externo; palavras agindo como um mero duto entre os dois mundos.

– Que fantástico! – Nina deu um sorriso acolhedor. – Fico muito feliz de saber. Quer entrar e tomar um chá comigo?

– Não, não. Eu tenho que ir. É só que, depois do que eu disse hoje mais cedo...

– O que você disse?

– Quando falei que você não iria gostar do festival de verão. Eu estava errada. Acho, de verdade, que você deveria ir.

– Não, eu preciso mesmo de uma boa noite de sono. É difícil dormir quando está sempre tão claro lá fora.

Lesley lançou-lhe um olhar austero.

– Não seja boba. É só uma vez por ano. Você é uma jovem solteira. Todos os solteiros têm que ir, é a regra.

– É mesmo? – indagou Nina. – Olha, sinceramente... – Ainda estava magoada com o incidente de Marek e não se sentia nem um pouco preparada para se expor e interagir com novas pessoas outra vez. – Não sei se estou muito a fim.

Lesley franziu o cenho.

– Sabe – contou ela –, eu desperdicei a minha juventude com aquele homem. Tinha 21 anos quando nos casamos, e namorávamos desde a escola. Ficamos juntos até os meus 50 anos. Nunca nem pensei em outro homem. Ah, o Bob era um desgraçado, mas eu acreditava que todos os homens eram assim. Nunca nem cheguei a questionar isso, só me convenci de que as coisas eram assim e pronto. E adivinha só: ele me largou. E aí já era tarde demais para mim.

– Mas não é tarde demais para você! – protestou Nina.

Lesley revirou os olhos.

– Tenho rugas do cocuruto da cabeça até os dedões cabeludos do pé, e trabalho todas as horas que Deus me dá. Acho que esta foi uma das maiores crueldades que Bob podia ter feito comigo: não me largar enquanto eu ainda tinha chance de conhecer outra pessoa, enquanto ainda me restava um pouquinho de brilho. Eu e a mulher que escreveu este livro... nós duas sabemos que merecemos mais do que isso. Mas eu sei que não teria a menor chance de ser coroada a rainha do solstício de verão, nem mesmo com esse vestido bobo. Já você..

Então Lesley revelou o cabide com a capa que segurava às costas:

– Toma. Deve caber direitinho em você. Eu também era uma belezinha magricela na sua idade.

– Eu não sou magricela! – protestou Nina.

– Lennox disse que, se você fosse um dos cordeirinhos dele, ele te abandonaria na encosta da montanha – contou Lesley.

– Ele disse O QUÊ? – berrou Nina, indignada.

Mas Lesley nem ouviu, apenas estendeu o cabide. Nina olhou o plástico amarrotado e confessou:

– Sinceramente, eu acho que... Eu acho que não consigo.

Lesley fechou a cara.

– Escute aqui. Você veio para a nossa cidade. Está se saindo melhor do que eu imaginei, admito. Mas você não está aqui só pra gente te dar o nosso dinheiro em troca de livros. Agora você é das Terras Altas. Aqui a gente cuida uns dos outros. Temos que nos unir. Você não pode só receber, precisa dar algo em troca. Tem uma porção de gente que trabalhou muito para que essa noite seja um sucesso, e o mínimo que você deve a essas pessoas é comparecer, para demonstrar seu apoio.

– Eu não tinha pensado dessa forma – confessou Nina.

Lesley balançou o cabide mais uma vez.

– Aceite, garota. Vai ser uma noite maravilhosa. Aproveite cada segundo. Mostre para todo mundo que aqui é o seu lugar.

– Não acredito que estou sendo chantageada para ir a uma festa – resmungou Nina.

Mesmo assim, não pôde deixar de ficar um pouquinho animada.

 

Depois que Lesley foi embora, Nina abriu com cuidado o saco plástico e chegou a ficar sem ar.

O vestido era branco, mas não lembrava em nada um vestido de noiva. Era de chifon simples, com gola e cintura altas e saia evasê bem volumosa que chegava aos joelhos. No ombro e no quadril havia uma faixa elegante em tartã verde-claro. Contudo, o que deixou Nina realmente impressionada foi o espartilho de veludo verde-escuro com amarrações frontais e que claramente deveria ficar por cima do vestido.

Até que a roupa era bem bonita. Remetia a alguma coisa que Nina não conseguia identificar, até que se lembrou das ilustrações de Branca de Neve e da Bruxa Má nos tradicionais livros infantis. Sorriu, esticando o vestido na cama.

Mais do que nunca, queria que Surinder estivesse ali. A amiga teria achado aquela situação hilária. Nina olhou o relógio: eram sete da noite. A festa começava às oito. Mordeu o lábio. Bem, se teria que ir de qualquer maneira – agora que Lesley tinha lhe dado o vestido, ela entendeu que, se não fosse, estaria pondo em risco seu negócio –, precisava começar a se arrumar.

