A pequena livraria dos sonhos
Capítulo onze
Após transferir todas as caixas para a van (o que fez com que os livros parecessem minguar; ela precisaria de um acervo muito maior), Nina conseguiu vender o Mini Metro para a esposa muito bem-vestida de um fazendeiro, que precisava de um carro para dar umas voltas por aí. Por sorte – e, depois de tudo que havia passado, Nina sentia que já passara da hora de ter um pouco de sorte –, a compradora lhe recomendou uma casa para alugar cujo proprietário parecia não se incomodar em ter uma van gigantesca estacionada na frente.
Nina estava muito preocupada. Só poderia pagar um valor irrisório pelo aluguel. Até Surinder vinha cobrando um preço abaixo do mercado, porque Nina era uma companheira de apartamento excelente – isto é, quando não estava pondo a casa abaixo. Ainda tinha um pouco do dinheiro do carro e os últimos centavos da rescisão, e fora muito parcimoniosa com o último salário, que só costumava durar até a próxima visita a uma livraria, já que agora teria que viver um mês de cada vez, com base no que conseguisse vender.
Tinha ligado para a prefeitura local, que não parecia ver problema algum em deixá-la estacionar a van aqui e ali uma manhã por semana – melhor ainda, o atendente tinha também prometido enviar para o e-mail dela uma lista com todas as feiras e bazares onde poderia alugar uma barraquinha para vender. Parecia uma boa ideia. Mas antes Nina precisava se preparar, e, para isso, tinha que conseguir um lugar para morar.
A fazenda Lennox ficava perto do centro do vilarejo, um pouco mais afastada da estrada, e era uma linda casa de campo, pintada de um laranja chamativo. Porém, em vez de se sobressair, a cor combinava bem com as nuances das colinas à volta, até mesmo na primavera, e Nina pensou que o cenário devia ficar glorioso no outono.
De acordo com a mulher que comprara o Mini Metro, a esposa do fazendeiro tinha planos de alugar por temporada o pequeno chalé que ficava no terreno da casa principal, mas parecia que a mulher não morava mais lá (um escândalo e tanto, dissera a compradora, sem entrar em detalhes), de modo que o chalé estava para alugar em caráter um pouco mais definitivo.
– O lugar só deve estar meio às traças – comentou ela.
Estava claro que algo tinha dado muito errado naquela história, e Nina ficou torcendo para que o lugar não estivesse muito decrépito. Mas não tinha outra escolha.
Quando chegou, após seguir as instruções vagas da mulher, não encontrou ninguém à vista. Nina acreditara que as pessoas logo se dariam conta da aproximação da van, já que o veículo projetava uma sombra imensa ao passar, além do fato de que viera dirigindo a 30 por hora. Contudo, ao estacionar na frente da casa, a única presença foi a de uma galinha solitária que ciscava alegremente por ali, observando-a com seus olhinhos de contas.
Nina saiu do carro, sentindo-se muito encabulada, e chamou:
– Olá?
Tinha tentado procurar a fazenda no Google, mas só encontrara uma página muito antiga, com fotos que não abriam e links quebrados. “Um site defunto é uma coisa bem triste”, pensou. A despeito de toda a esperança que certamente envolvera sua criação, o tempo passara e o site ia chegando, decrépito, cada vez mais perto do fundo do poço do Google. “Como o próprio chalé deve ser”, pensou Nina, amarga. Uma ideia executada até a metade e então abandonada ao sabor das intempéries. No entanto, não podia dormir na van.
– Olá! – chamou outra vez, e foi bater à porta.
Soube, no mesmo instante, que não havia ninguém ali. Suspirou e deu uma olhada pela janela da cozinha. Era um lugar arrumado, limpo e muito, muito vazio. Não havia quadros nas paredes, nem pilhas de correspondência ou louça suja. Aquele lugar era claramente a casa principal, mas parecia que estava para alugar, que nem o chalé. Do outro lado do pátio de pedras, passando pela galinha, via-se a garagem. Não havia nada parecido com um chalé em volta. Suspirou de novo e conferiu o endereço. Era ali mesmo.