Lesley estava certa sobre o tamanho. Nina tomou um banho rápido e lavou o cabelo, deixando-o solto em vez de prender como de costume. Ia ficar um tanto volumoso, mas não tinha muito o que fazer. Depois, colocou o vestido. O caimento era perfeito, como se tivesse sido feito sob medida. Era mais leve e mais elástico do que ela esperava. Era óbvio que havia sido feito para dançar. Em seguida veio o espartilho. Nina se espremeu para entrar na peça, que cobriu a cintura e as costelas, mas os seios se derramaram por cima.

Olhou-se no espelho, um pouco estupefata. Costumava preferir roupas sem muito contorno, privilegiando o conforto, mas o vestido e as sapatilhas eram incrivelmente confortáveis. Só que também era muito provocante, se comparado ao que estava acostumada a vestir.

Por um instante, teve muito medo de que ninguém mais aparecesse vestido daquela maneira, de que fosse tudo uma pegadinha para constranger a novata. Então se lembrou do Dr. MacFarlane falando das garotas vestidas a caráter e concluiu que era muito improvável. Não era?

Ruborizou ao se admirar no espelho. Com o espartilho, sua cintura ficava mínima, e os seios, pequenos e tímidos, se avolumavam de uma forma bem agradável. “Não é à toa que sempre usavam esses troços antigamente”, pensou. Deu uma pirueta experimental e estava sorrindo, contente consigo mesma, quando se deu conta de que havia alguém parado à porta.

Nina se virou, arquejando ao perceber, horrorizada, que era Lennox.

Por uma fração de segundo, ele apenas a observou, de forma descarada. Mas logo se recuperou.

– Desculpa! Desculpa! – apressou-se em dizer, erguendo as mãos e dando passos para trás. – A porta estava aberta...

Nina tinha mesmo deixado a porta aberta depois que Lesley saíra, para que a brisa estival entrasse.

– Você me deu um susto!

– Desculpa, desculpa, eu não sou esse tipo de senhorio... Meu Deus, olha a hora, acho que vou indo...

Nina sorriu.

– Não, está tudo bem. Só estou envergonhada porque fui pega no flagra bem na hora em que estou me produzindo.

Lennox a olhou mais uma vez, só que parecia um pouco nervoso, como se estivesse fazendo algo que não deveria.

– Então você vai ao festival?

– Não – respondeu Nina, meio atrevida. – Essa é a minha roupa de ficar em casa e relaxar.

Lennox deu uma risada repentina, como se não conseguisse evitar.

– Na verdade, acho que esse vestido caiu muito bem em você.

– Não seja bobo.

– Estou falando sério. Você está bonita. Parece que enfim tirou o cardigã.

– Eu nem uso cardigã!

– Um cardigã metafórico. Um cardigã de bibliotecária. Parece que... – Para os padrões dele, Lennox estava fazendo um discurso longo, e começava a vacilar. – Parece que você vive se cobrindo de panos para se fazer parecer menor, mais insignificante. Do que realmente é.

Nina ficou em silêncio.

– Parece que não quer que ninguém note você – concluiu ele.

– Para o caso de alguém querer me abandonar na encosta da montanha.

– Hein? – perguntou Lennox, confuso.

– Deixa pra lá.

No mesmo instante, ele deu meia-volta. Seguiu para casa, mas se deteve diante da van e se virou outra vez.

– Você não pode ir para a festa dirigindo essa ameaça. Quer uma carona?

– Ué, você vai? – indagou Nina, surpresa.

– Se quero que o pessoal das redondezas continue comprando a minha lã, eu tenho que ir – resmungou Lennox. – Não tenho muita escolha, né?

Nina sorriu.

– Combinado, então. Talvez hoje você comece a dançar mais cedo.

Ele franziu a testa, confuso. Era óbvio que nem se lembrava do ocorrido no baile dos jovens fazendeiros.

– Improvável – rebateu Lennox, tornando a seguir para casa. – Te vejo em uns vinte minutos.

 

– Você tem dois kilts?

Nina o olhava impressionada, vinte minutos depois.

Tinha tentado domar os cabelos, mas sem muito sucesso. Acabara pegando uma mecha de cada lado da frente, torcendo-as e prendendo-as para trás. Resolvera abandonar a faixa de tartã, pois não tinha a menor ideia do que fazer com ela. Porém, naquele instante, percebeu que a faixa tinha a mesma padronagem do kilt de Lennox, um verde-claro acinzentado.

– Você tem duas calças jeans? – retrucou ele, resmungando.

O cabelo recém-lavado de Lennox formava cachos suaves que, para variar, não estavam escondidos embaixo de uma boina. Além disso, sem a capa de chuva habitual, Nina notou outra vez os ombros largos e o corpo esguio, porém musculoso. Não era sarado demais – não que fazendeiros precisassem de atividades físicas artificiais, mas ela não conseguia imaginar Lennox em uma academia –, nem magro demais. Suas proporções eram bastante harmônicas. O tom verde-acinzentado do tartã acentuava o azul intenso dos olhos dele.

– Sim, mas... – Nina decidiu encerrar o assunto.

– Cadê a sua faixa?

– Hã, eu não sabia como usar.

– E você nem tentou? Traz ela aqui.

Ao lado do Land Rover, Lennox pegou a faixa de tartã e, com cuidado e precisão, prendeu-a no quadril e na cintura de Nina. Enquanto ele ajustava o tecido, de repente os dois se viram próximos demais um do outro, o que gerou certa tensão. Nina notou, então, que estava prendendo a respiração. Censurou-se no mesmo instante e saltou para dentro do carro, saindo logo em seguida ao perceber que o banco do carona já estava ocupado por Salsinha.

– Ele dança muito, o Salsinha?

Lennox deu de ombros.

– Ele gosta de festa. Muito mais do que eu.

– Então eu vou atrás?

– Não seja boba. Pra trás, garoto, pra trás.

No mesmo instante, o cão saltou para o banco de trás. Nina se virou para fazer carinho nas orelhas de Salsinha.

– Você é um garotão muito lindão. É, sim – disse ela, afetuosamente.

Salsinha lambeu a mão dela. Lennox lhe lançou um olhar de soslaio.

– Você é muito molenga com esse cachorro.

– É porque ele é um amorzinho. – “Mais amorzinho do que você merece”, pensou ela, mas não disse nada.

– Kate sempre dizia que eu não merecia um cachorro tão legal – comentou Lennox, lendo os pensamentos de Nina.

Seguiram pela estrada esburacada, quicando no assento em silêncio. Havia mais carros do que de costume. Em parte porque, no geral, quase não havia carros na estrada, e também porque todos os veículos subiam a colina em direção a Coran Mhor, cheios de gente feliz e animada, dentre as quais – graças aos céus – se viam várias garotas de vestido branco como o de Nina. Ela se concentrava em olhar pela janela, já que Lennox, como sempre, parecia não estar interessado em conversar. Era um entardecer luminoso e belo, com nuvens fofas no céu. Parecia que o sol não estava com a menor vontade de descer no horizonte.

– Como vai o maquinista? – perguntou Lennox, de repente, com ar de desconforto.

Nina olhou estarrecida para ele.

– Hein?

– Quer dizer, ele vai aparecer mais tarde?

– NÃO. Hã… Não. É claro que não. Não. Eu não... ele não...

Lennox lançou um olhar de soslaio para ela.

– Não era bem o que você esperava?

Um silêncio pesado tomou conta do carro.

– É que... no fim das contas, ele já tem uma família. – Nina odiava ter que admitir, ter que dizer em voz alta. – Não que isso seja da sua conta.

Lennox não disse nada, apenas fez carinho no cachorro, que tinha enfiado a cabeça no espaço entre os bancos da frente.

– Sinto muito – disse ele, enfim. – Eu não devia ter perguntado. Mas é que meu instinto me dizia que algo naquele cara não cheirava bem. Acho que era porque ele nunca me olhava nos olhos.

– Talvez ele só tenha achado você um cara mal-humorado e assustador – falou Nina.

Lennox pareceu surpreso.

– Mas eu não sou assim. Nem um pouco.

Nina riu de maneira sarcástica.

– Aham, sei, tá bom.

– Eu só trabalho muito, só isso. Tem gente que acha que é moleza manter uma fazenda grande como a minha, mas a verdade é que dá muito trabalho. – Ele notou a contestação na expressão de Nina. – Que foi?

– Nada.

– Não, fala, o que foi?

– Bem, acho que todo mundo sabe muito bem que ter uma fazenda é um trabalho absurdamente difícil. Mas eu vejo o Gordo o tempo todo no pub, se divertindo, assim como os outros fazendeiros. Um monte de gente tem trabalhos difíceis, e isso não quer dizer que precisem viver infelizes o tempo todo.

Lennox ficou um tempo sem responder.

– É – concordou ele, por fim. – Acho que você tem razão. Acho que... nos últimos anos... – Calou-se outra vez, e seu olhar vagou para as montanhas que passavam lá fora. – Os últimos anos foram um tanto... difíceis. E parece que... Não sei se você entende, mas parece que ficar para baixo... virou um hábito mais do que qualquer coisa. – Então fitou o próprio kilt. – Mas olha só pra mim agora. Eu saí de casa, né?

Nina lhe lançou um olhar bem-humorado.

– Pode até ter saído. Mas vai passar a noite inteira colado no bar de cara feia?

– Eu não faço isso.

– Não foi o que eu vi no baile do celeiro! Você passou a maior parte da noite conversando com aquele cara e ignorando todas as outras pessoas.

Lennox suspirou.

– Ah, é, aquela noite.

– Ah, é, aquela noite – imitou Nina. – Sabe, considerando a quantidade de eventos sociais que tem por aqui, não sei como alguém consegue acompanhar o que aconteceu em cada festa.

Lennox franziu o cenho, o olhar vidrado na estrada à frente.