Olhou ao redor. Não sabia nada sobre fazendas. Podia jurar que tinha visitado uma fazenda um dia, em uma excursão da escola, mas era só isso. Sabia que havia porteiras, que tinha estrume para todos os lados, que não era um lugar para levar seu cachorro e que havia cercas elétricas. Todas essas coisas sempre haviam conspirado para que Nina pensasse que fazendas eram, na verdade, lugares bem assustadores. Mas não sabia o que fazer para encontrar um lugar para morar. Não tinha dinheiro para ficar hospedada no pub mais tempo.
As montanhas que rodeavam a fazenda brilhavam ao sol, apesar de estar um pouco frio. Nina ficou feliz por ter trazido seu anoraque de inverno, embora, tecnicamente, ainda estivessem na primavera. Puxou-o para mais perto do corpo enquanto pensava no que fazer.
Meia hora depois, Nina estava bem acomodada no banco da van, ouvindo rádio e completamente arrebatada pela leitura de Fair Stood the Wind for France quando se assustou com uma batida enérgica na janela. Ergueu os olhos, desnorteada, como sempre fazia quando saía do torpor hipnotizante de um livro.
Do lado de fora estava um homem de aspecto meio rude, com uma boina sobre os cabelos castanhos ondulados. Não estava sorrindo. Nina abriu a janela.
– Hã… olá.
De repente, estava se sentindo bastante encabulada.
– Você não pode estacionar aqui! Aqui não é um camping – rosnou o homem.
Nina o encarou, surpresa.
– É, eu sei.
Ela abriu a porta da van e o homem se afastou com certa relutância. Quando saltou, percebeu que o sujeito era muito alto e estava com um bastão imenso na mão. Era bem intimidador, na verdade.
– E não estou esperando nenhuma entrega. Está perdida?
Nina já ia dizer que ele não fazia ideia de como aquela pergunta era profunda, considerando o momento que ela estava vivendo, mas achou melhor apenas erguer a cabeça e responder:
– Disseram que eu poderia vir dar uma olhada em um chalé para alugar. Achei que o senhor soubesse disso.
Fez-se um instante de silêncio. Então o homem levou a mão à testa.
– Ah – grunhiu. – É mesmo. Tinha esquecido.
Houve mais um momento de silêncio enquanto Nina esperava que ele se desculpasse, mas isso não aconteceu.
– As pessoas costumam tentar acampar aqui? – perguntou ela, chutando uma pedrinha.
– Aham. – Geralmente eu não me incomodo, desde que me peçam permissão. Bem… Na verdade, depende.
– Depende se o senhor vai com a cara da pessoa? – indagou Nina, tentando fazê-lo sorrir.
Mas o homem não respondeu, só deu um leve suspiro.
– E aí, vai querer ver o lugar?
– Hã, sim, por favor. – Ela estendeu a mão. – Sou Nina Redmond.
O homem a encarou e a cumprimentou com uma mão forte, grande e maltratada: mão de trabalhador. Nina notou, então, que ele era mais novo do que achara a princípio.
– Lennox – falou o homem.
– Que nem o boxeador? – perguntou Nina, sem pensar.
O homem fechou a cara ainda mais, se é que isso era possível.
– Pode ser – retorquiu Lennox, em um sotaque forte e melodioso, e Nina se arrependeu do comentário no mesmo instante. – Tá bom, então – acrescentou ele. – Vamos lá.
O homem atravessou o pátio da fazenda a passos largos, espantando as galinhas que tinham aparecido para vê-lo.
A uns 20 metros, havia uma casinha de pedra escondida no fim de uma estradinha de terra batida que Nina olhou com suspeita, mas depois concluiu que conseguiria passar com a van por ali.
– Tem certeza de que não vai ser um problema se eu estacionar a van aqui? – perguntou, tensa.
– E por que você tem essa van tão grande? – questionou Lennox. – Você é tão pequena.
– E qual é o problema de uma pessoa baixa ter uma van? – rebateu Nina, irritada. – Além do mais, eu tenho um tamanho normal. O senhor que é alto demais.
– Ora, pelo menos eu não preciso de uma escada pra subir no meu próprio carro.
– E eu não preciso prender um travesseiro na cabeça para não bater o cocuruto no batente da porta – retrucou ela.
Nina percebeu que retribuir uma grosseria na mesma moeda podia ser libertador. Não estava acostumada a ser tão atrevida.
– Hum – grunhiu ele. – Pode estacionar aqui, sim. Se conseguir manobrar aquilo.
– Espero que não esteja prestes a fazer um comentário machista – falou Nina.
– Não – respondeu Lennox. – Hã… Talvez. Hoje em dia fica difícil saber a diferença.
Nina olhou para o aclive enlameado ao lado da casa.
– Bom, tenho certeza de que não terei problemas – disse ela, tentando parecer minimamente confiante.
– Ajuda se deixar a van engrenada. O que você já sabia, é claro, já que é bastante competente em tudo – falou Lennox.
Nina se voltou para a casa. Parecia um celeiro.
– Está com a chave? – perguntou ela.
– Ah, sim. A chave – falou Lennox, distraído. – Não tinha nem pensado nisso. Não costumo trancar as coisas por aqui.
– Porque se decidir alugar, acho que vou precisar de uma chave, não é?
Lennox estreitou os olhos por causa do sol.
– Eu devo saber onde coloquei... está em algum lugar, com certeza.
A porta do celeiro era de madeira e pesada. O lugar todo tinha uma atmosfera proibitiva. De repente, Nina ficou com medo de que o chalé não tivesse sido reformado, que fosse apenas um velho celeiro cheio de feno, com claraboias abertas para o céu e um único jogo de talheres – um cenário que sempre parecia idílico quando acontecia em Heidi, mas que ela não queria conhecer na vida real. Respirou fundo quando Lennox abriu a porta e tateou o lado de dentro, procurando o interruptor. As luzes se acenderam, e ele disse:
– Ah, graças a Deus. Não lembrava se a gente tinha ligado a eletricidade ou não. Parece que ligamos, sim.
Nina entrou atrás dele no celeiro. O ambiente tinha um leve cheiro de mofo e umidade, como se ninguém nunca tivesse morado ali, e o ar era um pouquinho frio. Mas ela não notou. Nem um pouco.
Em vez disso, ao entrar no chalé seu olhar foi direto para a parede dos fundos. Alguém mandara instalar caríssimas janelas panorâmicas na parede oposta à entrada, que ficava de costas para o caminho por onde tinham vindo, de modo que não era possível ver a casa principal, a estrada nem as montanhas ao norte. Em vez disso, a vista do chalé era um cenário de comercial de margarina: quilômetros e quilômetros de colinas emolduradas por paredões de pedra; uma pradaria com flores silvestres, rebanhos de ovelhas e, lá embaixo, um rio longo e calmo atravessado por uma pequenina ponte convexa.
Os vidros duplos só deixavam ouvir alguns mugidos baixinhos do rebanho, enquanto uma galinha ciscava na pequena área gramada que se formara na frente.
– Ai, meu Deus! – exclamou Nina. – Que incrível! – Então se lembrou de que não podia pagar muito de aluguel. – Quer dizer, é bem... A reforma deve ter dado bastante trabalho – acrescentou, mais contida.
Avançou mais no antigo celeiro. As luzes não se faziam necessárias, o lugar ainda estava banhado pela luz do dia, e Nina sentia vontade de ficar parada pegando sol, como um gato, sem ter que enfrentar o vento cortante lá fora.
Não era um espaço grande. Havia um fogão a lenha em um dos lados do cômodo e junto à parede dos fundos ficava uma cozinha com equipamentos modernos e elegantes. Uma escadinha em espiral levava ao mezanino, que tinha uma cama de casal bem grande e um banheiro, ambos com janelas amplas que davam para as colinas. Uma das paredes originais de pedra tinha sido guarnecida com estantes para livros.