– Ah, sim, eu lembro.

Nina olhou para ele, esperando que continuasse.

– Aquele sujeito... era o meu advogado, Ranald. – Lennox suspirou. – Ele queria falar comigo pessoalmente. – Os punhos dele se cerraram ao volante. – Ah, céus. Sinto muito, Nina. Não queria te dizer nada... não antes de ter certeza. Eu venho tentando encontrar uma saída, mas acho que não vai dar. Sinto muito ter que te dar esta notícia, ainda mais hoje, mas eu estava... Quer dizer, mais cedo, sabe? Eu estava indo te dizer que...

Nina o encarava. O rosto de Lennox estava ruborizado.

– Eu... Kate quer a fazenda. Ou quer que eu venda a fazenda – explicou Lennox.

– O quê?!

Ela pensou nas cortinas caras, nos objetos escolhidos com tanto esmero, na atenção a cada detalhe daquele lugar. Não era possível que uma pessoa com tanto bom gosto, com tanto tino para a beleza, pudesse ser capaz de chegar e destruir tudo.

Nina percebeu, então, como estava sendo egoísta. Só estava alugando o espaço. Não era nada comparado ao que aconteceria com Lennox.

– Ah, meu Deus! Ela não pode tomar a sua fazenda!

– Mas é o que está tentando fazer – falou ele.

– Mas a propriedade não é da sua família?

– Não faz diferença – respondeu Lennox. – Quer dizer, Kate fez parte da minha família. Por um tempinho. – Ele se calou.

– Mas ela não tem um emprego?

Lennox deu de ombros.

– Parece que não importa.

– E não foi ela que quis se separar?

– Parece que importa ainda menos.

– Mas o que você vai fazer sem a fazenda?

Lennox piscou depressa, algumas vezes.

– Não sei – respondeu ele, bem devagar. – Acho que o que resta é recomeçar. Ir trabalhar na fazenda de outra pessoa.

Nina não conseguia conceber a ideia de Lennox.

– Isso não pode acontecer – afirmou ela, decidida. – Eu vejo como você trabalha duro para manter a sua fazenda.

– Bem, parece que os advogados não ligam para isso.

Continuaram seguindo pela estrada esburacada em silêncio, e Nina pensou que os dois não estavam no menor clima de festa. Mesmo assim, não conseguiu se conter.

– Por que vocês terminaram? – perguntou, baixinho. – Ela se apaixonou mesmo por outra pessoa ou isso foi só uma desculpa?

Um longo silêncio pairou entre eles.

– O motivo não é óbvio? – perguntou Lennox.

– Porque você é um velho resmungão e mal-humorado? – sugeriu Nina.

– Hã, não, não era isso que eu ia dizer – respondeu Lennox, claramente chateado.

– Ah.

Fez-se outra longa pausa.

– Ela se sentia isolada – confessou Lennox. – Achou que eu tinha lhe prometido uma coisa diferente, que tinha prometido mais. Não, não é bem isso. Eu não prometi. Não ofereci nada. Kate sabia muito bem no que estava se metendo. E achava que ficaria tudo bem, que conseguiria lidar bem com a vida que a gente tem aqui. Mas ela não conseguiu. – Deixou o olhar se perder entre as colinas douradas. – Sabe, os invernos aqui são muito longos. Ser esposa de fazendeiro é difícil, difícil demais. Não é pra todo mundo.

– Como vocês se conheceram? – quis saber Nina.

– Eu estava na faculdade de agronomia, em Edimburgo... e Kate estudava artes plásticas. – Ele sorriu. – Eu devia ter imaginado, né?

Nina fez uma expressão meio contrariada.

– Mas por que ela veio para cá, se o que queria era morar na cidade e ser artista?

– Kate pensou que seria bom para o trabalho dela. Achou que a solidão era o que faltava para se tornar uma grande pintora.

Nina se lembrou da pintura contemplativa na parede.

– Ah! – exclamou. – Aquela paisagem. É dela! Nunca tinha pensado nisso.

Voltou a se lembrar das camadas obscuras e tristonhas, muito contrastantes com o resto do ambiente.

– Ah, pois é – concordou Lennox. – Ela não queria pendurar na parede. Eu que pendurei. Achei que... achei que ia animá-la um pouquinho.

– E funcionou?

– Nem um pouco. Mas eu achei o quadro bem bonito.

– É mesmo – afirmou Nina. – É mesmo muito lindo. Mas por que... por que ela quer tomar a sua fazenda, se odiava tanto esse lugar?

– Acho que ela está sem grana – falou Lennox. – É caro ser um artista tentando a vida na cidade. É muito caro morar lá. E acho que ela tem dado umas aulas, mas... imagino como deve odiar isso. Não é muito a praia dela. Além do mais, Kate diz que é para o meu próprio bem. Diz que eu estou estagnado, que preciso parar de trabalhar tanto e que preciso arranjar um trabalho menos estressante.

– Isso aí até que tem um fundo de verdade.