Era incrível. Nina nunca teria imaginado um santuário tão perfeito. Desejava morar ali mais do que desejara morar em qualquer outro lugar em toda a vida. Alguém tinha reformado e planejado aquele celeiro com bastante cuidado, mas, embora mal conhecesse Lennox, não imaginava que o homem fosse muito chegado a decoração de interiores.
– Hã – começou, cautelosa, enquanto descia a escada em espiral. – Você aluga muito aqui?
Lennox olhou ao redor como se não entrasse ali fazia um ano inteiro (o que era verdade).
– Ah, não. Não, eu... eu nunca aluguei. Não tenho tempo para essa bobagem. Não, foi a... – Ele ficou em silêncio por um segundo. – Bem, quem cuidava disso era a minha mulher. Ex-mulher, na verdade.
Só de dizer aquelas palavras, a dor ficou evidente em seu rosto, e Nina teve receio de fazer mais perguntas.
– Ah, sim – falou baixinho. – Entendi.
Lennox deu as costas ao lindo e pequeno espaço.
– Bem – disse ele, fazendo um gesto abrangente com o braço longo que quase derrubou um abajur numa mesinha lateral. – Enfim. É isso, se estiver interessada...
– Hum – falou Nina. – Quanto custa...
Lennox suspirou.
– Ah, caramba, sei lá – respondeu, e então deu um valor muito menor do que Nina esperava.
Ela mal conseguiu esconder a euforia, mas logo se sentiu culpada por estar conseguindo um preço muito abaixo do que o imóvel valia. O valor não cobriria nem mesmo um quarto em uma república de estudantes em Birmingham. Então deu uma boa olhada ao redor e percebeu que o sujeito devia ter umas quarenta mil ovelhas e tantas galinhas que nem se preocupava com o paradeiro dos animais, e parecia ter uma condição de vida bastante boa. O que ele compraria com o dinheiro, uma boina nova?
– Hum, me parece razoável – disse Nina, com cautela, lembrando-se de repente da última vez que procurara apartamento em Birmingham: uma infinidade de lugares horrorosos com infiltração nas paredes e que custavam uma fortuna, para dividir com pessoas bem esquisitas, até que enfim tivera a sorte de encontrar Surinder. – Sim, estou interessada – falou com mais veemência.
– Ok. – Lennox deu de ombros. – Vou te dar as chaves assim que achar.
– Vou precisar mesmo.
– E vou ligar a água e tudo o mais... – Ele fez um movimento vago com a mão. – E qualquer outra coisa que você precisar. Vai querer lençóis, coisa e tal? Temos uma tonelada de roupa de cama e banho. Kate... Ela ia reformar todas as construções da fazenda para ficarem parecidas com essa. Estava muito animada com isso. – Ele engoliu em seco. – Até que se apaixonou pelo decorador. E eu que achei que ele nem gostasse de mulher... Enfim.
Nina viu um belo quadro na parede. Era uma tela pesada, soturna e sombria, que destoava da delicadeza do restante do ambiente. Ficou olhando para ela.
– Sinto muito – falou Nina, curiosa com o quadro.
– É a vida – retorquiu Lennox. – Está mais do que na hora de superar. Pelo menos é o que acha a Marilyn Frears, do vilarejo. Ficou me atazanando pelo maldito telefone, falando que era hora de seguir em frente, encontrar alguém... – Então ele pareceu se lembrar. – Ah, sim, era de você que ela estava falando.
– Obrigada – agradeceu Nina. – Prometo que vou cuidar bem do lugar.
De repente, Lennox estreitou os olhos para o lado de fora e levou a mão à testa.
– Aquela ali não é a sua van descendo a rampa?
– O quê? – gritou Nina. – Não pode ser, deixei o freio de mão puxado. Com certeza! Certeza absoluta!
– Acho bom esse troço não atropelar nenhuma das minhas galinhas.
– Ai, meu CARRO!
Nina saiu gritando rampa abaixo, correndo o mais rápido que as galochas permitiam.
– Volta aqui, menina! – gritou Lennox, correndo atrás dela com as pernas compridas e alcançando-a com facilidade. – Sai de perto!
A van estava começando a ganhar velocidade e se encaminhava direto para uma vala. Sem nem titubear, Lennox se lançou para a cabine com agilidade – sorte que ela não tinha trancado a porta, pensou Nina –, saltou habilmente para dentro e puxou o freio de mão com tanta força que o cheiro de queimado se espalhou pelo pátio da fazenda. Um momento de silêncio, e uma galinha saltitou para o lado, saindo da frente da van. Nenhum dos dois disse nada.
Então Nina se adiantou.
– Acho que a minha van tem uma pulsão de morte – lamentou-se. – Está tentando se matar. Com ou sem mim. Talvez seja amaldiçoada.
Lennox desceu, de cenho franzido.
– Você é que tem que cuidar melhor dela. O que significa deixar o freio de mão sempre puxado.
Nina ficou muito vermelha.
– Desculpe – disse ela. – É que eu tive um acidente... um quase acidente... eu não conseguia soltar o freio de mão, e é por isso que não gosto de puxá-lo.
– Acho bom você superar essa aversão ao freio de mão – comentou Lennox. – Se quiser estacionar aqui, vai ter que estacionar direito.
– Está bem. Desculpe.
Lennox olhou de novo para dentro da van.
– O que tem aí atrás? Livros?
– Isso.
– Você tem uma van cheia de livros?
– Ainda não está cheia. Mas esse é o plano. Gosta de ler?
Lennox deu de ombros.
– Não vejo muito motivo para ler.
Nina ergueu a sobrancelha.
– É mesmo?
– Olha, eu assino a Farmers Weekly e leio toda semana. Eu sei ler – esclareceu ele, como se ela o estivesse acusando de ser analfabeto.
– Eu imaginei, é claro – respondeu Nina. – Mas nunca lê por prazer?
Lennox olhou outra vez para ela. Seus olhos, com rugas nos cantos, eram muito azuis e contrastavam com o rosto bronzeado. Sua expressão era triste. Nina achou que talvez o fato de mostrar a casa, reformada com tanto amor e carinho durante tempos mais felizes, houvesse lhe causado sofrimento. Ele não parecia do tipo que fazia coisas por prazer.
– Nunca consegui entender – retrucou Lennox, balançando a cabeça – por que eu ficaria lendo coisas sobre gente inventada quando já não dou a mínima para bilhões de pessoas que existem no mundo de verdade.
Nina passou o resto do dia fazendo a mudança, depois de acertar o aluguel do mês. Lennox pegara o envelope com brusquidão e depois voltara ao trabalho, desaparecendo ao longe, enquanto Nina se perguntava até onde se estenderiam as terras da fazenda.
Arrumou os poucos pertences em armários embutidos – agora que parava para pensar, eram armários bons demais para um simples chalé de férias. Nem em cem anos os Lennox poderiam recuperar o investimento no celeiro. Nina ficou se perguntando se a misteriosa Sra. Lennox só queria arranjar uma desculpa para voltar a chamar o decorador.
Tocou as cortinas pesadas e deixou o olhar vagar pelos belos campos, imaginando como seria a esposa do senhorio. Talvez ela tivesse passado um bom tempo desejando ir para a cidade, da mesma maneira que Nina olhara pela janela de seu quarto minúsculo em Edgbaston, observando a longa parede de casas geminadas do outro lado da rua, e começara a sonhar com campos abertos e ar fresco. Talvez ambas estivessem levando a vida errada até aquele momento. Que pensamento mais estranho. Examinou o chão claro de carvalho de alta qualidade, o teto do banheiro com ripas de madeira, a banheira com pezinhos e a cama imensa, e sorriu. Sim, ela e a Sra. Lennox de fato eram muito diferentes. Mas, pela primeira vez em muito tempo, Nina tinha recebido a sorte que merecia.