Lennox olhou para Nina por um instante.

– Acha mesmo?

– Eu ouço você acordado dia e noite. Vejo você andando quilômetros e quilômetros pelas montanhas.

Lennox franziu a testa, confuso.

– Mas isso é o que eu gosto de fazer. Não é só trabalho, é um estilo de vida. É o meu estilo de vida. Eu sei que ela não gostava, mas isso não é problema meu. Eu gosto. Eu nunca conseguiria... ah, cara, nunca conseguiria passar o dia inteiro em um escritório. Trabalhando no computador. Seria tortura. Não sou artista como ela, e não sou inteligente como você, que encontrou algo que a comunidade precisava e supriu essa demanda. Nunca seria capaz de fazer algo assim.

Nina ficou um pouco constrangida com o elogio.

– Eu acho... Acho que a gente pode fazer mais do que a gente acredita. Se tem algo que aprendi é que a gente nunca sabe do que é capaz até tentar.

– Mas eu já amo o que faço. Amo essa terra.

– Deve ter um jeito – insistiu Nina, encarando-o. – Deve ter um jeito de você manter a fazenda.

Lennox deu de ombros, depois apontou para fora. Estavam no topo da colina, e o vale se desvelava diante deles, atravessado pela linha do trem. Em vez de apreciar a vista, Nina concentrou o olhar na multidão que havia no topo da colina seguinte e nas tendas listradas, barraquinhas de cores vivas. Ali, ouvia um barulho constante que lembrava o som de chuva no telhado, mas, conforme foram se aproximando, percebeu que era, na verdade, a batida de tambores. Tentou enxergar melhor. Bodhráns imensos estavam sendo tocados por um grupo de homens jovens, de kilt mas sem camisa, com respingos de lama pelo peito e pelo braço, fazendo um alarido absurdo. De vez em quando, um deles jogava a cabeça para trás e uivava.

– Meu Deus! – disse Nina. – Isso ainda vai acontecer muito essa noite?

Pela primeira vez, Lennox deu um sorriso de verdade. Seu sorriso era encantador, formando pequenas rugas nas laterais dos olhos azuis.

– Isso e muito mais – respondeu ele. Então sua expressão pesou outra vez. – Sinto muito por ter te avisado sobre o seu possível despejo logo hoje.

Nina ficou um instante em silêncio.

– Tudo bem – respondeu. – Na verdade... na verdade, eu recebi uma proposta de outro lugar.

Lennox ergueu as sobrancelhas.

– É mesmo?

Nina engoliu em seco. Não queria ir embora de Kirrinfief, não mesmo. Porém, não via nenhum sentido em fazer com que Lennox se sentisse ainda pior com a situação.

– Não se preocupe comigo. Apenas se concentre em resolver as coisas com a Kate da melhor forma possível.

O Land Rover parou ao lado de uma fileira de carros estacionados em um campo. Lennox olhou para ela e assentiu.

– Então tá – disse ele, mas havia preocupação em seu rosto.

– De verdade – insistiu Nina.

Lennox saiu do veículo e, por instinto, contornou o carro para ajudá-la a descer. Nina tinha quase se esquecido de que estava usando aquele vestido. A peça era bem inadequada para ficar descendo e subindo em Land Rovers. Ele estendeu a mão comprida e cheia de calos, e ela aceitou, dando um saltinho leve para o chão.

– Está pensando em se mudar pra onde? – perguntou Lennox.

– Ah, as Ilhas Orkney – respondeu Nina, distraída.

Ele estacou, surpreso.

– Artney?! – indagou Lennox, pronunciando o nome da maneira regional. – Você vai se mudar lá pras Ilhas Artney? Não acha Kirrinfief isolado o suficiente?

– Se eu não tiver onde morar aqui, é bem capaz de ter que me mudar para lá.

– Ah. Entendi.

Ficaram ali, um diante do outro, meio desconfortáveis. Os tambores ficavam cada vez mais altos, e a brisa trazia o som das flautas ao longe. As nuvens cortavam o céu, tufos fofinhos que corriam como se estivessem sendo perseguidos. Nina ouviu as risadas de um grupo de crianças.

– Tem certeza de que estou vestida para a ocasião? – perguntou ela.

Lennox a olhou de cima a baixo.

– Você está lin... – Ele se conteve antes de terminar a palavra. – Quer saber? Estou a fim de encher a cara. Que tal?

– Encher a cara, você? Mas e os cordeirinhos no campo?

– Os cordeirinhos estão saltitando por aí, comendo meus cardos. Além do mais, é noite de solstício e se embebedar é obrigatório, não sabia?

No mesmo instante, surgiu um homem muito gordo – Nina reconheceu o funcionário do correio, embora o sujeito estivesse muito bem disfarçado. Estava coberto de maquiagem vermelha, com ramos enormes de flores e frutas enrolados nos ombros e portava um grande cantil de chifre.

– BACO! BACO CHEGOU! – gritou o homem. – Reverenciem o deus do solstício de verão!

– O que é isso? – perguntou Nina, desconfiada.

– É noite de solstício – respondeu o homem. – Um dia de festa e magia. Água vira vinho, flores mostram o caminho. A propósito, custa 5 pratas.

– Você não respondeu a minha pergunta – observou Nina, mas aceitou, mesmo assim, a bebida que ele oferecia.

O líquido tinha um gosto meio estranho (como vinho com infusão de framboesa), mas era refrescante, borbulhante e gostoso. Ela sorriu e passou o chifre para Lennox, que bebeu um longo gole e sorriu de volta. Ele entregou dez libras para Baco, ao que o homem fantasiado gritou:

– Venham, venham, vamos festejar! E não deixem de contribuir com o correio local!

Então três jovens, que viviam perto do ponto de ônibus com cara amarrada e reclamando da vida, vieram saltitando, todas de vestido branco e carregando grandes guirlandas de flores. Ofereceram uma a Nina.

– Ah, hoje não – recusou Nina.

– É para ajudar as escoteiras – explicou uma das meninas, e Nina revirou os olhos.

– Da próxima vez, você tem que vir com o bolso preparado para o festival – falou Lennox. – Vê uma guirlanda pra ela, então – pediu ele para as meninas.

Nina abaixou a cabeça e deixou que as garotas pusessem as flores em seu cabelo.

 

Nina precisava admitir: era uma festa maravilhosa. Havia criancinhas correndo e saltitando por todo lado. As meninas usavam tiaras de flores e vestidinhos brancos tremulando ao vento; e os meninos usavam kilt, como os pais, e camisas brancas soltinhas, brandindo espadinhas pequenas.

Nina e Lennox compraram os ingressos no portão de entrada da festa, onde havia um imenso arco florido com peônias e rosas de verão, enchendo o ar com seu perfume intenso. Lennox teve que se abaixar para passar pelo arco. Ao entrar, foram premiados com uma visão fascinante.

Na parte mais alta da colina havia uma imensa fogueira que estalava e lançava centelhas no ar. Havia músicos por todo o gramado, tocando flauta ao som dos tambores graves, e bem no meio havia um mastro de solstício de verão – embora o objeto estranho e torto fosse bem diferente dos mastros de que Nina se lembrava de sua infância na Inglaterra.

Aquele mastro era maior e mais largo, um caber inteirinho; as vastas folhas verdes evocavam florestas e vinhedos. Nina reparou que os casais iam até o tronco retorcido, enrolavam ramos de folhas nos pulsos unidos e depois se desenrolavam ao redor do tronco até se encontrarem do outro lado, em meio a risadinhas e beijos. Com isso, os ramos eram enrolados outra vez no mastro e a cerimônia recomeçava com outro casal. Deviam ter levado semanas para construir aquilo tudo.

Uma figura enorme surgiu de repente, assustando Nina e algumas crianças. Aos poucos, ela entendeu que a figura era um homem verde de perna de pau. Estava coberto de folhas, da cabeça aos pés, e parecia personificar a própria floresta. O homem controlava os tambores, pareava e convocava os casais e era, basicamente, o mestre de cerimônias da festa.

Surgiram mais cantis de chifre, transbordando com aquele vinho estranho, e Nina continuou bebendo, mesmo quando notou que o álcool estava subindo direto para a cabeça. A música e os tambores, o vento soprando as árvores, todos os sons pareciam correr ao sabor do sangue em suas próprias veias, e, embora soubesse que o festival não passava de um evento para arrecadar fundos para o vilarejo, tudo parecia intenso, selvagem e peculiar.

De repente, se viu separada de Lennox e cercada das demais mulheres, todas de vestido branco. Algumas estavam de máscara e a maioria usava flores e fitas no cabelo, de modo que Nina mal as reconhecia. E mesmo quando identificava alguma delas, nem tinha tempo de acenar de leve, pois era logo envolvida outra vez pela maré de pessoas dançando e gargalhando, enquanto as crianças corriam pelos pés de todos, aos gritinhos. Ela se viu cumprimentando antigos amigos e fazendo novos amigos, sem conseguir distinguir entre os dois. Em todo caso, teria sido impossível tentar manter uma conversa com o barulho ensurdecedor e o alarido da fogueira, de modo que só restava acompanhar o fluxo.

Então, seguindo as ordens do homem verde que não aceitava “não” como resposta, todos deram as mãos e formaram duas rodas, uma girando no sentido horário e a outra, no anti-horário. Ao ritmo dos tambores, flautas e violinos, todos se puseram a dançar com passos curiosos, batendo os pés no chão e girando ao redor da fogueira, cada vez mais rápido, até que Nina se viu arfante e zonza com todo o movimento, mas mesmo assim gargalhando abertamente e sem a menor vontade de parar.

– Festejem os ritos do solstício de verão! – ribombou a voz do homem verde, amplificada pelo megafone. – Moças e rapazes, festejem o espírito do renascimento e do crescimento, a noite mais curta e o dia mais longo, CELEBREMOS a Mãe Terra e seus frutos, suas flores e sua abundância!

Todos gritaram e bateram palmas, e em seguida os dançarinos desfizeram a roda em meio ao riso, mas os músicos continuaram tocando a canção selvagem e etérea. O ar noturno recendia ao aroma doce e intenso de lavanda e tomilho selvagem, de dedaleira e madressilva e ranúnculo, de avenca e mosquitinho. Alguém dissera a Nina, com seriedade e determinação, que ela teria que colher uma flor de cada, sete flores para sete noites, a fim de encontrar seu amor verdadeiro. Ao coletar tudo, as garotas iam trançando as flores nos cabelos umas das outras, ainda bebendo dos chifres, que continuavam circulando. Quando terminaram, os homens voltaram para perto, todos rindo e pegando as moças pela mão para dançar.

Nina estava se divertindo muito. A noite passou rápido, como um borrão. Quando deu por si, já eram onze e meia e, o céu começou, enfim, a escurecer. A noite foi ficando fria, cobertores de tartã foram distribuídos e as pessoas se aninhavam junto à fogueira para admirar as estrelas que iam surgindo.

O céu se tingia de um azul cada vez mais escuro – embora, tão ao norte, o tom nem chegasse perto do preto naquela época do ano. De repente, os tambores pararam e a música se aquietou, transformando-se na suave melodia de uma única flauta, como se o próprio deus Pã estivesse tocando baixinho uma melodia grave e etérea, a muitos quilômetros dali.

Então até mesmo esse som se dissipou. Por um instante, o ar frio foi tomado por um silêncio profundo, como se a própria terra estivesse prendendo a respiração. Em seguida, no extremo leste da noite, acima do mar, viu-se um brilho tênue em meio ao azul crepuscular; tons de verde e rosa tão claros e sutis que lembravam dedos correndo de leve pelas teclas de um piano.

A multidão arquejou em uníssono. Logo depois, todos começaram a celebrar, saltando dos cobertores e tentando tirar fotos, o que estragava um pouco o momento, mas Nina mal se incomodou. Estava hipnotizada pelo brilho cintilante e multicolorido da aurora boreal que dançava no céu noturno. Nunca tinha visto nada tão lindo, tão arrebatador. Nunca lera, em livro algum, nada tão belo quanto aquela cena.

E a um grito do mestre de cerimônias, os tambores e violinos começaram a tocar de novo, mais alto do que nunca. Mas Nina nem ligou para a música ou para as pessoas que atiravam os cobertores de lado, levantando-se para dançar outra vez ao redor da fogueira. Estava paralisada, com o olhar fixo no céu, enquanto as pessoas festejavam à sua volta.

De repente, sentiu uma presença bem próxima e se virou na hora. Ao lado dela estava a figura imponente de Lennox, emoldurado pelo céu que ia escurecendo. Ele não disse nada, só acompanhou o olhar de Nina até o céu e assentiu. Então estendeu o braço e tocou a mão dela com delicadeza.

Nina sentiu o toque arder como fogo, e instintivamente puxou a mão. Lennox apenas a encarou por um instante e em seguida recuou de costas até ser engolido pela multidão rodopiante, desaparecendo tão rápido que ela chegou a achar que tinha sonhado com aquele momento.

 

Horas depois, Nina estava sentada com um grupo de novo amigos vendo o sol nascer, logo depois de ter se posto. Não parava de pensar no que acontecera – se é que algo havia mesmo acontecido, se é que não havia interpretado tudo errado.

Contudo, seus instintos tinham gritado: afaste-se. Sua última desilusão ainda era muito recente. Ela achava que sabia no que estava se metendo, quando, na verdade, não sabia de nada. Não podia permitir que isso acontecesse outra vez. E, apesar da conversa civilizada que tinham conseguido manter pela primeira vez, a caminho da festa, no geral Nina o considerava rude e seco. Além disso, pelo pouco que Lennox contara, ele estava passando por um período emocionalmente terrível.

Lembrou-se dos olhos tristes de cachorrinho de Marek e suspirou. Será que não havia nenhum outro cara disponível que não fosse desgraçar a cabeça dela? Um cara que só lhe fizesse bem? Ou será que isso só acontecia na ficção?

Ainslee passou por ela. Nina reparou que a menina estava trabalhando na festa e se levantou para ir cumprimentá-la depois de Ainslee ajudar a servir o café da manhã fabuloso incluído no ingresso da festa: misturar grandes jarros de leite fresco e cremoso em imensos tonéis de mingau com sal, açúcar ou mel; fatias de bacon defumado artesanal; salsichas Lorne quadradinhas; ovos mexidos com salmão defumado, oriundos do loch mais próximo; e chá e café aos montes para estancar a bebedeira do festival inteiro, embora ainda houvesse bastante gente consumindo a bebida cor-de-rosa frisante.

– Que demais! – exclamou Nina. – A festa está incrível.

– Aham – respondeu a menina.

– Trabalhar aqui é divertido?

Ainslee deu de ombros.

– Não mesmo. Mas preciso do dinheiro.

– Está tudo bem em casa?

– Aham – atalhou a menina.

Então percebeu que tinha bebido demais e estava passando dos limites.

– Desculpe – disse Nina.

Ainslee olhou por cima do ombro dela.

– Quem é aquele cara ranzinza ali atrás?

Ao acompanhar o olhar da garota, Nina avistou Lennox junto ao bar, bebendo uísque. Ao notar que era observado, ele se voltou outra vez para os amigos.

– Ah, é só o meu senhorio – explicou. – É um velho infeliz e ranzinza.

– Lennox, né? Da Fazenda Lennox. Ele é velho à beça – comentou Ainslee.

– Ele tem uns 30 e poucos anos!

– Então. Praticamente um idoso.

– Ah, tá bom – falou Nina.

– Mas até que ele é bem bonitinho. Para um cara mais velho. – Ainslee estava ficando vermelha.

– Você acha?

A garota aquiesceu.

– Quer dizer, não que a minha opinião valha alguma coisa.

– Ainslee – começou Nina, inclinando-se para a frente –, nunca mais diga isso. Sua opinião é sempre importante.

A menina ficou olhando para ela por um tempo, até que ambas ouviram o nome de Ainslee ser chamado pela pessoa que estava supervisionando as atendentes.

– Então quer dizer que vai investir nele? – indagou a menina, tentando dar um sorriso conspiratório.

– Hã, não – respondeu Nina. – Mas eu valorizo sua opinião.

Ainslee assentiu, como se estivesse bastante acostumada a ser ignorada, e foi embora a passos pesados.

 

Uma frota de táxis e carros apareceu para levar os foliões para casa. Havia várias pessoas desmaiadas pelos cantos; elas só acordariam muito mais tarde, cobertas de sereno. Outras tinham se preparado e montado barracas aqui e ali. Depois de quatro canecas cheias de café, Nina estava bem sóbria, e dividiu o táxi com uns amigos que conhecera na festa, feliz de não ter nem sinal de Lennox no caminho de volta. Seu cabelo tinha se soltado e ela não queria nem pensar no estado em que o delineador se encontrava.

– A noite foi boa? – quis saber o motorista. – Quando eu era mais novo, nunca perdia essa festa. É um ótimo lugar pra conhecer garotas, pode crer.

– E o senhor conheceu alguma? – perguntou uma moça muito bêbada que estava estatelada no banco de trás.

– Minha esposa – contou o motorista. – Ela não me deixa mais ir, só se for a trabalho. Mas que era divertido, era. Deu pra ver as luzes hoje? Eu nunca vi no verão.

– Deu, sim, foi incrível – respondeu Nina, lembrando-se do momento.

Exceto pela troca estranha que tivera com Lennox, poderia dizer que, sob vários aspectos, aquela havia sido a noite mais maravilhosa de sua vida. Pensou nas noitadas de quando morava na cidade. Sim, com certeza. Não tinha nem comparação. Em Kirrinfief, ela podia não sair à noite com tanta frequência, mas, quando saía, sempre significava algo mais. Lamentou que Surinder não estivesse presente. A amiga teria amado a festa. E o cara cujo nome terminava em “gus” havia perguntado por ela. Nina achava que ele não tinha ficado com ninguém naquela noite.

Após tirar o lindo vestido e examiná-lo com cuidado, Nina concluiu que a peça estava mais ou menos intacta, apenas com um pouco de lama aqui e ali. Queria arranjar uma coleção de livros novos para Lesley como forma de agradecimento, ainda mais agora que já sabia do que a mulher gostava. Contudo, ao se enfiar na cama com grande satisfação, sua mente voltou-se não para a dança desenfreada, nem para o vinho doce, muito menos para as luzes coloridas que cortaram o horizonte.

Para seu desagrado, veio-lhe a lembrança da expressão de Lennox quando ela puxou a mão para longe dele. Tinha a consciência desconfortável de que, naquela hora, não sentira desagrado, medo nem qualquer uma das sensações negativas que, conforme suspeitava, haviam se insinuado em seu rosto.

Puxara a mão porque, naquele ínfimo instante em que a mão de Lennox roçara de leve na dela, o que Nina havia sentido fora um ardor imediato e intenso. O gesto a deixara em brasas.

Não queria – não conseguia – nem pensar nisso, ainda mais naquele momento em que estava prestes a perder a casa, prestes a perder tudo que trabalhara tanto para construir.

(E nem sequer chegou a pensar que, a alguns quilômetros dali, naquele fatídico instante, havia um trem parado em um cruzamento. Debruçado na janela da cabine, um maquinista olhou para uma árvore vazia, admirando também as lindas luzes que coloriam o céu, e pensou que não devia haver ninguém no mundo que se sentisse tão solitário quanto ele.)